Blog do Josias de Souza

Rendida à história, Dilma quer pacificar o PMDB

Josias de Souza

Dilma Rousseff mandou sua assessoria levantar todas as “demandas” do PMDB. Assustou-se com os recados do seu principal “aliado”. Deseja promover um armistício. A história recente demonstra que não lhe sobram alternativas.

No Brasil pós-redemocratização, inaugurado em 1985, sempre que um presidente da República achou que poderia negligenciar o PMDB, deu-se mal. Quando a favor, a legenda provê estabilidade congressual. Contra, torna-se força desestabilizadora.

Sob José Sarney, um ex-apoiador da ditadura que se abrigou no PMDB para tornar-se vice de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães funcionou como uma espécie de presidente paralelo. O partido deu as cartas no governo.

Na sucessão presidencial de 1989, Ulysses tentou trocar a pele de eminência parda pela de presidente de fato. Candidatou-se ao Planalto pelo PMDB. As urnas impuseram-lhe um vexame. Ele, então, mandou um recado a Lula: bastaria um telefonema para que subisse no palanque do PT.

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Lula passara raspando para o segundo turno. Batera Leonel Brizola (PDT) por um triz. Contra Fernando Collor, precisava de aliados. Todos os que fosse capaz de reunir. A estampa moderada de Ulysses suavizaria a pecha de radical que Lula trazia na testa.

O telefonema não aconteceu. Na época, Lula alegou que a imagem de Ulysses e do PMDB estavava irremediavelmente associada à velha “Nova República” de Sarney. E o PT dessa época achava que tinha uma reputação a zelar.

Eleito pelo nanico PRN, Collor deu de ombros para o PMDB. Na campanha, chamara Sarney de “ladrão”. Presidente do marketing de camisetas, achou que a companhia não lhe cairia bem.

Hoje, acomodado numa cadeira do Senado, Collor confraterniza-se com Sarney. Ontem, no Planalto, a perversão empurrou-o para o impeachment sem que houvesse do seu lado um PMDB para socorrê-lo.

Quando sentiu o chão fugir-lhe dos pés, Collor ainda se achegou ao então PFL. Era tarde. As ruas já gritavam defronte do palácio. Se buscasse uma aproximação tardia com o PMDB, talvez fosse rejeitado. Brigado com a academia e parte da mídia, hostilizado pelo asfalto e sem apoio congressual, Collor desceu ao verbete da enciclopédia de ponta-cabeça.

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Na presidência-tampão de Itamar Franco, as forças que ajudaram a escorraçar Collor foram convidadas a servir de estaca no Congresso. O PT recusou-se a atender. O PMDB aceitou gostosamente. No ano passado, em propaganda partidária institucional, o partido de Temer jactava-se de ter ajudado a aprovar o Plano Real, tricotado sob Itamar e implementado sob FHC.

Nos dois mandatos de FHC, o tucanato serviu-se da parceria com o PFL de ACM e Cia. e com o PMDB de Temer e sociedade ilimitada. Aprovou no Legislativo quase tudo o que quis. Inclusive a emenda da reeleição, untada por uma tal “cota federal” providenciada pelo então ministro Sérgio ‘Trator’ Motta, operador do PSDB.

Nas eleições de 2002, um Lula 13 anos mais maduro foi às urnas abraçado ao pretexto que o impedira de responder aos acenos daquele Ulysses de 1989: José Sarney. Nessa época, o PMDB estava trincado. Dividiu suas fichas.

A ala de Michel Temer apostou seu capital político no tucano José Serra. Enfiou-lhe na chapa, na posição de vice, Rita Camata, então deputada federal do PMDB. Guiando-se pelo faro que o tornou o político mais longevo em atividade, Sarney foi de Lula.

Eleito, Lula recusou os conselhos do grão-petê José Dirceu para que acomodasse sob o guarda-chuva do governo 100% do PMDB. Preferiu compor um consórcio partidário lastreado no PT e em legendas de porte médio. O arranjo desaguou no escândalo do mensalão.

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Reeleito em 2006, Lula deu o braço a torcer. Escaldado, cuidou de atrair para o seu lado, o pedaço do PMDB que havia rebarbado. Levou aos lábios uma palavra –“coalizão”- e uma promessa – “ministério dos sonhos”.

