Blog do Josias de Souza

Categoria : Secos & Molhados

Grupo da PF arma reação à escolha de ministro
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Josias de Souza

Michel Temer gosta de presidir perigosamente. Ao acomodar o Ministério da Justiça no balcão, o presidente acendeu um pavio no Departamento de Polícia Federal, subordinado à pasta. Arma-se no órgão algo muito parecido com uma revolta. Um grupo de delegados discute a hipótese levar os lábios ao trombone se o escolhido for um nome, digamos, tóxico.

Os descontentes espantaram-se com o retorno do criminalista Antonio Mariz à bolsa de apostas. Crítico da Lava Jato, o doutor foi excluído por Temer de sua primeira fornada de ministros. E os delegados se perguntam: o que mudou?

Os federais arrepiam-se também com a cogitação de Temer de entregar a poltrona da Justiça a um deputado do PMDB, partido cuja prioridade é “estancar a sangria” da Lava Jato. Avalia-se que um ministro com essa logomarca na testa é natimorto. Organiza-se um minuto de barulho.


Doria apaga elogios que fez a Eike na internet
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Josias de Souza

Preso em Bangu 9, Eike Batista, um dos brasileiros mais paparicados na época em que era bilionário, começa a se dar conta de que a perfeita solidão é a presença numerosa de um amigo real. Nesta quarta, um dia depois do encarceramento de Eike, o prefeito paulistano João Doria mandou apagar referências elogiosas que fizera no Twitter ao ex-amigo.

Sumiram várias notas veiculadas entre 2011 e 2012. Nessa época, Dória comandava sua empresa, a Lide. Numa das notas, o agora prefeito celebrava a concessão do título de “empreendedor do ano” a Eike. Noutra, propagandeia “lição de eficiência e otimismo” que acabara de receber de Eike num almoço-debate. Numa terceira, responde a um internauta: “Se privatizar e Eike administrar, vai melhorar.”

Instado a comentar a retirada das notas do ar, Dória declarou: “Eu não apaguei nada. Nem pus, nem apaguei, nem nada. Eu não tomei nenhuma iniciativa desse tipo. Não me lembro disso. Mas olha, passado é passado.” O prefeito logo perceberá quer certos passados não passam (veja abaixo as notas que sumiram da conta de Dória não Twitter).

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No Paraná, 5 vereadores presos tomam posse
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Josias de Souza

 

Aos pouquinhos, o Brasil idealizado por todos vai se tornando um país muito distante, uma democracia lá longe. Nesta quarta-feira, aconteceu no Paraná, berço da Lava Jato, um episódio que diz muito sobre essa nação longínqua. Cinco vereadores eleitos em outubro do ano passado e presos desde dezembro tomaram posse na Câmara Municipal de Foz do Iguaçu, cidade que faz fronteira com o Paraguai.

A sessão foi tumultuada. Os protagonistas chegaram escoltados pela polícia. Prestaram juramento sob vaias, pedidos de renúncia e gritos de “vergonha”. Consumada a posse, retornaram à cadeia. Chamam-se Anice Gazzaoui (PTN), Darci Siqueira (PTN), Rudinei de Moura (PEN), Edilio Dall’Agnol (PSC) e Luiz Queiroga (DEM). Assumiram escorados numa ordem expedida pela juíza Juliana Arantes, da Vara de Corregedoria dos Presídios de Foz do Iguaçu.

Os vereadores-presidiários foram fisgados numa operação da Polícia Federal batizada de Pecúlio. Deflagrada em abril do ano passado, apura um esquema de fraudes em licitações no setor de saúde, na gestão do ex-prefeito Reni Pereira (PSB). Os empossados desta quarta-feira são acusados de receber propinas para aprovar projetos de interesse da prefeitura.

Nesse Brasil marcado pela corrupção desvairada, em que não se salvam nem as verbas da saúde, a honestidade vai se tornando uma grande solidão. Os recém-nascidos já não encontram nenhum pecado original.


Divisões ameaçam democracia, discursa Obama
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Josias de Souza


Aqui e aqui, detalhes sobre o discurso de despedida de Barack Obama, pronunciado na noite passada.

Aqui, notícia sobre os planos de Donald Trump de enterrar a principal conquista social da gestão Obama.

Aqui, o cheiro do que parece ser o primeiro grande escândalo da Era Trump.


