Blog do Josias

Alckmin, FHC e amigos ainda esperam por Serra

O PSDB revive em 2012 um fenômeno que inferniza a legenda sempre que se combinam dois fatores: o calendário eleitoral e a os humores de José Serra. Às voltas com opções eleitorais inexpressivas, o tucanato ainda espera por uma faísca que inflame Serra, empurrando-o para a disputa municipal de São Paulo.

Aguardam pela entrada de Serra em cena o governador Geraldo Alckmin, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os amigos do não-candidato. Todos parecem descrer da sinceridade das negativas de Serra. Acham que, como sucedeu noutras oportunidades, o personagem pode dar meia volta.

Presidente do DEM federal, o senador José Agripino Maia (RN), também familizarizado com o vaivém que caracteriza o processo decisório de Serra, foi ao colega tucano Aloysio Nunes (SP). Perguntou-lhe se, afinal, Serra ainda pode candidatar-se à prefeitura paulistana.

Membro destacado do grupo político de Serra, Aloysio respondeu: “110% dos amigos recomendam que ele seja candidato, mas o Serra insiste em não se colocar como candidato.” Em público, as recusas de Serra, por tímidas, confundem-se com mera desconversa.

Em privado, ele às vezes silencia aos apelos que lhe são dirigidos pelos “110%”. Parte dos interlocutores apega-se ao brocardo segundo o qual “quem cala consente”. E passam a ruminar a expectativa de uma reviravolta que transforme a indecisão em fato novo.

Conforme o calendário fixado pelo diretório paulistano do PSDB, vence nesta terça (14) o prazo para a inscrição dos pré-candidatos interessados em disputar as prévias que apontarão, em 4 de março, o nome do tucano que representará o partido na disputa paulistana.

Por ora, há quatro inscritos: José Anibal, Bruno Covas, Andrea Matarazzo e Ricardo Tripoli. O pedaço do tucanato que torce o nariz para Serra sustenta que, abstendo-se de fazer sua inscrição, ele estará definitivamente excluído do processo. Tolice.

A caciquia do PSDB prefere que Serra cruze logo o Rubicão. Mas está entendido que, ainda que extemporânea, uma eventual candidatura do não-candidato justificaria até o cancelamento das prévias.

Pós-graduado em Serra, FHC costuma escorar-se no histórico do amigo para justificar o suspense. “O Serra sempre foi assim”, resigna-se. Relembra uma passagem de 2006. Bem posto nas pesquisas, Serra queria disputar a Presidência da República. Media forças com Alckmin, que também reivindicava a vaga de candidato.

Na noite da véspera da batida do martelo, Serra foi ao apartamento de FHC. Dividiu suas inquietações com o anfitrião e com a dona da casa, Ruth Cardoso. Após um lero-lero de horas, Serra deixou o encontro dizendo que seria candidato.

Na manhã seguinte, FHC tocou o telefone para o então senador Tasso Jereissati, à época presidente do PSDB. Tasso lhe disse que não recebera de Serra nenhuma confirmação de candidatura.

Pouco antes do anúncio oficial, Serra telefonou para FHC. Comunicou-lhe que desistira do Planalto e que já informara Alckmin sobre sua decisão. Optara por concorrer ao governo de São Paulo.

Dali a quatro anos, o calendário eleitoral de 2010 voltaria a submeter o PSDB aos humores de Serra. Em vez de Alckmin, o adversário da vez era Aécio Neves. Um Datafolha de agosto de 2009 acomodara Serra no primeiro lugar da fila tucana.

Ele tinha 37% das intenções de voto, contra 16% atribuídos a Dilma Rousseff, a novata que Lula escalara para enfrentá-lo. Serra cruzava o mapa do Brasil em viagens típicas de candidato. Mas dizia estar em dúvida. Cultivou o suspense até o limite do prazo legal.

Em 2012, Serra volta a protagonizar seu enredo predileto. Serra encena o papel de Serra. Um comunicado formal, escrito e assinado, seria o suficiente para fulminar as dúvidas. Mas Serra não seria Serra se não recorresse à dubiedade e ao silêncio.

Dessa vez, o drama é mais profundo. Excluindo-se da disputa, além de amargar a falta de um mandato, Serra  assistirá à conversão de Aécio, agora o primeiro da fila, em candidato do partido ao Planalto. Jogando-se na disputa municipal, Jjosé ’30% de Rejeição’ Serra arrisca-se a jogar a carreira política numa única mão de cartas.

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