Blog do Josias de Souza

Arquivo : setembro 2014

Debate reforça a ‘despolarização’ da sucessão
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Josias de Souza

Em junho de 2013, o desalento e a irritação se encontraram nas ruas e deram à luz um fenômeno alvissareiro: a ‘desantecipação’ da sucessão presidencial. Ficara entendido que a reeleição de Dilma Rousseff não era o jogo jogado que Lula tentava fazer crer. Na noite passada, solidificou-se um segundo fenômeno: a ‘despolarização tucano-petista’. Convertido em coadjuvante de um debate entre presidenciáveis que teve Marina Silva como centro das atenções, Aécio Neves se deu conta de que o PSDB já não dispõe de vaga cativa num segundo turno contra o PT.

Nos trechos do debate em que os candidatos questionaram seus antagonistas, Dilma e Marina ignoraram Aécio. Empatadas no topo do último Datafolha, cada uma com 34% das intenções de voto, elas preferiram inquirir uma à outra. Prejudicado por um sorteio que o empurrou para o fim da fila de inquisidores, Aécio, lipoaspirado de 20% para 15% na última pesquisa, viu-se compelido a “debater” com candidatos nanicos, usando-os como escada para alcançar sobretudo a jugular de Dilma.

Há 20 dias, essas cenas eram impensáveis. Rumava-se para a reedição do Fla-Flu. Dilma e Aécio ignoravam os menos de 10% de Eduardo Campos. Equipavam-se para a sexta final consecutiva do eterno torneio entre PT e PSDB. De repente, a morte de Campos eliminou a represa que impedia o potencial de votos de Marina de jorrar. E Dilma, que segundo seu marqueteiro veria “do Olimpo” os rivais se comendo “numa antropofagia de anões”, é obrigada agora a se engalfinhar com uma ex-anã que ficou do seu tamanho. E ainda pode ficar maior.

Quanto a Aécio, restou-lhe tentar impedir que o voto útil o empurre para o mesmo acostamento em que estava estacionada a terceira via de Eduardo Campos. Levando-se em conta que a rejeição à candidatura de Dilma bateu em 45%, um pedaço do eleitorado de Aécio pode ficar tentado a despejar votos em Marina, na expectativa de liquidar o jogo no primeiro tempo. Por isso, a exemplo de Dilma, o presidenciável tucano também não pode se dar ao luxo de ignorar Marina.

Nas considerações finais do debate desta segunda-feira, Aécio disse que a corrida presidencial envolve “dois campos políticos”, não três. De um lado, o “governismo”. Do outro, a infantaria “das mudanças”. Deu de barato que Dilma perderá a eleição. E bateu em Marina com a suavidade que o favoritismo dela exige: “Acredito nas boas intenções da Marina, mas ela não consegue superar as enormes contradições… Defende hoje teses que combatia há pouco tempo.”

Para infortúnio de Aécio, Marina repete agora um discurso que começara a entoar na sucessão de 2010. Diz que, na economia, quer restaurar o tripé macroeconômico instituído em 1999, sob FHC: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit nas contas públicas. Tem do seu lado um dos pais do Real, André Lara Rezende. E soa mais realista do que o PSDB ao encampar a ideia de dar autonomia formal ao Banco Central. O discurso atucanado de Marina joga água no moinho do voto útil.

Autor da ideia de antecipar a eleição, Lula anda sumido. Diz-se que reaparecerá no Nordeste nesta semana. Ele havia relançado Dilma em 20 de fevereiro de 2013, em São Paulo, num seminário comemorativos dos dez anos do PT. Respondendo a ataques que Aécio fizera ao partido no Senado, Lula dissera: “Eles podem se preparar, podem juntar quem eles quiserem, porque se eles têm dúvidas, nós vamos dar como resposta a eles a reeleição da Dilma em 2014.”

Discursando no mesmo evento, Dilma também pisara no calo do tucanato: “Nós não herdamos nada, nós construímos.” Cinco dias depois, num seminário realizado em Belo Horizonte pelo PSDB mineiro, Fernando Henrique chamaria Dilma de “ingrata”. Ela “cospe no prato que comeu”. Passados quatro meses, a rapaziada desceu ao asfalto para restabelecer a normalidade.

