Blog do Josias de Souza

Arquivo : março 2015

Valentia do PMDB torna oposição coadjuvante
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Josias de Souza

Ou o PSDB e seus satélites têm uma estratégia capaz de superar o antagonismo de resultados do PMDB ou a oposição condenou-se ao papel de coadjuvante num enredo estrelado pelos investigados Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Hoje, a dupla comanda a tática de fazer Dilma Rousseff “sangrar” pelo tempo que for conveniente.

No momento, se a presidente da República fosse intimada a optar entre os peemedebistas que presidem as duas Casas do Congresso e o líder da oposição brasileira, daria uma resposta fulminante: “Vida longa a Aécio Neves!” E, com isso, ficaria claro que, para Dilma, o aliado da onça é a grande preocupação. O resto virou paisagem.

Aécio até que se esforça. Há dois dias, discursando em Lima, no Peru, chamou de “rudimentar” o pacote fiscal do governo. Mas, como Dilma tomou-lhe de assalto parte da agenda, o rival tucano por vezes parece rodopiar na entrada da grande área como um zagueiro hesitante, que entra de sola pedindo desculpas:

“Joaquim Levy certamente é um homem que comunga de algumas das nossas ideias”, disse Aécio na capital peruana. “É um técnico extremamente competente, mas está longe de ter a autonomia necessária para fazer a reforma estruturante que o Brasil precisa.”

Simultaneamente, Renan e Cunha, cavalgando a aprovação mixuruca de Dilma —na casa dos 13%, segundo o Datafolha— devam de ombros para a pregação da presidente segundo a qual não há dinheiro em caixa para tirar do papel a lei que renegociou em bases generosas as dívidas de Estados e municípios com a União.

Escorados na ira de governadores e prefeitos endividados, Cunha aprovaria na Câmara, horas depois do chororô de Dilma, um projeto cujo único propósito é o de obrigar o governo a efetivar em 30 dias a renegociação das dívidas estaduais e municipais. A encrenca foi enviada para o Senado. Seria aprovado, também ali, na velocidade de um raio. Porém…

Atendendo às súplicas de um Levy autoconvertido em articulador político de um governo desarticulado, Renan, o magnânimo, adiou para terça-feira a nova humilhação que o PMDB pretende fazer Dilma passar. “De onde eu vou tirar R$ 3 bilhões”, indagou o ministro da Fazenda ao presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o petista Delcídio Amaral. A cifra refere-se ao custo anual para o Tesouro do refresco que será servido aos governos estaduais e municipais.

Renan e Cunha levam sobre Aécio uma vantagem inestimável. Eles são os donos da pauta dos plenários do Senado e da Câmara. Calibram os temas a serem votados segundo os seus interesses tóxicos. O oposicionismo de ambos cresce na proporção direta do avanço das investigações do petrolão.

Assim, enquanto as manchetes estiverem monopolizadas pela hemorragia presidencial, a agenda do país vai sendo administrada por um par de anti-mocinhos. Ao perceber que Cunha roubava-lhe centímetros de noticiário, Renan converteu-se num oposicionista de fazer inveja a Luciana Genro, do PSOL.

Juntos, Renan e Cunha capricham na coreografia. Admita-se que falam sério quando defendem, por exemplo, a lipoaspiração da Esplanada, emagrecendo-a de 39 pastas para apenas 20. De saída, o PMDB poderia devolver os seis ministérios que ocupa. Alguns deles, por cenográficos, ficariam de bom tamanho se fossem convertidos em secretarias de outras pastas: o da Aviação e o dos Portos no organograma dos Transportes. O da Pesca na Agricultura. O do Turismo como apêndice da Integração Nacional ou do Desenvolvimento Econômico…

Suprema ironia: cada vez que Renan morde Dilma como cachorro louco há vergonha e remorso na alma de ilustres ocupantes de gabinetes do Palácio do Planalto, que precisam explicar por que pegaram em lanças para reelegê-lo presidente do Senado em fevereiro.

Não foi por falta de informação. O petrolão já havia sido empurrado para o colo de Renan. Tampouco foi por falta de alternativa. O senador catarinense Luiz Henrique, também do majoritário PMDB, ofereceu-se como opção viável. O triunfo de Renan teve muitos cúmplices voluntários ou disfarçados. Os votos decisivos à sua eleição vieram do petismo e adjacências. Com as bênçãos de Dilma e de Lula.


