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Josias de Souza

Temer perde recato no epílogo do impeachment

Josias de Souza

03/08/2016 03h35

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Michel Temer perdeu na reta final do impeachment algo que parecia prezar nas suas maquinações: o recato. Combinando dois elementos que costumam ser tóxicos na política —pressa e autoconfiança— investiu-se de um desembaraço que produziu, em poucas horas, dois desastres:

1. Sem sopesar os custos e os benefícios, Temer estrelou uma coreografia para apressar a descida da lâmina que aguarda Dilma Rousseff no plenário do Senado. Na noite de segunda-feira, num jantar na casa do ministro Gilmar Mendes (TSE e STF), Temer manifestou a senadores presentes seu desconforto com a hipótese de o julgamento de Dilma escorregar para os primeiros dias de setembro. Disse que recorreria aos bons préstimos do mandachuva do Senado, Renan Calheiros, para se certificar de que a guilhotina seria acionada até o final de agosto. Com isso, produziu o primeiro desastre: amarrou seu interesse pessoal à ficha corrida de Renan, dono de impoluta biografia.

2. No almoço de terça-feira, Temer dividiu a mesa com Renan e outros quatro pajés do PMDB: Jucá, Eunício, Padilha e Geddel. Mal terminou o repasto, Renan tocou o telefone para o presidente do STF, Ricardo Lewandowski. Na sequência, o senador trombeteou que o juízo final de Dilma começaria em 25 ou 26 de agosto, não no dia 29, como informara o STF no último sábado. Ao justificar-se, Renan soou como porta-voz do Brasil limpinho: "Há uma impaciência da sociedade com essa demora, inclusive a própria presidente Dilma. Ela me falou que não aguenta mais…" O empenho de Renan para fechar a conta do impeachment em agosto faz dele um credor de Temer. O pagamento será publicado no Diário Oficial. Segundo desastre: Temer nomeará para o posto de ministro do Turismo um apadrinhado de Renan. Por ora, está na fila o deputado alagoano Marx Beltrão, réu no STF.

Na noite de terça, em conversa com o senador Raimundo Lira, presidente da Comissão do Impeachment, Lewandowski disse que o julgamento de Dilma pode até começar no dia 25, como reivindicou Renan. Mas não autorizará sessões no final de semana. Para sorte de Temer, o presidente do Supremo limitou o número de testemunhas a serem ouvidas no plenário a dez —cinco de cada lado. Assim, a pressa talvez resulte num encurtamento do processo em dois ou três dias. Parece pouco. Sobretudo levando-se em conta o déficit estético do enredo. Na Câmara, Temer prevaleceu abraçado a Eduardo Cunha. No Senado, acaba de atracar-se voluntariamente a Renan Calheiros. Quem olha de longe fica com a impressão de que o novo governo é apenas um cadáver do velho.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.