Blog do Josias de Souza

Candidatos dizem guardar R$ 269,7 mi em casa
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Josias de Souza

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Para acompanhar a rotina dos políticos, o brasileiro precisa suprimir dos seus hábitos o ponto de exclamação. No universo da política, o espantoso vai adquirindo uma doce, persuasiva, admirável naturalidade. Repare: 7,7% dos cerca de 25 mil candidatos às eleições de 2014 informaram à Justiça Eleitoral que guardam dinheiro vivo em casa. Juntos, mantêm longe do sistema bancário R$ 269,7 milhões.

A turma do colchão inclui 33 endinheirados que conservam ao alcance das mãos quantias superiores a R$ 1 milhão. A fortuna domiciliar desse grupo soma R$ 50,5 milhões. Os campeões da grana viva são dois candidatos à Câmara federal. Marinalvo Rosendo (PSB-PE) disse manter em casa R$ 3,8 milhões. Fernando Torres (PSD-BA) informou que tem “em mãos” R$ 3,2 milhões.

Entre os 11 presidenciáveis, três incluíram moeda sonante em suas declarações patrimonais. Eymael (PSDC) guarda em casa dinheiro de troco: R$ 1 mil. O nanico Levy Fidelix (PRTB) anotou R$ 140 mil. Dilma Rousseff (PT), R$ 152 mil. Por sorte, a plateia aboliu o ponto de exclamação de sua rotina. Do contrário, poderia supor que a presidente abre mão do rendimento da caderneta poupança porque estaria tramando um confisco à Collor.


CUT põe sua engrenagem para rodar por Dilma
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Josias de Souza

Com a presença de Lula, a CUT inaugura nesta segunda-feira sua Plenária Nacional. Reunirá até sexta-feira, em Guarulhos (SP), cerca de seis centenas de delegados de todo país. Marcará o ingresso da central na campanha pela reeleição de Dilma Rousseff.

O tema do encontro resume os objetivos do braço sindical do PT: “Organizar, Lutar e Avançar nas Conquistas”. O secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre, acrescentou: “Vivenciamos nos últimos 12 anos o melhor período para a classe trabalhadora, com crescimento do emprego, da participação popular, avanços sociais e isso veio da luta dos trabalhadores.”

Na contramão do desejo de mudança revelado pelas pesquisas eleitorais, Sérgio Nobre fala em continuidade: “Somente a continuidade do atual projeto com desenvolvimento sustentável, distribuição de renda e valorização do trabalho é que o país terá condições de pagar a dívida social com o povo brasileiro.”

Convidada a participar do encontro na quinta-feira (31), Dilma ainda não disse se comparecerá. O nome dela consta da programação. Mas a peça anota, entre parênteses: “a confirmar”. Nesse dia, a CUT aprovará uma “plataforma” da classe trabalhadora.

Neste domingo, tomou posse em São Bernardo a nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, berço político de Lula. As prioridades da entidade são: reeleger Dilma e apoiar Alexandre Padilha, o candidato do PT ao governo de São Paulo. “É uma questão fechada pelos sindicatos e pela CUT”, disse Rafael Marques, o novo presidente da casa sindical.


FHC: mal-estar do país eleva chances de Aécio
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Josias de Souza

Em entrevista ao repórter Sérgio Pardellas, Fernando Henrique Cardoso revelou que, “há dois anos, não acreditava na possibilidade de uma derrota eleitoral do governo.” Hoje, identifica dois fenômenos que favorecem a oposição, potencializando as chances de vitória do tucano Aécio Neves sobre Dilma Rousseff. “Existe um mal-estar no país”, disse. Há também “uma fadiga em relação ao governo.” A íntegra da conversa pode ser lida aqui. Vão abaixo os principais trechos:

— Mal-estar: Hoje existe um mal-estar no País. Isso favorece a oposição. Por isso, acho que temos grandes chances. Há também o cansaço de material. Fadiga. O Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, com 54% de apoio, é um dos poucos que contrariam essa tese. Há uma fadiga em relação ao governo. Bem, também existe a fadiga da classe média em relação ao PT. Sobretudo em São Paulo. É assustadora essa rejeição de 47% no Estado e 49% na cidade.

— Hora da oposição: Vou ser sincero: há dois anos eu não acreditava na possibilidade de uma derrota eleitoral do governo. Porque o governo é o governo, tem recursos enormes e tem a exposição permanente. Os meios de comunicação, sobretudo a televisão, vão para um lado só. A televisão brasileira é esporte, crime, um pouquinho de internacional e muito governo. […] Achava muito difícil que houvesse uma mudança. Hoje eu acho possível transformar esse mal-estar em algo que tenha consequência eleitoral.

