Blog do Josias de Souza

Arquivo : setembro 2014

Aécio: PT tem insônia com as petro-revelações
Comentários 18

Josias de Souza

A delação de Paulo Roberto Costa transformou a Petrobras num pesadelo do qual o petismo tenta acordar. Ante a notícia sobre o envolvimento de mais dois ex-diretores no escândalo, Aécio Neves acha que os correligionários de Dilma Rousseff vão dormir cada vez menos.

“Se esse Paulo Roberto Costa já está deixando todo mundo sem dormir, quando chegarem próximo desse diretor conhecido como Duque, acho que muita, mas muita gente, principalmente do PT, vai ter grave insônia.” Disse isso após carreata em Minas. Referia-se a Renato Duque. Vem a ser um ex-diretor da Petrobras,  diretoria de Serviços da Petrobras, sob apadrinhamento do PT.


Marina: ‘PT é macaco do galho do Sarney e Cia’
Comentários 111

Josias de Souza

Em comício realizado na noite passada, no bairro de Cajazeiras, periferia de Salvador, Marina Silva tratou seu ex-partido com uma dose extra de acidez. Disse que a coligação da rival Dilma Rousseff junta “alhos com bugalhos”. Gente que, no passado, “nem conversava”. Enumerou: “O PT combatia o Sarney, o Collor, o Renan, o Maluf, o Jáder Barbalho… Agora, estão todos juntos. É tudo macaco do mesmo galho.”

Durante o governo Lula, quando Marina foi ministra do Meio Ambiente, o PT já havia firmado sua aliança com o que há de mais arcaico na política brasileira. E Marina conviveu com os “bugalhos” sem dar um pio. Só saltou do barco quando decidiu embarcar no projeto presidencial de 2010, que obteve quase 20 milhões de votos.

Marina falou para uma plateia miúda, pouco mais de 300 pessoas. Mas seu comitê cuidou para que o discurso fosse transmitido ao vivo pela internet. Irônica, a candidata realçou outra junção inusitada ocorrida na atual campanha. A junção do PT com o PSDB. “Pela primeira vez na história desse país o azul e o vermelho estão juntos na mesma artilharia pesada, combatendo a gente a ferro e fogo. E sabe por quê? Pela briga do poder pelo poder. Estamos aqui para dizer que não vale tudo para ganhar o poder.”

Mais cedo, Dilma Rousseff voltara a lançar mão da tática do medo num comício em São Paulo. A rival de Marina dissera que, a poucos dias da eleição, “começa uma série de mentiras e boatos.” Em seguida, difundiu o seu boato preferido:

“Tem uns que dizem que o Bolsa Família, nosso programa mais importante, o programa que nós consideramos o mais forte para reduzir pobreza e desigualdade, junto com emprego e aumento de salário, vai acabar. Vai acabar se eles forem eleitos.”

Marina também fizera campanha em São Paulo pela manhã, só que no interior do Estado, em Campinas. No comício de Salvador, ela repetiu um pedido que havia feito à plateia campineira. Deseja que seus partidários combatam os boatos nas redes sociais.

“Pode dizer lá: eu vou manter o Bolsa Família, o Minha Casa…, o Mais Médicos, o Fies, o Prouni, o Propnatec. As coisas boas nós vamos manter. Vamos explorar os recursos do pré-sal, dedicando-os à saúde e educação. O que não vamos permitir é que um diretor, um grupo de mensaleiros, façam corrupção na Petrobras. Essa velha política de se servir daquilo que é de todos haverá de acabar.”

Na opinião de Marina, a tática de associá-la ao risco de extermínio de benefícios sociais “subestima a inteligência do povo brasileiro”. Referiu-se à estratégia de Dilma como “conversa de marqueteiro.” Acha que, no final, não vai colar. Citou o escritor francês Victor Hugo, autor de Os Miseráveis. “Ele disse: ‘nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou’.”

