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Josias de Souza

Eleição de Fortaleza virou guerra de caciques

Josias de Souza

23/10/2012 16h51

Candidatos à prefeitura de Fortaleza, Roberto Cláudio (PSB) e Elmano de Freitas (PT) tornaram-se coadjuvantes das próprias campanhas. A disputa converteu-se em guerra de caciques. De um lado, o governador cearense Cid Gomes, padrinho de Roberto. Do outro, a prefeita Luizianne Lins, madrinha de Elmano.

Deve-se a Cid Gomes a explicitação do embate. Provocada, Luizianne reagiu. A encrenca foi inaugurada com um pedido de licença do governador. Cid afastou-se do cargo para assumir, em tempo integral, o papel de cabo eleitoral do pupilo Roberto. Foi aos holofotes armado de flecha e curare (assista no vídeo acima).

Alvejou Luizianne: "Ela não gosta de trabalhar e passa o tempo fazendo confusão", disse. Deixou bem claro que desceu do posto de governador para exercitar como "cidadão" o direito de criticar a madrinha de Elmano. "Depois de ser prefeita, que importância eka tem? Ela é vaidosa demais, é arrogante demais, é personalista demais, e nada que não seja um espelho pra ela tem valor."

Cid disse que, em nome da boa convivência, guardava para si as ressalvas a Luizianne. Decidiu destampar o caldeirão, segundo disse, para evitar o risco de o manter por mais quatro anos na prefeitura de Fortaleza o "estilo" da madrinha de Elmano. Um estilo que teria privado o morador da cidade de obras relevantes.

"Com a Luizianne, tivemos muitas ações que deixaram de ser feitas, que foram atrasadas ou que sofrem dificuldades. Isso por conta de uma postura que, infelizmente, me parece essa coisa: não consegue fazer e não quer que os outros façam", atacou Cid.

A prefeita classificou os ataques do governador de "desespero". Insinuou que Cid recorre à "baixaria" porque o petista Elmano tornou-se um antagonista competitivo. Para negar a pecha de encreiqueira, disse ter evitado fazer críticas ao governador quando ele viajou à Europa, em missão oficial, com a sogra na comitiva. Calou-se "por respeito, por ele ser governador."

Criticou a decisão do seu desafeto de trocar os afazeres de governador pela refrega eleitoral. Ironizou: "Tudo bem que ele foi a Paris no mês passado, em plena seca no Estado do Ceará. No entanto, num momento desses, quando a pressão aumenta, tirar novamente férias é extremamente complicado."

PT e PSB divergem em várias praças. Em Fortaleza não é bem assim. Ali, os caciques das duas legendas já nem se falam.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.