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Categoria : Entrevistas

Reformas só virão após eleição, afirma Geddel
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Josias de Souza

O ministro Geddel Vieira Lima, coordenador político do Planalto, disse que as reformas pretendidas pelo governo de Michel Temer só virão depois da abertura das unras das eleições municipais de outubro. “Não me iludo imaginando que o parlamentar vai abandonar o processo eleitoral para manter quórum alto em Brasília. Então, as coisas devem acontecer para valer apenas depois das eleições”, afirmou Geddel em entrevista ao blog. Lembrou que, antes das eleições, haverá a Olimpíada e o julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado.

Para o Geddel, a vitória de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na sucessão de Eduardo Cunha devolverá “previsibilidade” à Câmara. Avalia que o processo demonstrou que o chamado “centrão” já não existe como grupo. Não viu problemas no fato de Maia ter pedido votos ao PT. “É natural que ele tenha buscado votos em toda a Casa”, disse.

Ironicamente, o ministro reconheceu que interferiu no seu partido, o PMDB, para retirar do jogo a candidatura do correligionário Marcelo Castro, que entrou na disputa na reta final, impulsionado pelo apoio de Lula.

Geddel explicou a diferença: Marcelo Castro entrou na disputa “como candidato de uma manobra petista, cuja vitória seria atribuída à articulação do Lula contra Michel Temer.” Noutro trecho da conversa, declarou: “A candidatura de Marcelo Castro, que foi apresentada como uma avalanche impulsionada por Lula. Não prosperou. Não permitimos que prosperasse.” Abaixo, a entrevista:

— O que muda com Rodrigo Maia na presidência da Câmara? Sob o comando de Waldir Maranhão, faltava organização e previsibilidade. O fato de passarmos a ter essa previsibilidade já é uma mudança importante. Podemos manter um diálogo. Temos agora, nas duas casas legislativas, presidentes que podem tratar dos assuntos com o governo de forma adequada, sem perder a independência do Congresso e sem comprometer a harmonia com o Executivo.

— Concorda com a tese segundo a qual o ‘centrão’ se esfacelou? Essa coisa está sendo tratada de forma muito superficial. Nunca tratei esse grupo como centrão. Isso é um reducionismo inadequado. Do meu ponto de vista, o que há são partidos políticos. Esses partidos, em determinado momento, se reuniram em torno da liderança importante e forte de Eduardo Cunha. Ponto. A eleição da Câmara mostrou que não havia organicidade nesse grupo.

— Acha que o resultado favoreceu o governo? O governo ganhou na hora que Rogério Rosso e Rodrigo Maia foram para o segundo turno. Ali, a vitória do governo já estava estabelecida.

— Em que medida o governo interferiu na disputa? As pessoas ficam buscando justicativas para os seus erros. E surge esse falatório de que o governo interferiu por baixo dos panos. Já vi versões de que Geddel tinha preferência por ‘A’ ou por ‘B’.

— E não teve preferência? Eu fiz uma única interferência. Foi quando surgiu a candidatura de Marcelo Castro, do PMDB. O problema não era o candidato, mas a forma como a candidatura dele surgiu. Eu interferi no meu partido. Achava que o PMDB não deveria apresentar candidatura, para não repetir erros anteriores. A partir dali, eu sempre disse com clareza: se houvesse um segundo turno entre Rogério Rosso [PSD] e Rodrigo Maia [DEM] —ou até mesmo com Giacobo [PR]— estaria tudo em casa.

— O que deve ser feito para deter a insatisfação do PMDB? Não vamos transformar um morundum do cerrado num monte Everest de problemas. É fácil entender o que aconteceu. No final do governo Dilma, quando ela já estava no desespero, a bancada do PMDB na Câmara obteve o que quis —da interlocução prefencial até o Ministério da Saúde, Dilma dava tudo. Na nova realidade, pós-impeachment, a bancada perdeu esses espaços. E alguns deputados aproveitaram esse momento para mandar recados. Isso é página virada. Veremos quais são as insatisfações. Se for possível resolver, daremos celeridade. No mais, o tempo vai curando as feridas.

— Muitos disseram que o governo cometeu barbeiragens no processo sucessório da Câmara. O que acha? Como pode ter havido barbeiragens numa vitória como essa? A imprensa precisa definir o que diabo deseja. Há o entendimento de que governo não deve entrar nesse tipo de processo. Nós entramos apenas no que tinha que entrar. O resultado foi absolutamente satisfatório. Onde está a barbeiragem?

— Não estaria no fato de o governo ter se deixado surpreender pelo PMDB? Se isso foi uma barbeiragem, o carro balançou na pista e, rapidamente, se aprumou. Ao fim e ao cabo, restaram demonstradas para os aliados duas coisas. Primeiro, que o governo não manobrava com o PMDB. Em segundo lugar, verificou-se que o governo tem força no PMDB. A candidatura de Marcelo Castro, que foi apresentada como uma avalanche impulsionada por Lula. Não prosperou. Não permitimos que prosperasse. Acham que isso foi uma derrapada na pista molhada? Está bem. Mas o piloto imediatamente ajeitou o carro na pista. E atravessou a reta de chegada em primeiro lugar. Num processo delicado como esse, o importante é o resultado final, não as surpresas do caminho. Estou feliz com o resultado.

— Os ministros interferiram no processo eleitoral? Claro que ministros devem ter ligado para os deputados. É natural que Gilberto Kassab [Comunicações] tenha lutado pelo Rogério Rosso. Natural também que, em determinado momento, o Mendonça Filho [Educação] tenha lutado por Rodrigo Maia. E o Maurício Quintela [Transportes], pelo Giacobo. O próprio Moreira Franco, que é sogro do Rodrigo Maia, pode ter pedido votos para ele. Mas o governo —ou essa entidade que vocês da imprensa chamam de Planalto— não se meteu na disputa.

— Está dizendo que o Planalto não interferiu em nada? Zero. Eu, o ministro Eliseu Padilha [Casa civil] e o presidente Michel Temer não interferimos. Desafio qualquer um a demonstrar o contrário.

— O que levou Rodrigo Maia a reverter o favoritismo de Rogério Rosso? O que tornou o Rodrigo favorito foi o fato de ele ter unificado o campo partidário que gravitava em torno do DEM. Atraiu PSDB, PSB e PPS. E o outro núcleo partidário não conseguiu a mesma unidade. Ou seja: não havia centrão. Os partidos se dividiram: o PP lançou Espiridião Amin. O PR, o Giacobo. O PTB, Cristiane Brasil. O PSD, o Rogério Rosso. O centrão não existia como grupo orgânico dentro do Parlamento. A política foi decidida pela matemática.

— O fato de Rodrigo Maia ter obtido votos em partidos como PT, PDT e PCdoB é um problema para o governo? De nenhuma forma. Incomodaria se ele tivesse aparecido, como apareceu o Marcelo Castro, como candidato de uma manobra petista, cuja vitória seria atribuída à articulação do Lula contra Michel Temer. Essa seria a leitura. Quanto ao Rodrigo Maia, é natural que ele tenha buscado votos em toda a Câmara. Para surpresa de todos, Rodrigo também teve votos em partidos do centrão, como PR e PP. As circunstâncias o favoreceram. Ainda que o Rosso tenha feito um belo papel. Telefonei para ele. E gostei do que ouvi. Disse que não mudou nada, deseja pacificar a Casa. Conversa de gente grande. Achei bom o processo.

— O governo mantém o plano de encaminhar as reformas estruturais ao Congresso apenas depois da confirmação do impeachment? Costumo dizer que temos de tratar a vida como ela é. O recesso parlamentar termina dia 1º de agosto. No dia 5, começa a Olimpíada. Não podemos imaginar que, durante os Jogos, vamos conseguir quórum de 300 a 340 deputados, para votar matérias polêmicas. Vem o impeachment. E, logo em seguida, começa outra batalha, que é a questão das eleições municipais de outubro. Ainda que não haja recesso branco, não me iludo imaginando que o parlamentar vai abandonar o processo eleitoral para manter quórum alto em Brasília. Então, as coisas devem acontecer para valer apenas depois das eleições.


Geddel: Dilma deixou rombo de R$ 200 bilhões
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Josias de Souza

O ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) informou que a herança do governo Dilma Rousseff inclui um rombo orçamentário de cerca de R$ 200 bilhões. “É um número absolutamente assustador”, disse Geddel em entrevista ao blog, na noite desta quarta-feira (18). A gestão petista estimara para 2016 um déficit de R$ 96 bilhões. “Não corresponde à realidade”, disse o ministro. (veja acima os principais trechos da entrevista. No rodapé do post, a íntegra)

“O governo atual terá muitas dificuldades e terá que pedir muitos sacrifícios para controlar e levar o país numa situação melhor até 2018”, acrescentou Geddel. Os apoiadores do governo no Congresso limpam a pauta de votações à espera do projeto de revisão da meta fiscal que o Planalto enviará na próxima semana. O prazo para votar a proposta expira no domingo (29).

