Blog do Josias de Souza

Arquivo : maio 2016

Banqueiro indiciado é vestígio de um novo país
Comentários 12

Josias de Souza

Até bem pouco, nenhuma revelação abalava o prestígio de uma eminência empresarial no Brasil. Mesmo quando apanhados de mau jeito, os empresários continuavam fornecendo matéria-prima às colunas sociais, publicando artigos nos cadernos de economia e distribuindo conselhos a presidentes da República e ministros. Ao indiciar na Operação Zelotes o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, a Polícia Federal oferece mais um vestígio de que algo de muito novo sucede no país: o braço punitivo do Estado tornou-se mais longo e menos seletivo.

Apura-se na Zelotes o pagamento de propinas para cancelar ou abater dívidas lançadas pela Receita Federal. A Procuradoria já denunciou na mesma operação o dono do Banco Safra, Joseph Safra. O rol de indiciados, que já incluía gente como o presidente do Grupo Gerdau, André Gerdau Johannpeter, é adensado agora por Trabuco e outros nove encrencados.

Considerando-se que a Lava Jato já levou à cadeia os barões da construção civil e que o mais poderoso deles, Marcelo Odebrecht, faz uma delação que abalará os pilares da República, já se pode dizer que a farra não está acabando apenas para os políticos. Aos pouquinhos, a elite empresarial brasileira também perde sua sua invulnerabilidade.

Até ontem, os contatos de Luiz Trabuco com o Estado ocorriam nos palácios do Planalto e do Alvorada. Era conselheiro econômico de Lula. Dava-se muito bem com Dilma. Reeleita, madame convidou-o para chefiar o Ministério da Fazenda. Agora, Trabuco defende-se noutras repartições públicas de cinco imputações: corrupção passiva, corrupção ativa, tráfico de influência, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Sinal dos tempos.


Para filho de Lula, sucesso antecede o trabalho
Comentários 37

Josias de Souza

Fábio Luís/UOLSabia-se que Luís Cláudio Lula da Silva, o caçula de Lula, recebera R$ 2,5 milhões da firma Marcondes & Mautoni, acusada na Operação Zelotes de comprar medidas provisórias. Descobriu-se, porém, muito mais.

A partir de uma quebra dos sigilos bancários de Luís Cláudio e da empresa dele, a LFT Marketing Esportivo, os investigadores verificaram que transitaram pelas contas quase R$ 10 milhões.

Até aqui, o dicionário era o único lugar onde o sucesso vinha antes do trabalho. Agora, o fenômeno se repete nas contas bancárias do filho de Lula. O caso pede mesmo uma boa investigação.


Afastamento provocou uma amnésia em Dilma
Comentários 67

Josias de Souza

Dilma Rousseff não é mais a mesma. Afastada da Presidência, perdeu a memória. E absolveu-se do seu passado. “Não respeito delator”, costumava dizer. Hoje, surfa nas gravações de Sérgio Machado, o silvério do PMDB, como se não tivesse nada a ver com o personagem. Alguém precisa socorrer Dilma, recordando o que ela fez nos verões passados.

Na noite desta segunda-feira (30), Dilma discursou num evento na Universidade de Brasília. Reiterou que há “um golpe de Estado” em curso no Brasil. Afirmou que as gravações clandestinas de Sérgio Machado com cardeais do PMDB provam que uma das motivações do “golpe” é asfixiar a Lava Jato.

“Há nas gravações fartas palavras sobre o medo que eles sentem de que seus crimes que sejam desvendados,” declarou Dilma. Não deu nome aos bois. E se absteve de recordar que os crimes foram praticados sob o seu nariz. A presidência de Sérgio Machado na Transpetro escancarou a falência ética do seu governo

A vida ofereceu a Dilma várias oportunidades para demitir Sérgio Machado. E ela desperdicou todas. Em setembro de 2014, época de eleição presidencial, o Ministério Público Federal denunciou Machado por improbidade. Acusou-o de fraudar licitação para a compra de oito dezenas de barcaças destinadas ao transporte de etanol. Dilma fingiu-se de morta.

