Blog do Josias de Souza

Arquivo : setembro 2016

Ascensão de Dória reforça projeto Alckmin-2018
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Josias de Souza

Eduardo Knapp/FolhaNenhuma outra candidatura municipal está tão diretamente vinculada a um projeto nacional quanto a de João Doria. Içado pelo eleitorado à liderança na disputa pela prefeitura de São Paulo, Doria leva junto consigo para a primeira colocação nas pesquisas a pretensão do seu padrinho político, Geraldo Alckmin, de assumir a primeira colocação na fila de opções presidenciais do PSDB para 2018.

Alckmin atravessou Doria na traqueia de alguns dos principais líderes do tucanato paulista —entre eles Fernando Henrique Cardoso e José Serra, que apoiavam Andrea Matarazzo. Antes de arrastar suas fichas, o governador paulista muniu-se de pesquisas que apontavam seu afilhado como um poste leve, com baixas taxas de rejeição e boas perspectivas de crescimento.

Doria tem a exata noção do seu papel. Na semana passada, ao despontar no Datafolha pela primeira vez numericamente à frente dos seus rivais, o poste discursou num ato de campanha com os olhos voltados para o gerador de onde vem sua energia: “Venho para ajudar a consertar, junto com as pessoas de bem, como o governador Geraldo Alckmin. Que, se Deus quiser, com a nossa força e a nossa vitória, vai ser conduzido, sim, à Presidência da República em 2018.”

Disputam com Alckmin a vaga de presidenciável do PSDB o senador Aécio Neves, cujo prestígio está enganchado em inquéritos da Lava Jato, e o ministro José Serra, que também já foi citado em delações tóxicas e tem o velho sonho de chegar ao Planalto condicionado ao êxito da presidência-tampão de Michel Temer.


Lava Jato vira do avesso consultoria de Palocci
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Josias de Souza

Nas palavras de um integrante da força-tarefa de Curitiba, a Lava Jato vai virar do avesso a empresa Projeto Consultoria Empresarial e Financeira Ltda.. Tem sede em São Paulo. Pertence ao ex-ministro petista Antonio Palocci, preso nesta segunda-feira. Apura-se a suspeita de que dinheiro de propina passou pela caixa registradora da firma.

Ironicamente, parte da matéria-prima que ajuda os investigadores a varejarem a empresa de Palocci foi produzida pelo Ministério da Fazenda, a pasta que ele comandou no primeiro mandato de Lula. Afora dados colecionados pela Receita Federal, há pelo menos um relatório do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, outro órgão da Fazenda, que fiscaliza operações bancárias atípicas.

Datado de 23 de outubro de 2015, o documento do Coaf veio à luz em 31 de outubro do ano passado, em notícia produzida pelo repórter Thiago Bronzatto. Chama-se Relatório de Inteligência Financeira 18.340. Tem 32 páginas. No trecho dedicado a Palocci, informa que passaram pelas contas bancárias da consultoria Projeto R$ 216 milhões entre entradas e saídas, desde junho de 2011.

Anotou-se no texto do Coaf que as contas da empresa Projeto “não demonstram ser resultado de atividade ou negócios normais, visto que utilizadas para recebimento ou pagamento de quantias significativas, sem indicação clara de finalidade ou relação com o titular da conta ou seu negócio.”

O Coaf resumiu os informes que recebeu da rede bancária: “A empresa Projeto, Consultoria Empresarial e Financeira Ltda […] foi objeto de comunicações de operações financeiras […] com valor associado de R$ 216.245.708,00, reportados no período de 2008 a 2015, dos quais R$ 185.234.908,00 foram registrados em suas contas correntes e o restante em contas de terceiros…”

Numa das transações, a empresa de Palocci recebeu R$ 5.396.375 da montadora de automóveis Caoa, investigada noutra operação policial, a Zelotes. Além de Palocci, “o italiano” das planilhas do departamento de propinas da Odebrecht, o relatório do Coaf revela movimentações bancária suspeitas de outros personagens sob investigação policial. Entre eles Lula e mais dois ex-ministros petistas: Fernando Pimentel (Desenvolvimento), hoje governador de Minas, e Erenice Guerra (Casa Civil), na mira de Curitiba. Juntos, movimentaram notáveis R$ 297,7 milhões.


