Blog do Josias de Souza

Categoria : Vídeos

Políticos se unem para virar a página. Para trás!
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Josias de Souza

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O Apocalipse chegou. O baú da Odebrecht será, finalmente, aberto. A boa notícia é que a fila na porta do inferno aumentou. Os petistas, que se diziam perseguidos, estão agora acompanhados de representantes de todos os principais partidos, governistas e oposicionistas. A má noticia é que a fina flor da oligarquia política, ferida e aterrorizada, decidiu se unir e partir para o tudo ou nada. Os encrencados farão o que for preciso para restaurar o que chamam de “normalidade”, uma palavra que, no contexto atual, é quase um sinônimo de impunidade.

Desde que a investigação começou, há três anos, que os políticos cultivam a ilusão de que seria possível deter o pedaço do Ministério Público e do Judiciário que rompeu a tradição que protegia a promiscuidade política. Os adeptos dos maus costumes tentaram de tudo. Mas tudo não quis nada com eles. Poderosos ficaram impotentes e foram presos. Surgiram os delatores. E a podridão foi exposta.

Agora, todos voltaram a falar em reforma política. Michel Temer fará uma reunião com os presidentes da Câmara, do Senado e do Tribunal Superior Eleitoral, para discutir o tema. De repente, o caixa dois se tornou a coisa mais natural do mundo. Todos sempre fizeram, dizem petistas, tucanos, peemedebistas… A palavra chave é “todos”. O objetivo desse tipo de discurso não é restaurar a moralidade, mas eternizar a imoralidade.

Estão todos ansiosos para virar a página da Lava Jato. Para trás. Se não houver reação, a maior investigação de corrupção já vista no país pode resultar num novo pacto para aprovar mudanças que deixem tudo como está.


Advogados de Lula complicam a vida do cliente
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Josias de Souza

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Lula já disse que se considera “a alma viva mais honesta do planeta”. Mas sua honestidade está pendente de verificação nas cinco ações penais em que ele figura, por enquanto, como réu. A ação penal é o templo do contraditório. Nela, o acusado tem a oportunidade de exercer o sacrossanto direito de defesa. Os advogados de Lula acorretaram-se a duas linhas de ação. Numa, apresentam o seu cliente como vítima de perseguição política. Noutra, dedicam-se a atacar Sergio Moro.

Até aqui, essa tática dos advogados não livrou Lula de nenhuma das suspeições que pesam sobre seus ombros. Ao contrário, a estratégia passa a impressão de que Lula tornou-se um réu indefeso. Qualquer que seja a acusação, a defesa é o lero-lero da perseguição política. A essa altura, os perseguidores de Lula já compõem um exército: os agentes da Polícia Federal que o investigaram, os procuradores que o denunciaram, os juízes que aceitaram as denúncias, os tribunais que rejeitaram a maioria dos seus recursos… O mundo parece conspirar contra Lula.

Nesta sexta-feira, horas depois de ter amargado mais duas derrotas na guerra judicial que trava contra Sergio Moro —uma no STJ, outra no TRF da 4ª Região— a defesa de Lula voltou a se indispor com o juiz da Lava Jato. Os advogados arrolaram como testemunha de defesa Henrique Meirelles, que presidiu o Banco Central sob Lula. Ao perceber que os advogados levantavam a bola para Meirelles elogiar o governo Lula, Sergio Moro avisou que o processo sobre o tríplex do Guarujá não é local mais adequado para fazer propaganda política. A defesa de Lula acusou Moro de desrespeito. Lula talvez não tenha notado, mas sua defesa já ofende a inteligência da plateia. Se há um complô contra Lula, seus advogados lideram a conspiração.


Renasce no Congresso articulação sobre caixa 2
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Josias de Souza

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A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal eletrificou o Congresso Nacional. Fez isso ao levar o senador do PMDB Valdir Raupp ao banco dos réus. Abriu-se uma ação penal em que o senador responderá pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter registrado no TSE como doação legal R$ 500 mil recebidos de uma construtora que desviou o dinheiro da Petrobras.

A decisão fez ressurgir no Congresso articulação suprapartidária para aprovar uma lei criminalizando o caixa dois. Como se já não fosse crime. O objetivo é isentar de culpa o caixa dois do passado, sob o argumento de que uma nova lei não pode retroagir no tempo.

Os ministros do Supremo sinalizaram que não estão dispostos a permitir que o TSE seja usado como lavanderia de dinheiro imundo. No Congresso, ninguém atirou pedras em Valdir Raupp. Em matéria de caixa dois, todos têm telhado de vidro. Muitos têm não só o telhado, mas paletó de vidro, camisa de vidro, gravata de vidro…

Uma parte dos congressistas alega que é preciso separar o joio do trigo. Nessa linha, políticos que receberam dinheiro não-contabilizado para fazer campanha não deveriam ser confundidos com colegas que enriqueceram recebendo propinas. O diabo é que, para a Procuradoria da República, não há mais trigo nesse enredo, só joio. E para o eleitor, ficou muito difícil fazer esse tipo de distinção. Depois que a política virou uma subsidiária da Odebrecht, todos os gatunos parecem pardos.