— Efeito carestia: A população está interessada no bolso, e isso pesa muito hoje, porque a inflação para o povo é mais do que 7% – está em cerca de 10%. Hoje, o Bolsa Família é menor do que o bolso. A Bolsa não é suficiente para o bolso. Para as classes mais populares a vida está cara. Para a classe média também. Para o povo, inflação é carestia. Estamos vivendo de novo um problema de carestia. Nisso o candidato de oposição tem que ser claro. O governo atual levou a essa situação.

— Esgotamento do consumo: O Brasil de 2010 tinha tomado medidas contra a crise de 2008 que funcionaram. Era um Brasil que tinha alguma esperança. Basicamente, o governo tentou estimular o crescimento com mais consumo graças à maior oferta de crédito. Então, houve uma expansão grande do crédito, que animou o consumo. Mas levaram muito tempo para entender que, para reativar o investimento, precisavam ter capital público e privado. E parou. […] O fundamento posto lá atrás, qual seja, o crescimento via consumo e expansão do crédito, continua aí e não vem dando resultado.

— Ecos de junho: Houve certa desatenção, não muito grave, à pressão inflacionária. Mas o endividamento é muito grande. É uma sociedade que cresceu no consumo e que chamam de ‘novas classes médias’, embora, sociologicamente falando, não sejam uma nova classe média de fato. Mas isso também trouxe transformações. As pessoas consumiram mais e agora é natural que queiram mais. As explosões de junho do ano passado foram consequência do querer mais.

— Não é só o PIB: Existe uma corrida pelo crescimento do PIB. O governo está em busca disso. Mas a sociedade não quer só isso. As pessoas querem viver melhor. […] Queremos entrar no Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo não é um país que tem muito PIB. É um país em que se vive melhor. Em que se tem segurança, educação, respeito e dignidade. Portugal não tem PIB nenhum e é mais Primeiro Mundo do que o Brasil. Aqui falta educação, segurança, o transporte não funciona. Estourou no governo Dilma. O governo persistiu no estímulo ao consumo e não olhou para os outros lados.

— Manejo da política: O Lula sabia manejar o Congresso. Não da maneira correta, pois o mensalão ninguém pode apoiar. Mas ele sabia manejar. A Dilma não sabe manejar o Congresso. E a situação está aí.

— Congresso sepulcral: Os partidos existem no Congresso, não na vida da sociedade. A única exceção era o PT, que sempre teve organização partidária. A oposição se faz no Congresso, mas não repercute. O Congresso ficou muito confinado a ele próprio. Quando eu era senador, meus discursos eram publicados na íntegra nos jornais. Isso não acontece mais. Foi se perdendo o elo do Congresso com a sociedade. O mesmo aconteceu com outras instituições, com os sindicatos, com a UNE. Ela era importantíssima no passado. Hoje, qual é a importância?

— PT X PSDB: As diferenças, hoje, são lidas no espectro ideológico, direita e esquerda, mas não se dão nesse espectro. Na formulação é como se fosse ‘uns estão para cá, e outros estão para lá’. Na realidade não é assim. A diferença entre o PT e o PSDB é principalmente a concepção que se tem da política e do governo. O PT acredita que se muda o País ocupando o Estado e através do Estado tomando as decisões, controlando mais, sobretudo a economia. O PSDB acredita mais que é preciso não ocupar o Estado e ter uma relação maior com a sociedade. Isso é tênue, claro. Os dois têm um pouco de cada um. Mas a diferença essencial é essa. Na política monetária, por exemplo, o PT pode ter errado aqui ou ali, mas não mudaram o que vinha sendo feito. O juro não baixou como devia, é verdade. Mas isso é algo técnico. Ninguém está discutindo, na essência, a função do Banco Central.

— Origem da política de Bolsas: [Lula] acelerou porque ele pôde. Ele teve recursos para isso por causa do boom da China. Acabou a dívida externa na América Latina toda, não só aqui. A folga fiscal foi maior. Mas os princípios foram lançados antes. Progressivamente o Estado foi criando condições para melhorar. Condições estruturais e organizacionais, digamos. Não era possível criar as Bolsas sem internet. O Banco Mundial foi quem propôs primeiro. O PT era contra. Quem primeiro fez foi Honduras e quem melhor fez inicialmente foi o Chile. O cartão para criar o Bolsa Escola fui eu que fiz, copiando o exemplo de Goiás, com Marconi Perillo, para dar cidadania e entregando os recursos para a mulher. Foi decisão do meu governo. As Bolsas também estavam sendo unificadas no meu governo. Era uma questão técnica.

