Blog do Josias de Souza

Arquivo : agosto 2016

Deposição de Dilma aumentará sangria de Lula
Comentários 4

Josias de Souza

A história vive atrás de algo capaz de resumir uma época, seja a delação da Odebrecht ou a fatura do cartão de crédito internacional da mulher de Eduardo Cunha. Os brasileiros do futuro talvez escolham como um desses momentos marcantes a presença de Lula nas galerias do Senado como espectador do discurso de autodefesa de Dilma Rousseff no processo de impeachment.

Dirão que foi um momento histórico porque, assim como seu governo já tinha cronologicamente acabado em dezembro de 2010, só então, cinco anos e meio depois de Lula ter usado sua superpopularidade para içar um poste à poltrona de presidente da República, o mito foi mesmo enterrado.

Depois de passar à história como primeiro presidente a fazer a sucessora duas vezes, Lula se reposiciona diante da posteridade como um criador que foi desfeito pela criatura. Hoje, o impeachment é visto como um pesadelo do qual Dilma tenta acordar. No futuro, dirão que a deposição de Dilma foi uma trama de Lula contra si mesmo.

Seu estilo de governar manipulando opostos e firmando alianças tóxicas financiadas à base de mensalões e petrolões se revelaria uma rendição à oligarquia empresarial. A pseudo-esperteza de vender uma incapaz como supergerente produziu um conto do vigário no qual a maioria do eleitorado caiu.

Restou a imagem de um Lula que —convertido em réu por um juiz da primeira instância de Brasília e em indiciado pela Polícia Federal em Curitiba— vai às galerias do Senado na condição de detrito. Destituído de seus superpodres, apenas observa o derretimento de sua criatura, na luxuosa companhia de Chico Buarque, autoconvertido em inocente inútil. O ex-mito virou um personagem hemorrágico.


Breve!
Comentários 3

Josias de Souza

– Charge do Duke, via O Tempo.


Em discurso repetitivo, Dilma esfria o plebiscito
Comentários 68

Josias de Souza

Pedro LadeiraFolha

Dilma Rousseff repetiu no discurso de autodefesa que pronunciou no Senado nesta segunda-feira (29) parágrafos inteiros da carta aberta que divulgou no último dia 16 de de agosto. Além de não apresentar argumentos novos capazes de virar votos no julgamento do impeachment, Dilma recuou num ponto que dizia ser crucial. Sumiu do discurso de Dilma o apoio explícito à proposta de realização de um plebiscito sobre a antecipação das eleições presidenciais.

Na carta que dirigiu há 13 dias aos senadores e aos brasileiros, Dilma anotou: “Na jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade e determinação para que possamos construir um novo caminho.

Ao se defender no Senado, ela repetiu: “Nesta jornada para me defender do impeachment me aproximei mais do povo, tive oportunidade de ouvir seu reconhecimento, de receber seu carinho. Ouvi também críticas duras ao meu governo, a erros que foram cometidos e a medidas e políticas que não foram adotadas. Acolho essas críticas com humildade. Até porque, como todos, tenho defeitos e cometo erros.”

Embora reconheça que também está sujeita à condição humana, Dilma se absteve de enumerar os próprios erros. Não há na carta e no discurso nenhum vestígio de autocrtítica ou expiação.

Noutro trecho da carta divulgada há duas semanas, Dilma escreveu: “No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a desconfiança política para afastar um presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade. E está claro que não houve tal crime. Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo ‘conjunto da obra’. Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo e, só o povo, nas eleições.”

Do alto da tribuna do Senado, Dilma voltou à carga: “No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar um Presidente. Há que se configurar crime de responsabilidade. E está claro que não houve tal crime. Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo ‘conjunto da obra’. Quem afasta o presidente pelo ‘conjunto da obra’ é o povo e, só o povo, nas eleições.”