Vidente!
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Josias de Souza

– Charge do Samuca, via ‘Diário de Pernambuco’.


Temer se irrita, se aborrece, se zanga… E nada!
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Josias de Souza

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Michel Temer vai se revelando um presidente facilmente irritável. Abespinhou-se um par de vezes com o ministro da Saúde, Ricardo Barros. Aborreceu-se com o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira. Impacientou-se com fulano. Agastou-se com beltrano. Zagou-se, por penúltimo, com o titular da pasta da Justiça, Alexandre Moraes. Superior hierárquico da Polícia Federal, ele avisou no domingo que a Lava Jato retornaria às ruas nesta semana.

Consumada a prisão do petista Antonio Palocci, a assessoria de Temer fez saber aos repórteres que o chefe estava tiririca. A zanga de Temer não ornou com o timbre ameno que usou ao conversar com o ministro pelo telefone. Combinou-se que Alexandre, o grande indiscreto, se reposicionaria em cena. Ele se absteve de fazer uma autocrítica. Preferiu acusar a imprensa de interpretar incorretamente sua fala. Quem assiste ao vídeo disponível lá no alto percebe que o caso dispensa interpretações.

Ligado ao tucanato, o ministro participava de um ato de campanha do PSDB em Ribeirão Preto, cidade de Antonio Palocci. Dirigindo-se a militantes anti-petistas, anunciou a ação policial. Chegou mesmo a dizer que seus interlocutores se lembrariam dele quando a coisa se materializasse. Com isso, forneceu matéria-prima para que o PT acuse o governo de manipular politicamente a Lava Jato. Pode dar quantas explicações quiser. Nenhuma sera capaz de apagar a certeza de que deu um tiro no pé… de Temer.

Nesse tipo de assunto, não há segredo. O presidente preside. E seus ministros seguem suas orientações. Se o ministro discorda dos desejos do chefe, pede para sair. Se faz o contrário do combinado, é mandato embora. Quando o presidente se irrita com seus ministros e eles vão ficando nos cargos, a irritação torna-se o caminho mais curto para a desmoralização.


Lava Jato vai da cozinha à sala de estar do PT
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Josias de Souza

Danilo Verpa/Folha

A Lava Jato, que havia ingressado no PT pela entrada de serviço, chegou à sala de estar. Forçava a porta desde a prisão de José Dirceu. Arrombou-a com a conversão de Lula em réu. Agora, levanta o tapete que esconde a sujeira administrada pelos ex-ministros Antonio Palocci e Guido Mantega. Escapam pelas bordas contas secretas, pacotes, fraudes e transações legislativas.

Preso nesta segunda-feira, Antonio Palocci é um companheiro de mostruário. Teria sido presidente da República no lugar de Dilma não fosse sua mania de viver perigosamente. Quando escalou as manchetes nacionais, em 2002, Palocci já trazia atrás de si um rastro de transações pegajosas do tempo em que fora prefeito de Ribeirão Preto.

Guindado à chefia da pasta da Fazenda, domou a febre especulativa que ameaçava a estabilidade da economia na transição do ocaso de FHC para o alvorecer de Lula. Quando parecia consolidar-se na fila das opções presidenciais, foi arrancado do pedestal, em 2006, por um escândalo em que se misturavam o lixo mal administrado de sua ex-prefeitura, grampos, dinheiro por baixo da mesa e amigos que haviam fundado numa casa alugada em Brasília a República de Ribeirão Preto.

Palocci jurou várias vezes que não frequentara a sucursal brasiliense de Ribeirão, onde negócios eram tançados em meio aos lençóis. Foi desmentido pelo caseiro Francenildo. Demitido, foi pedir votos em São Paulo. Jamais retornaria à lista de presidenciáveis do PT. Porém, eleito deputado federal, livrou-se da acusação de quebra do sigilo bancário do caseiro, num julgamento que não honra as melhores tradições do Supremo Tribunal Federal.

A Lava Jato informa que, dentro ou fora do governo, Palocci manteve-se à frente de sua  missão estratégica de cupido das boas relações do PT com o empresariado que se encantou com o socialismo companheiro. Em determinados momentos, teve o auxílio luxuoso de Guido Mantega. Mas não perdeu o protagonismo. Apenas com a Odebrecht, imforma a força-tarefa de Curitiba, Palocci geriu uma espécie de “conta corrente” que sorveu do Estado R$ 128 milhões em propinas.

