Blog do Josias de Souza

Arquivo : outubro 2014

CPI: Oposição tentará convocar Gleisi e Vaccari
Comentários 3

Josias de Souza

Sérgio Lima/FolhaA CPI mista da Petrobras reúne-se nesta quarta-feira (22). Os partidos de oposição —PSDB, PPS, DEM e Solidariedade— tentarão aprovar durante a sessão requerimentos de convocação de dois petistas ilustres: a senadora e ex-ministra Gleisi Hoffmann e o conselheiro de Itaipu e tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

Gleisi e Vaccari foram mencionados em depoimentos de investigados na Operação Lava Jato. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa contou em sua delação premiada que Gleisi recebeu R$ 1 milhão em verbas desviadas da estatal para sua campanha em 2010. Ela nega.

Quanto a Vaccari, Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef disseram em ação penal pública que era ele o operador do PT no esquema que desviava 3% sobre o valor dos contratos celebrados pela Petrobras com grandes fornecedores e prestadores de serviços. Ele também nega.

O noticiário trouxe à luz também o nome do ex-presidente do PSDB federal, Sérgio Guerra. Ele foi acusado de receber propinas de R$ 10 milhões para ajudar a sepultar uma CPI petroleira de 2009. Para ventura da oposição, Guerra não pode ser convocado. Morreu há sete meses.

A oposição fará barulho. Mas é improvável que consiga aprovar os dois requerimentos —sobretudo numa sessão que acontecerá a quatro dias da eleição presidencial. Os operadores políticos do conglomerado governista se equipam para evitar constrangimentos à campanha de Dilma Rousseff. A forma mais simples é sonegando o quórum exigido para deliberação.

Antes de discutir o que fazer com os requerimentos, a CPI vai inquirir, a partir de 14h30, José Carlos Cosenza. Ele é diretor de Abastecimento da Petrobras. Assumiu o posto em 2012, depois da saída de Paulo Roberto Costa, hoje um corrupto confesso.

Deve-se a convocação de José Cosenza aos deputados Rubens Bueno (PPS-PA) e Carlos Sampaio (PSDB-SP). Os dois mencionaram em seus respectivos requerimentos reportagens que levantaram suspeitas em relação ao substituto de Paulo Roberto.

Numa, noticiou-se que o hoje delator teria mantido os negócios escusos na Petrobras com o auxílio do sucessor, que nega. Noutra, revelou-se o teor de mensagem trocada pelo deputado Luiz Argôlo (SD-BA) com Alberto Youssef. Nela, o parlamentar pede ao doleiro que marque um encontro com Cosenza.


Ultrapassagem de Dilma no Datafolha potencializa supremacia do marketing
Comentários 1106

Josias de Souza

Vivemos atrás do significado maior de qualquer coisa que resuma uma época, seja a propagação do vírus Ebola ou a conversão da água do volume morto do Cantareira em drink-ostentação. Os brasileiros do futuro talvez elejam 2014 como um ano histórico. Dirão que foi o ano em que a política ingressou de vez na Idade Mídia, tornando-se um mero ramo da publicidade.

O Datafolha mais recente, divulgado na noite desta segunda-feira (20), reforça a sensação de que o principal fenômeno político da atual sucessão presidencial tem sido, até o momento, o triunfo da ideologia da desconstrução. Depois de triturar Marina Silva, expurgando-a do segundo turno, a usina de demolição em que se converteu o comitê de Dilma Rousseff passa no moedor a imagem de Aécio Neves.

O quadro ainda é de empate estatístico. Mas inverteram-se as posições. Nas duas primeiras sondagens do segundo turno, Aécio aparecia à frente de Dilma: 51% a 49%. Agora, é a petista quem ostenta a superioridade numérica: 52% a 48%.

