Blog do Josias de Souza

Medo da urna faz Dilma governar com a barriga
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Josias de Souza

Marlene Bergamo/Folha

Considerem-se, de saída, as seis máximas que passaram a reger a atuação de Dilma Rousseff e do seu governo:

 Só em 2015 será possível decidir se os preços represados dos combustíveis, da energia elétrica e das tarifas de ônibus subirão gradualmente ou de uma única tacada, içando a inflação de 2015 à casa dos 7%.

 Só depois das eleições vai-se poder conversar a sério sobre o esforço fiscal extraordinário que o governo terá de fazer para, em combinação com a política monetária, domar uma inflação que deve estourar o teto da meta, de 6,5%, entre julho e novembro de 2014.

 Só quando as urnas informarem o nome do próximo presidente o país poderá saber o que Brasília pretende fazer para superar o vexame de um crescimento econômico estimado para 2014 em algo entre o ridículo (1,5%) e o constrangedor (2%). Antes disso, não há clima para reconhecer que a tática escorada no consumo, por esgotada, precisa ser substituída por um modelo que combine mais investimentos com elevação dos índices de produtividade.

 Só depois de fechar as contas de 2014 será possível saber que mágicas o governo pretende encenar para evitar mudanças na Previdência e na fórmula de reajuste do salário mínimo, que expira no ano que vem. Há eloquentes indícios de que será inevitável fixar uma idade mínima para a aposentadoria, reduzir os gastos com as pensões por morte e redesenhar as regras do seguro-desemprego. Há sólidas suspeitas de que a correção do mínimo pela variação da inflação mais o PIB de dos dois anos anteriores terá de ser trocada por uma fórmula baseada no PIB per capita ou no salário médio. Mas não convém apertar o nariz do eleitor antes da hora.

 Só depois de mastigar o peru da ceia natalina e de assistir à queima de fogos do Ano Novo, o brasileiro estará preparado para receber a notícia de que foi à breca a tática de selecionar as empresas “campeãs nacionais” dignas de receber os financiamentos companheiros que levaram o BNDES a pendurar no Tesouro um espeto de R$ 400 bilhões. Até lá, convém desconversar sobre a transparência de cristal Cica que fulminou a credibilidade da escrituração das contas públicas.

 Só se o Planalto mantiver uma Esplanada amazônica de 39 ministérios e tolerar alguma incidência de gatunagem em pastas como a do Trabalho e em estatais como a Petrobras o governo conseguirá manter a estabilidade de sua base de apoio congressual, preservando a governabilidade.

As máximas esmiuçadas acima possuem dois elementos em comum. Primeiro: são tão amplamente difundidas que parecem verdadeiras. Segundo: são falsas. As seis máximas estão subordinadas a uma máxima-mãe, definidora do ponto a que o Brasil chegou neste ocaso do primeiro reinado da supergerente. Essa máxima maior, que engloba todas as outras, é a máxima do ‘deixa-como-está-para-não-estragar-a-reeleição-e-depois-a-gente-vê-como-é-que-fica”.

Dilma Rousseff talvez não tenha se dado conta. Mas sua popularidade cai na proporção direta do crescimento da percepção coletiva de que seu governo empurra para 2015 problemas que deveriam ser enfrentados imediatamente. Não é preciso ser um gênio para notar que a protelação produz anomalias como o estímulo ao consumo de energia num período de inédita escassez de água.

Qualquer dona de casa obrigada a percorrer as gôndola de supermercado ou as barraquinhas de feira percebe que a celebração mensal de taxas de inflação que teimam em permanecer nos arredores de 6% é o caminho mais longo entre o centro da meta (4,5%) e sua realização.

Uma criança de cinco anos é capaz de notar que fenômenos como a permanência do PDT num Ministério do Trabalho crivado de desvios tem a ver com o tempo de propaganda televisiva da candidata à reeleição, não com o apoio a inexistentes iniciativas do governo no Congresso.

Um bebê de colo percebe que a manutenção de apadrinhados de legendas como o PT e o PMDB na Petrobras é algo cuja subsistência se tornou absurda depois que um ex-diretor foi preso e a sede da estatal foi varejada por agentes federais munidos de mandado judicial.

Um feto consegue farejar o estelionato eleitoral que vem embutido na tática de governar com a barriga, jogando as coisas para baixo de um imenso tapete metafórico, na base do “só quando”, do “só depois”… Ou a candidata exerce na sua plenitude o que lhe resta de Presidência ou se arrisca a receber no dia da eleição a visita da autocrítica. Que lhe dirá: “Olá, minha querida gerenta. Vim apresentar você a você mesma.”


