Blog do Josias de Souza

Arquivo : fevereiro 2016

Defesa de Temer trata o TSE como lavanderia
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Josias de Souza

No escândalo do petrolão, indicam as delações da Operação Lava Jato, o PT descobriu uma forma legal de ser desonesto. Transformou a Justiça Eleitoral em lavanderia das verbas sujas que migraram dos cofres da Petrobras para a caixa registradora da legenda. Ao defender-se no processo que pode levar à cassação da chapa encabeçada por Dilma Rousseff na eleição passada, o vice-presidente Michel Temer como que avalizou a conversão de pixulecos em doações eleitorais.

“Doação recebida e declarada de pessoa jurídica com capacidade contributiva, independentemente do que diga um delator, não é caixa dois. Até porque, como visto, o partido-autor [PSDB] foi agraciado com vultosas quantias das mesmas empresas, logo, não há mau uso da autoridade governamental pelos representados [Dilma e Temer].”

O que os advogados de Temer disseram, com outras palavras, foi mais ou menos o seguinte: 1) se a doação financeira foi registrada na Justiça Eleitoral, não importa que o dinheiro tenha sido roubado dos cofres da Petrobras. 2) ao sorver verbas das mesmas fontes que irrigaram a caixa do comitê de Dilma, o PSDB de Aécio enlameou-se. Logo, estão todos na mesma poça.

Pelo menos três delatores do petrolão —o doleiro Alberto Youssef; o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa; e o executivo da empresa Toyo Setal, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto— contaram à força-tarefa da Lava Jato que parte da verba pilhada da Petrobras foi repassada ao PT disfarçada de doação oficial.

Outro delator, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, estimou em até US$ 200 milhões o montante de propinas destinadas ao PT apenas na diretoria que era comandata por Renato Duque, preposto de José Dirceu.

Coordenador do cartel que assaltou a estatal, o empreiteiro-companheiro Ricardo Pessoa, dono da UTC, contou à Procuradoria que um pedaço do butim foi convertido num superpixuleco de R$ 7,5 milhões para a campanha de Dilma. “Não respeito delator”, reage a presidente. “Foi tudo declarado à Jutiça Eleitoral”, repete o PT, como um disco arranhado. “Independentemente do que diga um delator, não é caixa dois”, ecoa agora a defesa de Temer.

Prevalecendo essa linha de argumentação, o TSE teria de fazer hoje o que sempre fez no passado em relação às prestações de contas de campanhas presidenciais: assumir o papel de bobo. A defesa de Temer alega que as contas da campanha já foram aprovadas. Verdade. Mas ainda não estava claro que o PT despejara nos escaninhos do tribunal propinas disfarçadas de doações. Se forem aceitas, ficará entendido que o TSE lava mais branco.


Lula cria epitáfio de uma era: ‘Cometemos erros’
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Josias de Souza

Em vídeo divulgado nas redes sociais, Lula celebrou o aniversário de 36 anos do PT. Declarou a certa altura: “É certo que cometemos erros, e quem comete erro tem que pagar.” A frase tem dupla serventia. Demonstra, uma vez mais, que os petistas não enxergam no espelho desbravadores do Código Penal. De resto, ao usar o vocábulo “erro” como eufemismo para crime, Lula, hoje um personagem multi-investigado, criou sem querer o epitáfio de uma era: “Cometemos erros.”

Afora a frase digna de lápide, todo o restante do vídeo tem um conteúdo auto-congratulatório. Para Lula, o PT é o partido mais importante da política brasileira. A legenda deu “vez e voz ao trabalhador” e implementou políticas sociais como nunca antes. Por essa razão, “é o partido que vive sempre enfrentando os adversários conservadores, que não aceitam o jeito petista de governar.” Hummm!

O trágico, o essencial mesmo na lição do drama petista é essa ideia de que tudo foi feito com a melhor das intenções. É como se Lula se absolvesse do seu passado recente, idealizando-o. Avalia que governou com a virtude no coldre, distribuindo rajadas de perversão, pelo bem do Brasil.

Converteu o PT em máquina coletora de fundos, levou a Petrobras ao balcão, avalizou as nomeações dos petrogatunos, aliou-se a sarneys, renans, collors e malufs, achegou-se aos empreiteiros… Não protelou seus crimes, protelou apenas a culpa. Cozinheiro de omeletes, Lula não concede a si mesmo a brecha de uma dúvida ético-existencial sobre o seu direito de quebrar os ovos.

O mito petista, já um tanto gasto, tenta conservar seu fascínio enquanto a Polícia Federal, a Procuradoria e o juiz Sérgio Moro se esforçam para demonstrar que, no poder, Lula e o PT cruzaram com seus limites, romperam com esses limites e foram perdendo pelo caminho algo vital na esfera pública: o recato.

Lula estava muito preocupado fazendo a história para compreendê-la. Hoje, com a aparência cansada, virou uma paródia grotesca do heroi idílico do PT. Vendeu os ideais para financiar sua aventura. Em vez de ascetismo, a propina. Daquele sonho de 36 anos atrás só restam o espólio da conquista e o epitáfio: “Cometemos erros.”


Cinzas!
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Josias de Souza

– Charge do Paixão, via ‘Gazeta do Povo’.