Marina emendou: “O desejo por uma nova política é uma ideia que chegou para os brasileiros. E as ideias cujo tempo chegam só precisam de homens e mulheres que se disponham essas ideias.”

Para encerrar, Marina evocou um fenômeno amazônico: o encontro das correntes fluviais do rio Amazonas com as águas oceânicas. “A gente está fazendo uma onda, uma grande onda. [...] É como se fosse o encontro das águas. Lá na minha Amazônia tem um fenômeno chamado pororoca. Quando as águas se encontram, formam uma pororoca que não tem quem segure. Na campanha, essa pororoca é a sociedade brasileira.”


Candidato a deputado, Heráclito Fortes ‘marinou’
Comentários 25

Josias de Souza

Em política, nada se cria, nada se copia, tudo se ajusta. Antilulista inveterado, o ex-senador pefelê Heráclito Fortes, hoje candidato a deputado federal pelo PSB do Piauí, virou Marina Silva desde menino. Tornou-se um verdadeiro representante da nova política: um socialista de direita.

“No Brasil, quem dita a ideologia é a caneta”, disse ao repórter Felipe Frazão. “Essa disputa entre direita e esquerda é abstrata. Ao pé da letra, todos os partidos são socialistas. Isso se define com atitudes e não com placa. Eu fui prefeito de Teresina e não fiz uma obra para rico, só trabalhei em ações de povo.”


Código Florestal:1ª anistia de multa por desmatamento é homologada no Acre
Comentários 18

Josias de Souza

Dono de uma propriedade de 75 hectares, Geraldo Ferreira da Silva (de camisa escura na foto) tornou-se o primeiro produtor rural do país a obter anistia de multa por desmatamento com base no novo Código Florestal, em vigor há quase dois anos. Por ironia, as terras de Geraldo ficam em Brasiléia, no Acre, Estado onde nasceu Marina Silva, uma crítica fervorosa do código, sancionado por Dilma Rousseff em outubro de 2012.

Geraldo tivera a propriedade embargada e multada pelo Ibama em 2007. Coisa de R$ 15 mil. Um castigo por ter derrubado a mata na área de preservação permanente de sua propriedade, a chamada APP. Desde então, Geraldo estava proibido de obter benefícios do Estado e contrair empréstimos em bancos oficiais. Reabilitou-se graças ao artigo do novo código que autoriza a remissão de multas aplicadas até 22 de julho de 2008.

Em troca, Geraldo assinou um compromisso de recuperar a área degradada de sua propriedade. Pela lei, ele teria até 20 anos para o replantio. Mas comprometeu-se em restaurar a paisagem em cinco anos. Recebeu o documento que desbloqueou suas terras há dois dias, num ato que contou com a presença da ministra Izabella Teixeira, sucessora de Marina Silva na pasta do Meio Ambiente, e do senador petista Jorge Viana, um dos relatores do código no Senado.

Em conversa com o blog, o secretário de Meio Ambiente do Acre, Edegard de Deus, descreveu Geraldo Silva como um produtor rural de mostruário. “A propriedade é pequena, fica num antigo assentamento, já consolidado. Seu Geraldo mora na propriedade, vive dela. Trabalha com os dois filhos. Estava impedido de acessar programas sociais e obter crédito bancário. Voltou a ter segurança jurídica.”

Segundo Edegard, a falta de crédito para tocar a lavoura deixava Geraldo e sua família “desesperados”. Encontram-se na mesma situação outros 1.317 produtores do Acre, entre pequenos, médios e grandes. Todos têm contas a ajustar com o Ibama. O governo local deseja facilitar-lhes a vida. A “instrução normativa” baixada pelo Ibama para regulamentar a aplicação do novo Código Florestal só foi editada em 6 de agosto.

“Vamos colocar todo mundo na legalidade”, disse Edegard na noite passada. “A partir do compromisso da regularização ambiental, os produtores terão segurança jurídica para trabalhar. Vão poder realizar os seus negócios, obter financiamentos públicos. Esse é o principal objetivo.”