Na carta, Dilma pegou em lanças pelo plebiscito: “Estou convencida da necessidade e darei meu apoio irrestrito à convocação de um plebiscito, com o objetivo de consultar a população sobre a realização antecipada de eleições, bem como sobre a reforma política e eleitoral. Devemos concentrar esforços para que seja realizada uma ampla e profunda reforma política, estabelecendo um novo quadro institucional que supere a fragmentação dos partidos, moralize o financiamento das campanhas eleitorais, fortaleça a fidelidade partidária e dê mais poder aos eleitores.”

Dilma também mencionou na carta a necessidade de costurar um pacto: “Devemos construir, para tanto, um amplo pacto nacional, baseado em eleições livres e diretas, que envolva todos os cidadãos e cidadãs brasileiros.”

No Senado, Dilma fugiu do vocábulo “plebiscito”. Confinou a menção às eleições num curto parágrafo próximo do final do discurso: “Chego à última etapa desse processo comprometida com a realização de uma demanda da maioria dos brasileiros: convocá-los a decidir, nas urnas, sobre o futuro de nosso país. Diálogo, participação e voto direto e livre são as melhores armas que temos para a preservação da democracia.” Nem sinal do “apoio irrestrito à convocação de um plebiscito.” Nada sobre o pacto.

Entre a carta e o discurso, o PT como que puxou o tapete de Dilma. Em reunião de sua Executiva Nacional, o partido se negou a apoiar a proposta do plebiscito. Em entrevista o presidente do PT, Rui Falcão, tornou pública a rejeição da legenda à ideia de Dilma.

Ao inquirir a ré, nesta segunda-feira, a senadora aliada Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) tentou obter de Dilma o que a oradora sonegara no discurso. Pediu-lhe que discorresse sobre o plebiscito e o pacto. Ao responder, Dilma evitou, novamente, pronunciar a palavra “plebiscito”.

“Acredito que, em havendo uma decisão que autorize o impeachment sem crime de responsabilidade, nós não só estaremos diante de um golpe, mas sobretudo diante de uma verdadeira eleição indireta. Portanto, um retrocesso às práticas que nós superamos depois da resistência democrática e do fim da ditadura militar. Então, defendo que, hoje, um pacto não seja possível por cima, mas tenha que ser tecido pela população. Que ela seja chamada a se posicionar, tanto no que se refere a eleições diretas quanto à reforma política.”

Só numa terceira oportunidade Dilma reconciliou seus lábios com o plebiscito. Deu-se no instante em que o senador Acir Gurgacz lhe perguntou como pretendia restaurar a governabilidade caso voltasse ao cargo de presidente. Expressando no condicional, Dilma declarou, finalmente:

“Nós tivemos uma ruptura do pacto democrático que se iniciou em 1988 com a Constituição cidadã”, disse Dilma. “Acredito que, naquele momento, o Brasil fez um pacto. E, nesse pacto, nós tivemos algumas grandes conquistas, que são expressas na Constituição. Esse pacto, eu acredito que, com essa abertura do impeachment sem crime de responsabilidade, ele será rompido. E aí, como é que nós recompomos a governabilidade? Atendendo até a algumas sugestões dos senhores senadores, eu apoiaria a convocação de um plebiscito que tratasse das eleições diretas e também da reforma política.”


Dilma chega às últimas cenas dirigida pelo caos
Comentários 88

Josias de Souza

A autodefesa de Dilma Rousseff no Senado é cenográfica. Sabendo-se cassada, Dilma tem a pretensão de falar para a história, não para os 81 senadores. Ensaiou suas melhores poses para as lentes dos documentaristas que filmam o último capítulo de sua Presidência. Dilma sobe no palco sob a direção do caos —ou de Lula, que muitos acreditam ser a mesma coisa.

Quando começa o caos?, perguntavam-se os brasileiros em crises passadas. O que é o caos? Onde fica o caos? Dilma matou, finalmente, a curiosidade coletiva. Seu governo apresentou a nação ao caos. De gestora impecável, Dilma virou uma espécie sui generis de totem. Um totem revestido com papel de moscas, que traz grudados todos os indicadores de uma administração ruinosa.