Coube ao então ministro petê Tarso Genro (Relações Institucionais), hoje governador gaúcho, redigir uma “nota de conjuntura” na qual o governo definia o “novo” modelo a ser adotado por Lula.

No texto, Tarso celebrava a tal coalizão como “um avanço democrático”, uma “renovação da cultura política do país”. Diferentemente do tradicional toma-lá-dá-cá, o governo anteciparia “os seus objetivos fundamentais”.

Ficariam “visíveis para a sociedade os compromissos entre os partidos.” E as legendas brindadas com representantes na Esplanada vinculariam “seu comportamento aos objetivos acordados” com o governo.

Ganha um cargo de ministro no governo Dilma Rousseff quem for capaz de enunciar um dos “objetivos acordados” por Lula com os partidos que se acotovelam até hoje por privilégios, cargos e verbas.

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Herdeira da encrenca, Dilma posou de durona durante todo o ano de 2011. Não agiu. Apenas reagiu ao noticiário. Mas passou a impressão de que governaria com a vassoura. Os “aliados” puseram em prática a política do “cá te espero”. De repente, como foliões retardatários, começaram a cantar uma velha marchinha: está chegando a hora… Hora do troco.

Para onde se voltar o observador, encontrará o rastro de um jogo de bancadas e personalidades à cata das melhores e mais vistosas posições. O PMDB não é o único insatisfeito. Mas o tamanho faz dele o mais perigoso.

Em conflito com a imagem que tenta cultivar, Dilma emite sinais de que começa a compreender o que se passa ao redor. Espremendo-se as cenas, chega-se a um sumo amargoso. Os partidos da pseudocoalizão tentam prevalecer uns sobre os outros. É uma espécie de cada um por si e todos contra o PT.

A eleição municipal potencializa as diferenças que os igualam. Como não há “objetivos acordados” sobre a mesa, resta a incômoda sensação de que todos estão à cata de vantagens que lhes assegurem o futuro político. Vantagens eleitorais misturam-se às pessoais.

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O memorando de Tarso Genro, já sugado pelos desvãos da história, falava de “renovação da cultura política do país”. Lula não fez senão render-se à tradição, aprofundando a mesmice. Se quisesse fazer diferente, Dilma iria à fogueira da tribo dos pemedebês, sob aplausos de pepês, pedetês, peérres e um interminável etc..

Quem vê o que aconteceu com o PMDB nos últimos anos, fica tentado a levar o pé atrás em relação à Teoria da Evolução pela Seleção Natural. Uma passada de olhos pelo quadro de lideranças do partido, que supostamente representa o que o PMDB tem de melhor, inspira constrangimento.

Lá atrás, no nascedouro da redemocratização, o PMDB tinha a cara de Ulysses Guimarães. Ficou com a cara do Quércia. Foi adornado com o bigode de Sarney. Ganhou a sobrancelha de Jader Barbalho, a lábia de Romero Jucá e a testa larga e brejeira de Renan Calheiros…

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Vivo, Charles Darwin diria que o PMDB converteu-se em prova política de que o ser humano parou de evoluir. Mas foi assim, afrontando a ciência, que aquele PMDB que combatera a ditadura –que a Arena de Sarney ajudava a disfarçar—, virou esse PMDB que acaba de esfregar na face de Dilma um manifesto de 53 dos seus 76 deputados federais e de comandar a primeira derrota indigesta do governo no Senado do pós-Lula.

Na sua época, FHC valia-se da erudição de sociólogo para justificar a combinação do moderno –o Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e etc.— com o arcaísmo da rendição aos maus costumes. Citava Max Weber e a ética da responsabilidade como álibi para as alianças e as concessões.

Certa vez, respondendo a um amigo que lhe perguntara o que aconteceria se desse as costas aos aliados tóxicos, FHC foi suscinto: “Eu caio”. Exagero? A julgar pelo que dizem seus auxiliares, Dilma ainda não parece disposta a pagar pra ver. Deve ficar no dicotômico morde-e-assopra que vem caracterizando o seu reinado.