Blog do Josias de Souza

Arquivo : fevereiro 2015

Respira-se no Congresso um cheiro de traições
Comentários 1

Josias de Souza

Na briga pelas presidências da Câmara e do Senado, as alianças põem nos celebrantes uns grilhões de barbante, que não resistem a um peteleco. Considerando-se o cheiro de traição que exala dos partidos, uma víbora teria dificuldades para respirar a atmosfera do Congresso nos instantes que antecedem a contagem dos votos. A votação é secreta.

O PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto, por exemplo, tornou-se um partido bipolar. Sob refletores, cedeu às pressões do Planalto. Comprometeu-se a votar no petista Arlindo Chinaglia para presidete da Câmara. No escurinho, a turma Valdemar tranquilizou o peemedebista Eduardo Cunha. Informou ao desafeto de Dilma Rousseff que ele terá a maioria dos votos da legenda.

Até a manhã de sexta-feira, um pedaço do PSDB ameaçava bandear-se para o lado de Eduardo Cunha. Enquadrado por seu presidente, Aécio Neves, o tucanato alardeou que está mantido o apoio à candidatura de Júlio Delgado, do PSB. Na tarde de sábado, o líder tucano Carlos Sampaio dividiu com Cunha uma mesa num restaurante da Capital, o Villa Tevere.

Acompanhados por meia dúzia de pessoas, Sampaio e Cunha chegaram por volta das 15h30, quando a casa de repasto estava vazia. O teor da conversa não é conhecido. O PSDB continua sustentando que votará em Delgado. O grupo de Cunha contabiliza em sua planilha algo como 20 dos 54 votos do PSDB.

Até a manhã deste domingo, Eduardo Cunha manejava um bloco que somava 205 deputados. No início da tarde, registrou na Mesa da Câmara um conglomerado de 14 partidos, com 218 votos. Obteve a adesão de meia dúzia de partidos nanicos que negociavam seus votos com Arlindo Chinaglia, o preferido do Planalto. Cunha diz que prevalecerá no primeiro turno. Para que isso ocorra, precisa obter os votos de 257 dos 513 deputados. Quer dizer: o peemedebista aposta no adultério.

O bloco de Chinaglia congrega cinco partidos. Sem traições, somam 160 cabeças. Esperava-se que chega-se a 180. Mas o PDT, com 20 votos, não assinou o registro da candidatura. Diz-se que o partido perdeu a hora. Será? O grupo de Júlio Delgado contabiliza 106 votos.

No Senado, o peemedebista Renan Calheiros receia sobretudo a traição de integrantes da bancada do PT. A despeito das pressões do Planalto, um pedaço do petismo flerta com o rival Luiz Henrique, também do PMDB. Para compensar eventuais defecções, Renan cabalou votos até na oposição, supostamente fechada com seu rival, inclusive no tucanto. Numa disputa menos tranquila do que se imaginava, cada voto é disputado como uma bola dividida. Senador de primeira viagem, o craque Romário, do oposicionista PSB, prometera votar em Renan. Hoje, diz que deve optar por Silveira.


Congresso: todos cantam vitória, exceto a Dilma
Comentários 23

Josias de Souza

Os aliados políticos do Planalto proporcionarão à presidente da República neste domingo uma boa notícia: na migração do primeiro mandato para o segundo quadriênio de Dilma Rousseff, não houve nenhum aumento da taxa de desarticulação do bloco governista no Congresso. Continua nos mesmos 100%.


São membros de legendas governistas os candidatos mais bem-postos na briga pelo comando das duas Casas legislativas: Eduardo Cunha e Arlinho Chinaglia engalfinham-se na Câmara, Renan Calheiros e Luiz Henrique esfolam-se no Senado. Todos cantam vitória, exceto Dilma.

Vença o candidato A ou B, prevaleça o postulante X ou Y, a presidente sairá derrotada. De tanto tratar congressistas na base do fisiologismo e do ponta-pé, Dilma conseguiu transformar os integrantes de sua coalizão em espécies de cães. Uma parte morde. A outra recusa-se a abanar o rabo antes de receber a ração.

Em condições normais, os presidentes iniciam seus mandatos falando grosso. Mas Dilma inicia seu segundo reinado por baixo. Dissemina-se a sensação de que não é o governo que tem uma base de apoio no Congresso. É a base de apoio que tem o governo em suas mãos. E faz dele gato-sapato.

Representada por cinco ministros, Dilma desceu ao pano verde do Congresso munida de cargos e verbas. Na Câmara, jogou suas fichas no petista Arlindo Chinaglia. Com isso, ou o peemedebista Eduardo Cunha vira um derrotado à espera da vingança ou converte-se num vitorioso que não deve nada ao Planalto.

No Senado, Dilma ignorou os acenos do peemedebista Luiz Henrique para apostar na tetrapresidência de Renan Calheiros. Se der certo, abraça-se a um provável afogado do petrolão. Se der errado, faz do rival de Renan um vitorioso em débito com a oposição liderada pelo tucano Aécio Neves.