Entre 2013 e 2016, a economia brasileira encolheu 6,8%. O desemprego saltou de 6,4% para 11,2%. Foram ao olho da rua algo como 12 milhões de patrícios. A Lava Jato demonstrou que o único empreendimento que prosperava no Brasil era a corrupção. A força-tarefa de Curitiba já produziu 106 sentenças condenatórias. Juntas, somam 1.148 anos, 11 meses e 11 dias de cadeia. Em Brasília, encontram-se sob investigação no Supremo Tribunal Federal 364 pessoas e empresas.

Diante desse cenário, com a ruína a pino, as causas invocadas para cassar Dilma —o uso de recursos de bancos públicos para pedalar despesas que eram de responsabilidade do Tesouro e a abertura de créditos orçamentários sem a autorização do Congresso— são pretextos para condenar uma administradora precária pelo conjunto de sua obra.

Guiando-se por um script que traz as digitais de Lula, Dilma fala às câmeras dos documentaristas sobre uma crise que é sempre culpa dos outros. Em timbre emocional, recorda seus tempos de prisioneira da ditadura. Lembra da luta contra o câncer. E repete o lero-lero segundo o qual jamais imaginou que teria de pegar em lanças contra outro “golpe”. Diz isso em pleno Legislativo, num julgamento comandado pelo chefe do Judiciário.

No papel de ‘inocenta inútil’, Dilma evoca os 54 milhões de votos que recebeu em 2014 para defender seu retorno à poltrona de presidente. Não para governar, mas para convocar um plebiscito capaz de livrar o país dela própria e de Michel Temer simultaneamente. Cética, a plateia se diverte com as palavras de Dilma como quem brinca de roleta russa, na certeza de que a sinceridade que a oradora manipula está completamente descarregada.

Em poucas horas, Dilma irá embora. Levará com ela as lentes dos documentaristas. Mas deixará a crise, que continuará fervilhando como uma telenovela sem fim. Livres dos desafios da interinidade, Temer e seu exército de brancaleone —liderado por renans, jucás e outros xamãs— serão relegados a tarefas menores como, digamos… trabalhar.


Antes de Dilma falar, PSDB cobrará de Lewandowski direito de refutar ataque
Comentários 36

Josias de Souza

A coreografia do depoimento de Dilma Rousseff no plenário do Senado incluirá um movimento que deve eletrificar a sessão já no início. Assim que a ré estiver pronta para iniciar sua autodefesa, o líder do PSDB Cássio Cunha Lima pedirá a palavra para formular uma “questão de ordem”. O senador recordará ao presidente do STF Ricardo Lewandowski que os partidários do impeachment não abdicarão do direito de replicar eventuais ataques políticos ou pessoais pronunciados por Dilma.

O objetivo da interveção é fazer com que Lewandowski repita diante das câmeras um compromisso que assumira na reunião em que expôs aos líderes partidários o roteiro do julgamento. No seu item 18, o rito esboçado pelo presidente do STF prevê que cada senador terá cinco minutos para inquirir Dilma. Mas não fixa um tempo para as respostas nem faz referência à possibilidade de réplica. Os rivais de Dilma chiaram. E Lewandowski assumiu um compromisso a portas fechadas.

Ficou combinado que, se Dilma desferir ataques abaixo da linha da cintura, o senador que se julgar atingido poderá reivindicar o direito de resposta. Os partidários do impeachment querem que Lewandowski reitere o acerto na presença de Dilma. “Trataremos a presidente com respeito, mas exigimos o mesmo tratamento dela”, disse Cássio Cunha Lima ao blog. “Dançaremos conforme a música. Se Dilma quiser salsa, ela terá salsa. Se quiser forró, vai ter forró.”

Os rivais de Dilma se reuniram no Senado neste domingo, para acertar detalhes da estratégia a ser adotada na inquirição à presidente afastada. Leia detalhes aqui e aqui.