Blog do Josias de Souza http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tue, 11 Dec 2018 07:18:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Lula foi de incendiário a pacificador em 8 meses http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/lula-foi-de-incendiario-a-pacificador-em-8-meses/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/lula-foi-de-incendiario-a-pacificador-em-8-meses/#respond Tue, 11 Dec 2018 07:18:26 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86931

Autoproclamado “metamorfose ambulante”, Lula exagera no truque da manipulação da própria imagem. Em abril, transformou num culto aos pneus queimados e às propriedades invadidas o seu último comício antes de se entregar à Polícia Federal, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Nesta segunda-feira, Lula enviou carta para ser lida num evento realizado no mesmo sindicato. Nela, trocou o discurso incendiário pela louvação à paz e fraternidade.

Aquele Lula do dia da prisão dissera que a cadeia não iria silenciá-lo, porque seus devotos fariam barulho por ele. “Vocês poderão queimar os pneus que vocês tanto queimam. Poderão fazer as passeatas que tanto vocês queiram, fazer ocupações no campo e na cidade…” O Lula desta segunda-feira condenou o “discurso do ódio”.  E vaticinou: “Ainda iremos construir um mundo de paz e fraternidade, onde todos e todas, sem exceção tenham direito a uma vida digna…”

Entre o Lula incendiário de abril e este Lula pacifista de dezembro há oito meses de cadeia, uma surra eleitoral, duas delações companheiras de Antonio Palocci e um sem-número de derrotas judiciais. O presidiário planejara ganhar a liberdade acuando juízes com a militância incendiária do PT e o “exército” de João Pedro Stédile, do MST. Entretanto, secaram as fontes de dinheiro público para sindicatos e movimentos sociais. Sem a condução e o sanduíche, faltou ânimo à multidão para sair de casa.

Por uma dessas ironias fatais, o PT e seus aliados reuniram-se em São Bernardo para pedir a liberdade de Lula no mesmo dia em que Jair Bolsonaro foi diplomado pela Justiça Eleitoral, em Brasília. Simultaneamente, celebrou-se neste 10 de dezembro o aniversário de 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Momentaneamente trancado dentro da sua pose de coitadinho, Lula citou na carta três heróis de lutas pacíficas: Martin Luther King, Nelson Mandela e Mahatma Gandhi

Como que decidido a se comparar aos mártires, Lula realçou que Mandela passou 27 anos numa cadeia do regime do apartheid. A tentativa de estabelecer uma analogia é vã e ofensiva. O esforço é vão porque já foi tentado antes. E serviu apenas para potencializar o antipetismo que elegeu Bolsonaro. Ele ofende porque qualquer criança sabe que King, Gandhi e Mandela não alisaram a cabeça de corruptos nem desfrutaram de confortos bancados com verbas sujas.

Antes de Lula ser passado na tranca, Gleisi Hoffmann, presidente do PT, ameaçava: “Para prender o Lula, vai ter que prender muita gente. Mais do que isso, vai ter que matar gente. Aí, vai ter que matar.” Hoje, com a Lava Jato no seu próprio calcanhar, a senadora declara-se amedrontada.

“Tememos muito pela segurança do presidente Lula”, disse Gleisi. “Primeiro, pelas declarações do presidente eleito, dizendo que Lula tem que apodrecer na cadeia, ou que os petistas têm que ser exterminados.”

Ironicamente, Lula soou na carta atribuída a ele bem menos dramático: “Tenho certeza de que tenho o sono mais leve e a consciência mais tranquila do que aqueles que me condenaram.” Mantido o timbre atual, Lula vai acabar convencendo o Judiciário de que a cadeia fez tão bem à sua alma que merece ser esticada ao máximo.