— Fisiologismo nas estatais: Sempre lutamos para tirar qualquer partido de dentro das empresas. A Petrobras, por exemplo. Nunca pensamos em privatização. É mentira. Nem se cogitou. Queríamos a competição e tirar a influência partidária. O mesmo com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Eu diminuí muito a presença de partidos aí. Com o Lula isso se inverteu. E a Dilma está sofrendo as consequências. Ela, quando colocou a Graça Foster, foi para diminuir a influência política. Mas estourou na mão dela. Hoje, o PMDB tem vice-presidente da Caixa, Banco do Brasil, no meu governo não tinha isso. Essa é a diferença.

— Dilma à moda Geisel: Entre a Dilma e o Lula existem outras diferenças. Para a Dilma, o Estado tem que ter um papel crucial no investimento e no controle. Ela é intervencionista. Tem uma visão mais general Geisel. É uma visão mais dos anos 60 e 70. Mas, em relação ao Lula, não houve uma mudança muito radical, como não haverá se o Aécio Neves ganhar. O Aécio não vai mexer na política do Bolsa Família. O que deverá fazer é aumentar o mercado de trabalho. Acompanhar a pessoa que é assistida até ter o emprego, como ocorreu no Chile. O ideal é que as pessoas não sejam dependentes. O Bolsa Família é uma solução de emergência, necessária, mas não para o futuro.

— Geopolítica do voto: […] O PSDB nunca tinha conseguido isso e estamos alcançando agora: uma harmonização grande entre São Paulo e Minas. No Rio, nunca tivemos uma grande força e agora o Aécio Neves tem sido hábil e conseguiu desorganizar lá a base do governo. Para vencer, precisamos consolidar o peso que temos por aqui [Sudeste] e reduzir a diferença no Norte-Nordeste. No Estado de São Paulo, o Aécio ganha no segundo turno e, na cidade, no primeiro turno. No Sul, a gente ganha. Na Bahia, estamos razoavelmente bem. Em Pernambuco, o Eduardo Campos, candidato do PSB, vai tirar votos da Dilma. No Ceará, fizemos acordo com Tasso Jereissati e Eunício Oliveira, do PMDB. E temos as prefeituras de Maceió, Teresina, Belém, Manaus, algo que nunca tivemos. Por isso, a chance de ganhar aumentou. Claro que o aumento da possibilidade de vitória do Aécio decorre de outros fatores que já elencamos, como o mal-estar no País, o cansaço, os erros de condução da política econômica e, mais recentemente, a quebra de confiança do empresariado no governo.

— Unidade tucana: O PSDB uniu todo. O Aécio foi lá e fez. Foi, de fato, um dos problemas graves das últimas eleições. Agora, o Aécio vai enfrentar uma situação mais difícil que a minha, se ele ganhar a eleição. Os problemas se acumularam, não foram resolvidos e o PT será duro como oposição.


Empreiteiro relata a ministro um achaque do PR
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Josias de Souza

Dias antes de ser deslocado por Dilma Rousseff do comando dos Transportes para a pasta dos Portos, no mês passado, o ministro César Borges recebeu em seu gabinete Djalma Diniz, dono da Pavotec Pavimentação e Terraplenagem, sediada em Minas Gerais. O empreiteiro informou ao ministro que estava sofrendo um “achaque” do Partido da República. A legenda exigia que ele repassasse a deputados parte da receita obtida em contratos firmados nos Transportes.

Em conversas gravadas, o repórter Rodrigo Rangel reconstituiu o episódio. Relatou-o em notícia veiculada na última edição de Veja. Ele conta que, no total, a Pavotec mantém com o Ministério dos Transportes negócios de cerca de R$ 2 bilhões. A pressão do PR referia-se a dois contratos celebrados no início do ano com a estatal ferroviária Valec —um de R$ 514 milhões. Outro de R$ 719 milhões.

De acordo com o relato do empreiteiro Djalma Diniz, quem o procurou para exigir o pagamento de propina foi o deputado federal baiano João Carlos Bacelar Filho. Em conversa com pessoas de sua confiança, César Borges contou o que ouviu: “O dono da Pavotec me procurou no ministério para dizer que o deputado João Bacelar está cobrando dele uma participação nos contratos com a Valec.”

