Blog do Josias de Souza

Arquivo : abril 2014

Irritados e indecisos ‘empatam’ com Dilma: 37%
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Josias de Souza

Nelson Rodrigues escreveu que “a multidão tem algo de fluvial no seu lerdo escoamento.” As últimas pesquisas eleitorais revelam: 1) a multidão que compõe o eleitorado brasileiro escoa rumo à mudança. 2) por ora, Aécio Neves e Eduardo Campos não ganham o prestígio que Dilma Rousseff perde.

Pois bem. O Ibope acaba de tirar um novo retrato da multidão. Exibe uma cena muito parecida com a de outras fotos: Dilma cai, mas seus antagonistas ainda não ameaçam sua reeleição. Nesse contexto, o dado mais importante não é o pedaço da multidão de cabeça feita, mas o naco do eleitorado que ainda não definiu em quem irá votar.

Somando-se os 13% que dizem não saber em quem votar aos 24% que manifestam a intenção de anular o voto ou votar em branco, chega-se a uma multidão expressiva: 37% do eleitorado. Trata-se de um percentual idêntico à taxa de intenção de voto que o Ibope atribui a Dilma (37%), bem acima da soma dos índices amealhados por Aécio (16%) e Campos (6%).

Repetindo: se os 37% de eleitores insatisfeitos ou indecicisos resolvessem apoiar José das Couves, esse presidenciável fictício entraria na briga empatado com a ainda favorita Dilma Rousseff. No seu movimento fluvial, os eleitores do candidato das Couves escoam rumo ao desalento com a política. Essa turma informa que, a seis meses da eleição, não se sente representada por nenhum dos candidatos de carne e osso à disposição. Triste.


Governo faz ofensiva para elevar o apoio à Copa
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Josias de Souza

Pesquisas realizadas pelo Datafolha demonstram que o apoio à realização da Copa no Brasil é declinante. Em novembro de 2008, 79% dos brasileiros aplaudiam a escolha do país como sede do evento. Em junho do ano passado, mês em que a juventude foi às ruas, o índice caiu para 65%. Neste mês de abril, a aprovação minguou para 48%.

Esse pano de fundo adverso produziu uma situação crivada de ironia: presidente do país do futebol, pentacampeão mundial, Dilma Rousseff viu-se compelida a deflagar uma ofensiva governamental para tentar elevar o apoio dos amantes do esporte à Copa, um dos eventos mais populares do planeta. Deve-se a preocupação ao fato de que, por mal dos pecados, a Copa ocorre no ano da sucessão presidencial.

Assessor direto de Dilma, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) tornou-se uma espécie de mercador da Copa. Percorre as 12 cidades que sediarão os jogos. Distribui uma cartilha intitulada ‘o que o governo já ganhou com a Copa’ e participa de debates com representantes de movimentos sociais e entidades sindicais.

Gilberto Carvalho iniciou o périplo por Manaus, em 2 de abril. Já esteve em Belo Horizonte e Porto Alege. E ainda participará de encontros em Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Natal, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

De acordo com reportagem do jornal Valor Econômico, a ofensiva do governo ganhará um formato publicitário. A partir de 27 de abril, a 46 dias do início da Copa, vai ao ar uma campanha concebida por três agências: Giovanni, Nova SB e Propeg. Só falta Dilma aprovar as peças.

A campanha começou a ser discutida nas pegadas dos protestos de junho de 2013. Deveria ter sido veiculada no último mês de janeiro. Mas seu conteúdo foi questionado por integrantes do governo e por pessoas vinculadas à campanha reeleitoral de Dilma, sobretudo o marqueteiro João Santana.

Vencidas as resistências, o esforço publicitário do governo vai atacar dois alvos. Além de açular a alma ufanista de torcedores que sonham com o hexacampeonato, tentará justificar as obras e os gastos associados à Copa. Foi a aversão a essas despesas que levou os manifestantes de junho a erguerem cartazes exigindo que o “padrão Fifa”, presente em 12 estádios, fosse levado também a ambientes como escolas e hospitais públicos.