Segundo Geddel, o governo realiza um inventário do legado de Dilma. Afora o déficit vitaminado, ele mencionou algumas irregularidades já detectadas. Disse, por exemplo, que o PT explorava politicamente a distribuição de chaves do programa Minha Casa, Minha Vida, sob a responsabilidade do Ministério das Cidades. Mencionou também a existência de funcionários fantasmas na Secretaria de Governo, que era comandada pelo petista Ricardo Berzoini antes da sua chegada.

“O PT estava aqui, na Secretaria, utilizando-se de cerca de mil cargos para aparelhar a sua militância política”. Esses militantes não trabalhavam?, indagou o repórter. E Geddel: “Não trabalhavam. Estamos trabalhando na identificação desses processos.” O auxiliar de Temer não chama a herança de Dilma de maldita porque “não seria original”. Prefere dizer que “é uma herança de graves consequências para o país.”

Após a conclusão do levantamento, Michel Temer pretende revelar os dados num pronunciamento em rede nacional ou em entrevistas. Geddel afirma que o trabalho é dificultado pela ausência de informações nos arquivos oficiais. “Todos estão absolutamente abismados com as notícias que estão recebendo desse inventário, que está sendo feito apesar de todas as dificuldades, de não terem deixado dados, de não terem feito transição, de não terem deixado nada registrado em computadores. Uma coisa que eu chamaria de impatriótica.”

Perguntou-se ao ministro se houve o sumiço deliberado de dados. “Eu tenho que ter cautela para lhe dizer isso, mas as notícias que nós estamos tendo nesse primeiro momento são muito ruins”, respondeu Geddel. Referindo-se à sua pasta, ele afirmou: “Não ficou registro absolutamente de nada —do pagamento de emendas [de parlamentares], da transferência de recursos… Tanto que nós estamos pedindo aos ministros que suspendam pagamentos e empenhos feitos nos últimos dias, para que possamos revisitá-los.”

Geddel acrescentou: “Há uma série inacreditável de atos e nomeações, de coisas absolutamente desprovidas de senso de responsabilidade que foram praticadas nas últimas duas semanas. Estamos examinando aquilo que não se transformou num ato jurídico perfeito ainda, para eventualmente cancelá-los, para que a máquina governamental volte a andar com um mínimo de transparência, […] não tão aparelhada como vinha sendo.”

Instado a comentar a situação precária do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), Geddel disse que não há nada que o governo possa fazer. “ “Não há vacância de cargo, não há instrumento nem legitimidade para que ele deixe de ser o vice-presidente da Câmara. A vida como ela é. O meu papel é fazer as votações acontecerem. E nós vamos fazer da forma que seja possível, não, talvez, da forma ideal.”

Sobre o movimento liderado por DEM, PPS e PSB para substituir Maranhão, Geddel adota um tom pragmático: “Sou um homem experimentado. Existe um discurso, é natural. E existe uma prática. A prática não permite que eu tome uma atitude que não seja construir através do diálogo uma saída para que o governo possa ter seus projetos tramitando na Câmara com rapidez e que a sociedade tenha resultados. Eu não tenho direito, como homem de govenro, de ficar fazendo discurso. Eu tenho que apresentar resultados à sociedade. Essa é a orientação que eu tenho do presidente Temer.”

Geddel falou também sobre a escolha do deputado André Moura (PSC-SE) para desempenhar as funções de líder do governo na Câmara. Reconheceu que o governo cogitou outro nome para a função: Rodrigo Maia (DEM-RJ). Mas disse que Temer optou por Moura porque ele atraiu o apoio de um expressivo grupo de partidos. Recordou-se ao ministro que Moura responde a oito processo no STF. É réu em três ações penais nas quais é acusado de desviar verbas públicas. Investiagam-no também na Lava Jato. Até uma acusação de tentativa de homicídio pesa sobre os ombros do novo líder.

Geddel não pareceu incomodado: “Ele é um deputado, está no exercício do mandato. Não houve nenhuma suspensão dos seus direitos políticos. E quanto eu digo a vida como ela é, é porque nós precisamos aprovar matérias na Câmara. Matérias que são urgentes e são exigidas pela sociedade basileira. Se você tem dez, 15 líderes que dão sustentação ao governo apoiando um parlamentar para liderá-los, evidentemente que, ainda que haja todos esses senões que você coloca, nós temos que levar em conta aquilo que é o interesse mais imediato do país…”


Senado instala na terça a comissão do impeachment, que deve durar 12 dias
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Josias de Souza

Indicado pelo PMDB para presidir a comissão do impeachment no Senado, o paraibano Raimundo Lira se autoimpôs duas metas: “Terei um comportamento suprapartidário e uma postura neutra.” Em entrevista ao blog, Lira disse que a comissão será instalada na terça-feira (26). E concluirá em até 12 dias a análise sobre a denúncia recebida da Câmara.

As conclusões da comissão serão, então, submetidas ao plenário do Senado. Que decidirá, por maioria simples de votos, o destino de Dilma. Se a maioria dos senadores concluir que o processo deve prosseguir, a presidente será afastada do cargo por até seis meses. Enquanto durar o julgamento, responderá pela Presidência, com plenos poderes, o vice Michel Temer.

Vai abaixo a íntegra da entrevista do senador Raimundo Lira:

estrelinha

— Já tem uma ideia da linha que adotará na presidência da comissão do impeachment? Tenho metas traçadas. Terei um comportamento suprapartidário. Informei isso ao senador Eunício Oliveira (PMDB), meu líder, que me conferiu essa missão tão relevante. Também decidi que terei uma postura neutra em relação ao objeto de discussão da comissão. Farei o possível para que executemos nosso trabalho com calma, temperança e objetividade.

— Quando será instalada a comissão? Na segunda-feira, a comissão será formalizada no plenário do Senado, com as indicações dos nomes de todos os seus membros. A primeira reunião, para a eleição do presidente e do relator, será na terça-feira às 10h.

— Já planejou o trabalho? Já formei uma equipe de regimentalistas e especialistas em direito constitucional e na lei de 1950 que regulamenta o processo de impeachment. Não vou viajar, ficarei em Brasília. Vamos trabalhar nesta sexta-feira, a partir das 10h. Tudo para que, na segunda-feira, a gente já esteja totalmente inteirado sobre os ritos e prazos. Quero estar em condições de responder a todas as questões de ordem que vão surgir durante os trabalhos da comissão.

— Pretende acelerar o desfecho da comissão? Não vou encurtar o processo nem vou esticar. Usarei o prazo regimental. Farei isso porque, no momento em que você encurta os prazos, pode prejudicar a defesa. E minha intenção é utilizar o prazo máximo permitido.

— Que prazo é esse? Pelas informações prévias que obtive, o rito da comissão vai durar entre dez e 12 dias. São dez dias úteis. Falo em 12 dias porque tem o final de semana pelo meio.

— Portanto, dentro de no máximo 12 dias a comissão estará em condições de apreciar um relatório sobre a admissibilidade do impeachment? Exatamente.

— Nesta fase, há espaço para a manifestação da defesa ou a presidente se defenderá apenas na etapa posterior, de julgamento? Existem diferenças entre o funcionamento da comissão do Senado e a da Câmara. Parece que não está previsto o exercício da defesa nessa fase atual. Mas, se não houver nenhum tipo de impedimento, no que depender da minha decisão pessoal, abrirei espaço para que a defesa venha se pronunciar na comissão.

— Ainda que não haja previsão regimental, sua intenção é de abrir espaço para a defesa? Exatamente. Naquilo que não for previsto regimentalmente, depende da decisão do presidente. E, no que depender de mim, darei o máximo de condições à defesa. Estamos tratando de um assunto de grande relevância.

— Já conversou com o senador tucano Antonio Anastasia, que deve ser o relator da comissão? Ainda não conversarmos. Mas, se o relator for o senador Anastasia, terei enorme prazer de trabalhar com ele. É muito sério, correto, competente e moderado.

— O PMDB tinha a prerrogativa de escolher o posto de relator. Por que optou pela presidência? Creio que o líder Eunício Oliveira fez essa opção porque o relatório pode, eventualmente, beneficiar o vice-presidente Michel Temer. Então, não seria bom que o trabalho fosse confundido com a defesa de interesse próprio ou partidário.