Abarrotadas, as gavetas da República explodem
Comentários 68

Josias de Souza

Dilma Rousseff tem orgulho de dizer: “Ao longo da minha vida tive sempre tolerância zero com corrupção.” Mas o destino —essa fração de segundo em que o sinal muda de verde para amarelo e a pessoa é intimada a decidir se para ou avança— pregou-lhe uma peça. Na hora em que ela reivindica um segundo mandato, as gavetas da República começaram a explodir ao seu redor. São explosões incontroláveis.

A inevitabilidade dos estrondos é proporcional à quantidade de bombas estocada nas gavetas. Há nitroglicerina demais. Tanta nitroglicerina que já não é possível negociar o que será insinuado e o que permanecerá escondido. Até agora, Dilma não demonstrou desejo de parar. Diante do sinal amarelo, ela aperta o botão do ‘eu não sabia’ e pisa no acelerador. Pena, mas nada impede que enxergue o freio.

A plateia ainda não sabe o tamanho do estrago produzido pela autoimplosão de Paulo Roberto Costa. Sabe-se que a delação do ex-diretor da Petrobras balançará o coreto de autoridades, estilhaçando-lhes as coligações. Mas não ficou claro, por ora, o grau de comprometimento dos alicerces do Planalto. Infelizmente, a visitação aos escombros não deve ser liberada antes das eleições.

Enquanto tenta desviar sua candidatura do óleo derramado na pista da sucessão pelo delator Paulinho, como o chamava Lula, Dilma é surpreendida por outra bomba —dessa vez uma bomba de efeito retardado. Foi armada por Renan Calheiros. Deveria ter ido pelos ares em 2007. Mas, com a ajuda de Lula, o artefato desceu à gaveta. Que a Procuradoria da República acaba de abrir.

Seis procuradores da República protocolaram na 14ª Vara Federal do Distrito Federal uma ação por improbidade administrativa contra o presidente do Senado. Nela, Renan é acusado de pagar com propinas recebidas da empreiteira Mendes Júnior a pensão de uma filha que teve em relacionamento extraconjugal. Em troca, acusam os procuradores, o senador pendurou no Orçamento da União emendas que bancaram obras da firma corruptora.

Quando o caso veio à luz, em 2007, Renan já presidia o Senado. E Lula, solidário com seu drama, ajudou-o a mobilizar o consórcio governista para enterrar o escândalo vivo. Combinou-se na ocasião que o Conselho de Ética encamparia a tese de que o dinheiro repassado à ex-amante de Renan viera da venda do gado. E os brasileiros seriam convidados a se fingir de bobos. Pelo bem da República.

Produziram-se dois relatórios atestando a falta de provas para a cassação do mandato de Renan —um foi subscrito por Romeu Tuma, já morto. Outro, por Epitácio Cafeteira, ainda muito vivo. Sabia-se que fechar os olhos piorava a palhaçada. Mas dizia-se que não convinha arriscar a estabilidade do Legislativo e a própria governabilidade em nome de algo tão relativo e politicamente supérfluo como a verdade.

Todos se encaminhavam para aceitar a combinação de que nada ocorrera. Mas, de repente, a imprensa golpista demonstrou que a boiada que Renan apresentara para justificar suas despesas era feita de notas frias. Um rebanho de dúvidas passou a transitar pelos salões do Senado. De novo, combinou-se que as reses não estavam ali. Num grande acordo, Renan renunciou à Presidência do Senado e seus pares abstiveram-se de passar o mandato dele na lâmina.

Em fevereiro do ano passado, como se nada houvesse sucedido, Renan foi devolvido ao comando do Senado. Dias antes da aprovação do nome dele em plenário, o então procurador-geral da República Roberto Gurgel denunciou-o ao STF. Servindo-se do mesmo caso que mistura lençois, verbas orçamentárias e propinas, Gurgel acusou Renan de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso.

