Blog do Josias de Souza

Arquivo : outubro 2014

Dilma diz que revista pratica ‘terrorismo eleitoral’
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Josias de Souza

No último dia do horário eleitoral, Dilma Rousseff viu-se compelida a usar sua propaganda para tentar vacinar-se contra a notícia de capa da revista Veja. A candidata oficial tachou de “terrorismo” a acusação atribuída ao doleiro Alberto Youssef de que ela e Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras.

“Não posso me calar frente a esse ato de terrorismo eleitoral articulado pela revista ‘Veja’ e seus parceiros ocultos. Uma atitude que envergonha a imprensa e agride a nossa tradição democrática”, vociferous Dilma. “Sem apresentar nenhuma prova concreta e mais uma vez baseando-se em supostas declarações de pessoas do submundo do crime a revista tenta envolver diretamente a mim e ao presidente Lula nos episódios da Petrobras, que estão sob investigação da Justiça” (assista acima).

Apinhada de depoimentos de apoio, inclusive do craque Neymar, a propaganda de Aécio Neves não tratou do tema (assista abaixo). Mas o candidato tucano convocou uma entrevista para dizer que considerou “extremamente graves” as revelações. Insinuou que a campanha de Dilma em 2010 foi azeitada por verbas sujas.

“Hoje a revista ‘Veja’ reproduz um trecho do depoimento do doleiro Alberto Youssef que diz que a presidente da República e o ex-presidente Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras”, disse Aécio. “Se comprovado, é a prova de que houve caixa dois nessa campanha.” Na noite desta sexta, Aécio e Dilma travarão na Globo o último debate da temporada. Pelo jeito, vai sair faísca.


SP gere crise hídrica com ética no volume morto
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Josias de Souza

Há 19 dias, a população de São Paulo concedeu ao tucano Geraldo Alckmin a maior honraria que um político pode receber. Reelegeu-o no primeiro turno. O eleitor paulista renovou o voto de confiança no governador num instante em que a crise hídrica resseca-lhe os humores. Fez isso por achar que: 1) as alternativas eleitorais eram precárias; e 2) a falta d’água é mais culpa de São Pedro que de Alckmin.

Pois bem. Nesta sexta-feira, os repórteres Bruno Boghossian e Paulo Gama levaram às manchetes uma dessas gravações que costumam vazar para provar que aquilo que os governantes dizem ao contribuinte nunca é tão importante quanto o que o contribuinte ouve sem querer. Ouve-se na fita a voz de Dilma Pena, presidente da Sabesp, a companhia de abastecimento de São Paulo.

Numa reunião com a cúpula da empresa, a doutora soou assim: “Por uma orientação superior, a Sabesp tem estado muito pouco na mídia. Acho que é um erro. Nós tínhamos de estar mais na mídia, os superintendentes locais, nas rádios comunitárias. […] Todos falando sobre um tema repetido, monocórdio: economia de água.”

A certa altura, dona Dilma resumiu o que toda a Sabesp deveria estar gritando: “Cidadão, economize água.” Simples assim. Apenas três vocábulos. “Isso tinha de estar reiteradamente na mídia”, enfatizou a doutora. “Mas nós temos de seguir orientação, nós temos superiores, e a orientação não tem sido essa. Mas é um erro. É um erro.”

Tomada pelas palavras, a presidente da Sabesp silenciou apenas para fora da companhia. Livrava-se da mordaça dentro dos gabinetes: “Tenho consciência absoluta, e falo para as pessoas com quem eu converso sobre esse tema, mesmo meus superiores. Acho um erro esta administração da comunicação dos funcionários da Sabesp, que são responsáveis por manter o abastecimento, com o cliente.”

O que a doutora Dilma Pena afirmou, com outras palavras, foi o seguinte: o governo de São Paulo enganou a população para não prejudicar a reeleição de Alckmin. A Sabesp tentou evitar que sua clientela fosse feita de boba. Mas forças “superiores” proibiram a companhia de alertar à torcida do Neymar sobre a necessidade de poupar água em proporções acima das que já vinham sendo economizadas. Em nota, o Palácio dos Bandeirantes disse que cabe à autora dos comentários esclarecê-los.

Talvez o governador reeleito e seus operadores políticos avaliem que o silêncio da Sabesp foi um sucesso. Mas é a torcida do Neymar quem sofre os efeitos da falta d’água. Pesquisa Datafolha divulgada há quatro dias informou que 60% dos paulistanos dizem ter ficado sem água nas torneiras em algum momento dos últimos 30 dias.

Essa gente logo, logo vai se dar conta de que os “superiores” da Sabesp administram a crise hídrica com os valores éticos no último estágio do volume morto. No macrocosmo de São Paulo, o silêncio imposto a Dilma Pena deve ter alguma influência no encurtamento da vantagem que Aécio Neves levava nas sondagens eleitorais do Estado em relação àquela outa Dilma, a Rousseff.