PMDB tende a fechar questão a favor do impeachment até dia 14, declara Jucá
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Josias de Souza

Depois de romper com o governo, o PMDB cogita adotar outra providência extrema. Há no partido “uma tendência pelo fechamento de questão a favor do impeachment” de Dilma Rousseff, disse ao blog o senador Romero Jucá, que responde pela presidência do PMDB desde terça-feira (5). A ideia é anunciar a novidade até a próxima quinta-feira, dia 14 de abril, véspera do início das sessões de discussão e votação do impedimento de Dilma no plenário da Câmara.

O fechamento de questão é uma ferramenta que permite ao partido obrigar seus congressistas a seguirem a vontade da maioria em votações de temas considerados vitais, sob pena de expulsão. O mecanismo está previsto no artigo 47 do estatuto do PMDB, dono das maiores bancadas na Câmara e no Senado. O parágrafo 1° desse artigo prevê que a decisão tem de ser aprovada pela maioria das bancadas e da Executiva Nacional.

O parágrafo 2° do mesmo artigo regula as exceções: “Os parlamentares que, em relação à matéria objeto de ‘fechamento de questão’, pretendam ter, por motivos de consciência ou de convicção religiosa, posição diversa, deverão submeter suas razões ao conhecimento e à apreciação” das respectivas bancadas e da Executiva. Abstenções ou votos contrários só serão admitidos quando autorizados pela “maioria absoluta” dos órgãos partidários.

Jucá conversou com o blog no final da tarde desta quarta-feira. Nos vídeos expostos no alto do texto, você assiste aos principais trechos. Na peça grudada rente ao rodapé, vai a íntegra. Antes do início da conversa, Jucá endereçou à comissão de ética do PMDB pedidos de expulsão dos quadros da legenda de dois ministros que resistem à ideia de entregar seus cargos: Kátia Abreu (Agricultura) e Celso Pansera (Ciência e Tecnologia).

“Num momento como esses, não dá para o PMDB tergiversar”, disse Jucá. “Não podemos ter duas, três posições diferentes. A população não entende isso. A política cobra coerência e firmeza.” Além das ações disciplinares contra Kátia e Pansera, há no conselho de ética do partido um processo de expulsão já instaurado contra o ministro Mauro Lopes (Aviação Civil). Os três não são os únicos peemedebistas que permanecem pendurados na Esplanada. Há outros três contra os quais nenhuma punição foi requerida: Helder Barbalho (Portos), Eduardo Braga (Ciência e Tecnologia) e Marcelo Castro (Saúde).

Número dois na hierarquia partidária, Jucá foi alçado à presidência do PMDB depois que Michel Temer decidiu se licenciar do posto. Convertido em alvo preferencial do petismo, Temer avaliou que a liturgia que é obrigado a observar como vice-presidente da República o impedia de exercer o comando partidário na sua plenitude. Sem amarras institucionais, Jucá dispõe de liberdade para atacar, repelir ataques e, sobretudo, articular a estratégia do PMDB para assumir o Planalto.

Instado a avaliar o desempenho de Dilma, Jucá soou cáustico. Disse que a presidente “teve grandes oportunidades” para se conciliar com êxito. Mas conduziu o país para o “penhasco”, para o “despenhadeiro”. A certa altura, o senador coreografou sua metáfora: “O governo está dançando na beira do penhasco…” Para ele, Dilma reduziu o Brasil do posto de “player mundial” para a condição de “país ridicularizado.”

Economista, Jucá refuta a tese segundo a qual o PMDB é sócio da ruína produzida sob Dilma. “No caso da economia e da política, o presidente Michel Temer não era copiloto desse avião, não estava na cabine. O PMDB era comissário de bordo nesse avião. A gente atendida as pessoas, a gente dizia: ‘por favor, aperte os cintos.’ E ‘está aqui na frente o saquinho. Pode vomitar’.”

Jucá não se arrisca a prever o resultado da votação do pedido de impeachment na Câmara. Mas ele parece não ter dúvidas quanto à inevitabilidade da queda de Dilma se o governo permitir que a encrenca seja transferida para o Senado. “Será muito difícil uma mudança de rota se essa matéria passar no plenário da Câmara.” Cabe aos deputados avaliar a admissibilidade da denúncia. Aos senadores compete julgar a encrenca.

Na opinião de Jucá, nem mesmo a simpatia do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), conseguirá livrar Dilma do infortúnio. “A última palavra é do plenário do Senado”, disse ele. “Tem um rito já definido.” Renan tem afirmado que, a despeito de suas convicções pessoais, vai se comportar como condutor do processo, lembrou Jucá, antes de realçar um detalhe:

“No dia da votação, não será o presidente Renan Calheiros que vai presidir o Senado, mas o presidente do Supremo Tribunal Federal.” Em contraponto à posição de Renan, que disse esperar que o pedido de impeachment não chegue ao Senado, Jucá declarou: “Eu espero que venha!”

Na última segunda-feira, Lula escorou-se na ironia para atacar Michel Temer num comício em São Bernardo. “Eu não tenho nada contra o Michel Temer”, disse o morubixaba do PT. “A única coisa que eu poderia falar é ‘companheiro Temer, se você quer ser presidente da República, disputa eleição, meu filho. Vai para a rua pedir voto’”, disse Lula, sob aplausos de uma plateia-companheira.

O que Lula declarou, com outras palavras, foi que o PMDB, que não disputa eleições presidenciais há duas décadas, enxergou no infortúnio de Dilma uma oportunidade a ser aproveitada para golpear-lhe o mandato.

Romero Jucá respondeu: “Estamos chegando [à Presidência] através da Constituição. Se Michel Temer virar presidente do Brasil ele será respaldado pela Constituição de 1988. Foi assim com Itamar Franco [o vice que assumiu no lugar de Fernando Collor], poderá ser assim com o presidente Michel Temer.”

O senador insinuou que o padrinho político de Dilma não perde por esperar: “O presidente Lula sabe que nós vamos ter eleições daqui a pouco. O PMDB vai disputar eleições agora em outubro de 2016. […] Minha expectativa é de que o PMDB tenha um resultado muito melhor nas eleiçoes do que o PT terá.”

O repórter quis saber o que será da Operação Lava Jato se o PMDB e seus investigados assumirem o poder central. “O PMDB apoia a Lava Jato”, disse Jucá, ele próprio protagonista de um inquérito no STF por suspeita de envolvimento no petrolão. “Acho que quem vive na vida pública tem que prestar contas. […] Não há nenhum demérito em ser investigado. Demérito é ser condenado. E quem estiver condenado estará fora do jogo.”

E quanto às suspeitas que rondam a cúpula partidária? “O presidente Eduardo Cunha não é o PMDB, eu não sou o PMDB, o Renan não é o PMDB. O PMDB não é uma pessoa. O PMDB é uma ideia, é uma historia, são 50 anos de lutas.” Jucá repetiu: “Se o PMDB assumir o governo, apoiará e cobrará rapidez na investigação e no julgamento da Operação Lava Jato.”

Por que o PMDB não age contra Eduardo Cunha? “Ele foi acionado, o Supremo abriu um processo. Portanto, ele terá direito de defesa. E a partir daí será julgado. Esse não é um caso interno do PMDB. O PMDB não tem instrumentos para julgar. Nós não temos nem as informações do processo. O PMDB apoia a investigação e aguardoa o julgamento. Na hora que tiver o julgamento, o PMDB irá se manifestar. O PMDB não pode prejulgar nem Eduardo Cunha nem ninguém. Na hora que tiver algum tipo de condenação, qualquer pessoa estará fora do partido.”

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Sob Temer, PT vai às ruas; PSDB refuga cargos
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Josias de Souza

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A convite do UOL, os senadores Lindbergh Farias (PT-RJ) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) debateram na noite desta terça-feira (30) a conjuntura política eletrificada pelas investigações da Lava Jato e pela tramitação do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. O debate pode ser assistido no vídeo acima.

Lindbergh tachou de “ilegal e ilegítimo” um eventual governo de Michel Temer. “Estaremos no primeiro dia nas ruas”, anunciou. Líder do PSDB no Senado, Cássio disse que o tucanato espera “uma mudança radical” na forma de fazer política. Deseja de uma hipotética gestão Temer “propostas e programas”, não cargos.

“Tem que convencer o [José] Serra, porque ele está doido para ser ministro”, procovou Lindbergh. E Cássio: “O PSDB não controla a vida do senador Serra. Mas agirá como partido.”

O senador petista referiu-se ao impeachment como “golpe”. Declarou que “a chapa do golpe é Michel Temer-Eduardo Cunha”, já que o presidente da Câmara “é o segundo na linha sucessória” da República.

