Blog do Josias de Souza

País vive revanche da batalha do impeachment
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Josias de Souza

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O governo se peparou para o pior. Achava que a greve geral e as manifestações contra as reformas teriam proporções extraordinárias. No início da tarde, Michel Temer e seus auxiliares concluíram que o monstro se revelou menos feio do que parecia. Para o Planalto, a greve não foi geral e os protestos foram pontuais. Temer disse que não vai recuar. Nem pode. A essa altura, se o governo sofrer uma derrota em votação de reforma como a da Previdência, o resto do mandato-tampão de Temer será um melancólico epílogo.

O que está acontecendo nesse instante no Brasil é uma revanche da batalha do impeachment. As forças políticas que caíram junto com Dilma Rousseff tentam dar o troco. O palco da guerra é o Congresso. A arma, o asfalto. Tenta-se engatilhar contra Temer a mesma insatisfação que derreteu o mandato de Dilma.

Tão impopular quanto Dilma, Temer dá de ombros para as ruas. Sua preocupação é evitar que os congressistas que traíram Dilma, hoje tão governistas quanto ontem, desliguem o seu governo da tomada, rejeitando suas reformas. O governo admite que ainda não dispõe de votos para aprovar a mexida na Previdência. Para obtê-los, lida com um bloco parlamentar que de longe se parece com um saco de gatos. Mas de perto parece mais um saco de ratos.


Todos prometem ‘Renascença’, mas os desempregados estão na ‘Idade Média’
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Josias de Souza

Nesta sexta-feira conturbada, o IBGE deu à luz um dado horripilante: a quantidade de desempregados no Brasil atingiu a constrangedora marca de 14,2 milhões de pessoas no trimestre fechado em março. É para esse público, maior do que toda a população de um país como Portugal, que reformadores e antirreformistas dizem dedicar suas energias.

Deve-se a ruína à gestão empregocida de Dilma Rosseff. Seu vice chamava-se Michel Temer. Tudo mudou na transiçao de uma para o outro, exceto o PMDB, que continua no seu habitat natural: a vizinhança dos cofres públicos. Defensores e opositores das reformas prometem a Renascença. Mas tudo o que o país conseguiu, por ora, foi enviar 14,2 milhões de patrícios para a Idade Média.

Socialistas e liberais defendem com a competência usual os seus pontos de vista. Se perguntarem a um brasileiro mais simples o que acha de tantos conceitos complexos, ouvirão o seguinte: “Tudo o que se diz é muito impressionante. Mas eu ainda prefiro um contracheque que me permita encher a geladeira.”


‘Não haverá recuo’, diz Temer sobre reformas
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Josias de Souza

Michel Temer disse a auxiliares nesta sexta-feira que não cogita abandonar sua agenda de reformas. “Não haverá recuo”, disse. Mantém o propósito de realizar o que chama de “governo refosmista”. Realça que outros países tiveram que lidar com protestos e incompreensões para realizar reformas. Sustenta que todos os que perseveraram estão economicamente mais sólidos. Repete que o esforço será recompensado com a volta da prosperidade econômica e dos empregos.

A despeito da disposição de Temer, o governo reconhece que ainda não dispõe dos 308 votos de que necessita para aprovar a emenda constitucional que reformula a Previdência. Nesse ponto, houve um ajuste na estratégia. O Planalto desistiu de marcar uma data para a votação. “Vamos votar quando tivermos certeza da vitória”, disse um ministro ao blog.

Depois de aprovar na Câmara a reforma da CLT, o condomínio governista cogitara travar a batalha da Previdência no dia 8 de maio. A data foi abandonada. Avalia-se que ministros e líderes de partidos precisarão de mais tempo para seduzir —na lábia e no fisiologismo— os deputados que ainda resistem em mexer no modelo previdenciário. Os insurgentes perderão benesses como cargos e verbas orçamentárias, ameaça o Planalto.

A flexibilização do calendário não tem relação com os protestos realizados nesta sexta-feira, alega o governo. Ao contrário, o Planalto surpreendeu-se com a dispersão dos opositores das reformas. O próprio governo havia se equipado para enfrentar um movimento mais vigoroso. A percepção de Temer e de seus auxiliares é a de que não houve uma “greve geral”, mas manifestações “dispersas e pontuais”.

“Isso não diminui o nosso desafio”, disse o ministro que conversou com o blog. “Sabemos que não será fácil aprovar a reforma da Previdência. Não era fácil ontem. Não será fácil amanhã. Mas trabalhamos com a convicção de que é o melhor a ser feito. Por isso, achamos que vamos conseguir os votos, mesmo que demore um pouco mais.. Pode ser no final de maio, no início de junho. O que importa é aprovar.”