Aécio não desabou como Marina. Porém, a campanha de Dilma, a mais marquetada da temporada, vai transformando-o, devagarinho,  numa paçoca em que se misturam a apelação do bafômetro à merecida cobrança por atos como a construção do agora célebre aeroporto de Cláudio. Tudo isso recoberto com um creme demofóbico que gruda no candidato tucano as pechas de ameaça aos mais pobres e amigo dos muito ricos. Nessa caricatura de segundo turno, Armínio Fraga faz o papel de Neca Setúbal.

Os efeitos são eloquentes. A taxa de rejeição de Aécio ficou maior que a de Dilma: 40% a 39%. Há 12 dias, diziam que jamais votariam no tucano 34% dos eleitores. Rejeitavam a petista 43%. Há mais e pior: Aécio derrete em pedaços do mapa onde sua candidatura parecia mais sólida. Por exemplo: Em 9 de outubro, ele ostentava uma vantagem de 21 pontos sobre Dilma no Sudeste. Hoje, a diferença é de nove pontos.

Não é só: inverteram-se as curvas de preferência eleitoral no estratégico grupo da dita classe média emergente. Nesse nicho, que responde por pouco mais de um terço dos votos em disputa, Aécio prevalecia sobre Dilma na semana passada por 52% a 48%. Agora, é ela quem está na dianteira: 53% a 47%.

Esse naco do eleitorado é composto de gente que progrediu nos últimos anos, sobretudo na Era Lula. São pessoas que atingiram o ensino médio e embolsam até cinco salários mínimos mensais. Em tese, são suscetíveis ao discurso petista da mudança “com segurança” não como “um tiro no escuro”.

O jogo continua aberto. Há um derradeiro debate pela frente, na tevê Globo. Mas seja qual for o resultado, 2014 consolida-se como o ano da verdadeira nova política, essa que é 100% feita de publicidade. A sucessão parece um teatro de bonecos japonês.

Chama-se bunraku. Nele, os bonecos são manipulados por pessoas vestidas de preto contra um fundo escuro. A plateia vê os manipuladores. Mas finge que eles não estão lá. No caso da eleição brasileira, o homem de preto é João Santana.

Antigamente, o candidato era um pretensioso que invadia a programação do horário nobre da tevê para fazer merchandising do próprio umbigo. Hoje, a melhor candidatura é a que se ocupa de apontar defeitos nos umbigos alheios.

Há um déficit de discussão sobre o que está por vir depois da posse. Mas quem se importa?

Editoria de Arte/Folha


Armínio: ‘Nunca houve ideia de privatizar o BB’
Comentários 31

Josias de Souza

Indicado pelo presidenciável Aécio Neves para chefiar o Ministério da Fazenda num hipotético governo do PSDB, o economista Armínio Fraga disse nesta segunda-feira (20) que “não há e nunca houve a ideia de que vamos privatizar” o Banco do Brasil.

Armínio fez a declaração durante uma entrevista que concedeu à Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (Anabb). Ele falou por meio de videoconferência. A conversa foi transmitida ao vivo pela internet.

A associação ouvirá também o economista Alessandro Teixeira, indicado pelo comitê de campanha de Dilma Rousseff. Ele falará na noite desta segunda, no auditório da sede da Anabb, em Brasília.

O objetivo da entidade é o de aferir o grau do comprometimento dos presidenciáveis com a preservação das instituições bancárias estatais. “Se depender de nós, o futuro do Banco do Brasil é brilhante, é competitivo, forte e bem capitalizado”, disse Armínio.

Segundo ele, o projeto de Aécio prevê “o fortalecimento do Banco do Brasil, da Caixa Econômica e de todas as instituições.” As declarações de Armínio soaram menos de 24 horas depois de Dilma ter mencionado o nome dele no debate presidencial transmitido pela TV Record na noite de domingo.

Batendo o mesmo bumbo que soa na sua propaganda eleitoral, a rival de Aécio dissera: “Lamento, mas li em várias circunstâncias, inclusive escutei várias falas do seu candidato a ministro da Fazenda, que ele ia reduzir o papel dos bancos públicos, e no fim, não sabia o que ia ficar. Eu acho lamentável esse terrorismo em relação aos bancos públicos.”