O líder tucano defendeu a punição de Cunha. Mas enxergou “oportunismo” na retórica do colega. Recordou que o mesmo PMDB que o petismo agora chama de golpista “foi utilizado” pelos governos do PT. Realçou que Dilma foi eleita um par de vezes com Temer enganchado em sua chapa.

Para Lindbergh, o rompimento do PMDB com o governo ofereceu a Dilma a “chance de construir uma outra base parlamentar”, com o propósito de “barrar o impeachment, que é uma fratura democrática.” Disse isso sob críticas de Cássio, para quem “Dilma transformou o governo federal num balcão de negócios, uma vergonha, um escárnio público.”

Embora diga que o PT irá às ruas se Temer virar presidente da República, Lindbergh sustenta que a oposição deveria acabar com o ambiente de “Fla-Flu” caso o pedido de impeachment vá para o arquivo.

Cássio respondeu que, se Dilma sobreviver ao impeachment, o PSDB continuará acalentando a perspectiva de que a presidente seja cassada pela Justiça Eleitoral. Uma saída que levaria junto o vice Michel Temer.

Assista abaixo trechos do debate, cuja íntegra está disponível lá no alto:


Haddad critica Dilma e pede bandeiras compreensíveis para voltar à era Lula
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Josias de Souza

Fernando Haddad, o prefeito petista de São Paulo, aponta “problemas de condução” na política econômica do governo. Avalia que falta “identidade” à gestão de Dilma Rousseff. Aconselha a presidente a “se reencontrar com a base que a elegeu”. Algo que só ocorrerá se o Planalto for capaz de apresentar “bandeiras claras e compreensíveis”. Coisas destinadas a “resgatar a política econômica do governo Lula.”

“A popularidade ou impopularidade é da vida política. O que é um pecado que você não pode cometer é não estar identificado com um projeto”, disse Haddad, em entrevista ao blog (veja vídeos acima e leia trechos abaixo). “Para falar francamente o que eu penso: nós temos que ter uma política voltada para a geração de emprego”, declarou o prefeito paulistano noutro trecho da conversa. Será necessário “resgatar aquilo que justificava a nossa presença no poder central”, teoriza o prefeito.

Na opinião de Haddad, o ajuste da economia “era um problema que poderia ser equacionado em um ano”. Perdeu-se, porém, o ano de 2015. Ele receia que a turbulência política leve ao desperdício também do ano de 2016. Haddad prega o entendimento entre governo e oposição, capitaneado por PT e PSDB.

“Governo e oposição têm que sentar à mesa no plano federal e dizer o seguinte: ‘olha, tanto lá quanto cá cometemos equívocos. Vamos colocar uma agenda. O que é consenso vamos aprovar. E seguir a vida, porque o Brasil não precisava estar vivendo um segundo ano difícil. […] A vida não é fácil num momento de crise internacional. Mas a dor não precisa ser tanta.”


Haddad afirmou que o estresse político afugenta os investimentos: “Eu recebo empresários do mundo inteiro. Eles é que dizem: olha, a política está estressando demais a economia. […] Está cheio de liquidez no mundo, gente fortemente capitalizada, que quer investir no Brasil. Por que está postergando o investimento? Porque não está vendo um horizonte político adequado para essa tomada de decisão.”

Durante a entrevista, Haddad disse que definirá até abril se disputará a reeleição. Porém, já fala como candidato. Entre os adversários que começam a se insinuar, enxerga Celso Russomano (PRB) como um contendor mais preocupante do que Marta Suplicy (PMDB). Afirma que Lula, envolto em investigações, será bem-vindo na campanha. “Ele terá o papel que quiser ter.” Quanto a Dilma, não parece fazer questão da presença dela. “Em 2012, a presidenta Dilma estava com 78% de aprovação e não participou da minha campanha…”

Abaixo, os principais trechos da entrevista do prefeito Fernando Haddad. Neles, você conhecerá as opiniões do prefeito sobre as denúncias imobiliárias que rondam Lula, os erros cometidos na condução da economia, o assalto aos cofres da Petrobras e a crise que ronda o PT no instante em que o partido celebra seu aniversário de 36 anos:

— Saudade da política econômica de Lula: “Acho que nós tínhamos que resgatar a política econômica do governo Lula. Tivemos, nos oito anos de governo Lula, uma política econômica irretocável. Não foi cometido um equívoco que colocasse a perder esse boom econômico que nós vivemos, com inclusão, distribuição de renda, oportunidades educacionais expandidas nas universidades e escolas técnicas. Acho que nós temos que resgatar os princípios basilares da política econômica do governo Lula. No primeiro mandato da presidenta Dilma houve alguns problemas que ela própria reconhece, hoje, de condução, que precisam de reparo. O resgate da política econômica do governo Lula me parece fundamental.”

— Os erros da gestão Dilma: “Acho que teve alguns eventos que colocaram em risco, com as melhores intenções. A ideia era preservar emprego e renda. Mas o que é que aconteceu? 1) Vendeu-se muito swap cambial, o dólar ficou artificialmente valorizado; 2) desonerações [tributárias] para empresários, que não cumpriram o que se esperava, que era a ampliação da sua capacidade produtiva. Os empresários foram beneficiados com desoneração fiscal, não reagiram a essa desoneração, simplesmente ampliaram sua margem de lucro. 3) Administração de preços públicos, caso da tarifa de ônibus, caso da gasolina; 4) A seca, que fez com que nós tivéssemos que ligar as termelétricas, com impacto no custo da energia brutal. Foi uma conjunção de fatores que gerou o problema que nós estamos enfrentando. Esse problema é grave? Depende. Economicamente, era um problema que poderia ser equacionado em um ano. Nós teríamos um ano ruim, que foi o de 2015, uma fase de ajuste. E começaríamos a retomar em 2016 a economia, como acontece frequentemente nas economias mundo afora.”

— Aécio Neves e o quanto pior, melhor: “É visível que há dificuldade de retomada da base aliada, para promover as decisões necessárias à retomada econômica. É evidente que alguma coisa está acontecendo. Mas a própria oposição está fazendo uma autocrítica sobre o seu desempenho em 2015. Basta lembrar as últimas declarações do líder da oposição, que fez um mea-culpa, dizendo que estava jogando no quando pior, melhor. [o repórter perguntou a que líder Haddad se referia] O Aécio disse isso. [o repórter perguntou se Aécio Neves de fato fizera tal afirmação] Em outras palavras ele disse: ‘passaremos a colaborar com uma agenda positiva’. Quer dizer: não estavam colaborando antes? Sempre dessa maneira cifrada, que não ajuda. O melhor é dizer as coisas claramente, e seguir a vida. Governo e oposição têm que sentar à mesa no plano federal e dizer o seguinte: ‘olha, tanto lá quanto cá cometemos equívocos. Vamos colocar uma agenda. O que é consenso vamos aprovar. E seguir a vida, porque o Brasil não precisava estar vivendo um segundo ano difícil. Ia ter um período de ajuste. Mas ia ser o ajuste que o Fernando Henrique teve que fazer em 1999, o Lula teve que fazer em 2003. Vários presidentes tiveram que fazer ajustes. A vida não é fácil num momento de crise internacional. Mas a dor não precisa ser tanta.”

— Investidor amedrontado: “Você não pode fazer da sua bandeira partidária algo que comprometa o futuro do seu país. Está faltando discernimento. Talvez de todo mundo, nem seria legítimo dizer: ‘a culpa é da situação ou da oposição’. Está faltando o entendimento de colocar as questões num outro patamar. E colocar o interesse do país em primeiro lugar. Estamos estressando a economia demasiadamente. Eu convivo com atores econômicos aqui o tempo inteiro. Eu recebo empresários do mundo inteiro. Eles é que dizem: ‘olha, a política está estressando demais a economia. Não é uma opinião só de um prefeito. É a opinião de muitos empresários que estão aguardando uma sinalização para voltar a investir. Está cheio de liquidez no mundo, gente fortemente capitalizada, que quer investir no Brasil. Por que está postergando o investimento? Porque não está vendo um horizonte político adequado para essa tomada de decisão.”