Mini-Dilma!
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Josias de Souza

– Charge do Benett, via ‘Gazeta do Povo’.


Depois de criticar Dilma, Levy tenta se explicar
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Josias de Souza

O ministro Joaquim Levy (Fazenda) teve de fazer hora extra na noite deste sábado. Elaborou e mandou divulgar uma nota. No texto, ele tenta desfazer o mal-estar provocado pela divulgação de uma crítica que fizera à presidente Dilma Rousseff, a portas fechadas, na última terça-feira.

Numa conversa com ex-alunos da Universidade de Chicago, onde graduou-se PhD, Levy disse que Dilma nem sempre age da forma mais simples e eficaz. Expressou-se em inglês: “I think that there is a genuine desire by the president to get things right, sometimes not the easiest way, but… Not the most effective way, but there is this genuine desire”.

Traduzido para o português, o comentário ficou assim: “Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuíno”. Para desassossego de Levy, a conversa foi gravada. E a repórter Joana Cunha obteve a gravação, divulgando-a no site da Folha.

Na nota em que o Levy tenta desdizer o que de fato disse, anotou-se: “O ministro sublinha que os elementos dessa fala são os seguintes: aqueles que têm a honra de encontrarem-se ministros sabem que a orientação da política do governo é genuína, reconhecem que o cumprimento de seus deveres exige ações difíceis, inclusive da Exma Sra. Presidente, Dilma Rousseff, e eles têm a humildade de reconhecer que nem todas as medidas tomadas têm a efetividade esperada”.

Levy teve a preocupação de esclarecer: “Isto não é uma nota oficial, mas uma manifestação pessoal do ministro”. Fez essa observação para realçar o caráter informal da conversa que resultou na saia justa.

Essa não foi a primeira crítica que escorregou dos lábios do ministro (veja as outas no quadro abaixo). Mas ele ainda não havia criticado Dilma diretamente. A presidente foi informada sobre suas declarações. Mas o Planalto informou que ela não irá se manifestar.


Para Janine, Levy é ‘único ministro indemissível’
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Josias de Souza

Pode-se dizer muita coisa do professor e filósofo Renato Janine Ribeiro, menos que ele seja do tipo que traz as opiniões na coleira. O novo ministro da Educação é dono de avaliações agudas. E não costuma se esquivar de exprimi-las. Ao contrário. Leva-as à vitrine num ritmo frenético, em artigos e entrevistas. Já declarou, por exemplo, o seguinte: “Como o governo da Dilma foi uma decepção do ponto de vista econômico, então, a política que ela está adotando agora é tucana. Com ressalvas, mas é parecida com a dos tucanos.”

Para Janine, o titular da pasta da Fazenda, Joaquim Levy, “talvez seja o único ministro indemissível desse governo. Não apenas porque ele é forte. Se ele se demitir, todos saberão que Dilma não apoiou seu projeto de recomposição da economia.” Nas atuais circunstâncias, nem os empresários, que talvez preferissem Armínio Fraga —o ministro da Fazenda que Aécio Neves não teve a oportunidade de nomear—, nem mesmo eles apoiam a saída intempestiva de Dilma Rousseff do cargo antes do prazo constitucional de 2018.

Ouça-se Janine: “Se o preço de o Armínio entrar for um processo complicado de impeachment, com manifestações na rua, com contramanifestações, greves… Se o governo for mais à direita pelo fruto de um processo não democrático, como aconteceu no Paraguai e em Honduras, haverá fortes riscos de a sociedade entrar em uma crise séria. Isso não é bom para os empresários.”

O Janine retratado nesse texto pode ser encontrado numa conversa publicada há 12 dias na revista Brasileiros. Um detalhe conspirou a favor da franqueza do entrevistado. Àquela altura, Janine, um eleitor não-petista de Dilma Rousseff, ainda não farejava a hipótese de colocar os sapatos na Esplanada dos Ministérios. Aliás, ele não invejava a rotina dos auxiliares de Dilma.

