Blog do Josias de Souza

Arquivo : junho 2016

Em férias, blog prepara sua plataforma eleitoral
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Josias de Souza

Recebo e-mail do internauta que se identifica como ‘Fiscal da Imprensa Golpista”. Ele escreve regularmente desde o julgamento do mensalão. Queixa-se dos textos e esculacha o autor. Com o afastamento de Dilma, subiu o tom. E questionou: “Por que você, que critica todo mundo, não entra para a política? Por que não resolve os problemas do país você mesmo, sabichão?” O blog sairá em férias pelos próximos 15 dias. Aproveitarei o tempo vago para refletir a respeito.

Vem aí a eleição municipal. Um iniciante deve começar por baixo. Vereador! O primeiro passo é elaborar uma plataforma eleitoral, para testar a receptividade de uma eventual candidatura. Algo que consiga tocar o coração da parcela da sociedade que não se considera representada pelos políticos tradicionais —a faixa dos 16 aos 112 anos de idade, aproximadamente.

Não terei dinheiro para o marketing. De resto, o tempo de propaganda dos candidatos a vereador é ridículo. Mal daria para anunciar minha prioridade: sou radicalmente contra o regime, pois me recuso a fazer dieta. Assim, penso em levar ao ar um código de ética bem manjado, o mais antigo de que se tem notícia no mundo ocidental. Pode ser lido em 10 segundos. Diz coisas assim: “Não matarás, não roubarás, não prestarás falso testemunho, honrarás pai e mãe…”

Com esta plataforma, é improvável que algum dos 35 partidos com registro no TSE se entusiasme pela minha candidatura a vereador. Portanto, estarei de volta às notícias em duas semanas. Até já.

– Ilustração via Miran Cartum.


Com desemprego a pino, CUT discute plebiscito
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Josias de Souza

O formidável no Brasil é que, no fim, tudo se incorpora ao espetáculo. Dilma Rousseff diz que deseja voltar ao Planalto para conspirar contra o próprio mandato. Ela avisa que, derrotado o impeachment, vai propor ao Congresso um plebiscito sobre a antecipação das eleições presidenciais. E não se viu uma alteração no roteiro do processo que corre no Senado ou no semblante dos senadores pró-Dilma na comissão do impeachment. O show continuou.

Súbito, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, que torcia o nariz para a proposta, esclarece que mudou de opinião depois de trocar um dedo de prosa com Lula. Não acredita na viabilidade do plebiscito eleitoral. Mas tentará convencer a CUT a abraçar a causa. “A presidenta não pode ficar engessada”, diz ele. “A CUT não vai defender o plebiscito no site. Mas, se essa é única esperança a que podemos nos apegar, vamos nela.”

Supremo paradoxo: há no Brasil uma legião de quase 12 milhões de desempregados. E a maior central sindical do país desperdiça o seu tempo num debate sobre a antecipação da sucessão presidencial, uma ideia de materialização tão improvável quanto o retorno do governo empregocida de Dilma. E não se ouve nenhuma vaia. O show continua.


Troca de Cunha por Rosso agrada ao Planalto
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Josias de Souza

Oficialmente, o Planalto não se manifesta sobre a sucessão interna da Câmara. Alega que a poltrona de presidente da Casa ainda não está vaga, já que Eduardo Cunha não renunciou nem foi cassado. Em privado, porém, auxiliares do presidente interino Michel Temer começam a sinalizar suas preferências. Submetidos a mais de uma dezena de nomes, mencionam o deputado Rogério Rosso (PSD-DF) como uma alternativa que atenderia às necessidades do governo. O escolhido terá de completar o mandato de Cunha, que termina no final do ano.

Rosso é visto como representante do grupo de Cunha, autodenominado ‘centrão’. Foi por indicação do próprio Cunha que ele presidiu a comissão especial que deflagrou o processo de impeachment na Câmara. O Planalto parece dar de ombros para tais vínculos. Alega-se que Rosso tem desenvoltura própria e que Cunha, com o prestígio em declínio, já não tem como impingir a ninguém a pecha de ‘pau mandado’.

Há na Câmara 513 deputados. Excluindo-se Eduardo Cunha, sobram 512. É no mínimo curioso que, entre tantas opções, o governo inicie o jogo flertando com um nome que conta com a simpatia do candidato à cassação. Uma das coisas mais difíceis em política é distinguir um certo homem do homem certo.


Moro é ovacionado em show de rock no Paraná
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Josias de Souza


Sérgio Moro foi ovacionado por mais de um minuto durante show de rock na capital paranaense, Curitiba. Deu-se na noite passada. No palco, a banda Capital Inicial, cujo berço é Brasília. Antes da execução de um clássico —‘Que País Esse’— o vocalista Dinho Ouro Preto disse que não dedicaria a música a um corrupto, como costuma fazer. “Não faltam candidatos…”, disse ele. “Mas vou dedicar ao Sérgio Moro, que está presente aqui.” Seguiu-se a ovação do público. O juiz da Lava Jato, que assistia ao show num dos camarotes, levantou-se e agradeceu.