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Diplomado, Bolsonaro precisa mostrar serviço http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/diplomado-bolsonaro-precisa-mostrar-servico/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/diplomado-bolsonaro-precisa-mostrar-servico/#respond Tue, 11 Dec 2018 04:21:23 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86929

A cerimônia de diplomação de Jair Bolsonaro e do seu vice, o general Hamilton Mourão, marca uma nova fase da transição de governo. Funciona mais ou menos como numa formatura universitária, em que os alunos recebem o canudo que os habilita a buscar trabalho nas respectivas áreas. No caso de Bolsonaro e Mourão, o diploma é um convite para que comecem a mostrar serviço ao povo brasileiro, o grande patrão de ambos.

Em seu discurso, Bolsonaro resumiu bem o que o brasileiro deseja banir do seu cotidiano. Por exemplo: a corrupção, a violência, a manipulação ideológica e a mediocridade que trava o desenvolvimento. Bolsonaro também sintetizou com precisão o que se espera dele: “Nossa obrigação é oferecer um Estado eficiente, que faça valer a pena os impostos pagos pelo contribuinte”, ele declarou

De resto, é importante notar que Bolsonaro fez duas afirmações que, embora sejam protocolares, tornaram-se indispensáveis num país que saiu das urnas rachado. Disse que governará para os 210 milhões de brasileiros. E realçou: “Nosso compromisso com a soberania do voto popular é inquebrantável.” Ou seja: nada de aventuras autoritárias.

O brasileiro é otimista entre o Natal e o Carnaval. Natural que a posse do novo governo, em 1º de janeiro, ocorra sob atmosfera de otimismo. Mas convém não exagerar. A julgar pela desarrumação verificada no barracão da transição, Bolsonaro entrará na avenida de 2019 com um samba-enredo desafinado.

A comissão de frente não se entende sobre o essencial. Reforma da Previdência fatiada ou completa? Por ora, não há votos no Congresso para aprovar nem uma coisa nem a outra. Ao fundo, ouve-se a bateria do Coaf, que encosta na família Bolsonaro o barulho de movimentações bancárias atípicas. Coisas que destoam da fome de limpeza que move a arquibancada.

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Presentes! http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/presentes/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/11/presentes/#respond Tue, 11 Dec 2018 03:47:57 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86926

– Via Bennet.

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Bolsonaro sinaliza plano de ‘governar’ pelo celular http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/bolsonaro-sinaliza-plano-de-governar-pelo-celular/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/bolsonaro-sinaliza-plano-de-governar-pelo-celular/#respond Mon, 10 Dec 2018 23:46:51 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86922

Jair Bolsonaro discursa na cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral

Ao discursar na cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral, Jair Bolsonaro sinalizou a intenção de transformar o celular numa extensão do gabinete presidencial. Referiu-se a “um novo tempo”. Uma época em que “o poder popular não precisa mais de intermediação”, pois “as novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes.”

Ficou entendido que Bolsonaro irá transportar do ambiente eleitoral para a arena administrativa sua principal alavanca política: a comunicação direta via redes sociais (ou antissociais). São dois os intermediários que ele deseja saltar: os jornalistas e os caciques partidários. Um apoiador do capitão disse ao blog que ele decidiu “provar” que a mesma internet que serviu para vencer a eleição servirá para governar.

Não é que Bolsonaro pretenda ignorar a imprensa e as cúpulas partidárias. Nas palavras do correligionário do novo presidente, o que ele quer é “modificar o modo como o governo se relaciona com esses dois setores, eliminando a relação de dependência e confrontando quando for necessário.”

Contra a mídia, rações diárias de contrapontos oficias colocados ao alcance do aparelho de celular dos brasileiros. Contra os pajés dos partidos, contatos diretos com o baixo clero do Congresso, além de hashtags direcionando internautas para os calcanhares de parlamentares avessos a reformas.

Na campanha, dizia-se que a candidatura de Bolsonaro murcharia depois do início da propaganda no rádio e na TV. Deu-se o inverso. O rival tucano Geraldo Alckmin, com quase metade do tempo atribuído a todos os demais candidatos, amargou nas urnas um humilhante quinto lugar. E o capitão prevaleceu com exíguos 8 segundos de propaganda e uma superexposição televisiva provocada pela facada.