Ouvido pelas repórteres Luiza Villaméa e Márcia Pinheiro, Janine lamentou que Dilma tenha conservado no segundo mandato um hábito do primeiro. “Os ministros continuam tendo as orelhas puxadas cada vez que falam uma coisa de que ela não gosta. Não há autonomia dos ministros.” O agora ministro da Educação abriu apenas duas exceções. Além de Joaquim Levy, só Juca Ferreira, o ministro da Cultura, tem “mais autonomia” do que os colegas.

Na opinião de Janine, Levy dispõe de autonomia “justamente por ser quase uma intervenção tucana na economia, um símbolo do descumprimento da promessa de campanha” de Dilma.  Quanto a Juca, embora comande uma pasta que o governo considera desimportante, ele “tem força no meio cultural que dá a ele grande autonomia.” De resto, como Juca “maneja um orçamento pequeno, comparado com o resto, provavelmente não vai levar puxão de orelha.”

Não se sabe que compromissos Dilma assumiu com Janine para convencê-lo a assumir o comando da Educação. Mas não é negligenciável a hipótese de os dois terem trocado ideias sobre orelhas. Janine não ignorava os riscos: noves fora Levy e Juca, “os outros ministros correm o risco de terem a orelha puxada o tempo todo”, disse há 12 dias. “O que torna difícil para eles irem a público. Vão defender o quê? De repente, muda tudo. Defendem o governo e recebem uma correção de cima.”

Neste sábado (28), a repórter Joana Cunha revelou um fato que desafia a máxima de Janine. Ela conta que, há quatro dias, o ministro da Fazenda disse, a portas fechadas, que Dilma nem sempre age da maneira mais eficaz. Levy falava para um grupo de ex-alunos da escola de negócios da Universidade de Chicago. Expressando-se em língua inglesa, afirmou:

“Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes, não da maneira mais fácil… Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuino”. A repórter obteve gravação dos comentários. Em condições normais, Dilma ficaria furiosa. Mas se Janine estiver certo, as orelhas de Levy estão a salvo. Afinal, que presidente ousaria maltratar um ministro “indemissível”?

Num artigo publicado em 5 de janeiro no jornal Valor, Janine já havia esmiuçado a tese da indemissibilidade do ministro da Fazenda. Nesse texto, o novo ministro de Dilma anotara que Joaquim Levy “é tão necessário ao governo Dilma 2.0 quanto Henrique Meirelles foi ao governo Lula 1.0”.

Acrescentou: “Doze anos atrás, o banqueiro Meirelles foi o fiador do governo Lula junto ao mercado. Com os anos, deixou de ser indispensável (embora tenha continuado no cargo), porque o patronato adquiriu confiança em Lula. Hoje, Levy é o fiador do segundo governo Dilma junto ao mercado. Ao menos nos proximos anos, se ele demitir-se ou for demitido, serão sérios os riscos para a governabilidade econômica. Isso lhe dá um mandato forte.”


Janine defende educação sem currículos rígidos
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Josias de Souza

Escolhido por Dilma Rousseff para comandar o Ministério da Educação, o filósofo Renato Janine Ribeiro tem ideias avançadas para o setor. Ele discorreu sobre elas num artigo veiculado há quatro meses na coluna semanal que mantém no jornal ‘Valor Econômico’. Defendeu, por exemplo, a tese segunda a qual a educação deveria deixar de seguir currículos rígidos, tornando-se mais prazerosa e criativa.

Para o novo ministro, não se pode entender o mundo moderno sem levar em conta o seguinte: “a educação não termina no último dia do ensino profissional ou do curso superior —nem nunca.” Janine avalia que certos diplomas, como o de médico, poderiam ser “concedidos com exigência de atualização” em prazos pré-determinados. Ministradas em “cursos avaliados”, essas atualizações seriam “obrigatórias, previstas em lei”.

Janine defende também a criação de “um crescente leque de cursos abertos, sem definição profissional, que aumentarão incrivelmente a qualidade da vida dos alunos.” Ele explicou: “Para cada curso de atualização em genoma para profissionais de saúde, haverá dezenas sobre filmes de conflitos entre pais e filhos, de aprendizado com religiões distantes, de arte em videogames, destinados a cidadãos em geral, de qualquer profissão —e a lista não acaba.”