Dias depois, em 10 de outubro, às vésperas da sucessão, ganhou as manchetes o depoimento do delator delator Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras. Ele declarou à Justiça Federal que recebeu R$ 500 mil em verbas sujas das mãos de Sérgio Machado. Dinheiro proveniente do esquema de cobrança de propinas montado na estatal.

Dilma considerou “estarrecedora” a divulgação do depoimento no período eleitoral. Sobre o conteúdo das denúncias, declarou o seguinte na ocasião: “Em toda campanha eleitoral há denúncias que não se comprovam. E assim que acaba a eleição ninguém se responsabiliza por ela. Não se pode cometer injustiças.” E ficou por isso mesmo.

Sérgio Machado não foi demitido. Ele apodreceu no cargo. Em novembro de 2014, crivado de suspeitas, tirou licença do comando da Transpetro. Fez isso por exigência da PricewaterhouseCoopers, que audita as contas da Petrobras. A empresa disse na época que, com Machado na Transpetro, não assinaria o balanço trimestral da estatal.

Sérgio Machado ainda submeteu Dilma a uma coreografia constrangedora. Em nota, afirmou que deixava o cargo por 31 dias como um “gesto de quem não teme investigação”. Todo mundo já sabia que o suspeito não retornaria à poltrona. Mas Dilma se permitiu frequentar a cena como coadjuvante de uma encenação que prolongou o vexame. Vergou-se diante de Renan Calheiros, o padrinho político que Machado agora joga ao mar.

Foi por indicação de Renan que Lula determinou a nomeação de Sérgio Machado para a Transpetro, em 2003. Decerto avaliou que era por amor à pátria que Renan patrocinava o descalabro. O pedido de licença do afilhado do senador foi prorrogado um par de vezes. Ele se afastou da companhia apenas em fevereiro de 2015, após 12 anos de negócios e oportunidades.

A Transpetro gerenciava um programa bilionário de recuperação de sua frota. Envolvia a encomenda de 49 navios e 20 comboios de barcaças hidroviárias. Um negócio de R$ 11,2 bilhões. Que Lula e Dilma confiaram ao talento gerencial do amigo de Renan.

Hoje, acometida de amnésia, Dilma protela suas culpas. Não perde por esperar. Se o comportamento de Sérgio Machado provou alguma coisa é que ele não medirá esforços para livrar o próprio pescoço. Em troca de redução da pena, é capaz de entregar até a mãe.


Temer escancara toda sua ‘renandependência’
Comentários 68

Josias de Souza

Servidores ‘lavam’ a porta do gabinete do ministro da Transparência, Fabiano Silveira

Uma das prioridades do governo de Michel Temer deveria ser a restauração de uma noção mínima de coisa pública no Brasil. Mas a presença de um apadrinhado de Renan Calheiros no comando do ministério incumbido de combater a corrupção tonifica a impressão de que o governo não é capaz de saciar a fome de limpeza que está no ar.

As gravações em que o ministro Fabiano Silveira aparece orientando Renan sobre como driblar a Lava Jato ofereceram a Temer a oportunidade de corrigir um erro. Mas o presidente interino preferiu manter no cargo o auxiliar que ele jamais deveria ter nomeado. É como se Temer planejasse sua própria imolação.

Apresentaram-se várias alegações para justificar a sobrevivência de Fabiano na Esplanada. Mas o único motivo que realmente pesou só foi balbuciado longe dos refletores, em voz baixa: a exemplo do que sucedia com Dilma Rousseff, Temer não tem condições políticas de desagradar Renan.

Temer não percebera. Mas Fabiano, o afilhado do presidente do Senado, já havia se tornado um ex-ministro na véspera. Faltava apenas um ato que formalizasse o afastamento. A desmoralização de Temer cresceria na proporção direta da demora do presidente interino em mandar publicar no Diário Oficial a exoneração. Para sorte de Temer, os fatos demitiriam o ministro.

Ao indicar para líder do governo na Câmara o triplo-réu André Moura, um miliciano de Eduardo Cunha, Temer revelou-se um presidente pequeno, bem menor do que a crise que o assedia. Ao dobrar os joelhos diante de Renan Calheiros, Temer escancarou sua ‘renandependência’.