Se as ruas disseram alguma coisa para Lula e Dilma foi que a democracia, tratada pelo petismo como estorvo para um governo definitivo, deveria voltar a funcionar como corretivo para a falibilidade humana. Agora, ao elevar a estatura de Marina, o eleitorado informa a FHC e ao tucanato que talvez prefira pratos limpos e uma refeição nova.

O debate promovido por UOL, Folha, SBT e Jovem Pan serviu para potencializar a nova conjuntura. Ela traz duas novidades extraordinárias: 1) quem dita o ritmo da eleição é o eleitorado, não os marqueteiros. 2) a sucessão perdeu aquele ar de mera formalidade convocada para renovar o mandato de uma candidata imbatível. Quem quiser a poltrona de presidente terá de guerrear.

Até Marina, que parece obter votos por geração espontânea, levou à vitrine um programa de governo, expondo suas ideias, contradições e inconsistências. Aécio promote divulgar o seu na semana que vem. E Dilma talvez perceba que não basta “desconstruir” a nova rival. É preciso construir-se a si própria.

No debate desta segunda, a pretexto de fustigar Marina, Dilma realçou a “governabilidade” de que dispõe a sua administração. E disse recear que um eventual governo de sua rival, sem uma base partidária no Congresso, resulte em “crise institucional”. Ficou evidente que a ficha da candidata de Lula ainda não caiu. Todos os países são difíceis de governar. Mas só o Brasil, com sua governabilidade de resultado$, tornou-se inadministrável.


Aliados culpam Dilma por dificuldades eleitorais
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Josias de Souza

Um cacique do pedaço do PMDB ainda leal ao governo diz que ficou muito fácil reconhecer em qualquer roda um político da coligação encabeçada por Dilma Rousseff. É o que estiver falando mal de Dilma, ele explica. As críticas aumentam na proporção direta da elevação do risco de derrota.

Por enquanto, o burburinho soa apenas atrás das portas. Na pior hipótese, Dilma terá tinta na caneta até 31 de dezembro, explica um membro do diretório nacional do PT. Mas, confirmando-se a derrota, petistas e aliados culparão Dilma quando puderem falar sobre 2014 sem medo de perder cargos, verbas e privilégios.

Levada no embrulho do desejo de mudança que as pesquisas farejam, Dilma é bombardeada até por seu estilo. Tornou-se mais difícil encontrar um apologista da presidente disposto a repetir a teoria da “firmeza” —aquela segundo a qual Dilma lida mal com questionamentos porque tem convicções sólidas.

No atacado, seus críticos a acusam de autossuficiência, teimosia e inépcia. Ela só chama os partidos que a apoiam para conversar na hora que o calo lhe aperta, afirma um senador governista. A conversa não flui, ele realça. O diálogo só é considerado bom quando ela obriga o interlocutor a calar a boca.

O senador resume: os empresários não confiam na Dilma, os políticos a detestam e os ministros têm medo dela. Quem desconfia não investe. Quem odeia não faz campanha. E quem teme só diz ‘sim senhora’! Como resultado, tem-se a combinação de PIB baixo com inflação alta, desânimo político e inação.

Curiosamente, os governistas isentam Lula de responsabilidade. Foi graças ao apoio dele que Dilma amanheceu um belo dia presidente. Mas os críticos da afilhada alegam que ela está em apuros porque fez ouvidos moucos para os pitacos do padrinho. Nessa versão, Lula engrossa, em privado, a sinfonia de críticas.

Confirmando-se o pior, Dilma será apresentada à adaptação de um velho axioma da política. Diz-se que a vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã. No caso de Dilma, o eventual insucesso virá acompanhado de uma subversão da máxima. Confirmando-se o pior —ou melhor, conforme o ponto de vista— Dilma será vista por seus pseudo-apoiadores como pai e mãe da própria derrota.