O escolhido de Dilma deu exemplos do que pode suceder num sistema educacional que inclua os cursos abertos: “Quem cresceu num meio limitado pode descobrir que o sentido de sua vida é a fotografia (como o jovem favelado que é o narrador do filme ‘Cidade de Deus’): um artista se revela. Ou um menino sensível, alvo de ‘bullying’ na escola, descobre que é homossexual e que não está sozinho no mundo: um ser humano se liberta da ignorância que o prendia. Assim, a cultura aumenta seu próprio contingente – com a descoberta de novos artistas – mas, acima de tudo, amplia a liberdade humana.”

Noutros tempos, anotou Janine, a identificação da vocação das pessoas seguia padrões engessados. “Cada pessoa vivia num pacote identitário: por exemplo, homem branco abonado, casado, filhos, advogado ou médico ou engenheiro. Tudo isso vinha junto.” Hoje, avalia o novo titular da Educação, os horizontes alargaram-se.

“Há milhares de profissões”, escreveu Janine. “No limite, cada um cria a sua. Profissão, emprego, orientação sexual, estado civil, crenças políticas e religiosas, tudo isso se combina como um arco-íris felizmente enlouquecido. Ninguém é mais obrigado a se moldar a um pacote. Mas isso não é fácil, exige uma interminável descoberta de si e, por que não dizer, coragem pessoal.”

Janine esgrimiu no artigo um ponto de vista ousado sobre quais seriam os principais ministérios da Esplanada. Começou brincando com as palavras: “Qualquer um sabe responder quais são os principais ministérios do governo federal —aliás, de qualquer governo no mundo atual. São os da área econômica. Só que não”.

Depois, foi ao ponto: “Os ministérios que definem o futuro de um país, que deverão ser decisivos nos próximos anos, e em poucas décadas serão reconhecidos como os principais, são três: Cultura, Atividade Física (como eu chamaria a atual pasta dos Esportes) e Meio Ambiente.”

Tomado pelas palavras, Janine talvez preferisse que Dilma o tivesse convidado para chefiar a pasta da Cultura. No artigo, ele falou de educação como um complemento da cultura. Traçou um paralelo: “A cultura tem a ver com a educação. As duas pressupõem que o ser humano não nasce pronto, mas é continuamente construído pela descoberta dos segredos do mundo e pela invenção do novo.”

Prosseguiu: “Na educação como na cultura, não há limite: sempre se pode descobrir ou inventar mais. Nada é tão crucial quanto elas para uma sociedade em mudança rápida, como a nossa. A educação e a cultura, nas suas várias formas, fazem crescer a liberdade das pessoas.”

Janine recordou que, em artigo anterior, afirmara que “a cultura é a educação fora de ordem, livre e bagunçada.” Comparou: “Para cursos, há currículos. Para a cultura, não. Um curso sobre a abolição da escravatura é educação, o filme ‘Lincoln’ é cultura.”

Foi nesse ponto que o novo ministro revelou o que seria para ele o modelo ideal de educação: “Cada vez mais, a educação deverá se culturalizar: um, deixando de seguir currículos rígidos; dois, tornando-se prazerosa; três, criativa.” Na opinião de Janine, deve-se conservar apenas “um currículo norteador, que leve da infância à idade adulta.” Sem perder de vista que a educação jamais termina.

Vai abaixo a íntegra do artigo de Renato Janine Ribeiro, datado de 1º de dezembro de 2014:

Os principais ministérios: Cultura

Qualquer um sabe responder quais são os principais ministérios do governo federal —aliás, de qualquer governo no mundo atual. São os da área econômica.

Só que não.

Os ministérios que definem o futuro de um país, que deverão ser decisivos nos próximos anos, e em poucas décadas serão reconhecidos como os principais, são três: Cultura, Atividade Física (como eu chamaria a atual pasta dos Esportes) e Meio Ambiente.

Essa tese parece tão insensata que precisa ser justificada. Começo pela Cultura; nas próximas colunas falarei das outras duas áreas. Mas um artigo de Antonio Callado pode ilustrar esta questão inteira: em abril de 1994, quando Rubens Ricupero deixou o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal para assumir a Fazenda, Callado lamentou o que ele, só ele, chamou de rebaixamento: Ricupero deixava uma pasta que portava o futuro do mundo, para cuidar de algo sem a mesma relevância estratégica. É nesta linha que vamos argumentar.