E Aécio: “Olha, eu quero aproveitar esse momento para me dirigir aos funcionários do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDES. Eles estão, sim, sofrendo o terrorismo de uma propaganda enganosa. No nosso governo, os bancos públicos serão fortalecidos. Eles são essenciais ao crescimento da economia, nos mais diversos setores, mas também aos avanços sociais.”

Aécio dissera, de resto, que, se for eleito, fará indicações técnicas para a diretoria dos bancos públicos. “No nosso governo, não haverão senhores Pizzolattos administrando o Banco do Brasil”, afirmara, numa referência a Henrique Pizzolato, o ex-diretor de Marketink do BB condenado no processo do mensalão e preso na Itália.

Ecoando as palavras do seu candidato, Armínio, ex-presidente do Banco Central no governo FHC, realçou a “meritocracia” e a “governança” como pontos positivos que identifica na gestão do Banco do Brasil. Quanto aos pontos negativos, falou de “aparelhamento” e “politização”.

Medindo as palavras, Armínio rogou: “Não confundam politização com política pública”. Disse que os bancos públicos exercem papel relevante na execução de programas governamentais. Esse tema também havia sido explorado no debate da véspera.

Aécio insinuara que o Tesouro atrasa o repasse do dinheiro de políticas públicas operadas pelos bancos estatais. “Pergunto à senhora: é justo, por exemplo que, a Caixa e o Banco do Brasil estejam recebendo atrasados, ou deixando de receber recurso do Tesouro para garantir o pagamento em dia do crédito agrícola no caso do Banco do Brasil, R$ 8 bilhões, ou no caso da Caixa, para pagar em dia os benefícios do Bolsa Família, cerca de R$ 10 bilhões, ou mesmo do seguro-desemprego?”

Ao responder, Dilma ironizara seu antagonista: “Candidato, o senhor viu cantar o galo e não sabe aonde. Isso é terrível, quando acontece com uma pessoa. Candidato, a minha relação e a relação do governo, a relação de todos nós, com os bancos públicos é uma relação de grande respeito. Todos os bancos públicos tiveram seus lucros aumentados e ampliados. Sua taxa de inadimplência foi reduzida. E uma recomposição do seu funcionalismo”.

Sem fazer referência ao embate, Armínio declarou na entrevista à Anabb que as verbas dos programas que têm os bancos públicos como agentes financeiros devem constar explicitamente do Orçamento da União. Uma das críticas que a campanha de Aécio vem fazendo é a de que falta transparência na relação do Tesouro com as instituições públicas de crédito.


Procuradoria quer tirar do ar TV e rário de Jáder
Comentários 5

Josias de Souza

A Procuradoria Regional Eleitoral do Pará deseja tirar do ar a tevê Rede Brasil Amazônia e a Rádio Clube do Pará. Pertencem à família do senador Jader Barbalho. Ambas têm como sócio Helder Barbalho, filho de Jader e candidato do PMDB ao governo paraense. E estão sendo utilizadas por ele “para fazer propaganda eleitoral irregular”, sustenta a Procuradoria em ação ajuizada neste domingo (19) no TRE do Pará.

Na petição, a Procuradoria pede a “suspensão” das emissoras por 48 horas. Em vez da programação regular, a tevê e a rádio dos Barbalho teria de exibir, a cada 15 minutos, a informação de que foram desligadas da tomada por violar a legislação eleitoral. O pedido desceu à mesa do desembargador Raimundo Holanda Reis, a quem caberá decidir.

Antes de protocolar a ação, a Procuradoria vigiou a programação das emissoras. Constatou que o uso eleitoral ocorre “sistematicamente”. Algo que “viola, sem sombra de dúvidas, a isonomia da disputa eleitoral, na medida em que o controle dos meios de comunicação pelo candidato Helder Barbalho, o coloca em posição extremamente favorável em relação aos demais candidatos”, anota o texto.