Greve dificulta o esforço pró-reformas, reconhecem articuladores do governo
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Josias de Souza

Em avaliações feitas longe dos holofotes, alguns dos principais operadores políticos do governo admitem que a greve e as manifestações convocadas para esta sexta-feira dificultarão o esforço para aprovar as reformas no Congresso, principalmente a da Previdência. O grande receio, disse um ministro ao blog, está relacionado ao impacto que o movimento terá sobre ânimo dos congressistas.

Estima-se que o pedaço da coligação governista que já foge das prioridades da gestão Temer com medo de perder votos em 2018 ganhará pretextos adicionais para resistir aos apelos do presidente, retardando o cronograma de votações. Munido de dados colecionadas pelos serviços de inteligência, o governo trabalhava na noite passada com a perspectiva de que o barulho a ser produzido nesta sexta-feira não será negligenciável.

Suprema ironia: o governo atribui a amplitude da encrenca à capacidade de mobilização de uma engrenagem sindical que a reforma trabalhista submete a uma asfixia financeira. “Essa engrenagem roda com mais vigor dentro das corporações do Estado, que estão em pé de guerra contra a reforma previdenciária”, analisou um auxiliar de Temer.

As autoridades ouvidas pelo blog manifestaram uma impressão que parece ser disseminada no governo. Ecoaram uma avaliação da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) segundo a qual os rivais de Temer acertaram ao guindar a paralisação dos meios de transporte como sua prioridade. Se tiverem sucesso, envolverão no protesto até a minoria que apoia o presidente. Sem meios de locomoção essas pessoas não terão como comparecer ao trabalho.

Temer deve acompanhar a evolução dos protestos desde o seu gabinete no Planalto. Cogita reunir auxiliares para avaliar os efeitos da greve e das manifestações. Em público, o governo e seus porta-vozes tentarão minimizar o movimento desta sexta. Como de hábito, dirão que é parte da democracia. O governo reprovará frontalmente apenas eventuais surtos de violência.


Boletim sobre Eunício não traz um diagnóstico
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Josias de Souza

O Hospital Santa Lúcia, de Brasília, divulgou na noite desta quinta-feira um boletim sobre a saúde do presidente do Senado, Eunício Oliveira. O paciente deu entrada na UTI da instituição de madrugada. Passou o dia sob observação médica. Mas não há no texto nada parecido com um diagnóstico.

Eis o teor do boletim, redigido às 21h: “O Hospital Santa Lúcia informa que o paciente Eunício Lopes de Oliveira permanece internado em observação na unidade de tratamento intensivo (UTI). Apresenta-se em bom estado geral e com melhora gradativa do quadro clínico. Já caminha sozinho e encontra-se consciente e orientado. Há perspectiva de alta da UTI amanhã pela manhã.

Assinam a peça os doutores Cláudio Carneiro, neurologista; André Sales, diretor clínico; e Raul Sturari, diretor médico. Eunício foi hospitalizado depois de passar mal e desmaiar em casa. Ao longo do dia os médicos descartaram duas suspeitas: acidente vascular cerebral e encefalite viral. No boletim noturno, abstiveram-se de mencionar outras cogitações.


Adiamento!
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Josias de Souza

– Charge do Benett, via 'Gazeta do Povo'.


PSDB e PT chegam à antessala de 2018 zonzos
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Josias de Souza

A Lava Jato transformou os preparativos para 2018 numa espécie de batalha no escuro entre soldados desnorteados e comandantes embriagados. PT e PSDB, os partidos que monopolizam as disputas presidenciais há mais de duas décadas, estão zonzos. A situação penal de Lula se deteriora mais rapidamente do que a do rival Geraldo Alckmin, o único cardeal da enfermaria tucana que ainda se considera no páreo. Sem foro privilegiado, Lula arde na frigideira de Curitiba. Alckmin caiu no banho-maria do Superior Tribunal de Justiça, o foro dos governadores.

Petistas e tucanos entram na fase de pré-campanha em condições semelhantes. O mal do PSDB é que o partido tem um excesso de cabeças e carência de miolos. O PT padece da mesma carência, com a diferença de que tem uma cabeça só. As duas legendas revelam-se capazes de tudo, menos de admitir suas culpas, primeiro passo para um reinício honesto.

Lula, já bem passado no óleo do juiz Sergio Moro, está diante do risco real de se tornar um ficha-suja antes de virar candidato. Mas demora a autorizar a deflagração do Plano B chamado Fernando Haddad. Alckmin ergue o bico para negar as acusações que o assediam e finge não notar que o pupilo João Doria vai virando o Plano B do grupo de Aécio Neves. Não será fácil para o eleitor escolher um presidente entre os sobreviventes. Por sorte, os gatunos tornam-se menos pardos à medida que vai ficando claro que os partidos viraram meras filiais de organizações como e Odebrecht e OAS.