O sucesso eleitoral faz parecer fácil a implantação de um webgoverno, comandado por uma versão subdesenvolvida de Donald Trump. O difícil é executar o plano. Num primeiro momento, caciques como Valdemar Costa Neto (PR) e Roberto Jefferson (PTB), cujo poder partidário gira ao redor do rateio do tempo de TV, dos cargos e das verbas públicas, tendem a perder oxigênio.

Entretanto, será mais difícil governar por meio de posts, lives e hashtags quando terminar a lua-de-mel de Bolsonaro com seu eleitorado. A disposição das redes para apoiar diminui na proporção direta do crescimento da impopularidade de um governante. O mesmo celular que impulsiona serve para propagar os memes que corroem a imagem de autoridades nos grupos de WhatsApp.

De resto, a crise provocada pelo caso Coaf revelou uma particularidade desconhecida de Jair Bolsonaro. Diante de dados que acomodaram a conta bancária de sua mulher, Michelle, na rota da movimentação atípica de um ex-motorista de seu filho Flávio Bolsonaro, o presidente eleito moveu-se nas redes sociais e fora delas com a agilidade de uma tartaruga politraumatizada.

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Moro não deve dar explicações, mas cobrá-las http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/moro-nao-deve-dar-explicarcoes-mas-cobra-las/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/moro-nao-deve-dar-explicarcoes-mas-cobra-las/#respond Mon, 10 Dec 2018 17:53:55 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86916

Instado por repórteres a comentar o caso Coaf, Sergio Moro declarou nesta segunda-feira: “Fui nomeado para ser ministro da Justiça, não cabe a mim dar explicações sobre isso.” De fato, o futuro ministro não deve dar explicações, mas cobrá-las.

Moro acrescentou: “Acho que o que existia de ministro da Justiça opinando sobre casos concretos é inapropriado.” Não deu nome aos bois, mas decerto referia-se a antecessores como Márcio Thomaz Bastos e José Eduardo Cardozo.

Seria realmente lamentável se Moro opinasse sobre um caso que encosta sua futura pasta na família Bolsonaro com ares de advogado de defesa —como por vezes fizeram Thomaz Bastos com Lula e Cardozo com Dilma Rousseff.

“O ministro da Justiça não é uma pessoa que deve ficar interferindo em casos concretos. E eu nem sou, ainda, ministro da Justiça”, afirmou Moro. Ok, não é ministro. Mas a posse ocorrerá daqui a escassos 21 dias.

De resto, é, sim, papel do ministro interferir. Não para inibir, mas para vitaminar as apurações. Num momento em que Moro compõe o staff do novo Coaf, prometendo fortalecer o órgão, seria ótimo que usasse o “caso concreto” para iluminar intenções abstratas.

O fato de não ser, ainda, o titular da Justiça não impediu Moro de declarar: “Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico.”

Foi na condição de quase-futuro-ministro que Moro afirmou: “Eu defendo que, em caso de corrupção, se analisem as provas e se faça um juízo de consistência, porque também existem acusações infundadas, pessoas têm direito de defesa. Mas é possível analisar desde logo a robustez das provas e emitir um juízo de valor. Não é preciso esperar as cortes de Justiça proferirem o julgamento.”

Ora, alguém que disse coisas tão definitivas não deveria se incomodar com os pedidos para que que defina melhor as coisas. “Até vi que tem pessoas cobrando uma posição, mas são as pessoas que têm que prestar esclarecimentos  O presidente já prestou os dele.”

Tomado pelas palavras, o ex-juiz parece ter considerado satisfatórios os “esclarecimentos” de Jair Bolsonaro. Submetidos ao padrão Lava Jato, tais “esclarecimentos” não seriam senão matéria-prima para o aprofundamento das investigações.

Por uma trapaça do destino, descobriu-se que R$ 24 mil saltaram da movimentação bancária “atípica” de R$ 1,2 milhão do ex-motorista do primeiro-filho Flávio Bolsonaro para a conta da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro. O marido-presidente sustenta que se trata de pagamento de empréstimos não-contabilizados que fez ao tal ex-motorista.

