Blog do Josias de Souza

Blog sai em férias para dirimir grandes dúvidas
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Josias de Souza

O signatário do blog está naquela perigosa idade entre os 30 e os 90. É um período em que a dúvida provoca nas pessoas as insônias mais cruéis. Nessa fase, quando alguém tenta te fazer de idiota, é porque encontrou matéria-prima. Para evitar vexames, o repórter decidiu sair em férias. Nos próximos dias, vai dedicar 100% do seu tempo à procura de respostas para as cinco grandes dúvidas nacionais:

1. O que é pior, um saco de gatos ou um saco de ratos?

2. O que é melhor, o desespero ou a esperança?

3. Até quando o dinheiro do Orçamento sairá pelo ladrão?

4. Até quando os ladrões entrarão no Orçamento?

5. País fica maluco?

De posse das respostas, o repórter retornará ao trabalho no final do mês, a tempo de acompanhar a instalação do Congresso Nacional —uma instituição renovada, meio mercado persa, meio bordel, meio delegacia de polícia.


PMDB se julga preterido por Dilma e arma troco
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Josias de Souza

A coligação partidária é a melhor forma de PMDB e PT descobrirem que coligação partidária não dá certo. Julgando-se maltratado no primeiro mandato, o PMDB renovou a parceria com Dilma Rousseff depois que a presidente assegurou ao seu vice, Michel Temer, que tudo seria diferente no segundo quadriênio. De fato, muita coisa mudou. Na opinião do PMDB, para pior.

Para a caciquia do PMDB, há um excesso de PT ao lado de Dilma. A crítica se refere aos conselheiros que a presidente escolheu para integrar o que o Planalto chama de coordenação de governo. São seis ministros, todos petistas: Aloizio Mercadante (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Comunicações), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) Pepe Vargas (Relações Institucionais), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Jaques Wagner (Defesa).

Avalia-se que a composição do grupo deixou ainda mais explícito o que já estava na cara: Dilma escanteia o PMDB e faz de Temer um vice cada vez mais versa. Alguns dos “excluídos” tramam responder com tocaias no Congresso. Eis o que irá ocorrer, nas palavras de um coronel da infantaria peemedebista: “Se a Dilma faz tanta questão de soltar elefantes na casa de louças, o PMDB vai mostrar que sabe fazer elefantes voarem.”


Terrorismo transforma conceito de emergência
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Josias de Souza

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A maior tragédia provocada pelo terrorismo contemporâneo é o aviltamento do conceito de emergência. O perigo momentâneo, que exigia cuidados esporádicos, tornou-se permanente. O terror pode explodir em qualquer lugar —numa maratona em Boston ou numa redação de Paris —, a qualquer hora, por qualquer motivo.

A França deu uma resposta grandiosa à penúltima erupção do fenômeno: foram às ruas das principais cidades francesas 3,7 milhões de pessoas. Uma evidência de que há disposição para enfrentar a maluquice fundamentalista. A questão é: como responder à ditadura da imprevisibilidade sem aviltar direitos individuais?

Em 18 de fevereiro, a Casa Branca sediará uma cúpula global de segurança. Vão à mesa planos para combater o “extremismo violento no mundo''. A sensação de vulnerabilidade e a psicose com o que ainda pode acontecer são bons pretextos para responder ao extremismo com mais extremismo.

O terrorista, como se sabe, é um mocinho escalado por seus autocritérios para matar o tumor e se casar com o câncer. A reação a esse tipo de maluco exige um grau inédito de sensatez. De saída, é preciso entender que o radical islâmico não se confunde com o islã. De resto, é preciso olhar ao redor. Hoje, o terrorista tem cidadania americana ou europeia. Segregar é fácil. Difícil mesmo é integrar.


Marta esboça o retrato do PT em decomposição
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Josias de Souza

Pegou mal. Não foi ninguém da imprensa golpista nem da oposição retrógrada. Foi Marta Suplicy quem disse cobras e lagartos de Dilma, do governo e do PT. Foi Marta quem, numa entrevista à repórter Eliane Cantanhêde, desancou companheiros como Aloizio ‘Inimigo’ Mercadante e Rui ‘Traidor’ Falcão. Foi Marta quem declarou ter participado de conversas nas quais o próprio Lula, “extremamente incomodado” com Dilma, a “decepava”. Foi Marta quem sentenciou: “Ou o PT muda ou acaba”.