Diz-se no Planalto que a aliança com Renan, hoje o principal parceiro do governo no Congresso, ajudará a condenar Dilma no processo de impeachment. Resta saber o que dirá o asfalto quando decidir se pronunciar.

– Atualização feita às 20h15 desta segunda-feira (30): no início da noite, sentindo o chão fugir-lhe dos pés, o ministro Fabiano Silveira enviou carta de demissão ao Palácio do Planalto. Envolto numa rebelião dos servidores da pasta que deveria comandar, o preposto de Renan Calheiros foi demitido pelos fatos, não pelo presidente.


Penúltima da gestão Temer: ministro da Transparência vinculado à escuridão
Comentários 125

Josias de Souza

Se Michel Temer não acordar, vai chegar uma hora em que a paciência dos brasileiros, dos quais 58% já não o queriam na Presidência, se esgotará. Quando parece que está tudo normalizado —o Romero Jucá afastado da Esplanada, o Ministério da Cultura recriado, nenhuma acusação nova feita contra o Eduardo Cunha na última meia hora, o Lula quieto, a seleção do Dunga derrotando o time do Panamá por 2 a 0, o impeachment da Dilma caminhando no Senado, as pessoas começando a se conformar com a peruca ridícula do Antonio Fagundes na novela—, surge mais uma gravação do Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

A encrenca se insinua pela segunda semana. Temer faz um inventário de suas preocupações e pensa: “Hoje, finalmente, vou poder dormir mais tranquilo…”. E não pode. Tem que se preocupar com a nova gravação do delator Sérgio Machado, divulgada pelo Fantástico, em plena noite de domingo. Responsável pelo combate à corrupção, Fabiano Silveira, ministro da Transparência, Fiscalização e Controle, foi gravado dando aula a suspeitos de desvio$ sobre como se livrar da Lava Jato. Advogado, Fabiano distribuiu seus ensinamentos ao próprio Machado e a Renan Calheiros, padrinho de sua nomeação para o ministério de Temer.

Quem saiu às ruas para pedir a cabeça de Dilma e repudiar a corrupção observa tudo o que houve em Brasília e se desespera com o que ouve nas gravações de Machado. Elas sugerem que Temer no poder é uma troca de seis por meia dúzia. Afastada a ladroagem do PT, assanhou-se a ladroeira do PMDB, que está obcecada pela ideia de asfixiar a Lava Jato, não de salvar o país. Não passa um dia sem que haja um novo problema no governo seminovo —como se não bastassem o André Moura, um triplo-réu na liderança do governo, e o Waldir Maranhão, um néscio multi-investigado no comando da Câmara.

Quando o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) está quase convencendo um pedaço do país de que conseguirá achar uma saída para a crise —ainda que tenha que procurar mais um pouco—, um novo áudio captado pelo Sérgio Machado despeja no noticiário as vozes do esgoto. É como se o governo tentasse consertar a torneira dos gastos públicos e estourasse a privada. Ou Temer afasta Fabiano Silveira da poltrona de ministro ou o odor será insuportável ao final desta segunda-feira.

Na semana passada, um dia depois da saída de Jucá da pasta do Planejamento, Temer reuniu os líderes partidários para pedir empenho no Congresso. Ao abrir o encontro, declarou, batendo na mesa: “Ouvi aqui: ‘O Temer está muito frágil, coitadinho, não sabe governar.’ Conversa! Fui secretário de Segurança Pública duas vezes em São Paulo e tratava com bandidos. Sei o que fazer no governo e saberei como conduzir.” Será? Entregar o Planejamento a um enrolado na Lava Jato, a liderança do govenro a um suspeito até de tentativa de homicídio e a pasta anti-corrupção ao afilhado de Renan não parecem bons prenúncios.

Vivo, Cazuza diria a Temer: “Tuas ideias não correspondem aos fatos. Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades.” No gogó, Temer é um defensor da Lava Jato. Na prática, chefia um governo apinhado de suspeitos e cúmplices. E os problemas não param. Na semana passada, Temer tentou apagar outro pavio. Indagou ao ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, também investigado na Lava Jato, se não seria o caso de deixar a Esplanada. O amigo não se deu por achado. O governo parece ter perdido a noção do perigo. Brinca com os nervos dos brasileiros. Ssssssssssssssssssssssssss…