Lava Jato: empreiteiras ameaçam Lula e Dilma
Comentários 36

Josias de Souza

Pilhados na operação Lava Jato, executivos de empreiteiras discutem reservadamente com advogados a hipótese de identificar o que chamam de verdadeiros mentores e grandes beneficiários da corrupção na Petrobras. Dizem ter provas capazes de acomodar no centro do escândalo Lula e Dilma Rousseff.


Em notícia veiculada na última edição de Veja, os repórteres Rodrigo Rangel, Robson Bonin e Bela Megaele relatam detalhes de uma conversa ocorrida há duas semanas na carceragem da PF em Curitiba. Envolveu quatro executivos presos da OAS com seus advogados. O presidente da construtora, Léo Pinheiro, e os executivos Mateus Coutinho, Agenor Medeiros e José Ricardo Breghirolli discutiram os desdobramentos do caso do petrolão.

Frustradas todas as tentativas de deixar a cadeia ou de desmoralizar as investigações, os detentos ilustres cogitam colaborar com a Justiça em troca de redução das penas. A certa altura, Agenor Medeiros, diretor Internacional da OAS, desabafou: “Se tiver de morrer aqui dentro, não morro sozinho”.

Num eventual acordo de delação, os empreiteiros terão de apresentar dados ainda ignorados pelos investigadores da Lava Jato. “Vocês acham que eu ia atrás desses caras [os políticos] para oferecer grana a eles?”, disse Léo Pinheiro, o presidente da OAS. Ele se queixa de ter sido abandonado por Lula, de quem se considera amigo.

O grupo decidiu que, se prosperar a ideia de firmar acordo com a Justiça, o delator será José Ricardo Breghirolli, responsável na OAS pelos pagamentos de propina a políticos e partidos.

Outro empreiteiro que coça a língua é o dono da UTC, Ricardo Pessoa, apontado como coordenador do cartel da petrorroubalheira. Em privado, ele conta que, a oito dias do segundo turno da disputa presidencial de 2014, reuniu-se em São Paulo com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Tentava obter um financiamento bancário. Segundo a versão de Pessoa, Coutinho disse que ele seria procurado pelo tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva.

Edinho não tardou a fazer contato. Pediu uma doação para o comitê eleitoral de Dilma. Ouvido, Luciano Coutinho confirmou a reunião com o empreiteiro. Mas negou que tenha mencionado o nome do gestor do caixa da campanha petista. Depois da conversa com Edinho, o dono da UTC borrifou mais R$ 3,5 milhões na caixa registradora do comitê de Dilma e nas arcas do diretório do PT. A cifra somou-se aos R$ 14,5 milhões que a empresa já havia doado no primeiro turno.


Num eventual 2º turno, PSDB votará em Cunha
Comentários 74

Josias de Souza

Dirigentes do PSDB avaliam que a confirmação do apoio do tucanato à candidatura de Júlio Delgado (PSB) elevou a chance de a disputa pela presidência da Câmara ser empurrada para um segundo turno. Que deve ser travado entre Eduardo Cunha (PMDB) e Arlindo Chinaglia (PT). Nessa hipótese, os tucanos descarregarão os votos de sua bancada de 54 deputados federais no cesto de Cunha.

Nas palavras de um pragmático do ninho, o voto do segundo round é definido “mais pela rejeição do que pela aprovação.” E o PSDB não convive bem com a ideia de ver o petismo novamente no comando da Câmara. Em encontro com Aécio Neves, nesta sexta-feira (30), parte da bancada tucana defendeu a adesão a Cunha já no primeiro turno.

O deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) argumentou que o apoio imediato a Cunha deixaria o PSDB mais bem-posto na distribuição de cadeiras na Mesa diretora da Câmara e nas comissões temáticas. Presidente da legenda, Aécio argumentou que o abandono de Delgado seria um erro político. Foi ecoado pelo senador Cássio Cunha Lima (PB) e pelo deputado Antonio Imbassahy (BA).

A certa altura, Cunha Lima, que deve ser o novo líder do PSDB no Senado, afirmou que o apoio ao candidato do PMDB em troca de poltronas seria visto como “fisiológico”. O termo deixou abespinhado o deputado Silvio Torres (SP), aliado incondicional do governador tucano de São Paulo Geraldo Alckmin e simpatizante de Eduardo Cunha. Aécio ponderou que é “estratégica” a aliança com o PSB, partido que o apoiou no segundo turno da disputa presidencial. Mencionou, de resto, o assédio do governo Dilma para atrair o PSB de volta ao condomínio governista.

Após reunir-se com os deputados, Aécio almoçou com senadores tucanos. Durante o repasto, ficou entendido que, no Senado, o PSDB votará no peemedebista Luiz Henrique, não em Renan Calheiros. Algo que será reafirmado em encontro marcado para neste sábado (31). Sob refletores, Aécio referiu-se ao rival de Renan como candidato “competitivo”. À sombra, porém, os tucanos reconhecem que Renan ainda é o favorito. Na última sucessão interna, o PSDB comprometera-se em votar no então senador Pedro Taques (PDT-MT). Renan prevaleceu por 56 votos contra 18. Dos 12 senadores tucanos, seis traíram o desafiante Taques, votando em Renan.