Azeredo escancara a ética seletiva do tucanato
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Josias de Souza

Cada vez que Eduardo Azeredo dá uma de joão sem braço no processo sobre o mensalão tucano de Minas Gerais realça a vergonha do PSDB, que precisa explicar por que ainda mantém nos seus quadros o filiado tóxico. No seu penúltimo movimento, Azeredo recorreu contra a sentença que o condenou a 20 anos e dez meses de cadeia por peculado e lavagem de dinheiro. Signatária da condenação, a juíza Melissa Costa Lage, da 9ª Vara Criminal de Belo Horizonte, refugou as alegações do grão-tucano, reiterando a pena de reclusão. Vem aí um novo recurso.

Apostando na infinidade de recursos que a legislação brasileira lhe faculta, Azeredo já não ambiciona propriamente uma absolvição. Em liberdadade, ele persegue a prescrição. Foi por essa razão que se retirou da cena brasiliense pela porta dos fundos. Renunciou ao mandato de deputado federal para fugir de uma condenação no STF, forçando o envio do processo à primeira instância do Judiciário. No Supremo, não haveria a mamata dos recursos em série. A exemplo do que sucedeu com os mensaleiros petistas, Azeredo já teria amargado uma temporada atrás das grades.

O PSDB ainda não chamou Azeredo de “heroi do povo brasileiro”. Mas chegou muito perto disso ao afirmar, em nota oficial, que a sentença de 20 anos imposta ao seu ex-presidente nacional “surpreendeu” o partido, que “conhece a trajetória política e a correção que sempre orientou a vida do ex-senador e ex-governador.” A legenda disse estar “confiante de que, nas instâncias superiores”, Azeredo conseguirá expor as “razões de sua inocência”, obtendo uma “reavaliação da decisão”. Até lá, o tucanato conena-se a praticar, escancaradamente, a ética seletiva.


O que dirá Lula a Moro quando for interrogado?
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Josias de Souza

De mansinho, como quem não quer nada, Sérgio Moro vai encostando a Lava Jato na jugular de Lula. Primeiro, o juiz avalizou a inclusão do triplex 164-A, que a OAS reservara para a família Silva no célebre prédio do Guarujá, no rol de imóveis investigados na Operação Triplo X. Na sequência, Moro liberou a Polícia Federal para abrir, na mega-investigação do assalto à Petrobras, um inquérito específico sobre o sítio de Atibaia, cuja utilização foi terceirizada a Lula —livre de ônus e sem prazo— por dois sócios do primogênito Fábio Luiz da Silva, o Lulinha.

O que parecia impensável vai ganhando contornos de inevitável. Se 10% dos indícios colecionados pela PF se confirmarem, Lula será intimado a prestar esclarecimentos. Primeiro à força-tarefa da Lava Jato. Depois, ao próprio Sérgio Moro. Nessa hora, a conversa fiada do complô de direita e o lero-lero da perseguição política terão pouca serventia. O depoente terá de pular o cercadinho das notas oficiais do Instituto Lula, que tratam qualquer investigação como coisa de estraga-festas infiltrados no aparato estatal e hereges a serviço da mídia golpista.

Cercados pelos fatos, Lula e o petismo vivem uma realidade nova. Partidos costumam proteger seus investigados. No caso do PT, mesmo os mais evidentemente culpados, como os mensaleiros, que arrastam as correntes de condenações irreversíveis, são homenageados como “guerreiros do povo brasileiro.” Para Lula, o PT concede um deixa-pra-lá preventivo. Quando o escândalo é tão escancarado que fica impossível não reagir, o partido oferece toda sua conivência e cumplicidade. O juiz Moro tem se revelado bem menos compreensivo.

Em último caso, faltando-lhe melhor explicação, Lula poderá alegar que cometeu o crime da desatenção. Já admitiu ter visitado o triplex do Guarujá na companhia do amigo Léo Pinheiro, dono da OAS. Reconheceu também que Marisa e Lulinha estiveram no imóvel sob reformas. Mas a falta de atenção impediu Lula de reparar que pisava, junto com seus familiares, a hipotética cena de crimes mais graves do que o descuido. Quando a ficha lhe caiu, o triplex já estava nas manchetes.

No sítio de Atibaia, Lula tornou-se um reincidente. Visitou tantas vezes a propriedade que não reparou nas melhorias providenciadas pela Odebrecht e pelo amigo José Carlos Bumlai. Tampouco se deu conta de que a OAS mandara instalar uma cozinha nova e requintada. Que diabos, ninguém cobrou nada! Como diz o amigo Gilberto Carvalho, presente de empreiteiros para um ex-presidente da República “é a coisa mais normal do mundo”.

Uma das vítimas dos novos tempos vividos por Lula e o PT é a semântica. Quando chamam de normal as relações de um ex-presidente da República com salteadores do Estado você sabe que está no meio de uma crise de significado ou numa roda de cínicos. A alternativa ao cinismo seria uma confissão à moda de José Dirceu. Espremido por Moro, Dirceu admitiu que cruzou o país no jatinho de um lobista encrencado na Lava Jato. Também confessou que um outro lobista pagou a reforma de uma de suas casas, em Vinhedo. Lula talvez se sinta mais confortável confessando a Sérgio Moro sua condição de cínico descuidado.