Blog do Josias de Souza

Gravação revela uma solidariedade de investigados entre Temer e seu delator

Josias de Souza

O diálogo entre Michel Temer e Joesley Batista revela mais do que uma simples troca de ideias sobre interesses mútuos. Gravada sem que o inquilino do Palácio do Jaburu suspeitasse, a conversa expõe uma solidariedade fraternal entre dois personagens encrencados. O dono do Grupo JBS revela preocupação com os rumos do processo que pode resultar na cassação do mandato do Temer no Tribunal Superior Eleitoral. E o presidente consola Joesley depois de ouvir um relato sobre as investigações criminais que iluminam seus calcanhares de vidro.

“E no TSE, como está?”, pergunta Joesley a certa altura. “O negócio tá com o Herman Benjamin agora”, responde o presidente, referindo-se ao relator do processo que questiona a legitimidade da eleição da chapa Dilma-Temer. Benjamin deve votar a favor da lâmina. “Um troço meio maluco”, disse Temer, como que intuindo o que está por vir. “Acho que não passa o negócio da minha cassação”, completou, seguro de que seu pescoço não corre riscos.

O presidente parece confiar na “consciência política” dos ministros do TSE. “Porra, mais um presidente”, afirmou, como se duvidasse da ousadia dos magistrados de afastá-lo nas pegadas da deposição de Dilma Rousseff. De resto, Temer contou a Joesley sobre a tática da barriga. Se for cassado. “tem recurso no Supremo”, disse. “E, até aí, já terminou o mandato.” O dono da JBS exultou: “Então tá bom, puta que pariu!”

Nesse ponto, Temer ofereceu o ombro ao amigo: “Os aborrecimentos que você tá tendo também, né?” E Joesley, fazendo pose de malabarista: “É duro, presidente, pelo seguinte: igualzinho o senhor aqui também, a gente fica equilibrando os pratos.” Em timbre lamurioso, o dono do maior frigorífico do mundo disse a Temer que, não bastasse ter que tocar os negócios, enfrentando nos Estados Unidos uma concorrência dura de roer, “tem que parar por conta de resolver coisa” relacionada às investigações criminais.

O visitante relatou a Temer uma hipotética conversa que tivera com um procurador da República. Após narrar um calvário que submete seu grupo empresarial aos efeitos dos “solavancos” das ações penais, arrematou: “Da última vez eu falei: faz um favor pra mim, me denuncia de alguma coisa. E ele disse: ‘Mas não tenho nada pra denunciar’. Então, inventa. Pára, porque eu não aguento. Se o senhor ficar desse jeito, o senhor vai me quebrar. Puta que pariu. Mas tudo bem. Nós somos do couro grosso, né? Vamos lá.”

Sem saber que oferecia matéria-prima para um futuro delator, que escondia um gravador no bolso do paletó, Temer soou como se consolasse um familiar querido: “Vai passar. Vai passar. Não vai ficar a vida toda assim, né?” Aconteceu no Palácio do Jaburu. Mas poderia ter ocorrido em qualquer mesa de boteco.