Blog do Josias de Souza

PT pós-mensalão começa e termina em Dilma

Josias de Souza

Surpreendidos com os primeiros veredictos que saltam do plenário do STF, os principais operadores do PT dividem-se entre a indignação e a perplexidade. Revoltam-se porque enxergam um quê de política no julgamento. Espantam-se porque se deram conta de que, ao subestimar o escândalo, não se prepararam para lidar com os danos.

Na base do improviso, o PT reage a esmo aos ataques da oposição, prepara a assimilação de eventuais prejuízos na eleição municipal de 2012 e olha para o itinerário de 2014 como uma oportunidade de rearranjo. Uma oportunidade que Dilma Rousseff cuida de aproveitar. Distanciando-se do problema, a presidente apresenta-se como solução.

Até os petistas que torcem o nariz para Dilma passaram a enxergar no sucesso do governo dela um bom recomeço para a fase pós-mensalão. A alternativa seria Lula. Mas ele já não exibe as condições físicas de antes e é tomado a sério quando diz que só um Apocalipse econômico o faria apresentar-se como re-re-recandidato. Menos por gosto e mais pelo desejo de evitar o ressurgimento da oposição.

De tanto referir-se ao mensalão como uma ‘lenda’, o PT tornou-se uma legenda que encontra paralelos mais adequados na ficção do que na realidade. Ernest Hemingway oferece boa matéria prima para comparações.

Ponto mais alto da África, uma montanha serviu de inspiração para Hemingway. Em ‘As Neves do Kilimanjaro’, o escritor anotou: “O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.”

O leopardo de Hemingway já foi usado como símbolo de muitas coisas –do espírito de aventura à busca do inatingível. Num instante em que o STF está prestes a condenar petistas do porte de José Dirceu e José Genoino, o leopardo de Hemingway também pode simbolizar o instinto suicida que levou o PT da defesa intransigente da ética à porta da cadeia.

Ao dissecar a carcaça do ex-PT, os ministros do Supremo já deixaram assentado: 1) o partido desviou verbas públicas para as arcas espúrias operadas pela dupla Marcos Valério-Delúbio Soares. 2) os pseudo-empréstimos do Banco Rural não passaram de transações simuladas destinadas a dar aparência limpa a um dinheiro que era sujo. 3) quem levou a mão à cumbuca incorreu em corrupção.

Diferentemente do PT, Dilma preparou-se para enfrentar a encrenca com método. Enxerga-se como uma parte boa do escândalo. Em 2005, nas pegadas da delação de Roberto Jefferson, foi deslocada da pasta de Minas e Energia para a Casa Civil para dar ao primeiro reinado de Lula uma cara diferente da máscara de José Dirceu.

Agora, Dilma toma distância do julgamento e dedica-se a evitar que seu governo vire o pesadelo econômico que frequenta o sonho dos seus potenciais antagonistas –um declarado: Aécio Neves (PSDB). Outro insinuado: Eduardo Campos (PSB). Dilma irritou-se com um comentário de Joaquim Barbosa que a fez desviar-se de seu plano original.

Dilma decidira que não diria palavra sobre o trabalho do STF. De repente, o relator do processo serviu-se de um depoimento prestado por ela em juízo, em 2009, para corroborar a tese de que houve compra de votos no Congresso. Barbosa leu o trecho em que Dilma declarou-se “surpresa” com a rapidez que o Legislativo imprimiu à tramitação do novo marco regulatório do setor energético proposto no alvorecer do primeiro mandato de Lula.

Abespinhada, Dilma viu-se compelida a manifestar-se. Em nota, esclareceu que sua surpresa deveu-se à rapidez com que as lideranças políticas, inclusive as da oposição, “compreenderam a gravidade do tema”. Evocando o apagão da Era FHC, que empurrara o país para um racionamento de energia, ela enfatizou: “Ou se reformava ou o setor quebrava. E, quando se está em situações limites como esta, as coisas ficam muito urgentes e claras”.

Sem entrar no mérito dos dois conceitos que estão em jogo no STF –caixa dois de campanha ou compra de apoio?— Dilma informou aos magistrados, à sua maneira, que eles devem tirar suas conclusões sem envolvê-la na confusão. Fez média com o PT sem dissociar-se do propósito de manter sua colher longe do caldeirão que ferve no Supremo.

Dilma está decidida a demonstrar que roda noutra sintonia. Olha para o parabrisa. Avalia que o retrovisor é problema de quem conduziu o leopardo ao suicídio da montanha gelada. Opera para tentar chegar a 2014 em triunfo. Recebe da área econômica dados alvissareiros.

Foi informada de que o PIB do terceiro trimestre de 2012 crescerá algo como 1% em relação aos três meses anteriores. Algo que projetaria uma taxa anualizada na casa dos 4% e esboçaria um início promissor para o ano pré-eleitoral de 2013.

Sem abrir mão da aposta na retomada do crescimento pela via da potencialização do consumo, Dilma diversifica o receituário. Supera os próprios limites ideológicos ao conceder empreendimentos de infraestrutura à iniciativa privada, promete baixar a conta de luz, abre guerra contra os juros bancários…

Tudo isso sem cair na velha tentação, tão comum na política, de tornar-se mais uma criatura que se volta contra o criador. Não dá um passo sem consultar-se com Lula. Os dois conversam pelo telefone amiúde. Encontram-se pelo menos uma vez por mês. A fidelidade da sucessora faz de Lula um entusiasta da reeleição dela. E converte o PT numa espécie de cultor do êxito daquela que, em 2010, teve de engolir a seco.

Dilma tornou-se protagonista do drama do seu partido. Ela representa o começo e o término do PT pós-mensalão. Oferece à legenda um horizonte para 2014. Mas a escassez de lideranças alternativas não permite ao petismo enxergar na fase seguinte senão o imponderável.

Supondo-se que Dilma consiga prevalecer sobre a crise econômica, terá boas chances de impedir que a oposição aniquilada por Lula faça do mensalão uma plataforma para a ressurreição. Nessa hipótese, afora a fadiga de material que o poder longe produzirá, o PT chegará a 2018 como um cemitério de velhos leopardos e líderes regionais. Gente que almeja a pompa mas tropeça nas circunstâncias.