Em entrevista ao Valor, o ministro Aldo Rebelo (Esportes) fez algo parecido com uma autocrítica. Disse que o governo deixou a Copa “indefesa”. Para ele, “havia uma campanha contra a Copa e não houve uma contracampanha. Ficou claro que organizá-la bem não era suficiente”. Agora, afirmou Aldo, “há um certo esforço, que talvez neutralize essa ofensiva. […] Mas a melhor defesa da Copa será a própria Copa.”

As obras da Copa foram orçadas em R$ 25,6 bilhões. Apenas R$ 4,4 bilhões vêm de fontes privadas. O resto sai de cofres públicos: R$ 8,2 bilhões financiados por BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Banco do Nordeste; R$ 5,6 bilhões do Orçamento da União; e R$ 7,2 bilhões de Estados e municípios.

Um dos objetivos centrais da campanha do governo é o de solidificar a tese segundo a qual o orçamento da Copa não é feito só de estádios e deixará um “legado”. Aldo Rebelo recorda que, com a Copa ou sem ela, algumas obras teriam de ser realizadas –mobilidade urbana e reformas de aeroportos, por exemplo.

Numa tentativa de responder à gritaria do asfalto, a cartilha elaborada pela pasta de Gilberto Carvalho anota que desde 2010, ano em que as obras da Copa ganharam impulso, o governo investiu R$ 825,3 bilhões em educação e saúde, contra R$ 8 bilhões enterrados nos estádios. Alguém que esteja aguardando há mais de um ano por uma cirurgia do SUS talvez indague: E daí?


Câmara segura há 7 meses julgamento de deputado do PSDB ligado a Cachoeira
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Josias de Souza

Para o deputado Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), o tempo não existe. Só existe o passar do tempo. Pilhado pela Polícia Federal num relacionamento monetário com o megacontraventor Carlinhos Cachoeira, Leréia espera há sete meses pelo dia em que será julgado por seus pares no plenário da Câmara. E espera. E espera. E espera….

Reunido em 11 de setembro de 2013, o Conselho de Ética da Câmara aprovou relatório que impõe a Leréia a pena de suspensão do exercício do mandato por 90 dias. Antes de ser aplicado, o castigo precisa ser referendado pelo plenário da Casa. Leréia espera.

Enquando mata o tempo, Leréia assiste à formação de um cemitério de mandatos. Já testemunhou, na Casa ao lado, a cassação do mandato senador-conterrâneo Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), cuja reputação também foi engolfada pela proximidade com Cachoeira. E espera.

Já presenciou a absolvição, o rejulgamento e a condenação do deputado-presidiário Natan Donadon (ex-PMDB-RO). E espera. Já viu as renúncias dos mensaleiros José Genoino (PT-SP), Valdemar Costa Neto (PR-SP), Pedro Henry (PP-MT) e João Paulo Cunha (PT-SP). E espera.

Já se despediu do correligionário Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Protagonista do mensalão tucano de Minas Gerais, Azeredo abdicou do mandato para trocar uma provável condenação no STF pela perspectiva de prescrição na primeira instância do Judiciário, em Belo Horizonte. E Leréia espera.

Já acompanhou a renúncia de Asdrúbal Bentes (PMDB-PA), condenado no STF por trocar ligaduras de trompas por votos numa eleição municipal de 2004. E continua esperando.

Agora, Leréia presencia o derretimento-relâmpado da reputação do ex-vice presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), flagrado em promíscuas conexões com o doleiro Alberto Youssef.

Incomodado com o ritmo de toque de caixa que o Conselho de Ética imprime à tramitação do pedido de cassação do companheiro André Vargas, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) realça a anomalia: “Se a Câmara julgar o André antes de apreciar o caso do Leréia, será um escândalo.”

Vacarrezza integrava a CPI do Cachoeira, em 2012, quando Leréia tentou explicar à comissão suas inexplicáveis relações com o superbicheiro goiano. O tucano não negou o que os grampos da PF haviam transformado em inegável. Porém, a exemplo de todos os outros encrencados, Leréia tornou-se beneficiário da pizza assada no forno da CPI. E espera.

Ainda em 2012, Leréia foi levado à Corregedoria da Câmara. Relator do caso, Jerônimo Goergen (PP-RS) recomendou, ao final da sindicância, que o processo fosse remetido ao Conselho de Ética. Concluiu que eram densos os indícios de envolvimento do tucano com Cachoeira.