Principal cabo eleitoral de Marina é o saco cheio
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Josias de Souza

O ‘Plano A’ era declarar guerra à elite branca do PSDB, fingir que a ruína econômica tem causas externas, pintar o país de rosa na propaganda eleitoral e conquistar mais quatro anos de Poder. O ‘Plano B’ era, era, era… Não havia um ‘Plano B’. O generalato do PT não tinha considerado a hipótese de o ‘Plano A’ dar errado. Ninguém podia imaginar que a morte de Eduardo Campos ressuscitaria a cafuza Marina Silva.

Agora, Dilma Rousseff e seus operadores buscam uma saída que os redima do fiasco. Neste sábado, num comício organizado pelo PMDB, Dilma adotou um ‘Plano B’ que seu vice, Michel Temer, improvisara em cima da perna. “Numa democracia, quem não governa com partidos está flertando com o autoritarismo”, disse a ex-favorita, ecoando um discurso que o vice fizera na véspera, em Porto Alegre. “Não existe um único lugar em que haja regime democrático e que não haja partido.”

Nessa formulação, Marina e sua promessa de governar com “as melhores pessoas” da República seria uma ameaça à normalidade democrática. “As pessoas não podem ser colocadas acima das instituições”, disse Temer, no pronunciamento que inspirou Dilma. “Quando isso aconteceu no mundo, nós fomos para o autoritarismo. Nós temos exemplos dramáticos no mundo, não quero nem mencioná-los!”

A nova estratégia evidencia o desnorteio do conglomerado governista. O que fez de Marina uma alternativa real de poder foi justamente a insuportável normalidade que permeia a democracia brasileira. Oito em cada dez eleitores desejam que o próximo presidente adote providências diferentes das atuais, informa o Datafolha. Ou, por outra: 79% do eleitorado acha que algo de anormal precisa suceder. Sob pena de passar por natural o que é absurdo.

Quem quiser compreender o que está acontecendo deve levar em conta o seguinte: os últimos presidentes brasileiros —FHC, Lula e Dilma— foram prisioneiros de um paradoxo: prometeram o avanço sem chutar o atraso. Pregaram o novo abraçados ao velho. Presidiram a ilicitocracia enrolados na bandeira da moralidade. E terminaram confundindo a plateia. Uma parte acha que são cínicos. A outra avalia que são cúmplices.

Hoje, os quase 80% que estão sedentos por mudança dividem-se em dois grupos. Os que duvidam de tudo enxergam os últimos presidentes como cínicos. Os que não duvidam de mais nada os vêem como cúmplices. As duas alas se juntam na percepção de que, à margem dos avanços econômicos e sociais, proliferou um sistema político-partidário caótico, um mal cada dia menos necessário.

Aos olhos de muita gente, o PT virou um projeto político que saiu pelo ladrão. O PMDB e seus congêneres tornaram-se organizações partidárias com fins lucrativos, todas elas financiadas pelo déficit público. E o PSDB é a mesma esculhambação, só que com doutorado na USP. Se a economia vai bem, o acúmulo de fraudes é tolerado. Se a inflação aperta, a roubalheiras salta às retinas.

Num Brasil remoto, a análise política exigia meia dúzia de raciocínios transcendentes. Era necessário decidir se o pragmatismo do PSDB seria melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas do socialismo, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção… Hoje, a coisa é bem mais simples.

Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, o templo da política abriga uma congregação de homens de bens. Vigora no Executivo, no Legistivo e, por vezes, até no Judiciário a lógica do negócio. Tudo se subordina a ela, inclusive os escrúpulos. A integridade dos ovos não vale mais nada. Importa apenas o proveito do omelete.

Já nem é preciso varrer as cascas para debaixo do tapete. A generalização da desfaçatez, hoje espraiada da Esplanada à Petrobras, tornou a anomalia normal. Tudo parecia tranquilo nessa democracia anestesiada até que as ruas decidiram roncar em junho de 2013. Ao despencar do olimpo das pesquisas, Dilma virou uma espécie de porta-voz do asfalto.

O que os manifestantes querem é o mesmo que o governo deseja, disse ela na época. “O meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. Está empenhado e comprometido com a transformação social”, declarou, antes de acrescentar que passeata é uma coisa normal, que ela mesma já participou de muitas.

