Blog do Josias de Souza

Você está prestes a viver um momento mágico
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Josias de Souza

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Num instante em que é crescente a aversão à política, aos políticos e aos partidos uma eleição se torna ainda mais relevante. É como se as crises exigissem do eleitor uma atitude. Um gesto individual e consciente. Mesmo numa eleição municipal, as crises não admitem que o eleitor se mantenha exilado no conforto da sua omissão política. Para político inconsciente, o eleitor impaciente é um santo remédio.

O primeiro passo para que o eleitor cumpra o seu papel é o abandonar a retórica de que político ''é tudo igual.'' É verdade que, em meio a tanta roubalheira, todos os gatunos parecem pardos. Mas a igualdade absoluta é uma impossibilidade genética. E o papel do eleitor é distinguir as diferenças. É complicado, exige alguma reflexão. Mas nesse processo, o pior que se pode fazer é não tentar.

Você está prestes a experimentar um momento mágico. No domingo, quando estiver diante da urna, ponha um ar solene na cara. Não tenha pressa. Pense que você é o dono desse momento. Aproveite. Você tem o poder. Você é o protagonista. Antes de apertar as teclas da urna eletrônica, certifique-se de que não esqueceu a consciência em casa. Converse com ela. Depois, vote. Há sempre a alternativa de lavar as mãos. Mas amanhã, quando olhar no espelho, não reclame da vida quando perceber que a crise é você.


Eximir-se de culpa não absolve governo Temer
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Josias de Souza

Dilma Rousseff deixou para Michel Temer tudo o que tinha: um Estado quebrado, inflação alta, recessão recorde e desemprego a pino. Nesta sexta-feira, num evento público, Temer tomou distância da herança. Fez isso, segundo explicou, para que daqui a dois ou três meses não o acusem de ser o responsável pelo “passivo”. É sempre bom deixar as coisas mais claras. Entretando, chover no molhado não resolverá o estrago provocado pela tempestade.

Por trás do legado maldito “estão homens e mulheres que pagam um preço inaceitável”, discursou Temer. “Chegamos a quase 12 milhões de desempregados. E reitero que não foi culpa minha.” Beleza. O problema é que, se Deus tiver que aparecer para os desempregados, não se atreverá a surgir em outra forma que não seja a de um contracheque no final do mês. Um presidente que não seja capaz de apresentar mais soluções do que lamentações se parecerá sempre com um culpado.

É longa a lista de problema, disse Temer, antes de pintar o quadro com tintas fortes: ''A crise que enfrentamos é a mais grave da nossa história. Não quero assustá-los, mas motivá-dos para que juntos possamos sair dessa crise. A causa é basicamente interna e fiscal. O Estado endividou-se muito além de sua capacidade, e gerou recessão e desemprego.''

No ano passado, quando a Câmara se preparava para abrir o processo de impeachment contra Dilma, o Datafolha informou que 60% dos brasileiros desejavam o impedimento da então presidente petista e também do seu vice. Depois que a deposição foi confirmada pelo Senado, Temer não teve os cem dias de tolerância a que todo novo governo tem direito, segundo uma lei não escrita mas geralmente respeitada na política.

A deferência da trégua foi negada a Temer por duas azões: 1) seu governo não é novo. Além de ser sócio do fiasco petista, o PMDB manteve no primeiro escalão o mesmo centrão partidário que vendeu sua fidelidade a Lula e Dilma nos últimos 13 anos; 2) a herança de Dilma não caiu no colo de Temer por acaso. Cúmplice do petismo na degradação ética, o PMDB lutou por ela.

Assim, Temer chegou ao Planalto sem votos, como solução constitucional para o descalabro. Tem diante de si um caos à espera de um gerente. Ou mostra serviço ou logo será tão culpado quando sua antecessora.


João Doria prevalece no último debate por WO
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Josias de Souza

O neotucano João Doria prevaleceu por WO no último round da briga que definirá os candidatos que disputarão a poltrona de prefeito de São Paulo no segundo turno. Seus principais contendores preferiram não confrontá-lo no debate da TV Globo. Fernando Haddad, que teve uma leve recuperação nas sondagens eleitorais, e Marta Suplicy, que amargou um declínio, engalfinharam-se pela primazia de retirar do segundo turno Celso Russomano, que executou uma coreografia defensiva, contra-atacando.

Como no caso do sapo de Guimarães Rosa, Haddad, Marta e Russomano não pularam uns sobre os outros por boniteza, mas por precisão. Tinham um olho no debate e outro num par de indicadores:

1) de acordo com o Datafolha, 34% do eleitorado paulistano chega à reta final da disputa flertando com a ideia de trocar de candidato. Essa turma pode acionar o gatilho do voto últil —aquele que leva o eleitor a trair o candidato de sua predileção apenas pelo interesse de empurrar para dentro do segundo turno um nome que reúna mais chances de evitar o triunfo de um candidato visto como mau maior.

2) segundo o Ibope, 39% dos eleitores da capital paulista informam, já na beirada das urnas, que desejam votar em branco ou anular o voto. Escondem-se atrás desse índice os eleitores que, de saco cheio com a política, se desplugaram da tomada. O desafio dos candidatos é encontrar uma fagulha capaz e energizá-los.