Noves fora a suspeita de manter uma sociedade com Cachoeira num avião e num terreno, os diálogos grampeados pela PF indicavam que Leréia recebera dinheiro do contraventor. Numa das escutas, o superbicheiro recita para Leréia a senha de um cartão de crédito.

Em relatório confidencial da PF, Leréia aparece num trecho intitulado “transações financeiras”. O texto reproduz conversas de Cachoeira com seus comparsas. Numa delas, o proto-contraventor pede a Geovani Pereira da Silva, então contador de sua quadrilha, para “passar dinheiro” ao deputado tucano.

Num grampo de 1.º de agosto de 2011, Cachoeira encomenda a Geovani o repasse de R$ 20 mil a Leréia. Deu instruções específicas. O dinheiro deveria ser entregue “embrulhado em jornal”. O PSDB ameaçou expulsá-lo. E nada. Leréia espera.

No Conselho de Ética, Leréia defendeu-se alegando que era “apenas amigo” de Cachoeira. Sustentou que nada tinha a ver com os crimes do personagem. Primeiro relator do processo, Ronaldo Benedet (PMDB-SC) propôs que o mandato de Leréia fosse passado na lâmina. Mas seu relatório foi rejeitado.

Nomeou-se um segundo relator: Sérgio Brito (PSD-BA). Que sugeriu a pena alternativa da suspensão do exercício do mandato por 90 dias, com a consequente suspensão do contracheque e de de todas as verbas que bancam o funcionamento do gabinete. Foi esse relatório que o Conselho de Ética aprovou em 11 de setembro de 2013. Mas Leréia, na bica de disputar nova eleição daqui a seis meses, ainda espera.

Para Leréia, o tempo não existe. Para André Vargas, o tempo não passa. Já passou. Mais morto do que vivo, o deputado petista já entregou o cargo de vice-presidente da Câmara e tirou uma licença de 60 dias.

Pressionado pelo PT, que receia que sua sangria respingue na legenda, Vargas anunciou que renunciaria ao mandato. Porém, decorridas 48 horas, renunciou à ideia da renúncia. A paciência da cúpula do petismo, ilimitada com os mensaleiros presos, esgotou-se para André Vargas.

Com a solidariedade já bem cansada, o PT inaugurou nesta quinta-feira o movimento ‘fora, Vargas’. Puxam o coro da renúncia o próprio presidente do PT federal, Rui Falcão, e o líder da legenda na Câmara, Vicentinho (SP).

Enquanto isso, o tucano Leréia, personagem em cujo passado só existe futuro, atravessa o presente usufruindo do doce hábito de ver o pretérito passando. O senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB, talvez devesse dizer meia dúzia de palavras sobre Leréia.


As manchetes desta quinta
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Josias de Souza

- Folha: Bahia recorre ao Exército após greve de PMs e saques

- GloboAumentos na conta de luz já variam de 11% a 29%

- Correio: Vargas, um zumbi que assombra o PT

- Zero Hora: Luz 29% mais cara para 3,8 milhões de gaúchos

- Brasil Econômico: Produto químico reduz pressão na balança comercial

Leia os destaques de capa de alguns jornais do país.


Quem o apadrinhou? E Cerveró: ‘a competência’
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Josias de Souza

Indicado para a diretoria Internacional da Petrobras pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS) e avalizado por Renan Calheiros (PMDB-AL), Nestor Cerveró foi renegado pelos padrinhos (repare no vídeo acima). Depois que Dilma Rousseff o culpou pelos prejuízos da refinaria de Pasadena, Cerveró tornou-se um afilhado tóxico.

Ao inquiri-lo nesta quarta-feira, o deputado baiano Lúcio Vieria Lima, vice-líder do PMDB, deu a Cerveró a oportunidade de clarear as coisas: “Na reforma ministerial, o presidente do PT, Rui Falcão, disse que o PMDB não teria um sexto ministério mas poderia ter ‘espaço nas estatais.’. Ficou claro que as posições nas estatais são fruto de composições política. Não fique como batata quente, jogado de um lado para outro. Quem foi que indicou Vossa Senhoria?”

Cerveró enxergou “desconsideração” na pergunta do deputado. “Tenho 39 anos de Petrobras, sou técnico com formação nessa área”, disse, abespinhado. “Vou me recusar a responder”, emendou, antes de arrematar: “Fui indicado pela minha competência. Se o senhor prefere reduzir isso a mera indicação política, não posso fazer nada.”