O documento enumera as “violações” à legislação eleitoral. Por exemplo: no dia do primeiro turno da eleição, Jader Barbalho concedeu uma entrevista à rádio da família. Fez propaganda do filho-candidato por meia hora. O que equivale a uma semana inteira do horário eleitoral destinado a Helder.

Para a Procuradoria, o que houve foi a “límpida realização de propaganda política por meios irregulares”. A coligação encabeçada pelo governador Simão Jatene, que disputra a reeleição pelo PSDB, já havia ajuizado representações contra o uso eleitoral da máquina de comunicação dos Barbalho.

Essas representações ainda não foram julgadas, realça a Procuradoria em sua petição. Algo que estimula os Barbalho a continuar “utilizando os veículos de comunicação social de massa de sua propriedade em prol da candidatura de Helder Barbalho”.


Debate: sem baixarias, rivais miram os indecisos
Comentários 316

Josias de Souza

Ninguém chamou o oponente de mentiroso ou de leviano. Algumas intervenções foram ácidas. Mas não se ouviu nenhum xingamento ou ofensa pessoal. No terceiro debate presidencial do segundo turno, Dilma e Aécio priorizaram, finalmente, as ideias. Mencionaram-se temas como educação, saúde, segurança, infraestrutura, economia e programas sociais. O diabo é que as ideias revelaram-se tão profundamente rasas que poderiam ser atravessadas por uma formiga —com água pelas canelas.

Num confronto precedido de muito ensaio, não houve nenhum lance capaz de virar votos alheios. No fundo, as grandes poses de Aécio e Dilma não foram direcionadas aos eleitores que já lhes são fieis. Os candidatos ajeitaram seus mais belos penteados, puseram suas mais elegantes roupas e armaram-se de suas melhores virtudes para o julgamento dos indecisos —6% do eleitorado. Ou cerca de 8 milhões de pessoas.

Considerando-se o contexto atual, em que sete de cada dez brasileiros manifestam o desejo de mudança, o arsenal retórico de Aécio pode soar mais sedutor que o de Dilma. Mas a presidente está longe de ser uma adversária negligenciável. Às voltas com indicadores econômicos esquálidos e um escândalo de corrupção portentoso, ela arrasta 49% das intenções de voto nas pesquisas. Segura um empate técnico com Aécio, a quem o Datafolha e o Ibope atribuem 51%.

Quer dizer: mesmo com todo o temor de que a economia exploda e a delação da Petrobras confirme que o petismo e seus aliados produziram um novo mensalão hipertrofiado… mesmo com tudo isso, metade do eleitorado ainda se dispõe a votar em Dilma. A pergunta a ser feita é: quantos indecisos a presidente conseguirá atrair para o seu cesto? Ou, por outra: Dilma conseguirá impedir que Aécio engorde seu percentual de votos?

A serviço do petismo, o marqueteiro João Santana já demonstrou que, com boa propaganda, pode-se vender até ovo sem casca. Mas esse eleitor que ainda faz cara de interrogação diante da urna talvez tenha dificuldade para comprar a tese segundo a qual Dilma será a mudança de si mesma. É nisso que se apegou Aécio ao apresentar-se no debate como o candidato capaz de “mudar de verdade o Brasil, não apenas no slogan”.

Aécio logrou levar sua rival às cordas algumas vezes. Como na hora em que perguntou sobre inflação. “A inflação não está descontrolada como quer vocês”, defendeu-se Dilma, tropeçando no português. “Vocês jogam no quanto pior, melhor. Eu tenho certeza que a inflação está sob controle. Ela está inteiramente controlada. E isto é inequívoco.” A necessidade de defender a própria fama de supergerente impede Dilma de enxergar que a autocrítica pode ser menos danosa do que a falta de nexo.

Livre de amarras, Aécio sapateou: “A verdade, candidata, é que as pessoas estão apavoradas. O jornal ‘O Globo’ desse final de semana mostra as pessoas no supermercado enchendo os carrinhos, fazendo de novo a compra do mês, que existia há quinze anos atrás.”

