Cresce suspeita sobre venda da casa de Perillo
No mundo dos brasileiros convencionais, a operação de compra e venda de um imóvel é algo banal. Numa ponta, há o vendedor. Noutra, o comprador. Os dois acertam o preço. Faz-se o pagamento. E passa-se a escritura no cartório. No universo dos políticos, esse tipo de transação pode não ser tão simples. No caso do governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, a coisa evoluiu para o insondável.
Perillo tinha uma casa num requintado condomínio de Goiânia. Pôs o imóvel à venda. Pediu R$ 1,4 milhão. Informa que foi o empresário Walter Santiago (na foto), próspero dono da Faculdade Padrão, quem comprou a propriedade. Beleza. Só que, ao varejar os negócios da quadrilha de Carlinhos Cachoeira, a Polícia Federal deu de cara com três cheques esquisitos.
Foram assinados por Leonardo de Almeida Ramos, sobrinho de Cachoeira. Ao seguir a trilha do dinheiro, os investigadores verificaram que foi parar na conta bancária de Perillo. Juntos, os cheques somam R$ 1,4 milhão. Exatamente a cifra que o governador diz ter cobrado pela casa. Mas o comprador não era Walter Santiago?
Sim, foi o empresário quem comprou o imóvel, repetiu Perillo. Se os cheques vieram do sobrinho de Cachoeira, problema do comprador. O governador alegou que, em meio à azáfama que lhe impõe a rotina administrativa, não teve a oportunidade de verificar a procedência dos cheques. Quem cuidou da transação, disse Perillo, foi seu secretário particular Lúcio Fiúza. Beleza. Só que…
Ao prestar depoimento à CPI do Cachoeira, há duas semanas, o ex-vereador tucano Wladimir Garcez, lobista de Cachoeira e da empreiteira Delta, declarou que foi ele, não o doutor Walter quem adquiriu a residência de Perillo. Como não dispunha de R$ 1,4 milhão, tomou emprestado com Cachoeira e com Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta no Centro-Oeste.
Wladimir afirmou que não conseguiu pagar os empréstimos. Decidiu, então, repassar o imóvel ao empresário Walter. Confrontado com essa nova versão, Perillo não viu contradição com o que havia informado. Passou a dizer que o ex-vereador tucano não se apresentou a ele como comprador, mas como mero intermediário do dono da Faculdade Padrão. Beleza. Só que…
Nesta terça (5), compareceu à CPI o doutor Walter Santiago. Confirmou a versão de Perillo. Mas só até certo ponto. O ponto de interrogação. O empresário declarou que foi ele, sim, quem comprou a casa do governador. Porém, disse que pagou em dinheiro vivo. Heim?!? Isso mesmo, R$ 1,4 milhão em moeda sonante –"notas de R$ 50 e R$ 100", disse Walter aos membros da CPI.
Como explicar, então, a trinca de cheques emitidos pelo sobrinho de Cachoeira e reconhecidos por Perillo como fonte do pagamento da residência? "Desconheço os cheques. Paguei em dinheiro. Se recebeu cheques, não foi de mim", lavou as mãos o empresário Walter, ateando na CPI espanto generalizado.
O que já parecia apenas inexplicável ganhou contornos de inacreditável. Supondo-se que Walter diz a verdade, Perillo teria recebido pela casa não R$ 1,4 milhão, mas R$ 2,8 milhões –os cheques do sobrinho de Cachoeira, mais as "notas de R$ 50 e R$ 100" do empresário.
Repita-se: no universo atípico dos políticos, uma transação simples como a compra e venda de um imóvel pode ganhar contornos insondáveis. Perillo está convocado para prestar "esclarecimentos" à CPI no dia 12 de junho. Decerto dispõe de uma quarta versão, tão crível quanto as três anteriores, para despejar sobre o microfone.
– Atualização feita às 22h12 desta terça (5): A assessoria de Marconi Perillo enviou ao blog uma nota. No texto, afirma-se que o empresário Walter Santiago não contradisse o governador no depoimento que deu à CPI.
Diz a nota: "Só existe uma versão, a verdadeira, para o fato da venda da casa do governador Marconi Perillo, a que foi apresentada pelo governador, e confirmada integralmente nos depoimentos do sr. Wladimir Garcêz [há 15 dias] e do sr. Walter [agora]."
Nessa versão, Perillo pôs a casa à venda e o ex-vereador tucano Wladimir manifestou o desejo de comprar. Pediu dinheiro emprestado ao ex-diretor da Delta Cláudio Abreu. E repassou ao governador três cheques.
A nota acrescenta que Wladimir não conseguiu pagar o empréstimo e optou por repassar o imóvel ao empresário Walter, que "condicionou a efetivação do negócio à assinatura do sr. governador ou de seu representante legal e, também, solicitou que a escritura fosse lavrada em nome da empresa Mestra Participações."
Diz a nota que Lúcio Fiúza, o secretário particular de Perillo, "presenciou a entrega do dinheiro" de Walter a Wladimir. Os bolos de notas de R$ 50 e de R$ 100 teriam sido usados por Wladimir para liquidar o empréstimo que diz ter contraído. "Portanto, não há contradições nos depoimentos realizados", escreve a assessorial do governador. Então, tá!
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