Kátia Abreu: só falta Doria se vestir de ‘palhaço’
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Josias de Souza

A senadora e ex-ministra Kátia Abreu (PMDB-TO) ironizou o hábito de João Doria de se travestir de novidade. Ela pendurou duas notas no Twitter.

Numa, anotou que, embora faça pose de não-político, o prefeito paulistano mimetiza estratégias usadas por “velhos políticos populistas.”

Noutra nota, realçou que Doria já vestiu “fantasia de pedreiro, gari e ciclista.” Indagou: “Alguém poderia dar um toque e dizer que é ridículo?” Pessimista, Kátia Abreu arrematou: “Mas ainda falta a [fantasia] de palhaço.”

Reprodução/Twitter


Em férias, blog busca uma saída pós-Odebrecht
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Josias de Souza

Pegou muito mal. Não foi um sujeito qualquer. Foi o nosso presidente, o próprio Emílio Odebrecht, quem disse. Em autodelação à Lava Jato, ele contou que vinha governando o Brasil há décadas. Mantinha todos os pró-homens da República na folha do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht. A revelação expôs a incompetência da imprensa. E o blog, que sempre imaginou que as ordens partissem do Palácio do Planalto, decidiu fazer uma reciclagem.

Em férias a partir desta segunda-feira (26/12), o repórter se dedicará nas próximas duas semanas a sondar o abismo, que é o outro nome do Brasil pós-Odebrecht. Para evitar novos erros, convém responder rapidamente a grande indagação: o que será do país sem o Departamento de Propinas da Odebrecht? Em meio a tanta esculhambação, é preciso reconhecer que a única coisa que funcionava bem no Brasil era o Departamento de Operações Estruturadas. O grande erro foi a tentativa de dissimulação.

Se a Odebrecht tivesse se apropriado abertamente do governo, não estaria agora sendo acusada pela força-tarefa da Lava Jato de comprar o governo dos outros. Um governo escancaradamente da Odebrecht substituiria o regime constitucional brasileiro com muitas vantagens. Os políticos teriam que justificar o dinheiro recebido batendo o ponto. Os congressistas precisariam molhar a camisa de segunda a sábado, em horário comercial. Exatamente como a peãozada nos canteiros de obras, em meio à lama e ao movimento de máquinas pesadas.

As obras seriam todas da Odebrecht. A exclusividade eliminaria o inconveniente da formação de carteis. E haveria um surto de moralidade no país. A democracia estaria preservada. A cada quatro anos uma subsidiária diferente da Odebrecht assumiria o poder. A Construtora Odebrecht seria substituída pela Odebrecht Energia, que seria sucedida pela Brasken, que daria lugar à Odebrecht Óleo e Gás… A auto-alternância no poder causaria inveja no resto do mundo. E a Odebrecht não precisaria mais comprar políticos da oposição, já que se oporia a si mesma.

Durante as férias, o repórter pretende reunir elementos capazes de demonstrar que a alternativa ao abismo talvez seja converter a nação brasileira, oficialmente, numa imensa Odebrecht. Se o Departamento de Operações Estruturadas fez e desfez por tanto tempo, alguma coisa há de ter feito —ou desfeito— de bom para os políticos. E poderia fazer o mesmo pelo povo brasileiro.

Bem verdade que haveria o inconveniente de ter que revogar a República. Mas quem conseguiu implantar uma cleptocracia com tanta facilidade não teria dificuldade para comprar um projeto de lei restaurando a monarquia no Brasil. Marcelo Odebrecht, o príncipe herdeiro, está na cadeia. Entretanto, se o ministro Teori Zavascki homologar o acordo de delação premiada, a cana será revogada no final de 2017. Aguardem. O blog volta em duas semanas com a solução para livrar o Brasil do abismo a partir de 2018.


Sob Temer, mulher pilota o avião presidencial
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Josias de Souza

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Capitã da Força Aérea Brasileira, Carla Borges, 33, tornou-se a primeira mulher a pilotar o avião presidencial. Estreou na nova função na última quinta-feira (22), comandando o voo que levou Michel Temer a São Paulo. Carla concluiu seu treinamento em tempo para transportar Dilma Rousseff. Mas a primeira mulher a pilotar o país caiu sete meses antes.

À frente de um governo que sacoleja em meio a turbulências provocadas pela crise econômica e pela Lava Jato, Temer disse ter prazer em viajar numa aeronave pilotada pela capitã Carla —“com segurança absoluta”, ele acentua.