Moro não precisa cometer a descortesia de desqualificar alegações preliminares de uma investigação incipiente. Mas pode deixar claro, desde logo, algo que sempre foi incontroverso: Quem tem calos não deveria se meter em apertos.

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Onyx fez tatuagem para lembrar ‘erro’ do caixa 2 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/onyx-fez-tatuagem-para-lembrar-erro-do-caixa-2/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/onyx-fez-tatuagem-para-lembrar-erro-do-caixa-2/#respond Mon, 10 Dec 2018 08:58:02 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86911

A denúncia de recebimento de caixa dois não marcou apenas a biografia de Onyx Lorenzoni. Produziu também numa marca indelével na pele. O futuro chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro mandou tatuar no braço um versículo bíblico (João 8:32): “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

“Eu fiz isso para que eu nunca mais erre. Isso é para me lembrar do dia em que eu errei”, explicou Onyx numa entrevista que foi ao ar na madrugada desta segunda-feira (10), no programa Canal Livre, da Band. “Isso é pra mim, não é para sair por aí mostrando”, disse ele, enquanto exibia a inscrição gravada no corpo.

Jair Bolsonaro adota o mesmo trecho da Bíblia como lema de vida. Repetiu-o à saciedade ao longo da campanha. Mas Onyx disse que sua tatuagem não é nova. Foi feita em 2016, quando veio à luz a notícia de que ele recebera R$ 100 mil por baixo da mesa na campanha para deputado em 2014. Pilhado numa delação, ele admitiu o “erro” e pediu perdão. Agora, enfrenta uma investigação preliminar autorizada pelo STF relacionada a um novo caixa dois de R$ 100 mil, surgido na delação da JBS. Coisa de 2012.

A conversa com a Band foi gravada na noite de sexta-feira. Horas antes, numa entrevista conturbada, Onyx dissera estar tranquilo porque já havia se acertado com Deus. Alheio ao fato de que seu acerto com o Todo-Poderoso não resolve as pendências na Procuradoria-Geral da República, o ministro reiterou sua profissão de fé.

“Respeito quem não tem fé, mas eu sou um cara de fé. Para mim, o mais importante era eu me resolver com o meu Deus. Pode olhar nos meus olhos, aqui tem a verdade. Eu nunca temi a verdade.” Na versão de Onyx, não se pode falar em crime porque “não havia contrapartida alguma.” Portanto, “não há corrupção.”

Onyx disse estar tranquilo quanto ao resultado da nova investigação autorizada pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo. “Esta abertura de investigação preliminar me vai dar a condição de ir lá, fazer os esclarecimentos e resolver de uma vez por todas.”

Questionado sobre a movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão na conta do ex-motorista do senador eleitor Flávio Bolsonaro, dos quais R$ 24 mil foram parar na conta da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro, Onyx declarou: “Essa questão terá que ser desdobrada na investigação.” Para ele, o barulho produzido pela novidade é excessivo.

“O funcionário é lá do gabinete do filho [de Jair Bolsonaro]. Certo, é o filho do presidente. Agora, há um certo estardalhaço para além do que eu acho que é necessário ser feito. E há sempre uma tentativa de desagastar a imagem do presidente eleito.”

Nas palavras de Onyx, Bolsonaro também “não teme o enfrentamento da verdade.” O ministro tentou explicar a irritação que exibira ao tratar do assunto numa entrevista coletiva realizada antes da gravação do programa na Band. Declarou que tivera  uma “altercação com um jovem repórter.” Por quê?  Achou “que ele foi muito agressivo” no seu questionamento, “e o presidente não merece isso.”

Para Onyx, Bolsonaro “já viveu” coisa semelhante durante a campanha eleitoral. “Todos nós testemunhamos um processo de tentativa de detruição de sua imagem pública. E o resultado a gente viu: 57 milhões de brasileiros veem nele a esperança do Brasil.”  (Assista no vídeo abaixo o episódio que Onyx chamou de “altercação com um jovem repórter”).