— Governo Dilma sofre crise de identidade: “A popularidade ou impopularidade é da vida política, o que é um e pecado que você não pode cometer é não estar identificado com um projeto. Quando eu falo vamos resgatar a política econômica do governo Lula, é porque é uma forma de a população entender a identidade que tem que ter para se defender publicamente e defender o projeto que você representa. O conselho que eu daria para o governo federal é esse: se reencontrar com a base que te elegeu. E esse reencontro só pode ser feito a partir de bandeiras claras e compreensíveis para quem foi à rua defender. Não importa se alguém tem 20% de aprovação ou 80%. Importa o seguinte: essa pessoa que tem 20% de aprovação representa um projeto no qual eu acredito? Vamos transformar esses 20% em 51% e ganhar a eleição. O problema não é nível de popularidade, porque o Lula já viveu períodos difíceis, Fernando Henrique saiu com baixíssima aprovação, nunca mais se recuperou, para não falar dos outros presidentes. É difícil você sair bem de uma Presidência de oito anos. Agora, você precisa ter uma identidade. Você precisa dizer: eu, com todos os problemas, represento essa visão de Estado. Acredito que precisamos resgatar aquilo que justificava a nossa presença no poder central. Esse resgate é fundamental. Está faltando isso.”

— Deseja a presença de Dilma em seu palanque eleitoral? “Em 2012, a presidenta Dilma estava com 78% de aprovação e não participou da minha campanha. Presidente da República, às vezes tem mais de um candidato da base [de apoio parlamentar]. Ela vai ter aqui, certamente, mais de um candidato. Ela recebe pedidos para não participar das eleições municipais, para não complicar a vida dela no Congresso, que já não está fácil. Quem decide isso é a instituição. A Presidência é uma instituição. Em 2012, eu não peguei o telefone e liguei: ‘olha, vem pra cá, que você está muito popular e eu sou desconhecido.’ Isso não cabe fazer. Isso é uma decisão do Lula, dela. Não é uma decisão que eu possa tomar por eles. Agora, eu vou aceitar o que eles decidirem, como aceitei em 2012. Eu não me intrometi na decisão dela, entendi que ela tinha mais de um candidato aqui.”

— Reforma da previdência e volta da CPMF resolvem? “Isoladamente, não resolve. Lula fez reforma da Previdência, defendeu a CPMF enquanto era presidente, fez superávit primário, talvez, como nenhum outro presidente tenha feito. O presidente Lula foi quem mais fez superávit primário em oito anos. Não é disso que nós estamos falando. Não é de uma ação isolada, mas a soma das ações tem que ter uma coerência.”

— O que Dilma precisa fazer resgatar a identidade? “Acho que ela já começou a fazer, talvez, com a política monetária, que vinha num compasso muito preocupante. Às véspera da última reunião do Copom [Conselho de Política Monetária do BC], o mercado apostava numa alta da taxa de juros. E estava todo mundo atônito. E o que aconteceu foi que o Banco Central percebeu e parou de subir. Talvez ele esteja preparando o terreno para uma mudança de política, sobretudo creditícia. Porque quando a gente fala de política econômica não é só a taxa de juros. É política de crédito, para fazer a economia girar para falar francamente o que eu penso: nós temos que ter uma política voltada para a geração de emprego. A marca do presidente Lula foi ter criado 15 milhões de empregos. Ele, 10 milhões de vagas; Ela, 5 milhões ou algo assim em 12 anos. A marca desses governos foi a geração de emprego. Ah, está tendo inflação? Vamos corrigir. Tem gasto demais? Vamos corrigir. Mas este é um governo e este um partido trabalhista. Tem que prestar atenção na sua base. Ah, tem um ano que a gente tem que pedir para apertar o cinto. Isso todo mundo tem que compreender. Depois de 12 anos gerando emprego, você pode ter um soluço. Mas tem que estar no horizonte o que se vai fazer para que seja só um soluço e a gente retome os nossos compromissos sociais.”

— O Brasil corre o risco de perder também 2016? “Esse é o problema. O que poderia ser resolvido num ano está sendo dolorosamente postergado em função de um desentendimento político que deixa todos —governadores, prefeitos e empresários— com uma expectativa muito grande de que as pessoas se sentem à mesa. Porque a crise não era tão grande quando emergiu, mas está ganhando contornos estruturais e, se a gente deixar, ela se consolida. O Brasil não merece isso, não precisa disso. Podemos recuperar rapidamente a credibilidade. Recebo muitos empresários que querem investir no país e olham para São Paulo. Essas pessoas estão aguardando um sinal para investir.”

— Disputará a reeleição à prefeitura? “Tudo tem seu tempo. O Brasil está vivendo um momento muito difícil para a política. A política, hoje, é uma atividade que não convida as pessoas a permanecerem nela, a desfrutar dela pelo que ela tem de bom, que é a capacidade de transformar para melhor a vida das pessoas. Eu venho da vida acadêmica só com essa disposição. Deixei uma carreira, uma trajetória acadêmica, me dispus a fazer política achando que ia ser até mais breve do que acabou sendo. Entrei no ano 2000. Tinha então, 37 anos. E esperava que fosse uma experiência breve. Mas a vida se encarregou de postergar essa decisão de voltar para a universidade. No momento certo, vamos nos apresentar. E acho que as pessoas tem que perder um pouco a ideia da política como meio de vida. Política deveria ser um espaço aberto para que cidadãos, professores, médicos, trabalhadores, pudessem participar da vida nacional de outro jeito, do lado de cá do balcão, e voltar para os seus afazeres cinco, dez, 15 anos depois, sem achar que isso é um problema. [o repórter perguntou ao prefeito se ele cogita não concorrer à reeleição] O que eu quero dizer é que estou ingressando no meu último ano de mandato. Considero um ano importante para qualquer administração, quando chegar o final de março, começo de abril, vou me colocar.”

— O papel de Lula na campanha de São Paulo: “Ele terá o papel que ele desejar ter. Eu trabalhei muitos anos com o presidente Lula, conheci no trabalho. Eu gerenciei um orçamento de R$ 100 bilhões, que é mais de duas vezes o orçamento da cidade de São Paulo. Sou testemunha da postura republicana que o presidente Lula teve o tempo todo comigo à frente da Educação. Nunca recebi um telefonema para atender ninguém, nunca recebi um telefonema para indicar ninguém. Ou seja, o que ele esperava de mim era que eu criasse os programas que eu criei —o Prouni, o Sisu, o novo Enem, o novo Fies, o Fundeb, o piso do magistério. O que eu testemunhei foi o melhor governo dos últimos 50 anos, com os melhores resultados em termos de crescimento, combate à desigualdade, geração de emprego. Penso que estamos num momento em que estamos perdendo um patrimônio que não é dele, é nosso. Uma pessoa que sai de Garanhuns, num pau de arara, chega à Presidência da República, com os resultados que ele chegou… Acho que estamos perdendo isso. Mas acredito que isso será resgatado. O presidente Lula está submetido a essa saraivada de questionamentos, vai responder a todos, como sempre fez. Todas as acusações do mundo já foram feitas contra o presidente Lula em algum momento. E ele, ao seu tempo, respondeu a tudo com firmeza.”

— Lula não deve explicações à sociedade? “O problema da política é que o ônus da prova é teu. Uma pessoa fala: ‘você é dono deste imóvel’. Você fala: ‘eu não sou dono deste imóvel.’ E você é que tem que provar que não é dono. Ah, mas você frequenta! Frequento, mas não sou o dono do imóvel. [o repórter recorda ao prefeito que o principal problema foram as obras realizadas no tríplex do Guarujá e no sítio de Atibaia por empreiteiras pilhadas na Lava Jato] Sim, mas se o imóvel não é dele. […] Estão lá. Ele está dizendo que não é dono. Está se dispondo a comparecer aonde for chamado, para dizer e reafirmar que não é dono. Se os donos estão dizendo que eles é que são donos… Enfim, o que eu tenho certeza é que o presidente Lula, como em outras ocasiões, nunca se furtou a dizer o seu posicionamento em relação ao que quer que fosse e se defender, e superar as dificuldades que enfrentou. Essa vai ser mais uma delas.”

— O nome do PT para 2018 será o Lula? “Acredito que sim, sinceramente. O Lula é uma aroeira de força. Acho que o que estão fazendo com ele vai estimulá-lo a se candidatar. O Lula tem uma maneira muito própria de reagir às agressões que ele costuma sofrer na vida. Na minha opinião ele está sendo muito agredido e saberá reagir à altura, retomando um projeto no qual ele acredita. Acho que ele é o grande nome para 2018.”

— Desconexão entre Executivo e Legislativo: “Aconteceu uma coisa em 2014 muito estranha. A presidenta Dilma ganhou, foi reeleita, mas o Congresso Nacional é um Congresso diferente do anterior. É um Congresso que é mais reflexo dos movimentos de 2013 do que um Congresso que representa a reeleição. Tem uma contradição entre o Legislativo e o Executivo hoje, em termos de representatividade. A eleição presidencial foi muito apertada —52% a 49%. No Congresso, foi o contrário. Na verdade, a oposição ganhou por 52% a 48%, talvez até 55% a 45%. Existe hoje uma contradição entre o Executivo e o Legislativo, que tem como fundamento o voto. O Executivo atua sob condições políticas muito adversas.”

