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Josias de Souza

Marisa: Lula ‘não tem interesse’ em candidatura

Josias de Souza

14/08/2012 05h50

A ex-primeira-dama Marisa Letícia disse que o marido "não tem interesse" em disputar novamente a Presidência da República em 2014. Em maio, Lula dissera que, se Dilma Rousseff não desejasse recandidatar-se, ele poderia se animar. "Não vou permitir que um tucano volte à Presidência do Brasil", afirmara.

Segundo Marisa, "foi uma brincadeira" de Lula. Em conversa com a repórter Karen Marchetti, ela disse que "Dilma é quem deve disputar a reeleição." Acha que a sucessora do marido "está fazendo um bom governo, com boa aprovação." De resto, Marisa jura que, longe de Brasília, sua vida "mudou para melhor." Disponível aqui, a entrevista vai reproduzida abaixo:

– Como está sua vida após deixar a presidência? Mudou muito a sua rotina?
 Mudou para melhor. Gostei muito de ser a primeira-dama durante os oito anos. Mas hoje posso pensar mais em mim e na minha família. Como primeira-dama, tinha de cumprir uma agenda e agora posso focar mais no particular, diferentemente de quando estava na Presidência. Era muita pressão e exigia muito de mim. Por isso falo que hoje é melhor. Hoje foco a minha vida na minha agenda e me dedico ao meu marido, filhos e netos.

– Como primeira-dama, o que foi importante durante os oito anos?
Foi uma experiência inexplicável. Tive a oportunidade de conhecer o mundo todo. O Brasil eu já conhecia, quando fiz a Caravana da Cidadania e nas campanhas de Lula. Mas eu não conhecia o mundo e tive essa grande oportunidade, mesmo com as agendas oficiais. O importante disso tudo foi ver a transformação no País durante esses oito anos e a valorização do nosso povo. Ninguém vai esquecer desse homem (Lula). O Brasil mudou e para melhor. O povo brasileiro é respeitado no mundo todo e isso mudou durante as duas gestões de Lula. O povo ser respeitado é o meu e o nosso grande orgulho. Lutamos tanto e conseguimos. Não fizemos para nós, fizemos para o povo. Vai ficar para história. Não tem jeito. Foi uma experiência de vida e que valeu a pena toda dificuldade e luta que fizemos.

– Em São Bernardo, a senhora tem participado de eventos oficiais e é anunciada como uma liderança política. A senhora se reconhece como uma liderança?
Eu não vou para este lado de ser uma liderança política. Eu gosto de fazer e trabalhar. Ser uma militante mesmo. Muitos falam que deveria me candidatar e participar de fato da vida política, mas eu não gosto. O meu interesse é ajudar, trabalhar e ser uma militante. Sempre gostei de política, ajudei a criar o PT, ajudei a criar a bandeira, participei de reuniões importantes e momentos históricos do partido, mas como Marisa militante e não como liderança.

– Na descoberta do tumor na laringe do Lula, qual foi a sua reação e o que pensou naquele momento?
Foi muito difícil. Na verdade, um dos mais difíceis da minha vida. Nem me fale dessa doença. Tudo nessa vida é difícil, mas se você tem força, luta e sai da dificuldade. Diferente de uma doença, que não depende só da gente. A gente fica refém da doença. E a descoberta do câncer foi difícil e me abalou muito. Mas estava firme e forte ao lado de Lula. Foram cinco meses de tratamento sem passear, sem sair e no pé. O momento mais difícil para mim foi quando Lula não podia comer. Eu o proibi de falar, mas ficar sem comer mexeu muito comigo.

– Foi difícil segurar o Lula para evitar os excessos durante o tratamento? Muito. Eu que tive que segurar as rédeas. Dizer não para muitas coisas e muita gente. Falei para muitos amigos não irem em casa, porque o Lula não iria receber ninguém. Os médicos me pediam isso, porque o Lula não podia falar e estava um pouco fraco, pois não podia comer. O Lula estava sempre de mau humor e não era porque ele queria estar, mas era uma das consequências dos remédios. Neste período fui muito rude com os amigos, mas agora estamos todos de bem. Eles entenderam o motivo.

– A cura da doença e a liberação dos médicos foram recebidos com alívio por vocês? A senhora avalia que Lula está bem para dedicar-se à campanha? Recebemos a notícia com muita alegria e alívio. Sempre acreditamos na recuperação, mas foi muito bom ter essa liberação. Lula tem de retomar a agenda e participar da campanha, senão ele fica doente dentro de casa. Agora que os médicos liberaram, tenho de soltar ele. Antes, os próprios médicos pediam para eu segurar, agora não tem mais jeito. É claro que a agenda não será tão sacrificada. Será uma programação que ele possa ter um tempo para ele. Ele vai ter um tempo pela frente para se restabelecer. Os médicos liberaram o Lula para campanha, mas pediram bom senso. Esses dois meses de campanha são para a garganta desinflamar. Vamos fazer uma reunião e a agenda mesmo será definida nos próximos dias. Por enquanto, não temos datas e locais.

– Na sua avaliação, o Lula deveria disputar outra eleição para presidente ou qualquer outro cargo?
Não. Ele também não tem interesse. Há alguns meses ele falou brincando que se a Dilma não quiser, ele sairia, mas foi uma brincadeira. Lula não precisa mais disputar eleição. Dilma é quem deve disputar a reeleição. Está fazendo um bom governo, com boa aprovação. Ela está ótima e representando bem as mulheres.

A senhora lembra como foi a última noite antes de Lula ser empossado presidente da República e da última noite antes de deixar a Presidência?
Foi um mix de emoção nessas duas noites. Antes da posse de presidente, foi mais chocante. Não estávamos acreditando. A gente falava, me belisca para ver se é verdade. Na primeira noite no Palácio, não dormi. Era tudo muito grande e era uma euforia. Mas deu tudo certo, era trabalho e trabalho. Por isso, quando fomos passar a faixa para Dilma, foi mais fácil. Diferentemente da posse, na última noite em Brasília conseguimos dormir.  Sempre soube que o Palácio não era a minha residência. A minha casa é em São Bernardo. Eu e o Lula saímos de cabeça erguida. Sentimos falta no começo, porque trabalhamos muito, mas logo depois Lula começou a trabalhar no Instituto Lula e teve uma agenda lotada.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.