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Caso Coaf exige reação urgente de Sergio Moro http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/caso-coaf-exige-reacao-urgente-de-sergio-moro/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/caso-coaf-exige-reacao-urgente-de-sergio-moro/#respond Mon, 10 Dec 2018 05:36:53 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86905

Até onde a vista alcança, não há no episódio sobre a movimentação bancária suspeita do ex-motorista do primeiro-filho Flávio Bolsonaro nenhum bom exemplo. Mas o Caso Coaf é um bom aviso. O brasileiro foi avisado do seguinte: enquanto as coisas não estiverem acomodadas em pratos asseados, o compromisso de Jair Bolsonaro de inaugurar uma gestão implacável com os malfeitos vale apenas até certo ponto. O ponto de interrogação.

Prestes a assumir um Ministério da Justiça turbinado, com o premonitório reforço do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que farejou a vaivém “atípico” de R$ 1,2 milhão, Sergio Moro está, por assim dizer, obrigado a dizer meia dúzia de palavras sobre o episódio. A presença da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro no epicentro da crise indica que o pior excesso que o ex-juiz da Lava Jato pode cometer é o da moderação. Seu silêncio é simplesmente inaceitável.

O próprio Moro fixou as balizas para o comportamento que se espera dele. Fez isso ao declarar coisas assim: “Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico.” Ou assim: “Eu defendo que, em caso de corrupção, se analisem as provas e se faça um juízo de consistência, porque também existem acusações infundadas, pessoas têm direito de defesa. Mas é possível analisar desde logo a robustez das provas e emitir um juízo de valor. Não é preciso esperar as cortes de Justiça proferirem o julgamento.”

Pois bem. Moro foi guindado à Esplanada graças ao “histórico” de magistrado implacável que ajudou a arrancar do Brasil a logomarca de país da impunidade. Não há como grudar nos indícios colecionados pelo Coaf a pecha de “acusações infundadas”. E as primeiras manifestações dos Bolsonaro —pai e filho— constituem o início do exercício do sacrossanto “direito de defesa”. Tomados pelas palavras, o senador eleito Flávio Bolsonaro e futuro presidente Jair Bolsonaro parecem não ter enxergado nada de anormal na atipicidade que transformou a conta do ex-motorista Fabrício Queiroz em matéria-prima para o Ministério Público Federal.

O diabo é que, diante das tentativas de explicação e dos dados que se encontram pendurados nas manchetes, nada tornou-se uma palavra que ultrapassa tudo. De modo que Moro haverá de concluir que “não é preciso esperar as cortes de Justiça proferirem o julgamento” para emitir um primeiro “juízo de valor”. O mínimo que o ex-magistrado precisa declarar, para não “comprometer a biografia” que construi, é que há sobre o palco um déficit de transparência.

Em política, todo o mal começa com as explicações. O que um político faz para explicar uma má notícia é o que deixou de fazer por convicção ou precaução. Mas há males que vêm para pior. Isso ocorre quando as explicações são insatisfatórias. A encrenca que veio à luz com o relatório tóxico do Coaf, produzido no contexto de uma investigação sobre corrupção na Assembleia Legislativa do Rio, exige a transparência de um cristal. E o que se tem, por ora, é a transparência de um copo de requeijão.

Ou Moro informa ao país que enxergou o óbvio ou passará a frequentar a cena como uma espécie de sub-general Mourão, pois o vice-presidente eleito Hamilton Mourão já declarou: “O ex-motorista, que conheço como Queiroz, precisa dizer de onde saiu este dinheiro. O Coaf rastreia tudo. Algo tem, aí precisa explicar a transação, tem que dizer.” Sobre os R$ 24 mil que foram parar na conta de Michelle Bolsonaro, Mourão afirmou que o marido-presidente “colocou a justificativa dele. Ele já disse que foi um empréstimo.” O general acrescentou: “O Queiroz precisa explicar agora.”