— Arrepende-se da foto que tirou em 2012 ao lado de Maluf? “Eu prefiro ter pecado pela transparência do que o contrário. Esses acordos são feitos em geral na calada da noite. O meu principal adversário, José Serra, esteve na casa do Maluf. Mas esteve à noite —dez, onze horas da noite. Obviamente que não foi por causa do relógio biológico dele. Ele foi lá para não ser visto. Eu prefiro agir diferente, pagando um preço político por isso. O que eu tinha dito em 2012? Que eu ia aceitar o apoio de todos os partidos que compusessem a base de apoio do governo federal. Recebi um telefonema do então ministro do PP, Agnaldo Ribeiro [Cidades], dizendo: ‘se é verdade o que você está dizendo nos jornais, o PP quer dialogar com você. E o presidente do PP local era o Maluf. Então, era incontornável. Hoje, o Maluf não está mais no comando do PP. Hoje são outras figuras, mas continua sendo o PP. Tem figuras do PP sendo investigadas [na Lava Jato], assim como tem figuras do PT sendo investigadas, tem figuras do PMDB sendo investigadas, e até do PSDB. O que não podemos é colocar a perder uma instituição em função do comportamento de uma pessoa.”

— A repatriação do dinheiro desviado sob Maluf: “Repatriei os recursos que foram desviados. Vamos ter mais R$ 88 milhões repatriados de dois bancos que fizeram acordo. Nós desbaratamos a maior máfia já encontrada aqui na máquina pública paulistana, a máfia do ISS. Operou no alto escalão da Secretaria de Finanças durante seis ou sete anos. Ordem de grandeza de desvios: meio bilhão de reais. Botamos para fora a Controlar, que era um contrato esquisitíssimo. Fizemos todo o trabalho de saneamento. Enfrentamos máfia em serviço funerário, máfia na feira da madrugada. Criei uma controladoria, que é uma secretaria de combate à corrupção, com mandato para agir sem autorização minha. É o único secretário que pode fazer o que quiser sem me pedir autorização, por lei. Essas são providências que me fazem dormir tranquilo. Agimos corretamente e criamos os mecanismos para que ninguém aja errado. Pode acontecer de alguém agir errado? Pode. Mas você preveniu. Ah, escapou um gol. Mas quantas defesas você fez? Mas temos que respeitar algumas figuras. Tenho que estar preparado para defender pessoas inclusive da oposição.”

Celso Russomano preocupa mais do que Marta Suplicy: “Acho que Marta vai ser candidata. Russomano também vai ser candidato. O PSDB tem prévias marcadas para os próximos dias. Marco Feliciano parece que vai ser candidato. Então, nós teremos João Dória (PSDB), Russomano (PRB), Marta (PMDB), Feliciano (PSC). Acho que vai ser esse o quadro. [o repórter pergunta: acha que Marta será a principal antagonista?] Acho que não. O Russomano tem estado à frente nas pesquisas e deve liderar no começo da disputa.”

— A amizade com FHC: “A política não é guerra. Ou pelo menos não deveria ser. Política é um embate de ideias. Eu divirjo de muitas coisas que o Alckmin faz. Ele provavelmente diverge de muitas coisas que eu faço. Mas nós mantemos uma relação institucional a mais profícua. É possivel, dentro das nossas diferenças, construir uma agenda comum. […] Fernando Henrique é decano do meu departamento. É professor emérito do departamento onde eu dou aula. Sou professor no mesmo departamento da USP que ele. Temos dezenas de amigos em comum. Alguns desses amigos nos aproximaram, sem nenhuma intenção política. É um intelectual, teve projeção na academia internacionalmente. É uma pessoa que tem bons livros, livros que eu li. Ajudaram na minha formação. Tenho certeza que ele tem também respeito intelectual por mim. Já jantamos juntos. Já nos encontramos no Institiuto FHC, fiz questão de visitá-lo quando mudei pra cá, por assim dizer. Ele é praticamente vizinho da prefeitura. Não tem cabimento esse tipo de hostilidade pessoal. Quando eu era doutorando e ele já era presidente, escrevi artigos críticos à gestão do presidente Fernando Henrique. E ele nunca levou para o lado pessoal, porque nunca foi uma crítica pessoal. Foram críticas econômicas ou filosóficas. Sempre construtivas, no sentido de demarcar campos para buscar sínteses, buscar superações.”

— Em que o PT errou? “Minha opinião é de que foi feito um bom trabalho junto aos órgãos de controle no que diz respeito à administração direta no governo federal. Se você pegar o que os governos do PT fizeram em relação à Controladoria-Geral da União, à independência da Polícia Federal, à autonomia do Ministério Público, que nunca foi independente no nosso país, as pessoas tiravam o nome do procurador-geral da algibeira. Nunca mais isso aconteceu desde 2003. O que deu errado, então? Acredito que essa mesma dinâmica, que afetou muito positivamente a administração direta deveria ter sido levada para as estatais. As estatais não ficaram sob o mesmo regime. O grande desafio é levar esse acúmulo, que não é pequeno e não começou com o PT, mas foi muito fortalecido pelo PT, levar isso para os outros âmbitos da administração pública.”

— Petrobras: “A história da Petrobras é mais longa do que a gente imagina. Os indícios são de que a operação na Petrobras é problemática há bastante tempo. E não é uma curiosidade que tenha membros da carreira como sustentáculos dessas operações. Algumas pessoas do topo da carreira, muito respeitadas, muito prestigiadas tecnicamente em muitos governos. As pessoas às vezes esquecem, mas Delcídio Amaral foi diretor da Petrobras no governo Fernando Henrique. Não estou fazendo nenhum pré-julgamento. Só estou querendo dizer que tem uma história ali que ainda está para ser contada. Mas entendendo que o cuidado nas estatais com o controle não foi tanto quanto aconteceu nos ministérios.”

— Dilma não sabia? “Vou te dizer uma coisa. Duvido que qualquer presidente de Conselho de Administração consiga saber de irregularidades pela leitura de um edital, que ele não lê, porque são volumes e volumes de documentos. Imagina o que é licitar uma sonda, os volumes sobre o assunto. Não lê. Quem lê são os técnicos, o Tribunal de Contas. Você imaginar que por trás daquele edital tem um conluio, um cartel de empresas, é muito difícil a partir da leitura de um edital depreender isso. Essas empresas têm uma inteligência própria também. Estão aí há 50 anos operando, imagina o domínio que elas têm da base do serviço público ligada à área de licitação. Para desconstruir isso tudo não é uma tarefa qualquer. Veja esse cartel da merenda [flagrado em São Paulo]. Acha que o governador está minimamente envolvido com uma coisas dessas? Garanto para você que não. O governador saber que tem um conluio de merendas? Ele é do PSDB e eu te digo: ele não tem a menor ideia do que está acontecendo. E olha que a distância que separa ele de uma compra de merenda é muito menor do que a de uma sonda da Petrobras.”


Batendo a porta: ‘PMDB afunda junto com o PT’
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Josias de Souza

Integrante da ala independente do PMDB, o senador Ricardo Ferraço, do Espírito Santo, desligou-se da legenda nesta sexta-feira (15). Em entrevista ao blog, disse ter concluído que o partido mantém com o PT um “casamento definitivo”. Chamou a união de “abraço de afogados”. Resignado, jogou a toalha: “Como o PMDB não muda, mudou eu. Abaixo, a transcrição da conversa:

— Por que deixou o PMDB? É uma decisão amadurecida. Eu cansei de ser ingênuo. Entre novembro e dezembro, cheguei a imaginar que pudesse haver algum tipo de ruptura entre o PMDB e o PT, em função de posicionamentos do vice-presidente Michel Temer. Mas os últimos movimentos deixam claro que esse casamento é definitivo. É um abraço de afogados. Ao lado de Dilma, o PMDB afunda junto com o PT. Como o PMDB não muda, mudo eu.

— A presença de caciques do partido na Lava jato causou-lhe incômodo? Evidentemente que sim. É inegável essa sociedade do PMDB com o PT. Já na convenção do partido, há dois anos, votei contra a renovação dessa aliança. Não apoiei a candidatura da Dilma e do Temer. Na eleição presidencial, fui coordenador da campanha de Aécio Neves no Espírito Santo. Vinha protelando a decisão de sair porque o PMDB, no meu Estado, é um bom partido. É bem diferente do PMDB nacional.