As manchetes deste domingo
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Josias de Souza

- Folha: Dívida com a União cresce mais em cidades da Copa

- Globo: Brasil planeja financiar superporto no Uruguai

- Correio: Ética – Corruptos na cadeia: ideal ainda distante

- Zero Hora: Itamaraty – Tão discreto, que quase desapareceu dos debates

- Veja: As faces do mal

- Época: Exclusivo – Novas provas de corrupção na Petrobras

- IstoÉ: O avanço da acupuntura

- IstoÉ Dinheiro: Investidores de Cingapura descobrem o Brasil

- CartaCapital: A doce vida do corruptor

Leia os destaques de capa de alguns jornais e revistas do país.


PSDB, PSB e PT são cúmplices de motim da PM
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Josias de Souza

Chamar de greve o que a Polícia Militar realiza na Bahia é uma licenciosidade poética. No despacho em que decretou a prisão de Marco Prisco Caldas Machado (no vídeo), líder do movimento, o juiz Antonio Oswaldo Scarpa, da 17ª Vara Federal de Salvador, anotou: “A Constituição Federal veda expressamente a greve de policiais militares. E não poderia ser diferente, pois a hierarquia e a disciplina são as bases que sustentam as organizações militares. Quando ocorrem fissuras nesses pilares, o que se vê é a desordem, o caos”.

Portanto, o que sucede na Bahia é uma afronta à lei e à ordem, praticada por uma tropa amotinada à margem da Constituição. Marco Prisco, o líder preso, é vereador pelo PSDB de Aécio Neves. Substituiu-o no papel de piromaníaco de tropa o Capitão Tadeu, deputado estadual pelo PSB de Eduardo Campos. A PM baiana promovera fuzarca semelhante em 2012. A tropa reincide no descalabro porque foi premiada com uma lei de anistia aprovada em votação simbólica no Congresso e sancionada por Dilma Rousseff, do PT, em 2 de agosto de 2013.

Quer dizer: por omissão ou por ação os partidos dos três principais candidatos à Presidência da República são cúmplices do caos baiano. O motim de 2012 durou 12 dias. Nesse período, foram assassinadas 130 pessoas no Estado. A encrenca atual se arrasta há quatro dias. Só em Salvador, desceram à cova, por ora, 52 cadáveres.

Deveria ser suficiente para que Aécio e Campos desautorizassem seus correligionários de quartel. Quanto a Dilma, como não pode cuspir na anistia que sancionou, talvez devesse considerar a hipótese de pronunciar alguma coisa parecida com um pedido de desculpas. Um beliscão nas orelhas do governador petista Jaques Wagner também não seria má ideia.

Deve-se ao Ministério Público Federal o pedido que resultou no envio de Marco Prisco à penitenciária brasiliense da Papuda (enfim, um tucano dividindo o mesmo teto com o petista José Dirceu!). A petição da Procuradoria foi à mesa do juiz na última segunda-feira (14). O doutor mandou encarcerar Prisco no dia seguinte, horas antes da assembleia que aprovou o motim. Só neste sábado (18) a Polícia Federal foi a campo para executar a ordem.

O masgitrado Antonio Scarpa fixou a cana do amotinado Prisco em 90 dias. Considerou-o uma ameaça. Recordou que Prisco responde na sua jurisdição por “crimes contra a segurança nacional e a paz social.” Coisas do motim de 2012. Munido de um “relatório de inteligência” da Secretaria de Segurança da Bahia, o juiz concluiu que 2014 poderia repetir 2012.

O doutor fez questão de recordar o que se passou dois anos atrás: “…invasão e ocupação de quartéis e do prédio da Assembléia Legislativa da Bahia, depredação e incêndio de veículos, interdição de rodovias federais que passam pelo Estado, bem como de ruas e avenidas da capital. Motoristas de ônibus foram obrigados por encapuzados armados, supostamente policiais, a atravessarem os veículos em avenidas para obstruir o tráfego, o que causou pânico e imensos congestionamentos.”

Mais: “em razão da paralisação dos serviços policiais, houve arrastões, saques, depredações e considerável incremento de homicídios. [...] Foi necessária a mobilização das Forças Armadas e Força de Segurança Nacional para garantir a paz pública e prevenir maiores atentados ao regime democrático.” Sobre o tucano Prisco, o juiz foi específico: “foi flagrado em escutas telefônicas incentivando condutas criminosas.”

