Topo

Josias de Souza

Como no Titanic, Brasília afunda com orquestra

Josias de Souza

15/07/2015 06h04

.

Reunidos no gabinete da presidência do Senado, os líderes partidários esperavam Joaquim Levy. Como o ministro da Fazenda demorava a chegar, o senador Omar Aziz (AM), líder do PSD, lançou uma interrogação no ar: "Como é, minha gente, nós vamos fazer de conta que não está acontecendo nada?"

Brasília vivia uma terça-feira de Titanic. Agentes federais varejavam endereços de políticos. Entre eles três senadores: Fernando Collor (PTB-AL), Ciro Nigueira (PP-PI) e Fernando Bezerra (PSB-PE). E os líderes simulavam normalidade. Mais ou menos como os passageiros do célebre transatlântico, que desfrutavam do som da orquestra enquando a água invadia as escotilhas.

Antes que a pergunta de Aziz fosse respondida, chegou à sala o ministro da Fazenda. E a prosa mudou de rumo. Horas depois, Renan Calheiros leria no plenário do Senado uma nota de repúdio à ação dos agentes da PF. Chamou de "invasão" o cumprimento de ordens de busca e apreensão emanadas do STF. Suas palavras soaram como o comando do maestro do Titanic para que a orquestra continuasse tocando.

A cinco quilômetros dali, Lula almoçava no Palácio da Alvorada com Dilma Rousseff e alguns de seus ministros petistas: Aloizio Mercadante (Casa Civil), Edinho Silva (Comunicação Social), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) e Jaques Wagner (Defesa). Com água pela cintura, disse-lhes que a Lava Jato é assunto para o PT, não para o governo.

Lula aconselhou Dilma e os ministros a trocarem os gabinetes pela estrada. Acha que devem se tornar espécies de caixeiros-viajantes, propagando aos quatro ventos o que o governo faz de "bom". Regente dos regentes, o criador de Dilma finge não notar que o desnível no chão do navio não decorre da má qualidade do champanhe.

A verdade é que o rombo no casco do governo Dilma foi aberto na administração Lula. Ele se cercou de aliados idealistas. Gente como Collor, Renan e um interminável etcétera. A Lava Jato, com seus 18 delatores, demonstrou que todo esse idealismo estava impulsionado pela mesma invenção que já havia produzido o mensalão: o dinheiro.

O enredo de Titanic, o filme, é sobre um homem, uma mulher e um iceberg. Na sua versão brasiliense, o script é parecido: o criador, a criatura e os aliados que ajudam a puxar para o fundo o mito da superioridade moral. Nunca antes na histór… glub…glub…glub…

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.