Blog do Josias de Souza

Dilma diz que revista pratica ‘terrorismo eleitoral’
Comentários 48

Josias de Souza

No último dia do horário eleitoral, Dilma Rousseff viu-se compelida a usar sua propaganda para tentar vacinar-se contra a notícia de capa da revista Veja. A candidata oficial tachou de “terrorismo” a acusação atribuída ao doleiro Alberto Youssef de que ela e Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras.

“Não posso me calar frente a esse ato de terrorismo eleitoral articulado pela revista 'Veja' e seus parceiros ocultos. Uma atitude que envergonha a imprensa e agride a nossa tradição democrática”, vociferous Dilma. “Sem apresentar nenhuma prova concreta e mais uma vez baseando-se em supostas declarações de pessoas do submundo do crime a revista tenta envolver diretamente a mim e ao presidente Lula nos episódios da Petrobras, que estão sob investigação da Justiça'' (assista acima).

Apinhada de depoimentos de apoio, inclusive do craque Neymar, a propaganda de Aécio Neves não tratou do tema (assista abaixo). Mas o candidato tucano convocou uma entrevista para dizer que considerou “extremamente graves'' as revelações. Insinuou que a campanha de Dilma em 2010 foi azeitada por verbas sujas.

“Hoje a revista 'Veja' reproduz um trecho do depoimento do doleiro Alberto Youssef que diz que a presidente da República e o ex-presidente Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras'', disse Aécio. “Se comprovado, é a prova de que houve caixa dois nessa campanha.'' Na noite desta sexta, Aécio e Dilma travarão na Globo o último debate da temporada. Pelo jeito, vai sair faísca.


SP gere crise hídrica com ética no volume morto
Comentários 46

Josias de Souza

Há 19 dias, a população de São Paulo concedeu ao tucano Geraldo Alckmin a maior honraria que um político pode receber. Reelegeu-o no primeiro turno. O eleitor paulista renovou o voto de confiança no governador num instante em que a crise hídrica resseca-lhe os humores. Fez isso por achar que: 1) as alternativas eleitorais eram precárias; e 2) a falta d’água é mais culpa de São Pedro que de Alckmin.

Pois bem. Nesta sexta-feira, os repórteres Bruno Boghossian e Paulo Gama levaram às manchetes uma dessas gravações que costumam vazar para provar que aquilo que os governantes dizem ao contribuinte nunca é tão importante quanto o que o contribuinte ouve sem querer. Ouve-se na fita a voz de Dilma Pena, presidente da Sabesp, a companhia de abastecimento de São Paulo.

Numa reunião com a cúpula da empresa, a doutora soou assim: “Por uma orientação superior, a Sabesp tem estado muito pouco na mídia. Acho que é um erro. Nós tínhamos de estar mais na mídia, os superintendentes locais, nas rádios comunitárias. […] Todos falando sobre um tema repetido, monocórdio: economia de água.”

A certa altura, dona Dilma resumiu o que toda a Sabesp deveria estar gritando: “Cidadão, economize água.” Simples assim. Apenas três vocábulos. “Isso tinha de estar reiteradamente na mídia”, enfatizou a doutora. “Mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa. Mas é um erro. É um erro.”

Tomada pelas palavras, a presidente da Sabesp silenciou apenas para fora da companhia. Livrava-se da mordaça dentro dos gabinetes: “Tenho consciência absoluta, e falo para as pessoas com quem eu converso sobre esse tema, mesmo meus superiores. Acho um erro esta administração da comunicação dos funcionários da Sabesp, que são responsáveis por manter o abastecimento, com o cliente.''

O que a doutora Dilma Pena afirmou, com outras palavras, foi o seguinte: o governo de São Paulo enganou a população para não prejudicar a reeleição de Alckmin. A Sabesp tentou evitar que sua clientela fosse feita de boba. Mas forças “superiores” proibiram a companhia de alertar à torcida do Neymar sobre a necessidade de poupar água em proporções acima das que já vinham sendo economizadas. Em nota, o Palácio dos Bandeirantes disse que cabe à autora dos comentários esclarecê-los.

Talvez o governador reeleito e seus operadores políticos avaliem que o silêncio da Sabesp foi um sucesso. Mas é a torcida do Neymar quem sofre os efeitos da falta d’água. Pesquisa Datafolha divulgada há quatro dias informou que 60% dos paulistanos dizem ter ficado sem água nas torneiras em algum momento dos últimos 30 dias.

Essa gente logo, logo vai se dar conta de que os “superiores” da Sabesp administram a crise hídrica com os valores éticos no último estágio do volume morto. No macrocosmo de São Paulo, o silêncio imposto a Dilma Pena deve ter alguma influência no encurtamento da vantagem que Aécio Neves levava nas sondagens eleitorais do Estado em relação àquela outa Dilma, a Rousseff.