Tudo muito parecido com o que ocorre agora. Nada muito diferente do que ocorrera noutro motim mais antigo, ocorrido em 2001. A única diferença é que, naquela época, governava a Bahia César Borges, então filiado ao PFL. Integrava o grupo político de Antonio Carlos Magalhães. Enfrentava oposição renhida do PT. Inclusive do então deputado federal Jaques Wagner.

Nessa época, Lula era candidato a sucessor do tucano Fernando Henrique Cardoso. Em campanha na cidade gaúcha de Santa Maria, foi instado a comentar a greve dos policiais baianos. Responsabilizou o governador Cesar Borges pela desordem: “Acho que, no caso da Bahia, o próprio governo articulou os chamados arrastões para criar pânico na sociedade. O que o governo tentou vender? A impressão que passava era de que, se não houvesse policial na rua, todo o baiano era bandido. Não é verdade.”

Lula foi além: “Os arrastões na Bahia me lembraram os que ocorreram no Rio em 92, quando a Benedita [da Silva] foi para o segundo turno [nas eleições para a prefeitura]. Você percebeu que na época terminaram as eleições e, com isso, acabaram os arrastões? Faz nove anos e nunca mais se falou isso.”

Disse mais: ”A Polícia Militar pode fazer greve. Minha tese é de que todas as categorias de trabalhadores que são consideradas atividades essenciais só podem ser proibidas de fazer greve se tiverem também salário essencial.”

Traçou uma analogia entre o Brasil e a Suécia: “Se considero a atividade essencial, mas pago salário micho, esse cidadão tem direito a fazer greve. Na Suécia, até o Exército pode fazer greve fora da época de guerra.”

Cesar Borges, o governador da época, respondeu assim: “Além de falar muita besteira, Lula demonstra que está completamente desinformado. Foram deputados petistas que insuflaram a greve e, depois, quando perceberam que o movimento estava fora de controle, procuraram o governo para abrir um canal de negociação.”

Hoje, César Borges é filiado ao PR e comanda o Ministério dos Transportes de Dilma. E Lula assiste à autoridade do amigo Jaques Wagner sendo pisoteada por grevistas ilegais que reclamam de contracheques que ainda não são essenciais.

Num país em que os partidos políticos entregam a legenda a qualquer um, a presidente da República anistia maluco e governador rasga a Constituição para negociar com policiais à margem da lei, a prisão do tucano Prisco é um sopro na direção da restauração do Estado. Não há reivindicação, por mais justa que seja, que justifique a subversão da ordem democrática. Lugar de PM amotinado é mesmo na cadeia. Resta verificar se o xadrez de Prisco não vai virar mais uma capitulação.


Campos: ‘Dilma sinaliza que fugirá dos debates’
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Josias de Souza

Zanone Fraissat/Folha

O presidenciável do PSB, Eduardo Campos, acha que Dilma Rousseff emite sinais de que fugirá dos debates que estão sendo organizados por emissoras de tevê e portais de internet. Farejou o desejo de fuga nos relatos que recebeu dos assessores que o representam nas reuniões preparatórias. “Considero lamentável que a presidenta Dilma sinalize que fugirá dos debates”, disse ele, em entrevista ao blog.

Nas palavras de Campos, Dilma e seus operadores se equipam apostando “na construção de uma campanha completamente conservadora e reacionária”. Avalia que, além de esquivar-se do confronto de ideias, disseminam a “descrença em relação à participação da sociedade” e recorrem ao “terrorismo político” contra os que defendem mudanças.

“Quando você precisa correr do debate, apostar no desânimo do povo e disseminar o medo é porque alguma coisa está errada”, declarou. “O que eles não estão considerando é o seguinte: uma aparente desmotivação pode virar uma grande mobilização. O liame entre o desânimo absoluto e a mobilização é tênue. Basta uma fagulha”, acrescentou noutro trecho da conversa.

Após formalizar a chapa que terá Marina Silva como candidata a vice-presidente, Eduardo Campos mudou-se para São Paulo. Instalou-se num flat no bairro paulistano de Moema, onde passa o feriadão da Páscoa com a família. Despachará provisoriamente na sede do PSB estadual. Procura uma casa ou um conjunto de salas para montar o seu quartel general em junho, depois da convenção que formalizará sua candidatura.