Contra crise política, Temer vende uma recuperação hipotética da economia
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Josias de Souza

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Com o mandato sub judice no Tribunal Superior Eleitoral e com as delações da Odebrecht voando sobre sua cabeça, Michel Temer fará nas próximas semanas um esforço para mudar de assunto. Ele tentará injetar ânimo econômico dentro da crise política.

Para começo de conversa, o governo trata como coisa do passado a recessão histórica que vive o país, com dois anos consecutivos de queda no PIB. Temer agora diz que está recolocando o país nos trilhos e entregará ao sucessor uma locomotiva em movimento.

Nesta terça-feira, dia em que o IBGE informou que o PIB do país levou um tombo de 3,6% em 2016, depois de já ter mergulhado 3,8% em 2015, Temer atirou para todos os lados. Disse que fará uma reforma tributária em fatias, anunciou um pacote de concessões à iniciativa privada e distribuiu afagos ao congresso ao empossar um deputado do PMDB no Ministério da Justiça e um senador do PSDB no Itamaraty. Temer sabe que seu otimismo econômico depende da boa vontade do Congresso.

Há na praça tímidos sinais de recuperação da economia. Mas Temer, acossado pela crise política, tenta colher resultados econômicos antes do amadurecimento dos frutos. Basta que o Congresso rejeite a reforma da Previdência ou aprove uma reforma pífia para que o otimismo do governo vire fumaça.

Temer faz o que lhe resta. Vende à plateia um futuro de prosperidade. É fácil fazer isso, pois o futuro não pode ser cobrado nem conferido. O futuro, como se sabe, a Deus pertence. Enquanto espera, você pode pernguntar: mas e quanto ao passado, quem responderá por ele?


Invulnerável, Temer exagera na falta de recato
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Josias de Souza

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O governo de Michel Temer tornou-se o túmulo do recato. O pudor perdeu o sentido. Num instante em que o Tribunal Superior Eleitoral levanta os podres da campanha de 2014 e a Procuradoria-Geral da República se prepara para formalizar uma avalanche de inquéritos decorrentes das delações da Odebrecht, o presidente promove no Congresso uma despudorada dança de cadeiras.

Temer confirmou no final de semana que Romero Jucá (PMDB) —oito inquéritos no Supremo Tribunal Federal, três deles na Lava Jato— responderá pela liderança do governo no Senado no lugar do tucano Aloysio Nunes (PSDB), deslocado para o Itamaraty. O deputado André Moura (PSC) —cinco inquéritos e três ações penais no Supremo— será líder do governo no Congresso, posto que era exercido por Jucá.

Dias atrás, Temer havia desalojado Moura da liderança do governo na Câmara, acomodando em seu lugar Aguinaldo Ribeiro (PP), outro investigado no Supremo sob acusação de receber mensada no petrolão.

Há no Senado 81 senadores. Na Câmara, 513 deputados. Mas o presidente tem fixação por aliados enrolados. Responder a processo no Supremo virou uma pré-condição para ser aproveitado no governo Temer.

O que mais espanta na movimentação de Temer é a sensação de que o presidente se considera invulnerável. Temer segura ministros suspeitos, cerca-se de aliados processados, dá de ombros para a Lava Jato e trama a protelação do julgamento do seu mandato no Tribunal Superior Eleitoral.

Com novo sentido, o pudor faz coisas impensáveis em Brasília. E já nem fica vermehinho.


Partidos convidam a Justiça Eleitoral a puni-los
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Josias de Souza

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Os depoimentos de delatores da Odebrecht ao ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, levam à vitrine um subproduto que vai muito além do processo que pode resultar na cassação do mandato de Michel Temer e na decretação da inelegibilidade de Dilma Rousseff. As inquirições reforçam a sensação de que os partidos políticos brasileiros apodreceram. Além do PT de Dilma e do PMDB de Temer, os delatores acomodam no lixão partidário legendas como o PDT e até o PSDB, que é o autor da ação que o TSE terá de julgar.

Há hoje no Brasil 35 partidos formalmente registrados na Justiça Eleitoral. Há outros 40 na fila. Não há ideologia nesse fenômeno. Os partidos viraram um grande negócio. Transformaram-se em paraísos fiscais custeados por propinas, caixa dois e pelo déficit público. A lei prevê a punição de partidos picaretas. As penas incluem a perda do dinheiro do Fundo Partidário e a até cassação da legenda. Em vez de criar, a Justiça Eleitoral deveria começar a extinguir partidos. Com meia dúzia, o país estaria bem servido.

Nos depoimentos dos delatores da Odebrecht, afora a reiteração da acusação de que os tucanos também se lambuzaram no caixa dois da construtora, informou-se que o PDT, que tenta empinar a candidatura presidencial de Ciro Gomes, vendeu por R$ 4 milhões sua adesão à chapa vitoriosa na disputa presidencial de 2014. Insinuou-se que a xepa partidária incluiu pagamentos a outras legendas —do direitista PRB ao comunista PCdoB. Vivemos uma fase pós-ideológica em que vigoram quatro poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e o Dinheiro


Falta ao enredo da corrupção nacional um vilão
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Josias de Souza

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Há no enredo construído a partir do depoimento de Marcelo Odebrecht à Justiça Eleitoral todo tipo de personagem —há um explorado, uma injuriada e um inocente. Só não há um vilão. O herdeiro da Odebrecht considera-se um “otário do governo”, um “bobo da corte” —um sujeito obrigado a tocar obras indesejadas e a pagar propinas a políticos.