Aécio debaterá na TV Globo com uma ex-Dilma
Comentários 91

Josias de Souza

Campanha presidencial 2014

Campanha presidencial 2014

Na noite desta sexta-feira, a TV Globo exibirá o último debate presidencial da sucessão de 2014 —Dilma ‘53%’ Rousseff X Aécio ‘47’ Neves. O telespectador que não quiser fazer papel de bobo precisa assistir antes ao debate levado ao ar pela mesma emissora em outubro de 2010. Nessa época, o tucano favorito para fazer de Dilma a próxima presidente da República era José Serra. As cenas estão disponíveis na internet. Nelas, soam cinco compromissos e declarações de Dilma:

Economia: AspasPequenas“Sabe por que aumentou arrecação [tributária]? A gente, que crescia 2,5%, às vezes zero, esse ano estamos crescendo. A discussão é se é 7%, 7,5% ou 8%. Quando isso acontece, você arrecada mais sem aumentar impostos.”

Corrupção: “Malfeito, você pode ter certeza que em qualquer lugar onde houver impunidade ou não houver investigação ele vai ocorrer. É importante investigar e punir doa a quem doer e atinja a quem atingir.”

Educação: “Não há como fazer qualidade da educação sem pagar bem o professor. [...] Por isso, farei da campanha para pagamento de salário dos professores uma das questões fundamentais ao meu governo. Pagar bem o professor é o grande desafio que nós temos nos próximos anos, para além de qualquer outra coisa. A educação não irá pra frente se não remunerar o professor.”

Segurança: “O governo federal sempre disse: ‘Não é comigo, segurança pública é com os Estados. Não acho isso. Eu tenho um compromisso: é tão grave o problema da segurança pública que a União é obrigada a fazer uma política em cooperação com os Estados e municípios. E isso significa, primeiro, melhorar as polícias civis e militares dos Estados. [...] Considero que também tem de dar condições para os Estados montarem centros de referência, tanto na área da investigação quanto na área da perícia criminal. [...] Proponho também a criação de polícias comunitárias, principalmente nos bairros populares.”

Saúde: “De fato, temos um problema sério de qualidade da saúde no Brasil. Temos, sim, e se a gente não reconhecer que tem, a gente não melhora. Assumo o compromisso de melhorar a saúde. Primeiro, jogando o peso do governo federal na fiscalização da qualidade da prestação do serviço. Depois que a gente aumentar os valores dos repasses para Estados e municípios, nós vamos ter que completar a estrutura do SUS. O SUS é incompleto.”

Costuma-se dizer que o brasileiro não tem memória. Bobagem. O que o patrício não tem mesmo é curiosidade. Quem se preocupa em rever a maravilha que Dilma pretendia vir a ser em 2010 percebe que ela se tornou em 2014 uma personagem pior do que já foi. Quem vê no tucano Aécio Neves uma opção ainda mais precária pode manter o voto na oponente dele. Mas fará isso sem passar por bobo, consciente de que optou por uma ex-Dilma.

Na economia, aquele crescimento chinês superior a 7% com que Lula eletrificou sua “poste” virou estagnação. As manchetes sobre corrupção não conseguem mudar de assunto. Mudam, no máximo, de corrupto. Não há vestígio de campanha presidencial em defesa dos contracheques dos professores. A segurança continua sendo feita integralmente de insegurança. E o SUS ainda é o mais extraordinário ponto de partida para construir algo inteiramente novo em matéria de saúde pública. Caos não falta.


Youssef incriminou Dilma e Lula, afirma revista
Comentários 1311

Josias de Souza

Em reportagem de capa, a revista Veja informa a menos de 72 horas da eleição presidencial: “O doleiro Alberto Youssef, caixa do esquema de corrupção na Petrobras, revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público, na terça-feira, que Lula e Dilma Rousseff tinham conhecimento das tenebrosas transações na estatal.”

Acusado de lavar algo como R$ 10 bilhões em verbas de má origem, Youssef foi preso em março. Depõe como delator desde 29 de setembro. De acordo com o relato do repórter Robson Bonin, o doleiro está bem mais magro, exibe um rosto pálido, raspou o cabelo e livrou-se da barba. Habituado às sombras, ele agora rompe o silêncio com desassombro.

A alturas tantas, Youssef soou peremptório: “O Planalto sabia de tudo.” O delegado federal que o inquiria quis saber: “Mas quem no Planalto?” E o delator: “Lula e Dilma.” Exposto no site da revista, o teor da capa de Veja veio à luz mais cedo. Normalmente, costuma ser divulgado nas noites de sábado. Por ora, o Planalto, o Instituto Lula e o PT não se manifestaram.

Ouvido pelo jornal O Globo, o advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, admitiu que seu cliente presto depoimento à Polícia Federal na terça-feira, em Curitiba. Mas disse não ter conhecimento das declarações reproduzidas pela revista.

“Eu nunca ouvi nada que confirmasse isso. Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso”, disse Antonio Basto. Segundo ele, Youssef prestou vários depoimentos no mesmo dia. Acompanharam-no diferentes advogados.