Vai abaixo a íntegra da entrevista. Nela, Campos fala da agressividade de Dilma —“precisa se habituar à ideia de que tem pessoas que não concordam com ela”—, avalia o desempenho da supergerente —“não há dúvida de que fracassou”—, faz promessas —“vamos blindar a Petrobras contra ações fisiológicas”—, diz o que planeja fazer com os políticos tradicionais que apoiam qualquer governo —“vou mandá-los para a oposição”— e explica porque prefere não se aliar ao tucano Geraldo Alckmin no primeiro turno —“precisamos ter a nossa identidade em São Paulo, a nossa cara.” Leia:

— No lançamento de sua chapa com Marina Silva, o senhor disse que, sempre que o povo se animou, obteve avanços. Na última pesquisa do Ibope, somando-se os indecisos aos que dizem votar nulo ou em branco, chega-se a 37% do eleitorado. Não lhe parece que há muita gente desencantada com a política? Nossa primeira tarefa é chamar a sociedade para participar do debate. De fato, a gente só conseguiu fazer mudanças importantes no Brasil quando o povo se aproximou da política. Foi assim para fazer a transição democrática, as eleições diretas, o impeachment —que permitiu alcançarmos as condições políticas para a estabilidade econômica —, foi assim também para garantir a vitória do Lula em 2002. Eu me pergunto: a quem interessa tirar a sociedade da participação política? Só interessa aos conservadores, a quem quer manter privilégios. Venho dizendo desde as manifestações do ano passado que a nossa grande tarefa é fazer o debate, que não foi feito em 2010, sobre as novas circunstâncias históricas em que estamos inseridos. Queremos fazer esse debate.

— No Planalto e no PT, celebra-se o fato de que a taxa de intenção de votos da presidente cai, mas seus antagonistas, o senhor e Aécio Neves, não sobem. Imagina-se que, nesse cenário, a reeleição não estaria ameaçada. Nesse cenário, acha que Dilma Rousseff participará de debates durante a campanha? Infelizmente, o que a gente percebe é que a presidenta Dilma e as pessoas mais próximas dela têm procurado dar sinais, nas reuniões com os veículos de comunicação, de que ela não vai querer participar de debates. Acho terrível que pessoas com a origem política que a presidenta tem possam apostar na construção de uma campanha completamente conservadora e reacionária.

— Por que reacionária? Considero lamentável que a presidenta Dilma sinalize que fugirá dos debates. Falo à vontade sobre isso, porque disputei a reeleição para governador. Tinha mais de 70 pontos nas pesquisas. E participei de todos os debates, com candidatos que tinham um ponto, dois pontos, três pontos nas pesquisas. Então, falo de algo que já pratiquei, não da boca pra fora. Não fugi do debate. Eu já vinha sentindo que eles fugiriam do debate. É a partir do debate que se constroem os consensos importantes para o país, independentemente do candidato A, B ou C. Além disso, não se pode apostar no desânimo.

— Como assim? É terrível verificar que tem gente apostando no desânimo, na descrença em relação à política e à participação da sociedade. Isso vai contra tudo o que nós pregamos a vida inteira. E não é só isso. Estão lançando mão de algo que sempre foi usado por nossos adversários, que é o terrorismo político do medo eleitoral, do medo da mudança.

— Isso está acontecendo? Fico verdadeiramente chocado quando vejo gente que acha que ainda é progressista fazendo o discurso que foi feito pela reação contra a gente. Um discurso que historicamente foi usado contra todas as lutas e os governos progressistas. Isso foi usado duramente contra Lula, por exemplo. Quando você precisa correr do debate, apostar no desânimo do povo e disseminar o medo é porque alguma coisa está errada.

— Acha que já está claro que Dilma não participará dos debates? Basta ouvir os assessores que têm participado das reuniões de organização dos debates. Ouça os nossos assessores e os de Aécio. Verá que, nessas reuniões, os representantes da presidenta Dilma deixam nas entrelinhas, às vezes na linha mesmo, a indicação de que não vão participar. O que eles não estão considerando é o seguinte: uma aparente desmotivação pode virar uma grande grande mobilização. O liame entre o desânimo absoluto e a mobilização é tênue. Basta uma fagulha.

— Acha mesmo que a oposição conseguirá acender essa fagulha? Minha impressão é de que ela já está foi acendida nas rua. Vivemos um tempo que, pela lógica, é o tempo da presidenta Dilma. Era para ela estar crescendo nas pesquisas. Os outros estão ausentes da mídia e ela está 100% presente. Tem a possibilidade de fazer mobilizações Brasil afora, inaugurações, isso e aquilo. A oposição não tem espaço pra se colocar. Num momento como esse, em que tudo favorece a presidenta Dilma, ela cai nas pesquisas. Imagine como será quando começar o tempo mais duro para ela.