É claro que a economia é decisiva para um país, um governo. Mas ela geralmente trata de meios, mais que de fins. O próprio nome de ‘infraestrutura’, usado para agrupar algumas de suas pastas, já indica isso: infra, não super. O solo que pisamos, não o espaço entre zero e dois metros de altura em que nos movemos. Temos também ministérios para lidar com nossos déficits sociais, como saúde, direitos humanos, igualdade das mulheres e dos negros. Um dia que não deve demorar muito, a igualdade de direitos estará alcançada. Mas, desde já, há setores da administração que devem apontar fins – não de forma autoritária, vertical, mas fazendo a riqueza criativa da sociedade impactar a administração.

A cultura tem a ver com a educação. As duas pressupõem que o ser humano não nasce pronto, mas é continuamente construído pela descoberta dos segredos do mundo e pela invenção do novo. Na educação como na cultura, não há limite: sempre se pode descobrir ou inventar mais. Nada é tão crucial quanto elas para uma sociedade em mudança rápida, como a nossa.

A educação e a cultura, nas suas várias formas, fazem crescer a liberdade das pessoas. A cultura, já afirmei aqui, é a educação fora de ordem, livre e bagunçada. Para cursos, há currículos. Para a cultura, não. Um curso sobre a abolição da escravatura é educação, o filme “Lincoln” é cultura. Cada vez mais, a educação deverá se culturalizar: um, deixando de seguir currículos rígidos; dois, tornando-se prazerosa; três, criativa.

A Cultura deixará de ser o sobrinho menor da Educação. O próprio caráter imprevisível da ação cultural e a dificuldade de planejá-la fazem dela um dos modelos para o que deve ser a educação numa sociedade criativa. Deve-se conservar na educação um currículo norteador, que leve da infância à idade adulta. Mas para entender o mundo que hoje desponta é bom ter claro o seguinte: a educação não termina no último dia do ensino profissional ou do curso superior – nem nunca.

Alguns diplomas, como o de médico, até poderão ser concedidos com exigência de atualização, a cada tantos anos. Essa atualização será dada por cursos avaliados e fará parte da área da Educação. Mas além das atualizações obrigatórias, previstas em lei, será necessário – e demandado – um crescente leque de cursos abertos, sem definição profissional, que aumentarão incrivelmente a qualidade da vida dos alunos. Já temos iniciativas neste sentido, inclusive uma empresarial (a Casa do Saber), que têm dado certo. Enfatizo: esses cursos serão mais culturais, não estritamente educacionais. Para cada curso de atualização em genoma para profissionais de saúde, haverá dezenas sobre filmes de conflitos entre pais e filhos, de aprendizado com religiões distantes, de arte em videogames, destinados a cidadãos em geral, de qualquer profissão – e a lista não acaba.

A cultura é indutora de liberdade. Romances, filmes e mesmo novelas nos abrem para experiências com as quais, no mundinho em que cada um nasceu e cresce, nunca pudemos sonhar. (É inquietante como estamos voltando a viver em guetos; a própria dificuldade de tantos aceitarem que houve gente que votou diferente deles, na recente eleição, é sinal desse fechamento de cada grupo sobre si – o que pode limitar a capacidade de cada um se enriquecer com a compreensão do outro, do diferente).

Quem cresceu num meio limitado pode descobrir que o sentido de sua vida é a fotografia (como o jovem favelado que é o narrador do filme “Cidade de Deus”): um artista se revela. Ou um menino sensível, alvo de “bullying” na escola, descobre que é homossexual e que não está sozinho no mundo: um ser humano se liberta da ignorância que o prendia. Assim, a cultura aumenta seu próprio contingente – com a descoberta de novos artistas – mas, acima de tudo, amplia a liberdade humana.

Hoje, pela primeira vez na história mundial, cada um de nós pode efetuar a sintonia mais fina possível de sua vocação. Antigamente, cada pessoa vivia num pacote identitário: por exemplo, homem branco abonado, casado, filhos, advogado ou médico ou engenheiro. Tudo isso vinha junto. Hoje, as possibilidades se ampliaram muitíssimo. Há milhares de profissões. No limite, cada um cria a sua. Profissão, emprego, orientação sexual, estado civil, crenças políticas e religiosas, tudo isso se combina como um arco-íris felizmente enlouquecido. Ninguém é mais obrigado a se moldar a um pacote. Mas isso não é fácil, exige uma interminável descoberta de si e, por que não dizer, coragem pessoal. A cultura ajuda aqui, porque nenhum setor da aventura humana nos capacita tanto para, cada um de nós, descobrir sua diversidade única.


