Blog do Josias de Souza

Temer e Dilma levam à internet vídeos antagônicos sobre o ‘Dia da Mulher’

Josias de Souza

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Michel Temer e Dilma Rousseff penduraram na internet mensagens sobre o Dia Internacional da Mulher. Os dois vídeos têm conteúdo antagônico. A presidente deposta subiu no caixote: “No Brasil, estamos na resistência contra o desmonte das políticas criadas nos nossos governos democráticos.” Seu substituto constitucional, como que adivinhando o que estava por vir, soou como se buscasse uma auto-imunização: “Nós estamos providenciando um fundo de combate a violência contra a mulher.”

No dizer de Dilma, Temer destrói “políticas feitas para enfrentar a violência, promover a autonomia econômica e assegurar direitos sociais a todas as mulheres.” Guiando-se por seus autocritérios, Temer faz da proteção às mulheres uma causa de vida: “Graças a Deus, eu tenho tido uma presença ao longo da minha história razoavelmente forte em relação ao direito da mulher. Basta relembrar que, nos idos de 1985, eu, secretário da Segurança Pública de São Paulo, criei a primeira Delegacia de Defesa da Mulher. […] Quando cheguei à Câmara dos Deputados, criei a Procuradoria Parlamentar da Mulher.” Absteve-se de dizer que, chegando ao Planalto, não nomeou uma mísera ministra. Pressionado, confiou duas pastas a mulheres, num total de 28: Advocacia-Geral da União e a recém-recriada pasta de Direitos Humanos.

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Dilma realçou a natureza reivindicatória da data: “Em todo o mundo, as mulheres paralisam suas atividades pelo fim da violência de gênero, contra o racismo e todas as formas de discriminação. As mulheres vão às ruas contra os modelos econômicos neoliberais, que promovem a desigualdade e excluem as mulheres.”

A primeira presidente eleita e deposta no Brasil não se deu conta. Mas não há tantas mulheres nas ruas brasileiras. Em São Paulo, elas precisaram de um reforço das corporação dos professores para vitaminar uma manifestação contra a reforma da Previdência. Talvez tenham sido alcançadas pela recessão histórica resultante das barbeiragens econômicas da ex-gerentona do PT. Nunca antes na história do país o PIB amargara um tombo de 7,4% em dois anos. Muitas mulheres podem estar mais preocupadas em recuperar um contracheque que lhes permita encher a geladeira do que em pegar em lanças contra o neoliberalismo.

Enquanto cuida dos netos em Porto Alegre, Dilma avisa: “Nós vamos lutar contra o retrocesso, vamos resistir ao golpe e lutar pela democracia que nós construímos, com a participação de nós, mulheres, como protagonistas conscientes do nosso papel histórico. Estamos, sim, na luta por mais avanços e por uma sociedade sem preconceitos…” Temer, despreconceituosamente, enalteceu o trabalho da capitã Carla, comandante do avião presidencial. “Quando ela pilota, os aviões descem com mais suavidade. Isto significa a presença da mulher nas mais variadas atividades. Sempre com justo profissionalismo e com muito sucesso.”

Mais cedo, discursando em evento alusivo à data, Temer espantara a plateia. Em pleno século 21, ele dera a entender que o local onde a mulher desempenha o seu melhor papel é em casa: ''Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.''

Quer dizer: considerando-se as poses feitas por Dilma e Temer, fica demonstrado que o oportunismo independe de gênero.