— Como será esse tempo duro? Daqui a pouco a populaçãoo vai se dar conta de que vai ter eleição para presidente. E vai checar as promessas dela. As pessoas vão querer saber se o governo dela melhorou a vida da família, se melhorou as condições da cidade. Todo mundo vai ficando mais exigente. É natural. O tempo da cobrança sobre o governante chega mais forte na época da eleição. Quando o governo tem falhas, elas aparecem mais durante a campanha. E as falhas do atual governo são evidentes. As pesquisas variam conforme a metodologia, mas trazem três dados coincidentes: 1) caem a avaliação do governo e também a avaliação dela; 2) há uma variação bem pequena entre o percentual dela no primeiro e no segundo turno; e 3) o desejo de mudança.

— Que avaliação faz desses dados? Para a presidenta Dilma, esse é um tripé muito duro de ser enfrentado. As pessoas a qualquer hora vão procurar uma alternativa. Tem 70% de eleitores que não querem a continuidade. Quando você quer um alimento diferente, às vezes o que você procura não está visível na gôndola do supermercado. Você vai ao gerente diz: ‘meu amigo, aqui só tem carne? Você não teria um peixe? Não quero comer dobradinha nem feijoada, quero uma coisa mais leve’. Essas variáveis têm que ser consideradas. As pessoas vão procurar alternativas. E vão achar, não tenha dúvida.

— Na hipótese de Dilma fugir dos debates, ela perde mais do que ganha? Creio que, até o dia da eleição, ela vai perder em qualquer circunstância. Mas, sem dúvida, ela perderá mais com a ausência. Por um lado, isso vai passar uma impressão de arrogância, de desconsideração com o eleitor. Por outro, ficará patente que ela não tem o que dizer. Qualquer justificativa que for criada vai levar as pessoas em casa a se perguntarem: porque ela não foi? Acha que já está eleita? Por que esse salto alto, essa arrogância? Ninguém gosta disso. E também fica mal para ela a sensação de que não tem o que dizer. Ou não tem preparo para enfrentar o debate. A ausência é sempre muito ruim.

— O modelo político favorece a fisiologia. Quem está no poder e pode conceder benesses forma coligações de dimensões amazônicas. Dilma deve ter entre 12 e 13 minutos de propaganda na tevê e no rádio, o senhor terá algo como dois minutos. O Aécio, pouco mais de 4 minutos. Como fazer para levar a mensagem ao eleitor com uma vitrine tão pequena? É mais difícil, mas não é impossível. Fiz uma eleição majoritária com pouquíssimo tempo de televisão, cerca de três minutos. Tem que ter mobilização. Hoje as mídias sociais são um diferencial em relação às eleições de 2006 e 2010. Elas têm agora uma expressão maior do que tinham. O Brasil tem hoje 100 milhões de pessoas com smartphones. E temos de contar com a cobertura da própria mídia tradicional, que deve começar tão logo as convenções aconteçam, porque aí já existirão candidatos formais. Você passa a ter espaço na televisão aberta, no rádio. Além disso, é preciso andar muito, mobilizar a militância e participar dos debates.

— Ao discurar no ato que formalizou sua chapa com Marina Silva, o senhor mencionou a Petrobras. Disse que não vai permitir que a estatal se transforme em caso de polícia. No mesmo dia, em Pernambuco, sua terra, a presidente Dilma dizia que não vai permitir que ninguém destrua a Petrobras. Acha que essa será uma campanha encarniçada? Eu não vou entrar nessa. Vou fazer uma campanha limpa, respeitosa com a presidenta e com Aécio. Farei minha campanha com ideias. Mas também não vou me intimidar. Farei o debate com franqueza. O que eu achar que está errado direi que está errado. Ela precisa entender que o debate é democrático. Precisa se habituar à ideia de que tem pessoas que não concordam com ela. Tem hora que a intolerância e a arrogância não resolvem nada. É preciso ter tranquilidade.

— Portanto, continuará falando de Petrobras. Disso e de muito mais. Tenho enorme respeito pela Petrobras. Cresci vendo meu avô [Miguel Arraes] dizer que participou da campanha ‘o petróleo é nosso’. Tenho muito respeito pela empresa e sei que a gente precisa de uma Petrobras forte, que possa ajudar na retomada do desenvolvimento brasileiro. Então, ninguém vai conseguir dizer agora que fizemos alguma coisa contra a Petrobras. Estamos prontos para defender a Petrobras.

