Blog do Josias de Souza

Lava Jato fez de 2018 uma loteria sem prêmio
Comentários Comente

Josias de Souza

Escolha sua metáfora para o desafio que o eleitor brasileiro enfrenta na sua tarefa de escolher o próximo presidente da República. Jogar numa loteria sem prêmio talvez seja a descrição mais sintética e adequada. O Datafolha divulga neste domingo dados paradoxais sobre Lula. O governo do pajé do PT é visto como o mais corrupto por 32% do eleitorado. Embora supere até a gestão de Fernando Collor no quesito roubalheira, Lula ampliou sua liderança na corrida presidencial. Jair Bolsonaro, defensor da ditatura militar cresceu e divide a segunda colocação com Marina Silva.

Quer dizer: o eleitor brasileiro oscila entre o ‘rouba, mas faz’ e o ‘dane-se’. Ou, por outra, o eleitorado se divide entre o lamentável e o impensável. Faltam 17 meses para a disputa presidencial. Uma pesquisa feita com tanta antecedência vale mais pelo que sinaliza do que pelos percentuais que exibe. E o Datafolha sinaliza duas coisas: 1) A Lava Jato desconstruiu a conjuntura política. Gente poderosa tornou-se impotente. 2) Falta matéria-prima para erguer sobre os escombros algo que não se pareça com um novo desastre.

Há cadáveres demais na lista de candidatos. Entre os zumbis estão os tucanos Aécio Neves e Geraldo Alckmin, reduzidos a um dígito. Considerando-se que Lula pode virar um ficha-suja antes de ser formalizado como candidato, o cenário de terra arrasada favorece o surgimento de demagogos. Por ora, quem mais se parece com uma versão nacional de Donald Trump é Bolsonaro. Como alternativas à aventura, há Marina Silva ou o caos —que muita gente acredita ser a mesma coisa. Corre por fora o prefeito paulistano João Doria, que aparece numericamente à frente do padrinho Alckmin.

Livrando-se de uma condenação, o que parece cada vez mais imporvável, Lula será o principal adversário de si mesmo. Numa ponta da pesquisa, ele lidera as intenções de voto. Na outra ponta, Lula disputa com o tucano Aécio Neves o título de campeão da rejeição. E ainda está na alça de mira de dois novos delatores —Antonio Palocci e Renato Duque. Moído pela Lava Jato, não terá senão a alternativa de apoiar um outro nome. Se Lula optar por Ciro Gomes, do PDT, pode alçá-lo a um terceiro lugar na pesquisa. Nessa hipótese, a menos que surja alguma novidade, o eleitor ficaria entre o lamentável, o impensável e o imponderável.


Lula enxerga 13ª Vara de Curitiba como um circo
Comentários Comente

Josias de Souza


Nos últimos dias, Lula passou a fazer graça com o depoimento que foi intimado a prestar como réu da Lava Jato. Por vezes, parece confundir a 13ª Vara Federal de Curitiba com um picadeiro. Neste sábado, o pajé do PT foi à cidade gaúcha de Rio Grande. Escalou um palanque. E divertiu a multidão companheira com falas assim:

— Eu tô até preocupado, porque o Moro deve estar vendo o meu discurso aqui. É verdade! E o Dellagnol também. E eles não estão tentando me julgar por corrupção, é pelo jeito de governar esse país. Mas eu vou continuar. Como dizia Fidel Castro: a história me absolverá.

Ouviram-se muitos risos. Mas o jeito petista de governar encontra-se tristemente escancarado nos processos do petrolão. Na primeira instância do Judiciário, onde a biografia de Lula é carbonizada, produziram-se por enquanto 131 condenações. Juntas, somam 1.377 anos, 9 meses e 21 dias de cadeia.

Lula disse estar “pedindo a Deus” para Sergio Moro manter seu depoimento agendado para 10 de maio. “É a primeira chance que eu tenho de falar o que eu penso de tudo isso que estão fazendo comigo.” O orador usou timbre de presidenciável. Finge ignorar que virou candidato a fazer companhia a companheiros como José Dirceu e João Vaccari no rol dos condenados.

Nesta época de semântica desvairada, o que Lula chama de honestidade constitui a soma de tudo o que dizem dele os delatores e os achados dos investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria. Ocorre a seguinte incoerência: Lula se diz uma coisa e sua reputação já é bem outra.