‘É rudimentar’, diz Aécio sobre o ajuste de Dilma
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Josias de Souza

Aécio Neves pronunciou em Lima, no Peru, duras críticas ao ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff. Disse que a parte já desembrulhada do pacote é “absolutamente rudimentar”. Ele esmiuçou seu raciocínio: “É rudimentar porque se limita ao aumento de tributos. E o Brasil já tem uma escorchante carga tributária de mais de 35% do PIB.”

As palavras de Aécio soaram num seminário internacional sobre América Latina —coisa organizada pela Fundação Internacional da Liberdade, entidade presidida pelo escritor peruano Mário Vargas Lhosa. O ex-oponente de Dilma falou como presidente do PSDB. Ele fez uma ginástica retórica para preservar o ministro Joaquim Levy (Fazenda), seu eleitor, ex-colaborador de sua campanha.

“Joaquim Levy certamente é um homem que comunga de algumas das nossas ideias”, reconheceu Aécio. “É um técnico extremamente competente, mas está longe de ter a autonomia necessária para fazer a reforma estruturante que o Brasil precisa.”

Para Aécio, Dilma tenta fazer crer que há dois governos em Brasília. “Um de Joaquim Levy, do qual ela se distancia, porque são ideias que ela combateu ao longo de toda a sua militância política. E o governo da presidente Dilma.”

A dubiedade, acrescentou Aécio, leva à falta de credibilidade. “Não há confiança dos investidores, do mercado, da classe política de que essas medidas permitirão uma retomada do crescimento a curto e médio prazos. Falta convicção de setores do governo e do próprio partido da presidente em relação à correção e aos efeitos dessas medidas.”

Aécio atribuiu a falta de apoio ao ajuste à ausência de um mea-culpa. “Enquanto não houver um reconhecimento claro dos equívocos que cometeu ao longo de todo este período, é muito difícil que a presidente consiga, seja na classe política, seja na sociedade, o apoio necessário à aprovação dessas medidas.”

Aécio recordou o discurso que Dilma levou ao ar faz duas semanas, em rede nacional de radio e tevê: ela disse que “a culpa de toda esta crise econômica é da crise internacional e da seca a que foram submetidas algumas regiões do país. Em nenhum momento há um reconhecimento de que o governo do PT colocou por terra pelo menos 10 anos de conquistas sólidas na economia.”


Dilma entrega a gerência da sua imagem ao PT
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Josias de Souza

Detectada pelas pesquisas e ecoada em panelaços e protestos de rua, a impopularidade de Dilma Rousseff fez da imagem da presidente um problema urgente. A simbologia de gestora austera e eficiente ruiu. E Dilma já não consegue inspirar uma marca positiva. Foi contra esse pano de fundo que acaba de ser nomeado para o posto de ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República o político petista Edinho Silva.

Edinho foi tesoureiro da campanha presidencial de Dilma em 2014. Sua escolha representa uma guinada no pensamento da presidente para a área de comunicação. Dilma resistia à ideia de enfiar um representante do PT dentro do cofre que guarda as verbas de publicidade do governo. Coisa de R$ 5 bilhões anuais. Ela receava sobretudo desagradar os meios de comunicação, avessos à pregação petista em favor da regulação da mídia. Sob crise, a pressão do PT fez Dilma superar seus medos.

O novo ministro entra no lugar do jornalista Thomas Traumann, cujo pescoço foi à guilhotina depois que ganhou as manchetes um documento que ele havia produzido para consumo interno. No texto, Traumann diagnosticara o “caos político” em que se meteu o segundo governo de Dilma. Apontara uma desconexão entre o discurso oficial e a realidade.

Contra a impopularidade, Traumann receitara remédios de efeitos duvidosos. Por exemplo: mais “publicidade oficial focada em São Paulo”, justamente a praça que rosna mais alto para Dilma. “Não há como recuperar a imagem do governo Dilma em São Paulo sem ajudar a levantar a popularidade do [prefeito paulistano do PT Fernando] Haddad”, anotara o agora ex-ministro.