Ninguém deseja fazer intriga, mas Marta chegou ao ponto de elogiar a nova equipe econômica liderada pelo tucano ortodoxo Joaquim Levy: “É experiente, qualificada”. Noutros tempos, o PT chamava pra briga. Sobretudo porque Marta condicionou o sucesso do governo na economia à disposição de Dilma de não confundir Levy com Guido Mantega: “Se não respeitar, vai ser desastroso.”

Pessimista, Marta acha que Dilma não conseguirá enxergar no espelho as culpas da antecessora: “Agora, é preciso ter humildade e a forma de reconhecer os erros a esta altura é deixar a equipe [econômica] trabalhar. Mas ela não reconheceu na campanha, não reconheceu no discurso de posse. Como que ela pode fazer agora?” Mais um pouco e a companheira adere ao coro do “estelionato eleitoral”.

Para o PT, só há dois tipos de seres humanos: o petista e o idiota. Vem daí a convicção do petismo de que todas as críticas ao governo e ao partido são suspeitas. Mesmo as opiniões negativas de aparência mais sensata têm essa falha de origem: são de idiotas. De repente, surge um terceiro tipo de ser humano: Marta Suplicy —uma quase ex-petista transitando da militância dogmática, movida à base de fé e revelações divinas, para a idiotia plena, que convive com a dúvida e a crítica.

Marta já não consegue percorrer o noticiário sem fazer cara de nojo: “Cada vez que abro um jornal, mais fico estarrecida com os desmandos. É esse o partido que ajudei a criar?”. Ela reconhece que, no ano passado, fez muita força para que Lula fosse o candidato do PT à Presidência. Acha que ele chegou a flertar com a ideia. Só não brigou com Dilma, por achar que ambos perderiam com a discórdia.

Perguntou-se a Marta se Lula pode ajudar Dilma caso o governo volte a tropeçar na economia. E ela: “Você não está entendendo. O Lula está fora, está totalmente fora.” Acrescentou: “O Mercadante é inimigo, o Rui traiu o partido e o projeto do PT, e o partido se acovardou ao recusar um debate sobre quem era melhor para o país, mesmo sabendo das limitações da Dilma. Já no primeiro dia, vimos um ministério cujo critério foi a exclusão de todos que eram próximos do Lula. O Gilberto Carvalho é o mais óbvio.”

E quanto a 2018? “Mercadante mente quando diz que Lula será o candidato. Ele é candidatíssimo e está operando nessa direção desde a campanha, quando houve um complô dele com Rui e João Santana para barrar Lula.”

Quando a situação parecia caminhar para a anormalidade de sempre —o pastor George Hilton cuidando do Esporte; o filho do Jáder na Pesca; o Levy afiando a tesoura; as ações da Petrobras negociadas na bacia das almas; os empreiteiros em cana, o PMDB às turras com o Planalto; o Imperador retirado do esquife na novela das nove…— quando tudo voltava para a anormalidade de praxe, vem a Marta Suplicy torcer o nariz da Dilma e cuspir no prato do PT.

Espantosa fase essa que o PT atravessa. O absurdo adquiriu para o partido uma doce, uma persuasiva natudalidade. Os petistas se espantam cada vez menos. Se o banquete inclui ensopadinho de dinheiro sujo à moda de Valério, nenhum petista fará a concessão de uma surpresa. Adicionaram-se as propinas do petrolão no cardápio? Pois que seja propina, e com abóbora.

Ao desenhar um quadro devastador da legenda, Marta Suplicy apenas reintroduz nos seus hábitos o ponto de exclamação. Faz isso com um atraso hediondo. Marta demorou tanto para acordar que acabou perdendo o essencial. “Ou o PT muda ou acaba”, disse ela. Ora, o PT já acabou faz tempo. Só Marta não notou que isso que está aí na praça é um ex-PT bem mequetrefe.

Aquele partido casto e imaculado da década de 80 morreu. Saiu da vida para cair na esbórnia. A julgar pelo relato de Marta, o cadáver encontra-se em avançado estágio de decomposição. O pior é que a convocação de Joaquim Levy para fazer o inventário mostra que a velha legenda morreu endividada. E não foi para o céu.