A despeito de tudo, Renan obteve de volta, já sob Dilma, a poltrona de presidente do Senado. Amealhou votos de governistas e de oposicionistas. O PSDB entregou-lhe oito decisivos votos. Decorridos dezenove meses, ouve-se a explosão da nova ação judicial. O barulho chega na hora em que Renan emerge da lista de supostos recebedores de propinas cavadas na Petrobras. Uma bomba se interconecta com a outra.

Noutros tempos, as explosões eram resolvidas mais facilmente. As autoridades faziam cara de nojo em público, cobravam a cumplicidade dos aliados em privado e confiavam na pré-disposição da plateia para engolir histórias mal contadas. As prisões do mensalão geraram uma dúvida: de que tamanho precisa ficar o embaraço para que o brasileiro, já tão habituado ao papel de tolo, possa considerá-lo aceitável? A paciência parece ter diminuído. Além das gavetas, a desfaçatez encheu o saco.


Oscilação negativa obriga Marina a fazer política
Comentários 458

Josias de Souza

Surrada abaixo da linha da cintura na propaganda eleitoral de Dilma Rousseff e pisoteada na de Aécio Neves, Marina Silva bambeou. Ela ainda conserva um pé no segundo round da luta de boxe em que se converteu a sucessão de 2014, informa o Datafolha. Mas, para sobreviver na luta, terá de fazer algo que preferia adiar para depois de uma hipotética vitória: acordos políticos.

Aécio Neves despertou do nocaute. Mas enfrenta a contagem regressiva do calendário. Como observaram Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretores do Datafolha, “para chegar ao segundo turno, Aécio deve torcer por um feito inédito em eleições presidenciais nesta etapa da disputa: sua candidatura crescer além de seu teto e Marina cair abaixo de seu piso.”

Se confirmado pelos fatos, o embate final entre as duas damas da eleição será sangrento. Em fins de agosto, Marina ostentava na sondagem do segundo turno uma dianteira de dez pontos sobre Dilma (50% a 40%). Hoje, ela continua numericamente à frente. Mas a diferença é de apenas dois pontos (46% a 44%) —um empate técnico.

Deu-se até aqui, mais ou menos o que planejara João Santana depois que Marina ganhou o primeiro plano da disputa. Armado de mentiras, mistificações e falsas analogias, o marqueteiro de Dilma dissolveu um pedaço das intenções de voto de Marina e, mais grave, fez dobrar sua taxa de rejeição. Há um mês, apenas 11% dos eleitores diziam que jamais votariam em Marina. Hoje, a taxa soma 22%.

Permanecendo no ringue, Marina terá de provar para o pedaço menos ilustrado do eleitorado que não é a fraude que Lula e Dilma autorizaram João Santana a fabricar. A seu favor, a candidata do PSB terá a paridade de armas. Vai dispor dos mesmos dez minutos de rádio e televisão a que Dilma terá direito. Dinheiro também não haverá de lhe faltar. O problema de Marina será providenciar matéria-prima adequada para preencher o tempo de propaganda.

Marina precisará adensar o córner, atraindo forças novas para o seu lado no ringue. Sob pena de potencializar a empulhação  segundo a qual sua vitória empurraria o país para um desastre à Jânio ou à Collor. De saída, terá de obter de Aécio o que sonegou a José Serra na sucessão de 2010.

O apoio do PSDB não cairia no colo de Marina. Teria de ser conquistado. Noutras condições, a candidata talvez pudesse esnobar o tucanato. Avessa ao PT, a maioria dos eleitores de Aécio tenderia a votar nela. Mas Marina precisará, acima de tudo, passar a impressão de que a sua “nova política” não é antônimo de bom senso.

Marina não terá de sentar à mesa com um Sarney ou um Renan. Mas será pressionada a abrir um sorriso para personagens como Geraldo Alckmin, sobretudo se ele mantiver o favoritismo que ostenta nas pesquisas. Nas palavras de um correligionário do PSB: “Marina ainda tem boas chances de virar presidente da República. Mas precisa errar menos. E recusar uma parceria com Alckmin no maior colégio eleitoral do país seria um equívoco primário.”