Edinho é sociólogo, não jornalista. Mas nada impede que ele recrute um profissional do ramo para lidar com os repórteres que realizam a cobertura diária da Presidência. As dúvidas que o novo ministro terá de responder são de outra ordem: pretende aplicar o orçamento de publicidade do governo segundo critérios partidários, como já foi insinuado no documento do antecessor? Planeja propor alguma alteração nas leis que regem a comunicação no país?

O uso político da publicidade seria inútil e desrespeitoso. Inútil porque ainda não foi inventada a propaganda capaz de vender um mau produto. Desrespeitoso porque o dinheiro que o contribuinte ganha suando não deve ser torrado assobiando. O desrespeito seria ainda maior se praticado em meio à crise que começa a roer a renda e o emprego.

Quanto à legislação, Edinho Silva costuma dizer coisas assim: “Temos que criar efetivamente condições para que haja uma democratização da comunicação no país. E isso passa pela democratização da propriedade dos veículos. É um debate que deve ser feito com muita tranquilidade, sem partidarismo e em parceria com a sociedade. Não pode haver dogmas.”

Se fizer desse tipo de pregação uma prioridade de sua gestão, o novo ministro da Comunicação Social tende a virar uma crise antes mesmo de comunicar sua primeira ideia para sanar o déficit de credibilidade que aproxima a imagem de Dilma do chão.


Renan diz esperar por um ‘Plano Levy’ até terça
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Josias de Souza

Dentro de quatro dias, Joaquim Levy falará à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. O presidente da Casa, Renan Calheiros, disse a um grupo de senadores que espera muito da participação do ministro da Fazenda. Com ironia escorrendo pela quina da boca, manifestou a certeza de que o auxiliar de Dilma Rousseff trará à luz um plano econômico. Algo com “começo, meio e fim.”

Um dos senadores presentes dobrou a taxa de ironia: “Ele certamente já tem esse plano pronto.” E Renan: “Se não estiver pronto, o ministro tem todo o final de semana para preparar o Plano Levy.” Do contrário, os senadores ameaçam aprovar duas propostas que a pasta da Fazenda considera radioativas.

Uma delas obriga o governo a aplicar em 30 dias a lei que beneficia Estados e municípios com índices mais brandos de correção de suas dívidas com a União. A outra legaliza incentivos tributários concedidos por governadores e prefeitos de todo país na chamada “guerra fiscal”.

Empenhado em evitar as duas votações, Levy obteve de Renan apenas o final de semana, para elaborar um plano em cima das pernas. Deve-se o inusitado da situação a uma anomalia: sob Dilma, o ministro da Fazenda tornou-se o principal articulador do governo no Congresso.

Na falta de mão de obra especializada, Levy faz um bico na articulação política do governo. Nos últimos dias, funcionou como um fusível que retardou o curto-circuito na ligação do governo Dilma com seus supostos aliados. O Planalto estimula a ação do ministro da Fazenda sem se dar conta dos riscos. Se der errado, Levy sairá da experiência com a autoridade e a paciência eletrocutadas. Algo que pode resultar num apagão da equipe econômica do governo.

Trazido do Bradesco por Dilma para gerir a crise econômica que ela própria criou, Levy tentou tratar o imponderável com precisão. Fixou para 2015 uma meta de superávit de 1,2% do PIB. Mas sua previsão só é científica até onde começa o mistério do comportamento humano e do PMDB.

Levy elaborou as primeiras medidas do seu ajuste fiscal. Apertou os botões que achou que deveriam ser apertados. Agora, tenta influir no comportamento de seres terríveis e imprevisíveis como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, o presidente da Câmara. De resto, o ministro se pergunta: o PMDB vai gostar? Os peemedebistas vão cooperar? E o PT? E o resto do condomínio? E quanto a mim, o que diabos estou fazendo aqui?

Líder do PSDB, o senador Cássio Cunha Lima participou de uma das reuniões estreladas por Levy no Legislativo. Achou-o esforçado. Mas diz que lhe falta o necessário “traquejo” para a articulação. Observador arguto, o ex-ministro peemedebista Geddel Vieira Lima notou um progresso na cintura do ministro da Fazenda. “O Levy participa de tantos jantares e almoços com parlamentares que já ganhou peso. Mais um pouco e fica obeso.”