— Por que os descontentes do PMDB não reagem à predominância de personagens como Renan Calheiros e Eduardo Cunha? É como pregar no deserto. Os caras não estão nem aí para nada. Essa conversa não tem como existir no partido. O que interessa ao PMDB é ficar agarrado ao aparelho, mantendo a atual marcha da insensatez. O PMDB está construindo a sua tragédia.

— Por quê? Essa não é uma crise qualquer. Foi construída com muita sofisticação nos campos político, econômico e moral. Desenvolveu-se e estruturou-se de forma sistêmica. É uma coisa que não tem precedentes na história da República. A crise contempla todos os problemas característicos do patrimonialismo brasileiro, desde a sua origem. A pergunta que todos fazem é: o que faz o PMDB continuar atrelado a esse governo fracassado? Comecei a refletir sobre isso. Cheguei à seguinte conclusão: se não posso mudar o partido, mudo eu.

— Vai se filiar ao PSDB? O Aécio Neves foi extremamente simpático comigo. Assim que soube do meu desligamento do PMDB, fez contato. Ficamos de conversar nos próximos dias. Eu fiz a campanha do Aécio no Espírito Santo. Mas, por ora, a única coisa que está definido é que não vou para nenhum partido da base do governo da presidente Dilma. Não pretendo trocar seis por meia dúzia.


Líder tucano: ‘Via do impeachment se estreitou’
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Josias de Souza

Líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB) declarou: “É preciso reconhecer que a via do impeachment se estreitou” depois que o STF fixou um rito processual que favorece Dilma Rosseff. Um dos tucanos mais próximos do presidenciável Aécio Neves, Cunha Lima afirmou ao blog que o impedimento de Dilma depende do PMDB e do povo. O partido dividiu-se. “Michel Temer perdeu força. Ganhou um protagonismo maior Renan Calheiros, que está alinhado com a Dilma.” Quanto ao povo, “não se mostrou muito entusiasmado para ir às ruas com o propósito de derrubar a Dilma e colocar o Michel no lugar dela.”

O tucanato ajusta novamente sua alça de mira. Volta a priorizar a hipótese de cassação da chapa Dilma-Temer no processo que corre no Tribunal Superior Eleitoral. Algo que levaria à convocação de nova eleição presidencial em 90 dias. Cunha Lima revela os planos que seu partido esboça: “Primeiro, forçar a saída do Eduardo Cunha” do comando da Câmara.

Depois, “mudar a estratégia de mobilização de rua”. No dizer de Cunha Lima, “está na hora de os partidos políticos assumirem o palco principal da cena.” Como? “Se fizermos uma campanha de esclarecimento, explicando que a nova eleição de fato é o melhor caminho para permitir ao país essa legitimidade que o novo governo precisa ter, acho que podemos conseguir mobilização na rua.” Vai abaixo a transcrição da conversa com o líder tucano.

— O PSDB decidiu privilegiar o julgamento do TSE, que pode levar à cassação da chapa Dilma-Temer, em detrimento do processo de impeachment da presidente? O PSDB não se afasta do impeachment como uma possibilidade. Mas nós acreditamos que uma nova eleição, convocada a partir da cassação da chapa Dilma-Temer, é uma saída melhor para o Brasil. A razão é simples: a legitimidade de um governo eleito cria condições mais favoráveis para retirar o país da situação difícil em que se encontra.

— Não receia que a defesa de uma fórmula que inclui o afastamento do vice Michel Temer afaste o PMDB do impeachment? O PMDB sempre foi sócio majoritário dessa estrutura toda que levou o Brasil à crise profunda. Não dá para eximir o PMDB de parte da responsabilidade pelos problemas que enfrentamos. O país precisa de uma coisa nova, uma outra forma de fazer política, uma mudança talvez muito mais profunda do que o PMDB seria capaz de fazer.

— Supondo que ocorra nova eleição, um novo governo conseguiria governar sem o PMDB? Creio que, definidas as novas eleições, podemos tentar trilhar o caminho da conciliação. Não vejo a eleição como um espaço obrigatoriamente de confronto e disputa. Podemos tentar construir uma alternativa conciliatória, para estabelecer um governo de transição, com dois anos e alguns meses, com o objetivo de chegar a 2018 com um mínimo de equilíbrio para a disputa eleitoral.

— Não lhe parece onírico imaginar a eleição de um candidato conciliatório, sem disputa? Convocadas as eleições, PSDB e PT partirão para o confronto, não? Claro que uma eleição de confronto é a possibilidade maior. Mas creio que a gente pode tentar estabelecer um nível de diálogo.

— Nessa hipótese, Aécio Neves não disputaria? Não conversei com Aécio sobre isso. Mas não o vejo como uma pessoa obcecada. Estou certo de que, se tivermos a possibilidade de construir uma solução, ele não será obstáculo. Parto do pressuposto de que teremos um agravamento da situação econômica.

— Concorda que essa hipótese da conciliação é remota? Não acha que o caminho natural na eventualidade de cassação de Dilma e Temer seria a disputa? Claro, o mais natural é que haja disputa. Mas não descartaria a hipótese de uma concertação referendada pelas urnas.

— Prevalecendo o confronto, a disputa seria entre Aécio e Lula? Sim, a tendência é mesmo a de termos a candidatura do Lula, que é o nome de que o PT dispõe. E do lado do PSDB seria provável a presença do Aécio, até pelo desempenho que ele teve no ano passado, o recall que ele tem, as pesquisas apontam isso claramente.

— A Constituição prevê que, na hipótese de o TSE cassar Dilma e Temer, o presidente da Câmara assumiria por 90 dias para organizar a realização de novas eleições. Como confiar o país por três meses a Eduardo Cunha? Eduardo Cunha já perdeu a condição de presidir a Câmara há muito tempo. Ele conseguiu entrar em 2016 ainda no cargo. Mas não vai conseguir se manter na cadeira porque não é maior do que a República. A República não pode se transformar num joguete na mão de Eduardo Cunha. O país não pode ficar refém de alguém que tem explicações tão graves a dar. As cartas que ele tinha de postergação, de obstrução, foram ao limite da via física.

— O PSDB já esteve do lado de Eduardo Cunha, imaginando que ele ajudaria no impeachment. Hoje, parece claro que isso foi um erro. Há algo que o partido pode fazer além de esperar que o STF julgue o pedido da Procuradoria para afastar Cunha cautelarmente? Creio que o partido tem como apressar esse processo. Farei conversas sobre isso nesta quarta-feira, sobretudo com nossos amigos da Câmara. Isso tudo tem que ser feito em sintonia com a Câmara, que é onde essas coisas acontecem. Há aquele caminho da obstrução, que havia sido proposto e depois foi abandonado. É um caminho que pode ser trilhado pelo PSDB e outros partidos de oposição. Obstrução enquanto Eduardo Cunha estiver na poltrona. Não é possível que ele seja maior do que o Brasil. Precisamos forçar a saída do Eduardo Cunha.

— Acha que o impeachment se tornou inviável? É preciso reconhecer que essa via do impeachment se estreitou. O STF atribuiu poderes ao Senado para rever uma eventual decisão da Câmara favorável à abertura do processo. E a base do governo no Senado é um pouco mais sólida. Além disso, o PMDB se mostra dividido.

— A divisão do PMDB é ruim para o impeachment? Só vai haver impeachment com dois ‘Ps’: PMDB e povo. O PMDB está dividido. O próprio Michel Temer, nos últimos dias, perdeu força dentro do partido. Ganhou um protagonismo maior Renan Calheiros [presidente do Senado], que está alinhado com a Dilma. E o povo não se mostrou muito entusiasmado para ir às ruas com o propósito de derrubar a Dilma e colocar o Michel no lugar dela.

— O que o leva a crer que a aposta no TSE reanimaria o povo? Acredito que a possibilidade de mobilização em torno de novas eleições é muito maior. Com eleição a sociedade é que decide. Aquelas manifestações gigantescas foram realizadas num clima de mudança da forma de fazer política. Traziam um desejo de mudança muito radical. E o PMDB não vai representar isso com a assunção do Temer.

— Qual é a estratégia do PSDB? Primeiro, forçar a saída do Eduardo Cunha. Com ele fica fraco o impeachment e neutralizam-se as chances de o TSE cassar a chapa Dilma e Temer. É importante que ele saia. A partir daí, temos que mudar a estratégia de mobilização de rua.

Como assim? As manifestações convocadas por movimentos como Brasil Livre e outros foram importantes. Mas está na hora de os partidos políticos assumirem o palco principal da cena. Não se faz política sem partido. Tenho defendido há algum tempo. E vou insistir que, em 2016, em vez dessas manifestações num dia único, no Brasil inteiro, nós possamos repetir o modelo usado no impeachment do Collor e nas eleições diretas. Faz um evento na Praça da Sé. Depois, em dia distinto, na Cinelândia. Faz no Parque do Povo, em Campina Grande. E assim sucessivamente, sempre em dias distintos. É preciso fazer um calendário de manifestações em que a bandeira seja a convocação de nova eleição.