Olhar fixo na câmera, Aécio tentou faturar com o infortúnio de uma inflação que teima em permanecer nos arredores de 6,5%, teto da meta oficial do governo. “A inflação está aí, é importante que você saiba. Para a presidente da República, não existe inflação, ela está sob controle. Inequívoco, segundo ela. Para mim não está!”

Dilma defendeu-se como foi possível: “Candidato, em alguns momentos você tem flutuações, mas os preços voltam para o patamar que devem ficar.” Ela voltou a esfregar na cara do adversário indicadores do ciclo FHC, encerrado em 2002. “Quando vocês entregaram o governo, a inflação estava em 12,5%. No ano anterior, estava em 7,7%.”

No afã de grudar FHC em Aécio, Dilma esquece que o Brasil de 12 anos atrás saía de uma superinflação que chegou a 83% ao mês. Com a mente nublada, a presidente por vezes exagerou. Ao recordar que sob FHC 11,5 milhões de trabalhadores perderam o emprego, Dilma provocou: “O meu governo, candidato, ao contrário do seu, criou 5,6 milhões de empregos.”

Aécio ironizou: “A candidata afirma que seu governo gerou mais emprego do que o meu. Eu não governei o país, candidata, pelo menos ainda.” Na sequência, enumerou os países da América Latina que registram crescimento econômico mais alto, inflação mais baixa e taxas de desemprego próximas das observadas no Brasil: Peru, Chile e México.

De resto, para o bem ou para o mal, Aécio não exibe na atual disputa a mesma FHCfobia que atormentava José Serra e Geraldo Alckmin, os tucanos que o precederam no posto de adversários do PT. Ao assumir o legado tucano, Aécio enfraqueceu o veneno de Dilma. Ela o desafiou a não “lavar as mãos” para o passado de sua tribo. E o tucano respondeu:

“Candidata, eu tenho um orgulho enorme de ter podido participar de um momento transformador da vida nacional, quando nós aprovamos o Plano Real, tiramos a inflação das costas dos brasileiros. Contra o voto do seu partido. E tenho certeza que a senhora assume essa responsabilidade… Votamos a Lei de Responsabilidade Fiscal, que reordenou a vida dos entes públicos brasileiros. Contra a posição do seu partido… Iniciamos os programas de transferência de renda, depois ampliados, candidata, pelo seu partido.”

Outro tema que se revelou duro de roer para Dilma foi a petro-ladroagem. Aécio degustou defronte das câmeras da tevê Record uma declaração que sua antagonista fizera na véspera:

“Candidata, eu cobrei durante todos esses últimos debates uma posição da senhora em relação a Petrobras. Não obtive. Mas agora eu quero aqui fazer um reconhecimento de público: a senhora ontem reconheceu que houve desvios na Petrobras. [...] Aquele que é denunciado, para recebimento dessa propina, o tesoureiro [do PT] João Vaccari Neto, continuará também como membro do Conselho de Itaipu? A senhora confia nele, candidata?”

Dilma fugiu da resposta sobre Vaccari. Ficou subentendido que manterá no Conselho da Itaipu Binacional o personagem que o delator Paulo Roberto Costa identificou como operador do PT no esquema urdido para morder propinas na Petrobras.

A presidente defendeu-se atacando: “Candidato, o senhor confia em todos aqueles que, segundo as mesmas fontes que acusam o Vaccari, dizem que o seu partido, o presidente dele [Sérgio Guerra], que lamentavelmente está morto, recebeu recursos para acabar com a CPI? O senhor acredita, candidato?”

Dilma prosseguiu: “Eu queria lembrar o senhor de uma coisa: da última vez que um delator [da empresa Siemens] denunciou pessoas do seu partido no caso do metrô e dos trens [em São Paulo], o senhor disse que não ia confiar na palavra de um delator. Eu sou diferente, candidato. Eu acredito no seguinte, eu sei que há indícios de desvio de dinheiro.”