À espera do petrolão, Congresso liga o dane-se
Comentários 232

Josias de Souza

O Congresso inaugura neste domingo uma legislatura condenada a defrontar-se com um desastre definidor do seu caráter. Todos sabem que o petrolão, espécie de asteroide político, vai se chocar com a edificação de Oscar Niemeyer. Prestes a se tornar uma instituição ainda mais frágil num sistema político cada vez mais precário, o Parlamento vive seus últimos dias de ansiedade antes da explosão. E o que faz? Em vez de tentar salvar a alma, entrega-se aos seus vícios mais calhordas. Sem disfarces.

O primeiro ato dos congressistas após a posse será a eleição dos presidentes do Senado e da Câmara. A grande novidade do processo é a ausência de novidades. Ouve-se de tudo no Legislativo —do tilintar de verbas orçamentárias à oferta de cargos. Só não se escuta um debate consequente sobre a certeza do choque com o asteroide e a melhor maneira de evitar que as dezenas de ações que a Procuradoria moverá contra parlamentares no STF se converta numa desmoralização irreversível de uma classe já tão esculhambada.

No Senado, o favorito é Renan Calheiros, um político cuja reincidência tornou-se prova irrefutável da insanidade reinante na política brasileira —uma atividade em que prontuários são confundidos com biografias. Símbolo mais poderoso dessa vocação para a reabsolvição perpétua, Renan reivindica sua tetrapresidência com o aval do PMDB e com as bênçãos de Dilma Rousseff. O rival Luiz Henrique, também peemedebista, vai à disputa como azarão.

Na Câmara, a mesma Dilma que conspira a favor de Renan faz cara de nojo para Eduardo Cunha, outro favorito do PMDB. Mobilizada pelo Planalto, uma infantaria de ministros promete mundos e, sobretudo, fundos aos deputados que se dispuserem a votar no petista Arlindo Chinaglia, vendido como heroi da resistência, o único capaz de fazer da Câmara uma Casa “independente” do Executivo. Nessa dança de elefantes, Júlio Delgado (PSB) e Chico Alencar (PSOL), outros dois pseudo-concorrentes, fazem figuração.

O convívio com a certeza pré-anunciada do desastre não fez bem ao Congresso. A instituição entregou-se de vez ao deboche. Ligou o botão de ‘dane-se’. Difícil escolher uma metáfora para o que sucede no Legislativo. Brincar de roleta-russa sobre um sumidouro talvez seja a descrição mais adequada.


Blog sai em férias para dirimir grandes dúvidas
Comentários 1025

Josias de Souza

O signatário do blog está naquela perigosa idade entre os 30 e os 90. É um período em que a dúvida provoca nas pessoas as insônias mais cruéis. Nessa fase, quando alguém tenta te fazer de idiota, é porque encontrou matéria-prima. Para evitar vexames, o repórter decidiu sair em férias. Nos próximos dias, vai dedicar 100% do seu tempo à procura de respostas para as cinco grandes dúvidas nacionais:

1. O que é pior, um saco de gatos ou um saco de ratos?

2. O que é melhor, o desespero ou a esperança?

3. Até quando o dinheiro do Orçamento sairá pelo ladrão?

4. Até quando os ladrões entrarão no Orçamento?

5. País fica maluco?

De posse das respostas, o repórter retornará ao trabalho no final do mês, a tempo de acompanhar a instalação do Congresso Nacional —uma instituição renovada, meio mercado persa, meio bordel, meio delegacia de polícia.


PMDB se julga preterido por Dilma e arma troco
Comentários 34

Josias de Souza

A coligação partidária é a melhor forma de PMDB e PT descobrirem que coligação partidária não dá certo. Julgando-se maltratado no primeiro mandato, o PMDB renovou a parceria com Dilma Rousseff depois que a presidente assegurou ao seu vice, Michel Temer, que tudo seria diferente no segundo quadriênio. De fato, muita coisa mudou. Na opinião do PMDB, para pior.

Para a caciquia do PMDB, há um excesso de PT ao lado de Dilma. A crítica se refere aos conselheiros que a presidente escolheu para integrar o que o Planalto chama de coordenação de governo. São seis ministros, todos petistas: Aloizio Mercadante (Casa Civil), Ricardo Berzoini (Comunicações), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) Pepe Vargas (Relações Institucionais), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Jaques Wagner (Defesa).

Avalia-se que a composição do grupo deixou ainda mais explícito o que já estava na cara: Dilma escanteia o PMDB e faz de Temer um vice cada vez mais versa. Alguns dos “excluídos” tramam responder com tocaias no Congresso. Eis o que irá ocorrer, nas palavras de um coronel da infantaria peemedebista: “Se a Dilma faz tanta questão de soltar elefantes na casa de louças, o PMDB vai mostrar que sabe fazer elefantes voarem.”