Blog do Josias de Souza

CPI: PT dorme no presente e acorda no passado

Josias de Souza

Quente. Muito quente. Deve ser defeito no sistema de refrigeração do Congresso. A sala está um forno. O PT pede à assessoria que ligue para a administração. A resposta chega rápido: nada de errado com o ar-condicionado.

Camisa empapada, o PT ouve o PMDB anunciar: está aberta a sessão da CPI do Cachoeira. Espera um pouquinho. O que estou fazendo aqui? CPI é coisa do ex-PT! Fui dormir no presente e acordei no passado? Que será que andei fazendo?

O PT olha para a direita e enxerga Renan Calheiros. Eu bem que avisei, ele diz. O PT olha para a esquerda e vê Fernando Collor. Estamos juntos, ele solidariza-se. O PT apavora-se. Como é que eu vim parar aqui? Meu Deus!

O PT liga para o Planalto. Alguém tinha que explicar. Ideli, o que estou fazendo aqui? A coordenadora política de Dilma estranha: Hã?!? CPI, Ideli, estou numa CPI! O governo não se mete, vire-se, diz a ministra, batendo o telefone.

Atônito, o PT disca para Lula, que interrompe a sessão de fonoterapia. É isso mesmo, CPI! Esqueceu o que combinamos? A voz rouca ordena: O Marconi, o Demóstenes, a Veja. Pra cima deles! Vamos desmontar a farsa do mensalão!

Com o apoio do DEM, o PSDB anuncia os primeiros requerimentos de quebra de sigilo bancário e fiscal: Agnelo e Delta. A temperatura sobe. O PT corre ao microfone. Não, não, nada disso. O Marconi, o Demóstenes, a Veja.

O PT olha de novo para a direita. Eu disse que esse negócio não acabaria bem, diz Renan. O PT vira-se novamente para a esquerda. O importante é manter a calma, vai por mim. Eu rodei a baiana e deu no que deu, Collor ensina.

Pedro Taques, governista da ala ma non troppo, endossa os requerimentos do PSDB e os do PT. Tem que investigar tudo e todo mundo! Não podemos esquecer de varejar os contratos –da coleta de lixo no DF às obras do PAC.

Levado à CPI por generosidade do DEM, que lhe cedeu uma cadeira de suplente, o pissol Randolfe Rodrigues ecoa Taques. Isso mesmo. Investigação ampla, geral e irrestrita. Acomodado numa cadeira do PSDB, o pemedebê dissidente Jarbas Vasconcelos reforça: Tudo, todos e também o etcétera.

No comando da CPI, o PMDB não percebe o quórum baixo e leva a voto um pedido do PSDB. Aprovado. A assessoria da comissão põe para rodar no sistema de som o áudio captado em reunião de Fernando Cavendish com ex-sócios. A voz do dono da Delta flutua na atmosfera:

“Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”

O PT entra em pânico. O que estou fazendo aqui? Que diabos andei fazendo? Isso aqui é o inferno? E Renan, à direita: Não, é o purgatório. E Collor, à esquerda: No inferno, o STF julga o processo do mensalão e condena os 38 réus.