Ministro do Esporte aluga por R$ 85 mil computadores que custam R$ 15 mil
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Josias de Souza

Ao assumir a pasta do Esporte, o pastor George Hilton (PRB-MG) reconheceu que entende pouco do ramo esportivo. Talvez não entenda muito também da gestão de verbas públicas. Como deputado federal, utilizou parte da chamada verba indenizatória do seu gabinete para alugar um par de computadores do tipo iMac —21,5 e 27 polegadas, respectivamente. Entre junho de 2013 e dezembro de 2014, pagou pelo aluguel R$ 84.996. Numa boa casa de equipamentos eletrônicos, as duas máquinas podem ser compradas por menos de R$ 15 mil.

O repórter Gabriel Castro conta que o equipamento alugado pelo gabinete do agora ministro pertence à empresa Ideas Movies and Solutions, especializada na produção de vídeos. Por uma dessas coincidências que intrigam, trata-se da mesma logomarca que prestou serviços à malograda campanha de Hilton à prefeitura da cidade mineira de Contagem, em 2012. Chama-se Alan Kardec Teixeira o dono da Ideas. Ele é ligado à Igreja Universal. A mesma organização religiosa à qual o novo ministro serve como pastor -mais uma santa coincidência!

Ouvido, o gabinete de George Hilton confirmou o aluguel dos dois computadores. Sustentou que o deputado preferiu alugá-los porque a verba de gabinete não poderia ser usada para comprar equipamentos do gênero. Quem quiser acreditar terá de responder: mas precisava pagar tão caro pelo aluguel?


Alheia aos escândalos, Dilma loteia o 2º escalão
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Josias de Souza

Pepe Vargas é o 'filtro' do segundo escalão

Em meio aos desdobramentos da Operação Lava Jato, Dilma Rousseff decidiu preencher os cargos do segundo escalão da máquina federal guiando-se pelo mesmo espírito de privatização que levou a Petrobras ao balcão. Autorizado pela presidente, o ministro Pepe Vargas (Relações Institucionais da Presidência) pede aos partidos que participam do empreendimento governista que lhe encaminhem sugestões de nomes para as poltronas mais cobiçadas. Exatamente como fizeram, por exemplo, PP, PT e PMDB no rateio de diretorias da maior estatal brasileira.

As legendas aquinhoadas com ministérios desejavam ocupar os postos das respectivas pastas de cabo a rabo. Dilma mandou avisar que não dará ministério de “porteira fechada” a nenhum partido. Há dois dias, numa conversa com jornalistas, o negociador Pepe enumerou os critérios que, segundo diz, serão observados nas nomeações: competência, capacidade de gestão e probidade. Dizia-se o mesmo na época em que, sob Lula, politizaram-se as nomeações na Petrobras.

O engenheiro Paulo Roberto Costa, hoje um delator incômodo, preenchia todos esses requisitos quando Lula permitiu que o PP se apoderasse da alma dele para fazer negócios na Petrobras. Em depoimento ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato, o próprio Paulo Roberto resumiu, em 8 de outubro, a metamorfose que o transformou de funcionário exemplar em corrupto confesso:

“Eu trabalhei na Petrobras por 35 anos. Vinte e sete anos do meu trabalho foram trabalhos técnicos, gerenciais. E eu não tive nenhuma mácula nesses 27 anos. Se houve erro —e houve, não é?— foi a partir da minha entrada na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é dando que se recebe. Eles dizem muito isso. Então, esse envolvimento político, […] que tinha em todas as diretorias da Petrobras, é uma mácula dentro da companhia.”

O que Paulo Roberto disse, com outras palavras, foi que os apadrinhados dos partidos políticos devem obediência aos seus padrinhos, não aos contribuintes que lhes pagam o salário. O mesmo fenômeno produziu escândalos em série no conturbado início do primeiro mandato de Dilma, forçando-a a se livrar de sete ministros em 2011. A despeito de tudo, ela repete a fórmula surrada. Planta agora os escândalos que irá colher até 2018 nas reparticões, nas autarquias e nas estatais vinculadas a cada pasta. Depois que estourarem novos escândalos, Dilma repetirá o mantra do “eu não sabia'', defenderá a realizacão de uma reforma política e proporá um pacto nacional contra a corrupção.