Dilma Rousseff se apresenta como vítima das “mentiras” do empreiteiro sobre o caixa dois de sua campanha. E Michel Temer reafirma sua inocência porque o delator disse que jantou com ele, combinou um socorro monetário ao PMDB, mas afirmou que quem tratou do valor e da forma de pagamento foi o fiel escudeiro Eliseu Padilha, não o presidente.

Poucas vezes na sua história o Brasil atravessou uma conjuntura política tão surrealista. Os brasileiros que acompanham os capítulos da novela da corrupção, agora encenada em sua versão eleitoral, são convidados diariamente a resistir à desesperança e ao cinismo. Mas uma coisa não se pode negar aos personagens que protagonizam as manchetes: eles já não têm o menor receio de insultar a inteligência da plateia.

Considerando-se os seus autocritérios, todos os envolvidos na trama são boas pessoas. E o brasileiro fica pensando na falta que faz ao país um vilão. Um vilão de mostruário, desses cuja maldade está na cara, sem qualquer disfarce. Um vilão assim, inquestionável, colocaria os pés sobre a mesa e planejaria a próxima imoralidade sem nenhuma ambiguidade. Mas não, são todas boas pessoas. Fazem suas vilanias com as melhores intenções e na maior inocência.


Odebrecht torna a coleta de 2014 indefensável
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Josias de Souza

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A inclusão de revelações feitas por delatores da Odebrecht no processo que pode resultar na interrupção do mandato de Michel Temer fez tremer o presidente e seus operadores. A razão da tremedeira é simples: ninguém mais tem dúvidas quanto à promiscuidade que permeou o financiamento da chapa vitoriosa na disputa presidencial de 2014.

É justamente por conhecer os porões financeiros do comitê eleitoral que a turma de Temer adotou em sua defesa a tática da barriga. Temer quer empurrar com a barriga o julgamento do Tribunal Superior Eleitoral. Avalia que o risco de cassação diminui na proporção direta da aproximação do fim do mandato.

Até aqui, a principal linha de defesa de Temer era a tese segundo a qual a contabilidade da sua campanha, como candidato a vice-presidente, nada tinha a ver com as contas de Dilma, que encabeçava a chapa. Esse argumento tem um quê de cinismo, já que, para se contrapor à acusação de que assumiu a presidência graças a um golpe, Temer sempre declarou que foi eleito junto com Dilma, na mesma chapa, com a foto exposta na mesma urna eleitoral.

Está cada vez mais difícil digerir a tese da defesa de Temer de que as contas de sua campanha não se confundem com as de Dilma. O marqueteiro do comitê, João Santana, foi remunerado secretamente pela Odebrecht na Suíça. Partidos aliados receberam um estímulo monetário da Odebrecht para aderir à coligação do PT e do PMDB. O próprio Michel Temer pediu R$ 10 milhões a Marcelo Odebrecht.

Resta saber que papel pretende desempenhar a Justiça Eleitoral neste julgamento histótico. A turma de Michel Temer treme porque sabe que, observados apenas os rigores da lei, a caixa registradora de 2014 é indefensável.


Política virou uma massa uniforme de cúmplices
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Josias de Souza

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Expostos na vitrine da Lava Jato, os partidos políticos reagem às investigações que os desmoralizam com uma naturalidade hedionda. A reação faz lembrar um fenômeno que a filósofa alemã Hannah Arendt chamou de “a banalidade do mal”. A penúltima evidência do fenômeno foi fornecida pelo presidente do PT, Rui Falcão. Ele defendeu num artigo que a liminar do ministro do STF Marco Aurélio Mello que libertou o ex-goleiro Bruno deveria ser, por assim dizer, estendida aos presos petistas da Lava Jato. Para ele, deveriam ser soltos imediatamente José Dirceu, condenado a mais de 20 anos de cadeia, João Vaccari, condenado a mais de 34 anos, e Antonio Palocci, uma sentença esperando na fila.

O brasileiro gosta de se iludir. Costuma imaginar que o Brasil nunca mais será o mesmo depois de cada grande escândalo. Mas o mesmo sempre volta. Os mesmos políticos viscosos, a mesma grandeza da vista curta, a mesma generosidade dos interesses mesquinhos. Tudo protegido pela conveniência dos interesses partidários e pela leniência do eleitor.

O PT não é a única legenda a se render à banalidade do mal. Outros partidos reagem às delações, aos inquéritos e às denúncias com profunda normalidade. Ninguém expulsa ninguém. Pior: algumas das principais legendas do país, como PMDB e PSDB, são presididas por políticos processados no Supremo Tribunal Federal. Costuma-se dizer que há muita gente honesta na política. O problema é que quem olha não distingue culpados de inocentes. Só enxerga uma massa uniforme de cúmplices.