Pena da política tem de ser Lava Jato perpétua
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Josias de Souza

Não se fala noutra coisa. A corrupção generalizou-se de tal forma no Brasil que ficou impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de corrupto. Pela primeira vez desde a chegada das caravelas, a gatunagem é combatida em toda sua latitude. E a plateia, que morria de passividade, passou a viver uma epidemia de cólera, desnorteando as autoridades.

Uma característica curiosa da corrupção era observada nos partidos políticos. O corrupto estava sempre nas outras legendas. Agora, ele está em toda parte. Outro traço marcante era que, guiando-se por algum autocritério, todos os políticos eram probos. Hoje, são honestos apenas até a próxima delação. O suor do dedo respinga em todos —de vermelhos a bicudos. Não se salvam nem os mortos.

Não há mais alternância no poder. O que existe é uma mera mudança de cúmplices. Confirmou-se a velha suspeita de que o sistema político brasileiro não é constituído por três poderes, mas quatro: o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o Dinheiro, que paira sobre os outros.

Todo aquele idealismo, aquele ímpeto de servir à sociedade, aquela ânsia de entregar-se ao bem público, toda aquela conversa estava impulsionada pela grana. Para entender o Brasil, era indispensável um certo distanciamento. Que começava com a abertura de contas secretas (se preferir, pode me chamar de trusts) na Suíça.

Dois fenômenos empurram a política para os novos tempos: a disposição dos países estrangeiros de colaborar no combate à roubalheira e a percepção de que corrupção passou a dar cadeia no Brasil. Para reduzir as penas, os corruptos levam os lábios ao trombone, oferendo matéria-prima para o avanço das investigações. Hoje, quem ama o feio leva muito susto.

Ouve-se ao fundo um zunzunzum a favor da fixação de um prazo para as investigações. “Os principais agentes da Lava Jato terão a sensibilidade para saber o momento de aprofundar ao extremo e caminhar para uma definição final. Isso tem que ser sinalizado”, disse o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) dias atrás. Hã, hã… O país não pode ficar dez anos nessa situação”, ecoou Michel Temer. Hummm!

Já está entendido que desse mato não sai coelho. Sai apenas jacaré, Renan, cobra, Sarney, hiena, Jucá, gambá, Cunha, porco-espinho, Zé Dirceu, gorila, Vaccari e um etcétera pluripartidário. Pela primeira vez, a oligarquia é investigada, encarcerada e presa. Verificadas as circunstâncias, é possível ser otimista a, vá lá, médio prazo, e ver o lado bom das coisas, mesmo que seja preciso procurar um pouco.

Num instante em que a força-tarefa de Curitiba começa a abrir filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, fica claro que a saída para o combate à roubalheira é a federalização do modelo Lava Jato de investigação, uma engrenagem que tritura o crime com quatro pontas: Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário.

Se as últimas investigações demonstram alguma coisa é que o sistema político brasileiro apodreceu. A corrupção tornou-se um atributo congênito do político, como as escamas do peixe. A cosa nostra só voltará a ser coisa nossa quando os larápios se convencerem de que a festa acabou.

Como disse Temer, “o país não pode ficar dez anos nessa situação”. Contra um assalto intermitente, exige-se uma vigilância permanente. A política brasileira talvez volte ao normal se for condenada à Lava Jato perpétua.


Se Trump e ‘Brexit’ existem, tudo é permitido!
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Josias de Souza

No Brasil, basta ligar a tevê ou abrir um jornal para perceber que o eleitor não sabe o que faz. Como consequência, a política virou esse balé de elefantes à beira do abismo. Quando reclama, o eleitor esquece que corrupção e incompetência não dão em árvore. Diz-se, por exemplo, que o Congresso é a cara da sociedade —o que apenas reforça a evidência de que o eleitor, como um Narciso às avessas, cospe na própria imagem.

Se você está desconsolado com a realidade ao redor, console-se. O Brasil já tem companhia. A presença de Donald Trump na reta final da eleição presidencial dos Estados Unidos e a vitória da ‘Brexit’ —abreviação de Britain (Grã-Btretanha) e exit (saída)— no plebiscito que retirou os britânicos da União Europeia mostram que países desenvolvidos também produzem eleitores abilolados.

Impossível deixar de traçar um paralelo entre o voto dos britânicos no plebiscito do desembarque e a intenção de voto dos americanos na candidatura presidencial de Trump. Os eleitores por trás desses votos têm a cabeça no passado. Cavalgam um certo ranço nacionalista e um nefasto sentimento antiimigração. O alto grau de adesão às teses não deixa dúvidas: as multidões produzem um fulminante nivelamento intelectual por baixo. A euforia numérica conspira contra o raciocínio.

Num célebre romance ambientado na velha Rússia, um personagem dostoievskiano proclama: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Adaptando-se a máxima, pode-se gritar: se o Trump e a ‘Brexit’ existem, tudo é permitido. Pode ser que haja vida inteligente em outro planeta. Neste, já não se vê nenhuma demonstração.