— O que significa defender a Petrobras? Significa separar as coisas boas que existem na Petrobras das coisas ruins que colocaram lá. Defender a Petrobras é garantir uma direção profissionalizada, sem nenhum tipo de ingerência partidária e ideológica. É preciso respeitar o planejamento da empresa.

— Isso inclui respeito ao planejamento tarifário? Claro. É preciso ter uma política para o preço dos combustíveis. Algo que não fique ao sabor da inflação do mês seguinte, mas que garanta à maior estatal brasileira condições para que ela ajude o Brasil. O problema é que o Brasil não está ajudando a Petrobras que, por consequência, também não ajuda o Brasil.

— Se entendi direito, o senhor acha que há dois tipos de problema na Petrobras, um econômico e outro ético-moral. É isso? Tem uma questão de conjuntura econômica que, sozinha, jamais justificaria o que está acontecendo na Petrobras. E tem a constatação óbvia de que uma empresa como a Petrobras não pode continuar sendo palco de arranjos fisiológicos e partidários. Como sou candidato à Presidência e acho que vou ganhar a eleição, quero assumir publicamente um compromisso com o país: a Petrobras não terá interferência política do meu partido ou de qualquer partido. Vamos profissionalizar a direção da Petrobras, blindando a empresa contra ações fisiológicas. Vamos garantir o planejamento estratégico da empresa e, sobretudo, dar a ela condições de realizar seus projetos. Devo dizer que tenho respeito pela Graça Foster. Tenho ela como uma pessoa séria. Mas não é uma pessoa sozinha que vai resolver o problema.

— Esse seu compromisso de blindagem vale para todas as estatais? Sem dúvida nenhuma. Vale para todas. Alguém tem que botar a cara nessa eleição para dizer algo definitivo: meus amigos, nós vamos mudar esse jeito de fazer as coisas. Não é desrespeito à política. Não posso falar contra a política. Já nasci numa família de perseguidos políticos, sentindo os efeitos da política. Tenho muito respeito pela atividade política. E é isso o que me anima a dizer que chegou a hora de compreender que há um novo paco político na sociedade. É preciso elevar o padrão político do país. Essa é uma tarefa de todos.

— O diagnóstico da doença é bom. Como chegar à cura? Eu citei no discurso que fiz nesta semana o exemplo de Teotônio Vilela. Ele era eleito por uma base latifundiária, conservadora, atrasada. Esse cara virou um arauto da redemocratização no Brasil. Tornou-se o porta-voz do que havia de mais avançado em termos políticos no Brasil. Ele chegou a segurar a onda do Lula preso, no ABC Paulista. Quando disseram que a anistia iria excluir Prestes, Brizola e Arraes, ele foi a voz que discursou a favor da anistia ampla, geral e irrestrita. Isso depois que ele e as forças que representava haviam figurado numa articulação que ia matar meu avô em 1963. Tem uma hora que a pessoa precisa olhar em volta e dizer: isso aqui não dá mais para mim. Nós chegamos nessa hora.

— Nesse mesmo discurso em que o senhor citou Teotônio Vilela, disse que, se eleito, mandará para a oposição esses partidos que ficam de plantão para apoiar qualquer governo. Entendi que falava de legendas como o PMDB. Se for eleito, fará isso mesmo? Ah, é isso mesmo. Vou mandá-los para a oposição. Do contrário não faz nada, amigo. Se não fizermos isso, a energia da sociedade não servirá para ajudar nas mudanças que são necessárias. O trabalhador sai de casa, pega um trem, leva duas horas e meia para ir até o trabalho, mais duas horas e meia para voltar, rala o mês inteiro, fica devendo ao agiota… Chega em casa, liga a televisão e vê que a política está sendo conduzida pelas mesmas pessoas que estão aí há mais de 30 anos. Se você estiver do lado dessa gente, como é que as pessoas vão acreditar que algo de novo vai acontecer nesse país? O povo tem toda razão quando desconfia.

— Esses políticos que gravitam ao redor do Estado há mais 30 anos, como o senhor diz, podem atrapalhar um bocado. Como governar com eles na oposição? Essas bases de apoio gigantescas são uma ficção. Quando não querem, não votam. Isso é tudo uma ficção. É hora de trazer o conteúdo e chamar a sociedade para participar. A internet está aí, as redes sociais. Confio também que vai haver uma mudança no perfil do Congresso que será eleito.