João Bacelar se apresentava como emissário do PR. E o empreiteiro quis saber do ministro se o deputado estava mesmo autorizado a falar em nome da legenda. Filiado ao PR, o ministro disse que não. Djalma Diniz se recusou a realizar os pagamentos. E o deputado Bacelar passou a desqualificar o empreiteiro e a conspirar contra o ministro.

Em privado, João Bacelar dizia que a Pavotec obtivera contratos com a Valec graças à interferência do PR. E teria se comprometido a repassar à legenda parte de seus ganhos. Mencionava cifras: “Era coisa de 90 a 100 milhões de reais”. Nessa versão, ao recusar-se a realizar os pagamentos, o empreiteiro rompia um acordo. Segundo o repórter, Djalma Diniz realmente reuniu-se com parlamentares em Brasília. O deputado baiano era um de seus interlocutores.

Ouvido, João Bacelar desancou o dono da Pavotec: “Esse Djalma é um chantagista”. No dia seguinte, procurou o repórter para se reposicionar em cena: “Não posso dizer que o considero chantagista. Apenas o qualifiquei conforme ouvi em muitos boatos.” Por meio de um advogado, Bacelar ameaçou processar Veja caso a reportagem fosse publicada.

Procurado, Djalma Diniz demorou uma semana para se pronunciar. Tentou negar que tivesse procurado o ministro. Informado sobre os detalhes colecionados pelo repórter, recorreu à desconversa: “Eu ando muito esquecido. Estou até com medo de estar com Alzheimer.” Instado a explicar seus encontros com o deputado Bacelar, o empreiteiro soou assim: “Ele estava me propondo um negócio numa pedreira que ele tem numa fazenda na Bahia.”

Cesar Borges mandou dizer, por meio de assessores, que não comentaria o assunto. Em privado, deu a entender que informara o Palácio do Planalto sobre o ocorrido. Dilma também serviu-se de auxiliares para falar sobre o tema. Ela negou ter tomado conhecimento da encrenca. Mandou dizer que, se um ministro lhe relatasse algo parecido, mandaria encaminhar o caso à Polícia Federal, ao Ministério Público e aos órgãos de controle. Ainda está em tempo.

Hoje, César Borges é ministro-chefe da Secretaria de Portos. Foi desalojado dos Transportes por exigência do PR. Seguindo orientação do mensaleiro preso Valdemar Costa Neto, seu maior cacique, a tribo do PR condicionou o ingresso da legenda na coligação reeleitoral de Dilma à saída de Borges do ministério. Em troca de 1min15s de tempo de propaganda no rádio e na tevê, a presidente da República cedeu. Com isso, Dilma ressuscitou o grupo político que havia sido varrido dos Transportes na pseudofaxina de 2011.


Cartolagem invadiu a pequena área do Tesouro
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Josias de Souza

O grande legado da Copa é a comprovação de que o futebol brasileiro virou nostalgia. Só existe no replay esmaecido dos lances de um passado remoto. O vexame traz à vitrine as mazelas. E a perplexidade potencializa as ideias exóticas. A mais extravagante ganhou impulso numa reunião realizada no Palácio do Planalto nesta sexta-feira. Depois do 7 X 1, trama-se uma goleada contra o contribuinte.

Acompanhada dos ministros Guido Mantega (Fazenda) e Aldo Rebelo (Esporte), Dilma Rousseff conversou por cerca de duas horas com 14 dos principais cartolas do futebol nacional. Ao final, anunciou-se a criação de um grupo de trabalho com representantes do governo e dos clubes. Para quê?

Deseja-se colocar em pé um plano de socorro aos times de futebol, atolados em dívidas. Numa estimativa otimista, o espeto é de R$ 4 bilhões. Numa conta realista, passa dos R$ 5 bilhões. Um pedaço do problema refere-se a passivos trabalhistas. Mas o miolo do buraco é feito de sonegação de tributos e de contribuições à Previdência —dinheiro que deveria custear serviços públicos à torcida brasileira.

A encrenca vinha sendo tratada num projeto que tramita na Câmara sob denominação saneadora: Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Para apressar as coisas, Dilma não exclui a possibilidade de editar uma medida provisória. Por essa via, o refresco aos clubes seria servido imediatamente, antes mesmo da apreciação do Congresso. Por que tanta pressa?

Vale a pena ouvir o secretário Nacional de Futebol do Ministério do Esporte, Toninho Nascimento: “Nós temos que correr, tem clube que não chega ao final do ano se esse projeto não for aprovado.” Também presente à reunião do Planalto, o presidente do São Paulo Futebol Clube, Carlos Miguel Aidar, deu uma ideia do que está em jogo:

“Nós só queremos que nos sejam dados mecanismos para corrigir o passado daqueles que nos antecederam, que erraram na gestão, que endividaram os clubes, deixaram de pagar impostos, deixaram de pagar tributos, deixaram salários atrasados, geraram passivo trabalhista muito grande. O que nós teremos com a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal é a oportunidade de reequacionar tudo isso e começar daqui para frente um marco zero”.