Governo tirará economia da UTI? ‘Tudo dependerá da política’, escreveu FHC
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Josias de Souza

Em artigo veiculado na edição mais recente de Veja, Fernando Henrique Cardoso analisa as perspectivas para 2017 no mundo e no Brasil. Deu ao artigo um título sintomático: “Futuro Escorregadio”. Em relação ao resto do mundo, escreveu que o ordem mundial estará de tão modo conturbada que o mais adequado seria “qualificá-la como desordem mundial.” Sobre o Brasil, o grão-tucano espargiu no texto mais interrogações do que certezas. Condicionou a recuperação da economia à evolução da política. Tomado pelo texto, FHC não parece otimista.

Anotou: “Que fará o Brasil com a herança dubitativa do ano que termina? 2016 mostrou quanto erramos nos anos anteriores. A profunda crise fiscal, a continuidade da estagnação econômica e as altas taxas de desemprego a que chegamos —frutos dos desatinos dos governis petistas— desenham um quadro de enfermidade que requer UTI. O governo de transição que ora nos rege diagnosticou os males e está tentando um tratamento para retirar a economia da UTI. Conseguiremos?”

Prosseguiu: “Tudo dependerá de quanto avançarmos na área política. O país começa a perceber que a ‘economia do conhecimento’, baseada nas novas tecnologias, cria também uma sociedade interconectada. As novas mídias (para o bem, mas também para o risco) põem em xeque a democracia representativa: os partidos já não ‘representam’ eficientemente a população, e são objeto, junto com o Congresso, de crítica e descrédito crescentes. A nova sociedade criou canais de inter-relação imediata. Para essa inter-relação, que se faz e desfaz, importam mais as ‘causas’ do que os partidos. Nunca circulou tanta informação, mas a maior parte dela carece de averiguação, pois não há curadoria na web.”

FHC enfileirou mais interrogações: “Seremos capazes de inovar politicamente, enfrentando alguns itens da chamada ‘reforma política’? Compreenderemos que ademais precisamos alterar formas de conduta e rever valores? As mudanças culturais demandam tempo, embora haja gestos urgentes para iluminar o caminho do futuro. Nossas lideranças serão capazes de fazê-los? Espero que sim.”

O ex-presidente tucano fala de “lideranças” como se elas ainda existissem. Mas elas estão em falta inclusive no PSDB, partido de FHC. Assim como as pseudolideranças de outras legendas, os três presidenciáveis tucanos —Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra— têm prioridades mais urgentes do que a “reforma política” ou outras questões nacionais. Quando não estão brigando entre si, eles estão correndo da Lava Jato.

A despeito de tudo, FHC consegue enxergar algo de positivo na conjuntura: “…Fortalecemos as instituições democráticas. Há trinta anos, diante do desmantelamento socieconômico e político em que nos encontramos, estaríamos balbuciando o nome de generias que ‘poriam ordem nas coisas’; hoje não os conhecemos e, em compensação, sabemos de cor o nome dos ministros do Supremo Tribunal Federal e de alguns juízes mais ativos de outras cortes. Um tremendo passo adiante.”

De fato, já não sabemos o nome dos generais. Mas FHC esqueceu de mencionar que ainda há compatriotas que descem ao asfalto para pedir a volta do poder fardado. Eles estão em minoria, é verdade. Mas é desalentador perceber que ainda existem. De resto, o Supremo de hoje é menor do que aquele tribunal respeitado de 20 dias atrás. Depois do julgamento meia-sola que retirou o réu Renan Calheiros da linha de substituição da Presidência da República, mas manteve a suspeição no comando do Senado, tudo na Suprema Corte passou a ser epílogo.

No último parágrafo de seu artigo, FHC escreveu o que espera do futuro escorregadio: “Desejo que em 2017 o governo tenha uma visão estratégica para melhor situar o país no tabuleiro internacional, que as pessoas saibam se posicionar diante dos desafios presentes e revigorem a autoestima. Precisamos voltar a crer em nós próprios, não pretendendo ser mais do que somos, mas não caindo no desânimo. Custou muito construir uma nação com 205 milhões de pessoas. Para mantê-la e expandi-la, precisamos revigorar a crença em alguns valores e ampliar os laços de coesão social. As diferenças entre pessoas e grupos devem ser legitimadas. Mas é importante conviver e dialogar, reconhecer quando erramos, aceitar a diversidade e dar a volta por cima em nome do interesse comum. São meus desejos para 2017.”