— Como governador de Pernambuco, o senhor praticou a política tradicional, governou com uma grande coligação partidária. Antes de sua aliança com Marina Silva, buscava o apoio de partidos que integram a coligação de Dilma. Ao falar em ‘nova política’, está fazendo uma autocrítica? Nós fizemos um governo completamente inovador em Pernambuco. Em 2010, disputei com Jarbas Vasconcelos e Sérgio Xavier. Tive 83% dos votos e chamei o Sérgio Xavier para comandar a área do Meio Ambiente. Ele fez uma campanha mostrando insuficiência do nosso governo nessa área. E eu o chamei para o governo. Fizemos um entendimento em cima de 14 pontos.

— Sérgio Xavier é da Rede? Sim, ele hoje está na Rede. Era fundador do PV. Não me apoiou em 2006. E disputou a eleição contra mim em 2010. Fez a campanha falando dos desafios ambientais que tinham que ser mais bem cuidados. E eu o chamei para o governo.

— E quanto à sua grande base de apoio? Tivemos uma base ampla porque nosso apoio popular é amplo, não porque a gente foi cooptar os partidos. São duas coisas diferentes. Uma coisa é um governo ter pouco mais de 30% de apoio, como no caso do governo da Dilma, e ter 90% do Parlamento. Outra coisa é o governo ter 90% na rua e ter 70% do Parlamento, como é o nosso caso em Pernambuco. São caminhos distintos. Tive um amplo apoio político-partidário porque construí um amplo apoio junto à população, não o contrário. Eu comecei a minha primeira campanha com 4%, em cima de um caixotinho, na Praça do Diário de Pernambuco.

— E sobre a reorientação política do seu projeto a partir da chegada de Marina Silva, como se deu? Nós tínhamos um cenário em que teríamos a nossa candidatura, a de Marina e a de Aécio. Na hora em que a candidatura de Marina foi inviabilizada pela decisão do TSE, que negou o registro à Rede, ela veio para o nosso lado. Nós agora temos que representar um conjunto mais amplo. E nesse conjunto, temos que expressar os valores que estão sendo reclamados pela nossa base. Por isso estamos elaborando um programa. Temos histórias construídas no mesmo campo político, mas somos diferentes. Então, nossa aliança tem um programa. Que será cumprido. Logicamente, esse programa tem que estar sustentado numa aliança política que o traduza adequadamente. As pessoas que olham para nós precisam enxergar um eixo que dê consistência ao nosso projeto. Não queremos ganhar por ganhar. Estamos em busca de disputar uma eleição e ganhar para fazer um governo inovador. Algo que dê conta desse novo ciclo político que a sociedade reclama.

— O senhor tem defendido a tese segundo a qual o país precisa de um líder, não de um gerente. Acha que a fórmula da supergerente, associada a Dilma em 2010, fracassou? Não há dúvida de que fracassou. As pessoas percebem que, nesses últimos três anos, as coisas pararam de acontecer e o Brasil perdeu o rumo estratégico. Em muitos aspectos as coisas pioraram. Há um testemunho generalizado de quem trabalha próximo ao serviço público de que o padrão de eficiência piorou. Isso acontece na relação com prefeitos, governadores e prestadores de serviço. Governar um Estado ou um país não é coisa para gerente. Um governo pressupõe o trabalho de vários gerentes, sob a coordenação de um líder —tudo girando em torno de um projeto. Não pode ser só um gerente. Muito menos um gerente que não ouve ninguém e faz o que lhe dá na telha. Essa visão é ultrapassada.

— Hoje, o senhor diz que não se fez na campanha de 2010 um debate sério sobre o país. Nas suas palavras, ‘a anulação do debate político descambou para temas religiosos’. No entanto, o PSB poderia ter lançado Ciro Gomes naquela eleição e, a pedido de Lula, optou por integrar a coligação pró-Dilma. Foi um erro? Na verdade, eu e Ciro defendemos durante todo o ano de 2009 a tese de que deveríamos ter mais de um candidato, porque [José] Serra estava muito acima nas pesquisas, mais de 40%. Estava mais alto do que a Dilma está agora. Por isso defendíamos duas candidaturas. E o Lula fazia o apelo reiterado para que não lançássemos candidato. Definimos que avaliaríamos até março de 2010. E fomos até março. Nessa fase, ela já tinha crescido e Serra começava a cair. O crescimento dela se deu sobretudo engolindo o Ciro. Aí, muitos Estados tinham seus interesses nas composições de chapas. Isso se contrapunha à posição de Ciro ser candidato. Os Estados começaram a balançar. E o Ciro tinha delegado ao Lula, talvez por delicadeza política, a atribuição de coordenar o processo. Chegou uma hora que nós fomos para o voto. Em 24 Estados, o partido decidiu a favor do apoio a Dilma já no primeiro turno. Na Executiva, foram na mesma linha todos os votos, exceto dois. Então, se à época foi um erro, esse erro foi coletivo. Mas mesmo com uma candidatura só o debate sobre o país deveria ter acontecido durante a campanha. E esse debate não houve.