Num contexto assim, tão envenenado, Fidel e Deus ajudarão pouco. A história não absolveu o líder cubano. Condenou-o a testemunhar o colapso do regime de Havana. No mais, todos os seus crimes prescreveram antes da morte, no entendimento tácito de que as dores ideológicas e físicas de sua velhice já foram castigo suficiente.

Quanto ao Todo-Poderoso, se é verdade que Ele brasileiro, talvez se sentisse diminuído tendo que ajudar apenas o Lula a ganhar milhões em palestras e colecionar amigos dispostos a bancar-lhe os confortos. Se 10% de tudo o que está na cara for confirmado, o mais provável é que Lula não deixe nenhuma obra para redimi-lo. Pelo menos nenhuma que não tenha sido superfaturada.

No discurso deste sábado, Lula chegou a ensaiar uma caída em si: “Eu, sinceramente, não sei o que vai acontecer comigo.” Mas logo voltou a destilar sua autoconfiança com desembaraço autocrático: “Eles podem se preparar, porque nós vamos voltar.” E a plateia, em uníssono: “Volta Lula, volta Lula, volta Lula…” O orador entusiasmou-se:

— Eles têm que saber que a Petrobas vai voltar a ser outra vez do povo brasileiro. […] Eles têm que saber que o BNDES vai voltar a ser banco de deenvolvimento. Eles têm que saber que o banco do Brasil não vai mais fechar agência, vai abrir agências. […] Eles têm que saber que a Caixa Econômica vai voltar a ser banco público. Eles têm que saber que nós vamos regular os meios de comunicação.

As palavras não deixam dúvida. Sobra talento a Lula para números circenses como malabarismo verbal, trapezismo ideológico e ilusionismo factual. No entanto, se vingasse a tese de que não há nada para investigar a respeito no líder máximo do PT, cada brasileiro viraria um palhaço instantâneo. E nem todo mundo se dispõe a usar narizes vermelhos, colarinhos folgados e sapatos grandes.

É difícil imaginar, por exemplo, um Sergio Moro de peruca avermelhada. O juiz da Lava Jato não é do tipo que veste “giubba”. Tem mais cara de estraga-festas. Alguém precisa avisar a Lula que tratar a 13ª Vara de Curitiba como um circo é o mesmo que cutucar o leão com o pé para ver se ele morde.


Brasileiro talvez queira fazer a barba, não greve
Comentários 50

Josias de Souza

Manifestantes e polícia se enfrentam defronte da casa de Temer

No Brasil de hoje, qualquer pensamento otimista corre o risco de ficar velho em dois minutos. Ou em duas delações premiadas. O desemprego bate recordes. A Lava Jato é o único empreendimento que prospera. Um Congresso apinhado de larápios vota medidas amargas sugeridas por um governo abarrotado de investigados. E o PMDB alcança o ápice da perfeição: ele mesmo governa, com Michel Temer. Ele mesmo lidera a oposição, com Renan Calheiros. Foi contra esse pano de fundo caótico que as centrais sindicais convocaram uma greve geral. Considerando-se o que poderia ter sido, o movimento revelou-se bem menor do que o esperado.

Houve protestos em todas as capitais. Mas o país não parou, como se prometia. Excetuando-se algumas poucas corporações, sobretudo de servidores públicos apavorados com a hipótese de perder privilégios, o brasileiro foi à luta. A taxa de adesão espontânea à paralisação foi baixa. Nos grandes centros, quem não chegou ao trabalho foi porque esbarrou em barricadas ou na falta de transporte. Parou por pressão, não por opção.

O Planalto celebra o fiasco. Exagero. Sustenta que o protesto miúdo sinaliza aprovação às reformas. Despautério! O sindicalismo festeja o sucesso da “greve geral”. Desatino. Alardeia que a sociedade brasileira demonstrou que não tolera as reformas do governo “golpista”. Ilusão. Os patrícios não sabem nem o que está sendo reformado. O governo e seus antagonistas talvez devessem desperdiçar um naco de tempo para refletir sobre uma lamentável evidência: o grosso da população apertou o botão de “dane-se.”

A plateia olha para os sindicalistas e enxerga no rosto deles o pânico do risco de perder a boquinha do imposto sindical. Bocejos. A arquibancada observa os índices de reprovação de Temer nas pesquisas e intui que ele está pouco se lixando para as ruas. Boceja novamente ao se dar conta de que o presidente tem duas prioridades que se sobrepõem a todas as outras: passar a impressão de que comanda e não cair.