A verba suja escorreu inclusive no ano de 2011, quando Palocci teve uma passagem relâmpago pela Casa Civil de Dilma. Caiu antes de fazer aniversário de seis meses na função, quando os repórteres Andreza Matais e José Ernesto Credendio noticiaram que acumulava um patrimônio incompatível com seus contracheques. Coisa de R$ 7,5 milhões. Dinheiro de troco, perto do que se descobriria depois. Alegou ter enriquecido com o trabalho de sua empresa de consultorias.

A exemplo de José Dirceu, Palocci naufragou no socialismo à moda petista, com excesso de capital. Os investigadores avançam agora da sala de estar em direção ao porão do PT, onde estão guardados os segredos da caixa das campanhas de Dilma e da prosperidade da ex-presidência de Lula.


‘Vou fazer turnê’ para lançar livro, declara Cunha
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Josias de Souza

Sem mandato, Eduardo Cunha corre contra o relógio para preparar seu livro sobre o impeachment, a ser lançado no final do ano. “Vou lançar em Brasília, disse ele, em entrevista ao Valor. “Depois, todas as capitais e grandes cidades. Vou fazer turnê.” Ainda que Dilma Rousseff resolva contar a mesma história, Cunha avalia que seu roteiro será mais completo. “A Dilma pode até fazer um livro. Mas só pode contar a ótica dela. Eu posso contar a ótica de quem fez o impeachment.”

Cunha ainda não sabe quem editará a versão impressa do livro. Mas já escolheu a editora da versão eletrônica: “O digital devo fazer com a Amazon.” Ele reiterou que reproduzirá todas as conversas que manteve na fase de articulação do impeachment. Esteve inclusive com Lula. “As conversas que tive com ele vou relatar dia, hora e local.”

Mencionará proposta de acerto que diz ter recebido do chefe da Casa Civil de Dilma. “Houve proposta do PT pelo Jaques Wagner. Seria uma coisa absolutamente inócua. Qualquer acordo no conselho [de Ética da Câmara] vai depois para o plenário. Vencer ou perder no conselho não muda nada.”

Perguntou-se ao ex-deputado: Os políticos vão ficar melhores, menos fariseus, menos covardes nesse livro? E Cunha: “Não sei. Vai ser engraçado. Vou me divertir muito.” O personagem atribui a cassação do seu mandato não à roubalheira na Petrobras, mas a uma suposta vingança por seu protagonismo na deposição de Dilma.

Cunha põe em dúvida o título de político mais odiado do país. “Em São Paulo não posso andar, sou celebridade”, diz, a certa altura. “Não sei se eu sou o mais odiado”, declara noutro ponto da conversa. “Eu sofri uma exposição negativa de mídia sem precedentes. Muito maior que a Dilma sofreu. Não dá nem pra comparar. Me transformaram, de repente, no chefe do petrolão. Agora entrou o Lula.”

Prosseguiu: “Eu estou andando na rua com muita naturalidade. Tem mais grupamentos positivos do que contrários. Tem gente contrária? Tem. Principalmente da semana passada pra cá, depois da cassação, ficou mais acirrado. Dos dois lados.”

Cunha contou um episódio que sucedeu no aeroporto: “Na quinta-feira passada, quando eu embarcava para o Rio, veio grupo com três ou quatro petistas atrás de mim no aeroporto, me ofendendo. Até que chegou num ponto, eu cheguei na praça de alimentação, e fui cercado por uns 50 aplaudindo e gritando para os para os caras ‘Fora, PT’, ‘Fora, Dilma’, ‘Obrigado pelo impeachment’.”

Acha que se elegeria, se pudesse concorrer em 2018? “Se você perguntar se posso disputar uma eleição de governador, majoritária, talvez meu nível de rejeição, causado pelo desgaste, não permita. Mas para eleição proporcional vou ter muito mais voto do que eu tive antes.”

Vou ter mais voto?!? Como assim, cara pálida?!? Por um instante, Cunha parece ter esquecido que a cassação tornou-o inelegível por oito anos. De resto, o ex-deputado ainda não se deu conta de que perdeu a controle sobre o próprio futuro. Fala em realizar no final do ano uma “turnê” de lançamento do seu livro sem levar em conta a hipótese de estar atrás das grades.