Youssef incriminou Dilma e Lula, afirma revista
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Josias de Souza

Em reportagem de capa, a revista Veja informa a menos de 72 horas da eleição presidencial: “O doleiro Alberto Youssef, caixa do esquema de corrupção na Petrobras, revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público, na terça-feira, que Lula e Dilma Rousseff tinham conhecimento das tenebrosas transações na estatal.”

Acusado de lavar algo como R$ 10 bilhões em verbas de má origem, Youssef foi preso em março. Depõe como delator desde 29 de setembro. De acordo com o relato do repórter Robson Bonin, o doleiro está bem mais magro, exibe um rosto pálido, raspou o cabelo e livrou-se da barba. Habituado às sombras, ele agora rompe o silêncio com desassombro.

A alturas tantas, Youssef soou peremptório: “O Planalto sabia de tudo.” O delegado federal que o inquiria quis saber: “Mas quem no Planalto?” E o delator: “Lula e Dilma.” Exposto no site da revista, o teor da capa de Veja veio à luz mais cedo. Normalmente, costuma ser divulgado nas noites de sábado. Por ora, o Planalto, o Instituto Lula e o PT não se manifestaram.

Ouvido pelo jornal O Globo, o advogado de Youssef, Antonio Figueiredo Basto, admitiu que seu cliente presto depoimento à Polícia Federal na terça-feira, em Curitiba. Mas disse não ter conhecimento das declarações reproduzidas pela revista.

“Eu nunca ouvi nada que confirmasse isso. Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso”, disse Antonio Basto. Segundo ele, Youssef prestou vários depoimentos no mesmo dia. Acompanharam-no diferentes advogados.

“Conversei com todos da minha equipe e nenhum fala isso”, acrescentou Antonio Basto. “Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo. É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação.”

A despeito do alerta, o doutor preferiu não fazer um desmentido categórico: “Nós não temos como pegar em mãos e não ficamos com cópia de nada. Então, não nego nem confirmo se esse depoimento é verdadeiro, se essa informação foi dada ou não e se sim, em quais circunstâncias.”

Youssef já havia mencionado o nome de Lula num depoimento prestado há 15 dias ao juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato. Em audiência pública, não relacionada à delação premiada, o doleiro dissera que Paulo Roberto Costa, o ex-diretor que desviou dinheiro da Petrobras para políticos e partidos, foi nomeado por Lula sob chantagem de políticos governistas.

“Tenho conhecimento que, para que Paulo Roberto Costa assumisse a cadeira de diretor da diretoria de Abastecimento [da Petrobras], esses agentes políticos trancaram a pauta no Congresso durante 90 dias. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficou louco, teve que ceder e, realmente, empossar o Paulo Roberto na diretoria de Abastecimento.”


Conselheiro da ‘vacina pra cavalo’ desdiz Dilma
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Josias de Souza

Conselheiro aposentado do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerias, Sylo Costa tornou-se personagem involuntário do vale-tudo em que se converteu a sucessão presidencial. Em artigo veiculado no diário mineiro O Tempo, ele revelou o seu espanto: “Quase caí da poltrona durante o debate do último domingo, quando ouvi dona Dilma, com ar triunfal, declarar que eu teria dito, na qualidade de relator das contas do então governador Aécio Neves, que vacina para cavalo foi contabilizada como despesa de saúde.”

A frase de Sylo foi evocada por Dilma no debate da tevê Record como reforço para a acusação que vem fazendo há semanas de que Aécio “desviou” verbas da saúde à época em que governou Minas Gerais. “O que ela pretendeu fazer – como de hábito, aliás – foi manipular os fatos, numa tentativa de atacar seu adversário”, ralhou o dono do comentário que a candidata do PT convertera em munição.

O que parecia uma bala de prata virou no artigo de Sylo um cartucho de festim: “Como relator, orientado por minha assessoria, mandei retirar da conta da Secretaria de Saúde uma fatura de compra de vacinas sem especificação e lançá-la na conta da Secretaria de Agricultura, erro material que não afetava o cumprimento do índice constitucional da saúde. Tanto que me posicionei pela aprovação das contas.”

O ex-conselheiro prosseguiu: “O parecer prévio sobre as contas do governador foi aprovado por unanimidade. Posteriormente, recebi da Secretaria de Agricultura a informação de que a compra das vacinas era mesmo para a saúde, já que se tratava de vacinas contra aftosa para experimentos da Fundação Ezequiel Dias.”

“Foi esse pequeno erro material que dona Dilma citou como se fosse um assunto tão grave como os assaltos do seu governo na Petrobras e em quase tudo o que o governo federal mete o nariz. Parece coisa de gente que se faz de louca…”, escreveu o ex-conselheiro no arremate do artigo. “O Brasil vai ter que trabalhar uns 20 anos para pagar a conta desses governos do PT. Mas, no domingo, milhões de tucanos ou apartidários como eu estarão enchendo as urnas para o bem do Brasil.”

Por mal dos pecados, a marquetagem de Dilma forneceu-lhe como arma anti-Aécio a frase de um eleitor do tucano. Em política, esperteza em excesso costuma engolir o dono.