Falta remédio para os aposentados nas farmácias populares! O Congresso votou assim? O Congresso votará assado? Quem se importa? Há gente que se desespera ao abrir a porta da geladeira! O Renan criticou o Temer? O Temer dará novas benesses ao Renan? O que isso tem a ver com o café com leite do cidadão comum?

Há 14,2 milhões de brasileiros humilhados na fila do desemprego. Essa gente talvez não queira fazer greve. Prefere fazer a barba —ou a maquiagem— antes de seguir para a enésima entrevista de emprego. A política precisa enxergar o Brasil. A política partidária e também a sindical. Do contrário, vão se tornar invisíveis. Vivo, Cazuza cantaria: “Suas ideias não correspondem aos fatos… E o tempo não para.”

Ônibus são incendiados no Centro do Rio, durante protesto


País vive revanche da batalha do impeachment
Comentários 10

Josias de Souza

.

O governo se peparou para o pior. Achava que a greve geral e as manifestações contra as reformas teriam proporções extraordinárias. No início da tarde, Michel Temer e seus auxiliares concluíram que o monstro se revelou menos feio do que parecia. Para o Planalto, a greve não foi geral e os protestos foram pontuais. Temer disse que não vai recuar. Nem pode. A essa altura, se o governo sofrer uma derrota em votação de reforma como a da Previdência, o resto do mandato-tampão de Temer será um melancólico epílogo.

O que está acontecendo nesse instante no Brasil é uma revanche da batalha do impeachment. As forças políticas que caíram junto com Dilma Rousseff tentam dar o troco. O palco da guerra é o Congresso. A arma, o asfalto. Tenta-se engatilhar contra Temer a mesma insatisfação que derreteu o mandato de Dilma.

Tão impopular quanto Dilma, Temer dá de ombros para as ruas. Sua preocupação é evitar que os congressistas que traíram Dilma, hoje tão governistas quanto ontem, desliguem o seu governo da tomada, rejeitando suas reformas. O governo admite que ainda não dispõe de votos para aprovar a mexida na Previdência. Para obtê-los, lida com um bloco parlamentar que de longe se parece com um saco de gatos. Mas de perto parece mais um saco de ratos.


Todos prometem ‘Renascença’, mas os desempregados estão na ‘Idade Média’
Comentários 6

Josias de Souza

Nesta sexta-feira conturbada, o IBGE deu à luz um dado horripilante: a quantidade de desempregados no Brasil atingiu a constrangedora marca de 14,2 milhões de pessoas no trimestre fechado em março. É para esse público, maior do que toda a população de um país como Portugal, que reformadores e antirreformistas dizem dedicar suas energias.

Deve-se a ruína à gestão empregocida de Dilma Rosseff. Seu vice chamava-se Michel Temer. Tudo mudou na transiçao de uma para o outro, exceto o PMDB, que continua no seu habitat natural: a vizinhança dos cofres públicos. Defensores e opositores das reformas prometem a Renascença. Mas tudo o que o país conseguiu, por ora, foi enviar 14,2 milhões de patrícios para a Idade Média.

Socialistas e liberais defendem com a competência usual os seus pontos de vista. Se perguntarem a um brasileiro mais simples o que acha de tantos conceitos complexos, ouvirão o seguinte: “Tudo o que se diz é muito impressionante. Mas eu ainda prefiro um contracheque que me permita encher a geladeira.”


‘Não haverá recuo’, diz Temer sobre reformas
Comentários 153

Josias de Souza

Michel Temer disse a auxiliares nesta sexta-feira que não cogita abandonar sua agenda de reformas. “Não haverá recuo”, disse. Mantém o propósito de realizar o que chama de “governo refosmista”. Realça que outros países tiveram que lidar com protestos e incompreensões para realizar reformas. Sustenta que todos os que perseveraram estão economicamente mais sólidos. Repete que o esforço será recompensado com a volta da prosperidade econômica e dos empregos.

A despeito da disposição de Temer, o governo reconhece que ainda não dispõe dos 308 votos de que necessita para aprovar a emenda constitucional que reformula a Previdência. Nesse ponto, houve um ajuste na estratégia. O Planalto desistiu de marcar uma data para a votação. “Vamos votar quando tivermos certeza da vitória”, disse um ministro ao blog.