Pezão precisa de dinheiro ou de interrogatório?
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Josias de Souza

Às voltas com um descalabro no Complexo do Alemão —cinco cadáveres em seis dias—, o governador Luiz Fernando de Souza, o Pezão, desabafou para o microfone de uma emissora de rádio. Declarou que precisa urgentemente de um $ocorro de Brasília. Sob pena de não conseguir lidar com uma crise de segurança pública que ameaça converter o Rio numa espécie de Síria com vista para o Atlântico. O brasileiro de outros Estados ouve o apelo e interroga os seus botões: afinal, Pezão precisa de mais dinheiro público ou de interrogatório?

As finanças do Rio derreteram num caldeirão de inepcia e roubalheira. O passado do Estado encontra-se atrás das grades. E Pezão tenta transferir para a União a responsabilidade pelo futuro. Nesta quinta-feira, o chefe da quadrilha que assaltou as arcas fluminenses, Sérgio Cabral, foi interrogado pelo xará Sergio Moro. E Pezão, que foi vice-governador do preso, está na bica de arrancar uma moratória de três anos na dívida estadual com o Tesouro Nacional.

Se tudo correr como planejado, a União deixará de arrecadar algo como R$ 27 bilhões entre 2017 e 2019. Insatisfeito com tudo o que pode obter, Pezão quer um pouco mais. Justo, muito justo, justíssimo.

O problema é que, no final de janeiro, quando deflagrou a Operação Eficiência, que esquadrinhou a remessa de US$ 100 milhões roubados pela quadrilha de Cabral, o juiz Marcelo Bretas, o Sergio Moro do Rio, fez menção em seu despacho a algo que chamou de “custo-corrupção”. Anotou que o assalto ao erário foi uma das causas da ruína fiscal do Rio.

Bretas comparou a corrupção aos crimes violentos que inquietam a sociedade. Para o juiz, o assalto aos cofres públicos é mais grave, porque atinge “um número infinitamente maior de pessoas”. Ele anotou: “Basta considerar que os recursos públicos que são desviados por práticas corruptas deixam de ser utilizados em serviços públicos essenciais, como saúde e segurança públicas.”

Como Pezão bem sabe, não há dinheiro grátis. O que o afilhado político de Sérgio Cabral pede é que parte da conta que financiou os confortos do seu padrinho e as joias de sua mulher Adriana Anselmo seja espetada no bolso do contribuinte de outros Estados. O brasileiro ama o Rio. Mas não suporta a ideia de ser feito de idiota. Repita-se a pergunta: Pezão merece mais verbas ou interrogatório?


Eunício assistia à TV quando desmaiou em casa
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Josias de Souza

Internado na UTI do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, passou mal antes de desmaiar, na madrugada desta quinta-feira. Foi amparado pela mulher, Mônica Paes de Andrade Oliveira, que relatou o susto a amigos que estiveram no hospital. O casal estava defronte da televisão.

Exames preliminares descartaram a ocorrência de Acidente Vascular Cerebral. Segundo o relato de Mônica, os médicos suspeitam de encefalite viral. É uma infecção do sistema nervoso central que provoca a inflamação do cérebro. Mas o diagnóstico ainda não foi confirmado.

Antes de passar mal, Eunício exalava satisfação com o resultado da sessão noturna que acabara de presidir. Os senadores haviam aprovado duas propostas de grande repercussão: o projeto sobre abuso de autoridade e a emenda constitucional que acaba com o foro privilegiado para congressistas e autoridades.

O senador irritou-se com uma reportagem do Jornal Nacional. No trecho que o abespinhou, a notícia informava: “…o Senado, que tem 28 parlamentares respondendo a inquéritos da Lava Jato no Supremo, deu 75 votos a favor do fim do foro privilegiado. Foi unanimidade, só o presidente Eunício Oliveira não votou…”

Pelo regimento interno do Senado, o presidente é proibido de votar, exceto quando há empate. Eunício achou que ficou parecendo que ele era contra o fim do foro. Algo que, na sua opinião, não fazia jus ao papel que desempenhara. Ele dizia ter articulado a aprovação da emenda em negociações que vararam a madrugada na noite anterior.

Depois de telefonar à emissora para se queixar, Eunício rendeu-se ao futebol. Assistiu à partida Atlético-PR 2 X 0 Flamengo, válida pela Taça Libertadores. Chegou a cochilar durante o jogo. De repente, sentiu-se mal. Segundo Mônica, ele estava pálido. Suava muito antes de perder os sentidos. Foi levado às pressas pelo filho à Clínica Daher, mais próxima de sua casa. Depois, removeram-no para a UTI do Hospital Santa Lúcia, onde se encontra.

– Atualização feita às 14h16 desta quinta-feira (27): Os médicos descartaram a hipótese de Eunício estar com encefalite viral.