— O senhor já se mudou para São Paulo? Já estou em São Paulo.

— Mudou-se para um flat? Isso, estou em Moema.

— Sua estrutura de campanha já está montada em São Paulo? Já estamos com uma pequena estrutura na sede do PSB. Mas só a partir de junho, depois da convenção, teremos uma casa ou um conjunto de salas maior onde dê para montar um estúdio. Estamos vendo tudo isso.   

— Podemos concluir que o senhor atribui a São Paulo uma importância estratégica. São Paulo sempre teve esse relevo. E vai continuar a ter. A diferença é que dessa vez não há nenhum candidato paulista disputando as eleições. Esse dado da realidade precisa ser considerado.

— Nesse contexto, o senhor já está convencido de que o melhor para o seu projeto é não fazer uma aliança com o governador tucano Geraldo Alckmin ou essa questão ainda está em aberto? Estamos discutindo a questão de São Paulo já há algum tempo. Essa será uma eleição em dois turnos em São Paulo, todos sabem. E eu acho que nós precisamos ter a nossa identidade em São Paulo, a nossa cara. Nossa campanha aqui precisa falar as mesmas coisas que vamos falar nacionalmente. Acho importante que a gente tenha essa identidade própria. Mas se a gente puder somar outros partidos, será melhor. Por isso temos que ter a paciência habitual para conversar, como estamos conversando. Há outros partidos que podem se somar, tanto na aliança nacional como na aliança aqui em São Paulo.

— Acha mesmo que irá atrair novos parceiros? Ao que se sabe, o último partido que havia disponível, o PV, optou por uma candidatura presidencial própria, não? Eu sempre tenho esperança. O PV tem identidade programática com o nosso conjunto. Eles estão na tese da candidatura própria, mas continuamos dialogando. Tem muito chão pela frente até a data das convenções.


As manchetes deste sábado
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Josias de Souza

- Folha: China toma mercados do Brasil na Argentina

- Globo: Sem manutenção, Rio-Petrópolis vira rodovia da morte

- Correio: Nunca tantas crianças no país pediram socorro

- Zero Hora: Segurança pública – Mais de 3,4 mil perícias estão atrasadas no RS

Leia os destaques de capa de alguns jornais do país.


Em Alagoas, policiais torturam e filmam a cena
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Josias de Souza

O vídeo acima exibe dois minutos e cinco segundos de desrespeito à dignidade de um ser humano. Policiais Civis e militares agridem um jovem por causa de uma tatuagem. Ele trazia um palhaço desenhado nas costas. Apanhou no rosto. Durante a sessão de tapas, o torturado foi obrigado pelos torturadores a repetir expressões autoofensivas. O jovem chora e pede perdão. Os policiais riem.

A identidade da vítima é desconhecida. A certa altura, chamou um dos agressores pelo apelido: “Maninho”. Foi repreendido com mais um tapa. Pediu desculpas. “Ô doutor, por favor, pelo amor de Deus. Vou apagar essa tatuagem”, disse noutro trecho.

Seguindo ordens de um dos policiais, o jovem se dirige a um apresentador da TV Alagoas: Sikêra Júnior, do programa ‘Plantão de Polícia’. “Sikêra, eu tô arrependido desta tatuagem. Vou pedir perdão na TV Alagoas. Isso é coisa de Zé Ruela”, ele diz, recitando as palavras ditadas pelo agressor.

As imagens circularam em aparelhos de celular, por meio do WhatsApp. Não se sabe quando e em que local a sessão de tortura ocorreu. A Corregedoria da Secretaria de Defesa Social de Alagoas informou que investigará o caso. A cena, por inqualificável, é muito fácil de qualificar. Trata-se de uma cena bem brasileira.