Depois de aprovar na Câmara a reforma da CLT, o condomínio governista cogitara travar a batalha da Previdência no dia 8 de maio. A data foi abandonada. Avalia-se que ministros e líderes de partidos precisarão de mais tempo para seduzir —na lábia e no fisiologismo— os deputados que ainda resistem em mexer no modelo previdenciário. Os insurgentes perderão benesses como cargos e verbas orçamentárias, ameaça o Planalto.

A flexibilização do calendário não tem relação com os protestos realizados nesta sexta-feira, alega o governo. Ao contrário, o Planalto surpreendeu-se com a dispersão dos opositores das reformas. O próprio governo havia se equipado para enfrentar um movimento mais vigoroso. A percepção de Temer e de seus auxiliares é a de que não houve uma “greve geral”, mas manifestações “dispersas e pontuais”.

“Isso não diminui o nosso desafio”, disse o ministro que conversou com o blog. “Sabemos que não será fácil aprovar a reforma da Previdência. Não era fácil ontem. Não será fácil amanhã. Mas trabalhamos com a convicção de que é o melhor a ser feito. Por isso, achamos que vamos conseguir os votos, mesmo que demore um pouco mais.. Pode ser no final de maio, no início de junho. O que importa é aprovar.”


Greve dificulta o esforço pró-reformas, reconhecem articuladores do governo
Comentários 202

Josias de Souza

Em avaliações feitas longe dos holofotes, alguns dos principais operadores políticos do governo admitem que a greve e as manifestações convocadas para esta sexta-feira dificultarão o esforço para aprovar as reformas no Congresso, principalmente a da Previdência. O grande receio, disse um ministro ao blog, está relacionado ao impacto que o movimento terá sobre ânimo dos congressistas.

Estima-se que o pedaço da coligação governista que já foge das prioridades da gestão Temer com medo de perder votos em 2018 ganhará pretextos adicionais para resistir aos apelos do presidente, retardando o cronograma de votações. Munido de dados colecionadas pelos serviços de inteligência, o governo trabalhava na noite passada com a perspectiva de que o barulho a ser produzido nesta sexta-feira não será negligenciável.

Suprema ironia: o governo atribui a amplitude da encrenca à capacidade de mobilização de uma engrenagem sindical que a reforma trabalhista submete a uma asfixia financeira. “Essa engrenagem roda com mais vigor dentro das corporações do Estado, que estão em pé de guerra contra a reforma previdenciária”, analisou um auxiliar de Temer.

As autoridades ouvidas pelo blog manifestaram uma impressão que parece ser disseminada no governo. Ecoaram uma avaliação da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) segundo a qual os rivais de Temer acertaram ao guindar a paralisação dos meios de transporte como sua prioridade. Se tiverem sucesso, envolverão no protesto até a minoria que apoia o presidente. Sem meios de locomoção essas pessoas não terão como comparecer ao trabalho.

Temer deve acompanhar a evolução dos protestos desde o seu gabinete no Planalto. Cogita reunir auxiliares para avaliar os efeitos da greve e das manifestações. Em público, o governo e seus porta-vozes tentarão minimizar o movimento desta sexta. Como de hábito, dirão que é parte da democracia. O governo reprovará frontalmente apenas eventuais surtos de violência.


Boletim sobre Eunício não traz um diagnóstico
Comentários 33

Josias de Souza

O Hospital Santa Lúcia, de Brasília, divulgou na noite desta quinta-feira um boletim sobre a saúde do presidente do Senado, Eunício Oliveira. O paciente deu entrada na UTI da instituição de madrugada. Passou o dia sob observação médica. Mas não há no texto nada parecido com um diagnóstico.

Eis o teor do boletim, redigido às 21h: “O Hospital Santa Lúcia informa que o paciente Eunício Lopes de Oliveira permanece internado em observação na unidade de tratamento intensivo (UTI). Apresenta-se em bom estado geral e com melhora gradativa do quadro clínico. Já caminha sozinho e encontra-se consciente e orientado. Há perspectiva de alta da UTI amanhã pela manhã.

Assinam a peça os doutores Cláudio Carneiro, neurologista; André Sales, diretor clínico; e Raul Sturari, diretor médico. Eunício foi hospitalizado depois de passar mal e desmaiar em casa. Ao longo do dia os médicos descartaram duas suspeitas: acidente vascular cerebral e encefalite viral. No boletim noturno, abstiveram-se de mencionar outras cogitações.