“Conversei com todos da minha equipe e nenhum fala isso”, acrescentou Antonio Basto. “Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo. É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação.”

A despeito do alerta, o doutor preferiu não fazer um desmentido categórico: “Nós não temos como pegar em mãos e não ficamos com cópia de nada. Então, não nego nem confirmo se esse depoimento é verdadeiro, se essa informação foi dada ou não e se sim, em quais circunstâncias.”

Youssef já havia mencionado o nome de Lula num depoimento prestado há 15 dias ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato. Em audiência pública, não relacionada à delação premiada, o doleiro dissera que Paulo Roberto Costa, o ex-diretor que desviou dinheiro da Petrobras para políticos e partidos, foi nomeado por Lula sob chantagem de políticos governistas.

“Tenho conhecimento que, para que Paulo Roberto Costa assumisse a cadeira de diretor da diretoria de Abastecimento [da Petrobras], esses agentes políticos trancaram a pauta no Congresso durante 90 dias. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco, teve que ceder e, realmente, empossar o Paulo Roberto na diretoria de Abastecimento.”


Plano de Aécio faz água no Nordeste e em MG
Comentários 236

Josias de Souza

O jogo de 2014 ainda não está jogado. Porém, se o Datafolha e o Ibope estiverem corretos, já se pode dizer que a candidatura presidencial de Aécio Neves vai subindo, pé ante pé, no telhado.

Na penúltima rodada de pesquisas, os dois institutos apresentam Dilma Rousseff isolada na frente, em patamares acima da margem de erro, que é de dois pontos. No Datafolha, a diferença é de seis pontos. No Ibope, oito pontos.

Campanha presidencial 2014

Campanha presidencial 2014

Considerando-se o planejamento inicial, a campanha de Aécio faz água sobretudo em dois pedaços do mapa brasileiro: na região Nordeste e no Estado de Minas Gerais.

O Nordeste é uma espécie de Waterloo vitalício do tucanato. Ali, Aécio jamais imaginou vencer. Mas esperava que a candidatura do pernambucano Eduardo Campos dividisse o eleitorado da região com Dilma, reduzindo-lhe a supremacia. Nessa suposição, Campos apoiaria Aécio no segundo turno, transferindo-lhe parte de sua votação.

A morte de Campos eliminou o esperado contraponto. E a vantagem de Dilma entre os nordestinos, que já era grande, vai se tornando gigantesca. Em votos válidos, a petista prevalece sobre o tucano por 71% a 29% —notáveis 42 pontos de dianteira. Na semana passada, a diferença era de 37 pontos.

Pois bem. À medida que Dilma cresce no Nordeste, eleva-se o desafio de Aécio no Sudeste. Ali, o tucano não está mal. Mas já esteve muito melhor. Segundo o Datafolha, Aécio degustava uma vantagem de 21 pontos no dia 9 de outubro.

Dilma continua atrás, mas avança mais do que seu antagonista no Sudeste, região que abriga os três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas e Rio. Na última segunda-feira, a vantagem de Aécio despencara para nove pontos. Agora, oscilou para oito: 54% a 46%.

A conta seria outra se a canoa de Aécio não carregasse um dreno em Minas Gerais. Cavalgando duas administrações bem avaliadas, o ex-governador mineiro previa que seus conterrâneos lhe dariam uma votação consagradora.

No primeiro turno, Dilma, também mineira, impôs uma derrota a Aécio no seu quintal eleitoral. O tucanato espera reverter a situação no mata-mata do segundo turno. Porém, estima-se que a diferença roçará a casa de 1 milhão de votos. Longe, muito longe da vantagem de mais de 3 milhões de votos que Aécio esperava obter no seu Estado.

No caso do Nordeste, Aécio ainda pode alegar que seus planos foram conspurcados pela tragédia da queda do avião de Campos, cuja família hoje o apoia. Em Minas, porém, o infortúnio, se vier, será de responsabilidade exclusiva de Aécio.

Dando de barato que os votos dos mineiros cairiam no seu colo por gravidade, Aécio elaborou em cima da perna a estratégia para a disputa do governo mineiro. Escolheu como seu candidato um piano difícil de carregar: Pimenta da Veiga.

Numa campanha em que hesitou em defender o legado do padrinho, Pimenta perdeu no primeiro round para o petista Fernando Pimentel, que franqueou seu palanque a Dilma. E Aécio talvez seja apresentado à evidência de que está sujeito à condição humana também em Minas Gerais. Qualquer resultado que não seja uma lavada parecerá insuficiente.


Era o que faltava: governo esconde estatísticas
Comentários 179

Josias de Souza

Todas as opiniões de petistas e tucanos sobre as iniciativas do PT e do PSDB são suspeitas porque são de partidários. É impossível ser inteiramente objetivo sobre a própria espécie. Até a autocrítica de petistas e tucanos, se existisse, seria inconfiável. Os elogios, então, não merecem a mínima credibilidade. Fata-lhes o distanciamento e a isenção. Ou seja, você está sozinho.