Conforme já foi comentado aqui, a alegação de Jair Bolsonaro de que a cifra repassada a sua mulher é parte do pagamento de empréstimos de R$ 40 mil que fez ao ex-motorista do filho tem a solidez de um pote de gelatina. Flávio Bolsonaro, por sua vez, disse ter ouvido do ex-assessor uma “história bastante plausível” sobre o montante de R$ 1,2 milhão movimentado atipicamente. Mas perdeu a oportunidade de definir “plausível” no instante em que afirmou: “Eu não posso dar detalhes aqui, porque é o que ele vai falar para o Ministério Público.”

Neste domingo, Jair Bolsonaro ecoou o filho. Numa entrevista em que minimizou o fato de pelo menos oito assessores de Flávio Bolsonaro terem realizado depósitos na conta de Fabrício Queiroz, o presidente eleito declarou que é o ex-motorista quem “tem que explicar” o que parece inexplicável. O problema é que, desde que os dados do Coaf vieram à luz numa notícia do Estadão, já se passaram 120 horas (pode me chamar de cinco dias). E Fabrício, personagem que os Bolsonaro chamam de “amigo”, ainda não convocou os holofotes para compartilhar com os brasileiros sua “história bastante plausível.”

Diante do sumiço do “amigo”, a família Bolsonaro, sempre tão loquaz, revela-se intelectualmente lenta no provimento de explicações, moralmente ligeira nas conclusões sobre a normalidade dos indícios e politicamente devagar na avaliação do estrago que o caso produz. Qualquer dessas velocidades é um insulto à inteligência alheia.

A ofensa será maior se Sergio Moro imaginar que pode assistir a tudo com o distanciamento de um scholar entretido com o paradoxo de um presidente que se enrola antes da posse depois de se eleger enrolado na bandeira da moralidade. A conjuntura exige do ex-juiz da Lava Jato uma reação urgente. Nem que seja uma cara de nojo.

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Intimação Divina! http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/intimacao-divina/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/10/intimacao-divina/#respond Mon, 10 Dec 2018 02:08:28 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86902

– Charge do Duke, via O Tempo.

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Mourão avalia que faltam explicações sobre Coaf http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/09/mourao-avalia-que-faltam-explicacoes-sobre-coaf/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/09/mourao-avalia-que-faltam-explicacoes-sobre-coaf/#respond Sun, 09 Dec 2018 05:24:04 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86900

O general Hamilton Mourão, vice-presidente eleito, avalia que há um déficit de explicações sobre o caso Coaf. Ele cobra esclarecimentos de Fabrício Queiroz, o ex-assessor de Flavio Bolsonaro pilhado numa movimentação bancária suspeita de R$ 1,2 milhão no intervalo de um ano. “O ex-motorista, que conheço como Queiroz, precisa dizer de onde saiu este dinheiro. O Coaf rastreia tudo. Algo tem, aí precisa explicar a transação, tem que dizer”, declarou Mourão.

Mourão manifestou-se sobre o episódio numa entrevista ao blog da repórter Andréia Sadi, neste sábado (8). Perguntou-se ao general se considerou satisfatória a explicação de Jair Bolsonaro sobe o repasse de R$ 24 mil que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro fez à futura primeira-dama Michelle Bolsonaro. “Ele colocou a justificativa dele. Ele já disse que foi um empréstimo. O Queiroz precisa explicar agora”, afirmou.

A repórter também perguntou a Mourão o que achou da reação do futuro chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni, que se irritou com os repórteres na última sexta-feira ao ser indagado sobre o caso Coaf. “Ele tá estressado”, respondeu o vice de Jair Bolsonaro. “Quando responde daquele jeito, parece que tem culpa no cartório”, acrescentou, evocando a investigação autorizada pelo STF sobre a suspeita de que Onyx recebeu R$ 100 mil da JBS no caixa dois. “Quando me perguntam, eu respondo claramente, com tranquilidade. Temos que falar.”