Aécio não se deu por achado: “Senhora candidata, se eu entendi bem, houve aqui um recuo, a senhora já não acha mais, como a imprensa notificou, que houve desvios, a senhora acha que houve indícios de desvios. E não respondeu a minha pergunta. Porque, se a senhora acha que houve desvios, a senhora obviamente está acreditando na palavra do delator, que me parece consistente. E eu lhe pergunto: a senhora confia no tesoureiro do seu partido?”

Nas palavras de Dilma, Aécio deveria cumprimentá-la não por ter reconhecido os desvios, mas por ter declarado que “iria investigar assim que o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal divulgassem as suas conclusões.”

Aécio foi ao ponto: “A senhora foi presidente do Conselho de Administração durante um longo tempo. Como essas coisas poderiam acontecer de uma forma tão sistêmica, candidata? Isso que é grave, e isso que precisa mudar no Brasil, nós precisamos profissionalizar as nossas empresas, tirá-las da agenda política.”

O candidato tucano afirmou também que a Petrobras migrou das páginas econômicas para o noticiário policial como “consequência da forma como as pessoas são nomeadas” para compor a diretoria da Petrobras. “As pessoas estão sendo nomeadas para prestar serviços seja para o partido da presidente, ou do presidente [Lula], ou para partidos da base. É isso que, infelizmente, vem acontecendo.”

Aécio prometeu profissionalizar a gestão de estatais como a Petrobras. Disse que vai retirar do balcão também os cargos de direção nos bancos públicos. Beleza. Faltou explicar como fará para saciar a fome dos partidos por poltronas e verbas. Chama-se Benito Gama um dos aliados de Aécio. Preside o PTB federal. Acaba de ser eleito deputado federal pela Bahia. Sob Dilma, Benito ocupou um assento na diretoria do Banco do Brasil. A despeito disso, bandeou-se para a coligação de Aécio. E não há de ter feito isso por patriotismo.

A exemplo do que fizera noutras oportunidades, Dilma levou ao ventilador os escândalos da Era FHC: o caso da pasta rosa, a encrenca do Sivam, a compra de votos na aprovação da emenda da reeleição… Aécio insinuou que o petismo teve 12 anos para reabrir os casos. Se não o fez foi porque não havia culpados. Dilma reiterou que o engavetamento de investigações é uma marca dos governos tucanos.

O problema é que, nessa gincana de lama, Dilma se defende jogando na lata de lixo a superioridade moral da qual um dia o PT se jactou. No mais, o óleo quente da Petrobras queima mais do que os escândalos enterrados vivos no passado: “Montou-se, segundo a Polícia Federal, uma organização criminosa na Petrobras”, subiu o tom Aécio.

“E quero dar à senhora, mais uma vez, a oportunidade: o tesoureiro do seu partido, hoje ocupando um cargo em Itaipu, nomeado quando a senhora era ministra das Minas e Energia, ele tem a sua confiança para continuar ocupando esse cargo? Não lhe preocupa o que possa estar acontecendo em Itaipu e, eventualmente, em outras empresas públicas?” Numa eleição apertada, esse tipo de interrogação pode custar votos decisivos. Sobretudo quando ficam sem resposta.


Delator: Gleisi leva petroinjeção de R$ 1 milhão
Comentários 81

Josias de Souza

José Cruz/ABrLogo que deixou a Casa Civil da Presidência para retomar o mandato de senadora, Gleisi Hoffmann guerreou com disposição inumana contra a instalação das CPIs requeridas pela oposição para esquadrinhar os negócios da Petrobras.

Em sua delação premiada, o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa revelou, por assim dizer, que a senadora petista também está sujeita à condição humana. Carrega na escrituração de sua campanha para o Senado em 2010 uma petroinjeçao de R$ 1 milhão.

Suposto portador do mimo, o marido de Gleisi, o ministro petista Paulo Bernardo (Comunicações), tomou distância: “Chance zero de Alberto Youssef pedir para fazer uma doação para Gleisi. Ele não a conhece e não me conhece. A troco de quê vai fazer isso?” É justamente o que a Procuradoria e a Polícia Federal estão tentando responder: a troco de quê?