Falta ao governo Temer uma voz, não porta-voz
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Josias de Souza

Governos confusos têm uma estranha mania. Além de não resolver as dificuldades existentes, criam problemas que não precisariam existir. Nesse exato instante, a gestão Temer oferece um exemplo ilustrativo, com a momentosa questão do porta-voz. Falta um porta-voz ao governo, concluíram o presidente e seus principais auxiliares. O que falta a este governo é um porta-voz, ecoam parlamentares governistas. De repente, o noticiário está tomado pela gritante falta do porta-voz.

É possível que o João das Couves, um dos 12 milhões de brasileiros desempregados, já tenha comentado com a patroa na hora do jantar: “O que está faltando a este governo é um porta-voz.” Convidado por Temer, um jornalista especializado em gestão de crises refugou a missão. Mas entregou ao presidente um plano a ser executado pelo futuro porta-voz, para que o governo passe a se comunicar adequadamente com a sociedade.

A essa altura, o país já está impregnado da falta do porta-voz. Todos anseiam por ele, sofrem com sua falta ausência. Convém recordar como tudo começou. O ministro da Saúde disse um par de tolices. O ministro do Trabalho se enrolou na própria língua ao falar sobre reforma trabalhista. O titular da Casa Civil meteu-se na seara do czar da Fazenda. Os auxiliares de Temer se desentendem sobre a data do envio da proposta de reforma da Previdência ao Congresso. Foi contra esse pano de fundo que surgiu a novidade de que Temer nomearia um porta-voz.

Imaginar que um porta-voz dará uniformidade a um governo tão desuniforme é supor que o problema do doente pode ser resolvido retocando as manchas da radiografia. A realidade é que há no ermo da Brasília pós-impeachment um vozerio desconexo. Faltam estabilidade monetária, equilíbrio fiscal, empregos e ética. Admita-se que Temer nomeie um porta-voz. No dia seguinte, a inflação e os gastos públicos continuarão altos. Os empregos não reaparecerão. E não haverá um surto de honestidade na República.

O que falta ao governo é funcionalidade e uma voz de comando capaz de inspirar esperança. Sem ela, um porta-voz se limitará a rogar diariamente para que todos creiam em tudo o que ele foi capaz de ver com estes olhos que a imprensa haverá de comer.


SP: Haddad se atrasou e deixou Lula esperando
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Josias de Souza

Ex-levantador de poste, Lula foi à periferia de São Paulo para tentar socorrer Fernando Haddad, eletrificado por ele há quatro anos. A periferia paulistana já foi petista. Não é mais. O ato de campanha estava marcado para as 11h. Lula chegou às 11h35. E nada de Haddad. Ao meio-dia, já meio incomodado, o padrinho iniciou a caminhada sem o apadrinhado, que demoraria mais 15 minutos para chegar.

Haddad disputa a reeleição como candidato favorito a transmitir o cargo de prefeito de São Paulo para um dos seus adversários. Frequenta as pesquisas como quarto colocado. Lula agora está mais para bola de ferro do que para alavanca. Convertido em réu pelo juiz Sérgio Moro, ele se absteve de tratar do assunto: “Não vou discutir o meu problema pessoal. Isso é para depois das eleições.”

Tomado pelas palavras, Lula já se deu conta de que não pode ajudar Haddad. Mas ainda procura as razões: “Você tem as manifestações na Paulista que são contra um governo que não foi democraticamente eleito. Gritam ‘fora, Temer’. Mas é estranho que são contra esse governo, mas votam nos três candidatos que o apoiam”, afirmou, referindo-se à trinca de rivais de Haddad filiados a partidos que apoiam Temer em Brasília: a ex-petista Marta Suplicy (PMDB), João Doria Junior (PSDB) e Celso Russomano (PRB).

De fato, não há muitos brasileiros entusiasmados com o governo de Michel Temer. Mas também não se vê nas ruas multidões gritando “volta, Dilma.” Fabricado por Lula, o mito da supergerente resultou em inflação, recessão, desemprego e perversão ética. Mas tudo isso entra no rol de temas que Lula prefere deixar “para depois das eleições.”