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Bolsonaro transforma o PT no ‘boi da cara preta’ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/09/bolsonaro-transforma-o-pt-no-boi-da-cara-preta/ http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2018/12/09/bolsonaro-transforma-o-pt-no-boi-da-cara-preta/#respond Sun, 09 Dec 2018 04:20:58 +0000 http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/?p=86894

Daqui a 22 dias, o pano vai se abrir para o governo de Jair Bolsonaro. Por ora, o que se ouve da plateia é o ruído da arrumação dos bastidores. Num instante em que cresce a expectativa do público para saber como se desenvolverão as coisas no palco quando abrirem a cortina, o presidente eleito se comporta como se fosse o protagonista de uma peça infantil. Depois de surfar a onda do antipetismo durante a campanha eleitoral, Bolsonaro transforma o PT numa espécie de ‘boi da cara preta’.

“Ou mudamos o Brasil agora, ou o PT volta, volta com muito mais força do que tinha até o final do governo Dilma”, disse Bolsonaro neste sábado (8) para a plateia reunida na Primeira Cúpula Conservadora das Américas, uma nova versão do Foro de São Paulo com sinal invertido, que seu filho Eduardo Bolsonaro ajudou a organizar num hotel da cidade paranaense de Foz do Iguaçu. A infantilização do discurso político do capitão não é gratuita. Há método na estratégia.

Como nas velhas cantigas de ninar utilizadas desde tempos imemoriais para fazer criancinhas dormir incutindo-lhes terror, Bolsonaro reivindica uma solidariedade soporífera ao seu futuro governo instilando o medo de uma assombração de “esquerda” que pode ressurgir a qualquer momento para pegar de volta o Brasil, esse país recém-nascido das urnas conservadoras, que ainda ‘tem medo de careta’ —uma careta que deixou um rastro pegajoso de corrupção, recessão e desemprego.

Bolsonaro já havia entoado a mesma cantiga nas reuniões que manteve ao longo da semana, a portas fechadas, com as bancadas de partidos como MDB, PRB, PR e PSDB. Ao pedir votos para reformas antipáticas como a da Previdência, o novo presidente esgrimiu o risco da volta do PT ao poder na hipótese de fracasso da administração a ser inaugurada em 1º de janeiro. “Se falharmos, eles voltam”, repetiu o capitão à exaustão.

A cena protagonizada por Bolsonaro na noite deste sábado, disponível no vídeo que ilustra esse post, estava impregnada de ironia. Sua imagem chegou à plateia reunida em Foz do Iguaçu via webcam, numa transmissão precária de internet. O orador estava no quarto, sentado na cama, na sua casa, no bairro carioca da Barra da Tijuca. Era possível ver, ao fundo, os travesseiros sobre os quais Bolsonaro recostaria a cabeça à espera de um sono que o Coaf lhe roubou.

Horas antes, após participar de um evento da Marinha, Bolsonaro fora abolroado por uma inquirição dos jornalistas sobre os R$ 24 mil que migraram da movimentação bancária suspeita do assessor de seu filho Flávio Bolsonaro para a conta de sua mulher, Michelle. Ainda envolto na bandeira da moralidade que o conduziu ao Planalto, o futuro comandante da nação repetiu o lero-lero da véspera, de um suposto empréstimo que fizera ao policial militar Fabrício Queiroz. A entrevista levou às manchetes a frase-símbolo da fase de transição de governo: “Se eu errei, eu arco com a minha responsabilidade perante o Fisco”.

A ficha de Bolsonaro ainda não caiu. Mas assombração do PT tornou-se um asterisco perto do fantasma que sacode o lençol na direção de sua reputação. Quando a cortina finalmente se abrir, o pedaço da banda patrimonialista do Congresso que foi preterido na formação da equipe do novo governo saltará da plateia para o centro do palco. Já se ouve nas coxias um barulhinho esquisito. É o som dos parlamentares fisiológicos entoando para o capitão a velha cantilena:

“Boi, boi, boi

Boi da cara preta

Pega esta criança

Que tem medo de careta!”

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