Pouca antes, em resposta a Vanderlei Macris (SP), vice-líder do PSDB, Cerveró havia contemporizado declarações feitas na véspera pela presidente da Petrobras, Graça Foster, no Senado (assista abaixo). Ela dissera que a transferência de Cerveró da diretoria Internacional da estatal para a diretoria Financeira da subsudiária BR Distribuidora fora uma punição pelos erros na condução da compra da refinaria texana.

“Não me senti rebaixado”, refutou Cerveró. À sua maneira, o deputado Lúcio Vieira Lima concordou: “Sem apadrinhamento, ninguém teria um tratamento desses. Se não tivesse padrinho político, seria demitido sumariamente.”

É, faz sentido. Como dissera o senador Pedro Simon (PMDB) para Graça Foster, é a politicagem que “está atrapalhando a Petrobras.” Contra esse pano de fundo, “competência” é o outro nome para patrimonialismo. Estatização já!


 


Cerveró: montanha pariu bode expiatório manso
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Josias de Souza

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A montanha de mágoas que a oposição supunha existir na alma de Nestor Cerveró pariu um bode expiatório manso. Ex-diretor Internacional da Petrobras em 2006, ano em que a estatal comprou a refinaria de Pasadena, Cerveró foi à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara munido de dois objetivos: 1) não entrar em bola dividida com Dilma Rousseff. 2) não se autoencrencar. Atingiu 100% de suas metas.

Para não desautorizar Dilma, Cerveró chegou ao ponto de desmoralizar seu próprio advogado, Edson Ribeiro. Em 2 de abril, falando em nome do seu cliente, Ribeiro dissera que os conselheiros da Petrobras, entre eles Dilma, haviam recebido com 15 dias de antecedência o contrato de aquisição da refinaria. “Tiveram tempo hábil para examinar o contrato. Se não o fizeram, foram no mínimo levianos ou praticaram gestão temerária”, disse. “Cerveró não vai aceitar ser bode expiatório.”

Nesta terça, confrontado com a frase, Cerveró desautorizou o doutor com 14 dias de atraso. “Meu advogado, respondendo a um questionamento de não sei quem, deu uma informação baseada em informações gerais.” Heimm?!? “Houve precipitação”. Hã? “Ele se permitiu concluir que havia esse prazo”. Ah, bom!

Dilma embrulhara Cerveró em maus lençóis ao atribuir a ele todas as culpas pelo mau negócio do Texas. Em nota oficial, a presidente alegara que havia avalizado a compra da refinaria fiando-se num relatório de Cerveró. Um documento que, mais tarde, se revelaria “técnica e juridicamente falho”. Omitia duas cláusulas ditas essenciais. Nessa versão, Dilma jamais teria aprovado a transação se conhecesse o par de cláusulas.

Medindo as palavras na escala dos milímetros, Cerveró disse: 1) as cláusulas que ele omitiu no documento tachado de “falho” por Dilma não eram tão importantes nem lesivas à Petrobras. 2) a compra da refinaria “não foi um negócio malfadado“. Ao contrário. Só deu prejuízo porque o pré-sal impôs prioridades novas à Petrobras, que teve de rever investimentos que faria em Pasadena. 3) não tomou decisões solitárias. Tudo foi aprovado pela diretoria e pelo conselho da Petrobras.

Terminada a inquirição, que durou mais de cinco horas, Cerveró deixara os oposicionistas decepcionados e os governistas agradecidos. Deputados do PT, o partido da presidente que o desqualificara, enalteciam o ex-diretor. Deputados rivais do Planalto o espetavam: “Na CPI, senhor Cerveró, será muito mais duro”, disse o presidente do PPS, Roberto Freire (SP). “Não seja bode expiatório”.

Os operadores políticos de Dilma respiraram aliviados. Concluíram que Cerveró não contestou o enredo construído pela presidente da República. Portanto, não impôs a ela nenhum problema novo além das dúvidas já assentadas nas manchetes. Do ponto de vista estritamente pessoal, Cerveró preparou o terreno para eventuais defesas que tenha de sustentar em órgãos de controle como o TCU ou no Ministério Público.