Nesse contexto, o ritmo de toque de caixa ofende a inteligência da arquibancada. Não é assim que se fazem as coisas. Do mesmo modo que não se pode atribuir a humilhação da semifinal contra a Alemanha a um mero apagão de seis minutos, não se deve pedir ao contribuinte que aceite um arranjo tributário trançado no escurinho de um ano eleitoral, com um governo e um Congresso em fim de feira.

Tem “clube que não chega ao final do ano?” Pois que quebre! Os cartolas “erraram na gestão, endividaram os clubes, deixaram de pagar impostos?” Auditoria neles! Num jogo justo, o governo exigiria a abertura das escriturações, os times iluminariam suas arcas perdidas, a controvérsia seria exposta no círculo central do gramado e a galera formaria sua opinião. Fora disso, a alegada responsabilidade fiscal vira uma espécie de abracadabra para a caverna do Ali-Babá.

Embora sejam geridos por homens de bens, os clubes de futebol negligenciaram uma regra capital: abstiveram-se de dar lucro. Ou, por outra: deram lucro nos bolsos errados. A atmosfera de penúria potencializa a diáspora de jogadores, enfraquece o espetáculo e esvazia os estádios. 
Deus talvez seja brasileiro. Mas o diabo é europeu. E leva embora os craques ainda fedendo a cueiro.

Em 2005, sob Lula, já havia brotado nos gramados nacionais, ermos de talento, uma pseudosolução para a breca dos clubes: criou-se uma loteria nova, a Timemania. É parecida com a Mega Sena.
A diferença é que, além de números, o apostador assinala nas cartelas o emblema do seu time do coração.

As combinações vencedoras são definidas em sorteios geridos pela Caixa Econômica Federal. 
E parte da grana é usada para saldar as dívidas dos times com a União. Dizia-se que seria a redenção. Não foi. Hoje, a coleta propicia um abatimento anual de cerca de R$ 70 milhões na dívida tributária dos clubes. Que não para de crescer.

No início do ano passado, já sob Dilma, o governo esboçou uma medida provisória que previa o perdão de 90% do passivo dos times. Em troca, a cartolagem assumiria o compromisso de investir em projetos sociais de formação de novos jogadores. Nessa época, Toninho Nascimento, o secretário Nacional de Futebol do Ministério do Esporte, disse ao repórter Aiuri Rebello que time de futebol não pode ser tratado como um negócio convencional.

“Não podemos tratar os clubes de futebol, alguns com mais de 100 anos de idade, como empresas comuns. É uma oportunidade de os clubes modernizarem suas gestões, um impulso''.

O deputado Vicente Cândido (PT-SP) entusiasmou-se: “É uma mudança de paradigma, o governo brasileiro passa a agir diretamente no desenvolvimento de novos atletas e talentos.'' O ex-craque Romário (PSB-RJ), membro da Comissão de Turismo e Desporto da Câmara, também apoiou a ideia. Mas ponderou que o governo deveria exigir dos times o pagmento de pelo menos 30% das dívidas.

Ex-goleiro, o deputado Danrlei (PSD-RS) levou o pé atrás. Duvidou da eficácia da troca de dívida por projeto social. “É difícil de quantificar estes investimentos sociais”, disse, antes de descer ao ponto: “Alguns clubes já pagaram suas dívidas, não devem mais nada. Como vamos compensá-los? E quem vai fiscalizar estes projetos?''.

Hoje, os vocábulos “perdão” e “anistia” foram substituídos “refinanciamento” e “alongamento” das dívidas. Com remissão de multas, abatimento dos juros e prazos superiores a duas décadas, a perder de vista. Só não apareceu em campo uma alma capaz de recordar a célebre lição do juiz norte-americano Louis Brandeis (1856-1941): “A luz do Sol é o melhor dos desinfetantes.''

Num jogo em que o campo não é demarcado, a bola é quadrada e canelada conta ponto a favor, os clubes invadem a pequena área do Tesouro Nacional fazendo tabelinha com o governo, que deveria ser o supremo juiz. Convidado a narrar a cena, Silvio Luiz gritaria: “Olho no lance! Pelo amor dos meus filhinhos. O que é que eu vou dizer lá em casa?''