Num cenário assim, tão volátil, é difícil antever, por ora, quem disputará o segundo turno com Doria. Seja quem for, terá de rebolar para desbancá-lo. Auxiliado pela turma do marketing, o afilhado de Geraldo Alckmin parece ter construído o discurso ideal para o Brasil da Lava Jato.

Doria vende-se aos eleitores como um empresário, um não-político, um gestor moderno. A bordo de uma coligação partidária que trocou tempo de propaganda eletrônica por posições na máquna estatal paulista, Doria se esforça para não parecer o que é, porque em política o outro pode não ser o que parece, ou pior: ser e parecer.


Milícias fazem do Rio faroeste sem John Wayne
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Josias de Souza

Existe o Rio de Janeiro e existe o “Rio de Janeiro”. Existe a cidade, existe o Estado e existe tudo o que está implícito quando se diz “Rio de Janeiro.” Sem aspas, o Rio é o cartão postal do Brasil. Seus habitantes desbravam novas fronteiras sem sair da praia. Com aspas, o Rio é uma espécie de filme de faroeste sem um John Wayne, alguém para carregar a virtude no coldre de xerife e distribuir rajadas de civilização sempre que necessário.

Ainda ontem, o Rio encantava o mundo cedendo sua exuberância natural para servir de pano de fundo para as Olimpíadas. Hoje, o “Rio” constrange o país com a ousadia de milicianos que fazem da violência o pretexto para sua existência. Noutros tempos, o atraso localizava-se nos fundões de Estados como Alagoas. Agora, a capital carioca e pedaços da Baixa Fluminense viraram uma Alagoas hipertrofiada. Ali, instalou-se uma miliciocracia.

As milícias cobram pedágio para autorizar candidaturas. Quem não paga morre. Desde dezembro, foram passados nas armas 14 candidatos. Ou o Estado brasileiro prova que é capaz de adicionar mocinhos como protagonistas desse enredo ou a exuberância do Rio sem aspas será desmascarada. E a violência do “Rio” com aspas perderá todos os seus disfarces.


Temer já cogita não propor reforma trabalhista
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Josias de Souza

O plano do governo de formular uma proposta de reforma da legislação trabalhista subiu no telhado. Em privado, Michel Temer já ensaia um discurso sobre a inconveniência política de abrir uma terceira frente de desgaste, além das duas trincheiras legislativas em que sua administração já está metida: a emenda constitucional que congela os gastos federais por 20 anos, em tramitação na Câmara, e a reforma das aposentadorias, a ser enviada para o Congresso depois das eleições municipais.

Na semana passada, o ministro Ronaldo Nogueira (Trabalho) afirmara que a reforma trabalhista seria remetida ao Congresso apenas no segundo semestre de 2017. Atribuiu o adiamento à necessidade do governo de desatar primeiro os seus nós fiscais. ''De que adianta a modernização da legislação se a economia não voltar aos eixos? É uma questão lógica: primeiro as primeiras coisas'', disse ele.

O novo discurso que o Planalto começa a esboçar não renega a necessidade de modernizar as relações entre patrões e empregados. Mas sustenta que o governo talvez não precise colocar suas digitais numa proposta. Alega-se que já tramitam no Congresso projetos que tratam dessa matéria.

Ouvido pelo blog na noite passada, um auxiliar do presidente declarou que o martelo não está batido. Mas sinalizou o que está por vir: “A gente vai tem que fazer escolhas. Não dá para encaminhar quinhentas propostas para o Congresso.” O Planalto se equipa para aprovar a emenda do teto dos gastos até dezembro. E a mexida na Previdência em 2017.


‘Impeachment foi tropeço’, declara Lewandowski
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Josias de Souza

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Ao encerrar nesta quarta-feira uma aula na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, na USP, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, disse aos alunos o que pensa sobre a deposição de Dilma Rousseff: “…A cada 25, 30 anos no Brasil nós temos um tropeço na nossa democracia. Lamentável! Quem sabe vocês, jovens, consigam mudar o rumo da história.” As declarações foram veiculadas em notícia da revista ‘Caros Amigos’.

Por dever constitucional, Lewandowski, que era chefe do Judiciário, comandou no Senado o “tropeço”. Na conversa com seus alunos atribuiu o “lamentável” episódio a um “erro” do Supremo, que derrubou a chamada “cláusula de barreira”, abrindo a porteira para a proliferação de partidos políticos. “Deu no que deu”, lamentou o professor. “Nesse impeachment que todos assistiram…”

Lewandowski também deplorou o fato de Brasil não cultivar o hábito de consultar a população sobre grandes temas por meio de plebiscitos e referendos. Aproveitou para espinafrar uma iniciativa do governo de Michel Temer. “Reforma do ensino médio por medida provisória? São alguns iluminados que se fecharam no gabinete e resolveram: ‘vamos tirar educação física, artes’. Poxa vida! O Estado de Direito é aquele que amplia direitos.”

Com suas declarações, o professor Lewandowski acabou antecipando um juízo de valor que será convidado a emitir como magistrado. O PSOL protocolou no Supremo uma ação em que questiona a constitucionalidade da reforma do ensino médio. Um dos tópicos contra os quais a legenda se insurge é justamente a suposta retirada das disciplinas de artes e educação física do currículo obrigatório. Algo que, Segundo o Ministério da Educação, não ocorreu.