Por muito pouco Dilma não jogou uma mochila nas costas e foi à Avenida Paulista cobrar a melhoria dos serviços públicos, ao lado de herois da resistência como Sarney e Renan. “Essa mensagem direta das ruas contempla o valor intrínseco da democracia”, ela festejou. “Essa mensagem é de repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público.”

Candidata de um partido cuja cúpula se encontra na cadeia, Dilma soou esquisito. Não se deu conta de que o excesso de cadáveres políticos dera origem a um defunto mais, digamos, ilustre: o próprio PT. Morreu também o pobre. De suicídio. E, suprema desgraça, não foi para o céu. A ex-petista Marina Silva é o purgatório do ex-PT. Ela se tornou uma espécie de repositório do ‘voto saco cheio’.

É nesse estágio que o país se encontra agora. De saco cheio das alianças espúrias e da tolerância presidencial para com os maus hábitos. De saco cheio da teia de chantagens e exigências feitas em nome da pseudo-governabilidade. De saco cheio do mês que dura sempre mais do que o salário. De saco cheio de tudo isso que está aí.

Ao dizerem que ninguém governa sem os partidos, Dilma e Temer tentam aproximar Marina Silva da figura de Fernando Collor, a “nova política” que terminou em impeachment. O problema é que, tomada pela biografia, ela está mais para Lula, em sua versão 2002, do que para caçadora de marajás. Com uma diferença: foi digerida pelo mercado sem precisar assinar nenhuma carta aos brasileiros.

Para se manter no topo das pesquisas até outubro, Marina talvez não precise fazer nada além de desviar dos laranjas do jato de Eduardo Campos e cuidar das suas boas maneiras. Prevalecendo a bordo do PSB e de sua coligação diminuta, chegaria ao Planalto sem dever nada a ninguém, exceto aos donos dos votos. Diz-se que pode terminar em desastre. Mas o eleitor, de saco cheio, parece cada dia mais disposto a assumir o risco de, no mínimo, cometer um erro diferente.


Skaf encontra Dilma no ‘palanque de ninguém’
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Josias de Souza

Paulo Skaf tornou-se um candidato divertido. O eleitor pode brincar com a hipocrisia dele como quem brinca de roleta russa, na certeza de que a (i)lógica que Skaf manipula está completamente descarregada.

Representante do PMDB na corrida pelo governo de São Paulo, Skaf dissera que não subiria em palanque com a petista Dilma Rousseff. Neste sábado, subiu, sob pressão do peemedebista Michel Temer, vice de Dilma.

Skaf recusava-se a pronunciar o nome de Dilma. Instado a revelar o voto para presidente, dizia que votaria em Temer. Ao discursar na presença da presidente, viu-se compelido a chamá-la pelo nome: “Bom dia, presidente Dilma.” Alvíssaras!

Espremido novamente pelos repórteres, Skaf declarou: “Aqui não é palanque de ninguém. Não é um evento da candidatura da presidente Dilma Rousseff e não é um evento da nossa candidatura. Não estou aqui para estar em palanque de ninguém.”

Quer dizer: Skaf escalou um palanque fantasma, num não-evento convocado pelo PMDB para não apoiar a chapa Dilma-Temer. Discursou sobre o oco do vazio para uma plateia que desperdiçou um naco do seu sábado defronte de um palanque de ninguém.

Skaf chegou cedo ao não-evento. Absteve-se de compor o grupo que recepcionou Dilma. E foi embora antes do discurso dela. Não adiantou. Foi aprisionado em fotos ao lado da companhia tóxica. Pior: ganhou a internet no site oficial da campanha de sua não-aliada. Divertido, muito divertido, divertidíssimo!


Beto: para ter recessão, bastaria votar em Dilma
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Josias de Souza

Candidato a vice-presidente da República na chapa encabeçada por Marina Silva, o deputado gaúcho Beto Albuquerque ironizou os rivais que enxergaram contornos recessivos no programa de governo da substituta de Eduardo Campos: “Se a gente quisesse recessão e desemprego não precisaria ter a Marina como candidata. Bastaria votar na Dilma.”