STF barra quebra de sigilo da fonte de repórter
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Josias de Souza

O ministro Ricardo Lewandowski, presidente do STF, mandou suspender uma decisão judicial que levaria à quebra do sigilo da fonte de um repórter, abrindo precedente perigoso para o exercício do jornalismo no país. Em seu despacho, Lewandowski deferiu pedido de liminar feito pela ANJ, a Associação Nacional dos Jornais. A suspensão vigora até que o Supremo julgue o mérito do processo, que envolve um jornal de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

De plaltão no STF, que se encontra em recesso, Lewandowski entendeu que a suspensão da ordem judicial preserva a identidade da fonte jornalística sem prejudicar o andamento do processo. Além disso, anotou o ministro, “estar-se-á resguardando uma das mais importantes garantias constitucionais, a liberdade de imprensa, e, reflexamente, a própria democracia.”

A encrenca nasceu na primeira semana de maio de 2011, quando o jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, publicou uma série de reportagens sobre uma investigação da Polícia Federal. Apuravam-se denúncias de corrupção na Delegacia Regional do Trabalho que funciona na cidade. Assinadas pelo repórter Allan de Abreu Aio, as notícias continham trechos de conversas telefônicas captadas por meio de grampos que estavam anexados num processo sigiloso.

Em junho de 2011, o Ministério Público Federal pediu o indiciamento criminal do repórter, acusando-o de divulgar informações sigilosas sem autorização judicial. Ouvido na ocasião, o repórter recusou-se a revelar suas fontes. Também inquirido, o editor-chefe do jornal, Fabrício Carareto Barciela Marques, atribuiu a publicação das reportagens ao direito da população de ser informada sobre improbidades praticadas por agentes públicos.

O tempo passou. No início de 2014, em fevereiro, o delegado que cuidava do inquérito na Polícia Federal mandou o inquérito ao arquivo, isentando o repórter. Inconformado, o Ministério Público requereu, em julho de 2014, autorização judicial para quebrar o sigilo das linhas telefônicas registradas em nome do repórter Allan de Abreu e do jornal Diário da Região. Munida dos dados, a Procuradoria pretendia chegar à fonte jornalística.

Por mal dos pecados, a 4ª Vara Federal de São José do Rio Preto deferiu o pedido do Ministério Público, ordenando às companhias telefônicas que informassem os dados referentes às linhas telefônicas do repórter e do jornal. O Diário da Região recorreu. Mas o TRF da 3ª Região, sediado em São Paulo, manteve a ordem para a quebra do sigilo. Foi quando a Associação Nacional dos Jornais entrou em cena, protocolando uma reclamação no STF.

Na sua petição, a ANJ sustenta que a decisão da Vara de primeira instância de São José do Rio Preto afronta decisões já tomadas pelo próprio STF sobre a matéria. Num dos julgamentos citados, o Supremo “estabeleceu a impossibilidade de o Estado fixar quaisquer condicionamentos e restrições relacionados ao exercício da profissão jornalística, inclusive no que se refere à violação à garantia constitucional do sigilo da fonte.”

Lewandowski anotou em seu despacho que “o tema em debate é da mais alta complexidade”, porque envolve duas garantias amparadas no texto constitucional. “De um lado está em jogo uma das garantias mais importantes à liberdade de imprensa e, portanto, à própria democracia: o sigilo da fonte, previsto expressamente no artigo 5º, XIV, da Constituição Federal. De outro, a violação do segredo de Justiça (artigo 93, IX, da Constituição Federal), destinado a proteger os direitos constitucionais à privacidade, à intimidade, à honra, à imagem ou, nos casos em que o interesse público o exigir, como, por exemplo, para assegurar a apuração de um delito.”

A despeito da “complexidade'', o ministro achou melhor suspender a execução da ordem judicial. Escreveu que o “aparelhamento dos autos”, com o envio de informações pelo TRF e a emissão de um parecer da Procuradoria Geral da República, o STF poderá julgar adequadamente “a questão de fundo.” Após o término do recesso do Judiciário, o processo vai à mesa do ministro Dias Toffoli, escolhido por sorteio para atuar como relator do caso.