— Não teme que, num momento de irritação das pessoas com a política, manifestações convocadas por partidos políticos possam fracassar? Vamos ter marketing, campanha para novas eleições. Se o impeachment avançasse, o próprio PT, entre impedimento da presidente e eleições, preferiria novas eleiçoes. Se fizermos uma campanha de esclarecimento, explicando que a nova eleição de fato é o melhor caminho para permitir ao país essa legitimidade que o novo governo precisa ter, acho que podemos conseguir mobilização na rua. Não vejo entusiasmo das pessoas para ir às ruas defender a saída da Dilma e a entrada do Temer. Aquelas movimentações gigantescas foram realizada num clima de mudança da forma de fazer política.

— O que o leva a crer que o TSE vai cassar a chapa Dilma-Temer? A legislação eleitoral é muito dura, severa. Utilização de dinheiro de propina em campanha é passível de cassação. Já está decidido que as delações da Lava Jato serão incluídas no processo. Será uma fratura exposta. Não tem como salvar o mandato da presidente e do seu vice. Todos sabem que houve dinheiro sujo, caixa dois, na campanha da Dilma. Isso vai ficar demonstrado nos autos. O que farão diante de provas cabais três ministros do Supremo que integram o TSE, dois ministros do STJ e dois representanrtes da OAB? Insisto: é fratura exposta. Não tem como fugir. No caso do crime de responsabilidade, do impeachment, você ainda tem margem de argumentação, sobretudo num juízo político como será o do Senado. O crime eleitoral é diferente, não deixa margem. Usou dinheiro sujo na campanha, é passível de cassação.

— A eleição, se viesse, ocorreria junto com o pleito municipal de 2016? Seria o melhor momento, porque você já tem a Justiça Eleitoral mobilizada para a eleição municipal. Você realiza a eleição sem gastar um centavo a mais, porque colocar um voto a mais na urna eletrônica não custa nada. Tudo conspira a favor. O TSE teria mais seis meses para concluir o julgamento. Em meados de julho, a presidente e o vice seriam afastados. Assume o presidente da Câmara, que a essa altura nao será mais o Eduardo Cunha e, junto com a eleição municipal, elege-se um novo presidente, que assume imediatamente, na semana seguinte.

— As articulações em torno desse assunto ficaram para depois do recesso do Legislativo, em fevereiro, certo? Sim. Vou aproveitar o recesso, esse período de janeiro, para ter algumas conversas. Vou viajar para alguns lugares. Já tenho conversado com algumas pessoas. Aécio também está nessa linha. A gente está plantando a semente para que venha a nova eleição. Como houve imensa frustração com a decisão do STF, que, na leitura de todos, dificultou o impeachment, cresce a possibilidade de nova eleição. Sobretudo porque foram cometidos crimes. Diante de uma fratura exposta, o TSE não tem como salvar o mandato de Dilma e Temer. O país não pode ficar sem saída. É preciso que haja eleição limpa para presidente da República. Nós tivemos uma eleição viciada, em que a máquina pública interferiu de maneira indiscutível no resultado do pleito. As eleições limpas farão surgir um governo legitimado, com condições mínimas para tentar tirar o país dessa crise gravíssima.


Grupo anti-Dilma deve obter comando da comissão, prevê idealizador da chapa
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Josias de Souza

Lucio Bernardo Jr./Ag.Câmara

Chama-se Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) o articulador da fórmula que misturou governistas dissidentes e oposicionistas numa chapa com membros da comissão do impeachment. Depois da derrota do governo por 272 votos a 199, Lúcio prevê que o grupo anti-Dilma deve controlar o comando da comissão. “Nós elegemos a maioria, metade mais um, da comissão. A tendência é de que tenhamos a presidência e a relatoria da comissão”, disse Lúcio ao blog. Abaixo, a entrevista:

— Por que a chapa alternativa teve tanta adesão? Senti que havia um clima de rebelião nas bancadas, porque os líderes procuraram o Palácio do Planalto para apresentar os nomes e ver se havia concordândia do governo. A bancada do PMDB se rebelou. E foi contaminando outras bancadas.

— Há uma rebelião contra os líderes dos partidos governistas? Nós tivemos uma eleição para a presidência da Câmara, em fevereiro, com o mote do Parlamento independente. Esse conceito de independência se espalhou. Ou seja, as bancadas também querem ser independentes. Os líderes terão que ser porta-vozes de suas bancadas. Eles não podem decidir por suas bancadas. Ninguém elege um líder para dar cheque em branco.

— No caso do PMDB, acha que o líder Leonardo Picciani deve ser trocado? O líder foi eleito para um mandato que se encerra em fevereiro. Logicamente, pode ser destituído antes. Isso foi uma sinalização. Picciani não pode conduzir um partido do tamanho do PMDB, plural como o PMDB, como se fosse o PMDB carioca. Ele tem que esquecer um pouco o PMDB do Rio e virar líder de todo o PMDB.

— Acha que o resultado sinaliza o afastamento da presidente? Não tenho dúvida. Diversos parlamentares aliados do governo diziam que essa votação seria importante porque eles venceriam e matariam hoje o impeachment. Agora, virão com o discurso de golpe.

— Não é golpe? Golpe vai dar a presidente Dilma se escapar. Ela dará um enorme golpe de sorte.

— Embora a vitória seja expressiva, os 272 votos estão distantes dos 342 necessários à aprovação do afastamento da presidente, não? Impeachment não é uma votação, é um processo. Uma vitória como essa, ainda na fase de instalação da comissão, não é pouca coisa. É preciso levar em conta que faltaram cerca e 40 deputados. A maioria votaria conosco.

— O resultado assegura ao grupo pró-impeachment a presidência e a relatoria da comissão? Nós elegemos a maioria, metade mais um, da comissão. A tendência é de que tenhamos a presidência e a relatoria da comissão. Mas ninguém vai para uma comissão de impeachment sem o espírito da conversa e do diálogo. Nessa comissão, não pode haver radicalismos. Não se trata de trabalhar a favor ou contra o impeachment. Todos têm a sua tendência, mas não pode ter o veredicto pronto. Afinal de contas, a presidente vai apresentar a defesa. E nós teremos que analisar. Defendo o impeachment porque acho que será bom para o Brasil. Mas não vou votar a favor se a acusação de crime de responsabilidade não ficar comprovada.

— Quando foi concluída a montagem dessa chapa vitoriosa? Concluímos 15 minutos antes do início do votação. Nessa madrugada, à uma e meia, eu ainda estava na porta do deputado Fracischini, do Partido Solidariedade, pegando a assinatura dele. Muitos deputados só chegam aqui na terça-feira. Perdemos deputados que queriam participar da chapa.

— Que papel terá o PMDB, seu partido, no processo de impeachment? Tem um papel relevante. Numericamente, o PMDB tem muito peso. E tem outro fato que o torna relevante: é o partido do vice-presidente da República. Mas uma decisão dessas não deve ser liderada por partido político. É preciso que haja um amplo debate na Câmara. Todos os partidos terão de examinar os fatos e decidir com a consciência tranquila.

— A carta de Michel Temer para Dilma ajudou? Se você disser que essa carta foi determinante para o resultado da votação de hoje, digo que não foi. Mas não excluo a hipótese de ter influenciado um ou outro voto. Na hora em que o Michel, que é presidente do PMDB, manda uma carta para Dilma dizendo que ele e o partido não foram adequadamente prestigiados pela presidente, logicamente você tem a indignação dos partidos. Michel é presidente do PMDB há mais de 15 anos. Presidiu a Câmara três vezes. O desrespeito à figura do Michel acaba atraindo solidariedade.

— Não se constrange de participar de um processo de impeachment presidido pior Eduardo Cunha? Eduardo Cunha foi votado por toda a Casa e foi eleito no primeiro turno. Enquanto ele não for condenado, tem a legitimidade para tomar as providências. Tanto que está exercendo essa legitimidade. Não fui eu que coloquei ele lá nem depende de mim a saída dele. Depende do conjunto da Câmara tirá-lo mediante julgamento.

— Cunha não enfraquece o processo? De forma nenhuma. Mesmo que a presidente queira transformar o impeachment numa disputa Dilma X Cunha, sob o argumento de que ela não tem conta no exterior. Dilma não está sendo acusada de ter conta no exterior. A acusação é de cometer crime de responsabilidade ao gastar dinheiro do contribuinte sem autorização do Congresso.