Blog do Josias de Souza

Trasportadoras realizam sonho de Lula: paralisam o país e encurralam Temer
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Josias de Souza

Chamar de greve de caminhoneiros uma paralisação que não existiria sem o apoio das empresas transportadoras de carga é o mesmo que chamar de negociação uma chantagem. Seja qual for o desfecho da crise provacada pela alta dos combustíveis, ficou entendido que o Brasil, com sua predileção pelo transporte rodoviário, está nas mãos do empresariado que controla a frota de caminhões e contrata os serviços de caminhoneiros autônomos.

Nem CUT nem o “Exército do Stédile”. Quem demonstrou força para paralisar o país e encurralar Michel Temer foi o baronato do setor de transportes. Três dias de bloqueios nas estradas foram suficientes para provocar desabastecimento em todas as regiões do país. Não é a primeira vez. Nem será a última. Dá pena a enrascada em que se meteu o presidente. Fraco e impopular, Temer não governa os acontecimentos. É desgovernado pelos fatos.

Em reunião no Planalto, Temer pediu uma trégua de três dias aos representantes do tumulto. Foi prontamente desatendido. Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, presidentes da Câmara e do Senado, se juntaram para tirar uma lasca do governo. A pretexto de arrumar dinheiro para compensar a isenção dos impostos que encarecem o diesel, Maia e Eunício decidiram fazer o favor de colocar para andar a proposta de reoneração da folha de pagamento.

Abre parêntese: a reoneração da folha era solicitada por Temer desde o ano passado. Seus aliados no Congresso deram de ombros. Com os cofres em situação de penúria, o governo avançou sobre o contribuinte. Aumentou, por exemplo, PIS e Cofins, que incidem sobre os combustíveis. Agora, com os caminhões atravessados nas rodovias, os congressistas se dispõem a fazer por pressão o que não fizeram por opção. Fecha parêntese.

A toque de caixa, Rodrigo Maia (DEM-RJ) comandou, na noite desta quarta-feira, a aprovação do projeto que tributa a folha salarial de 28 dos 56 setores que desfrutam de isenção. Em combinação com Maia, o relator da proposta, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), enfiou um jabuti dentro do texto: um artigo que reduz a zero a alíquota do PIS/Cofins sobre o diesel. Alegou-se que a perda de receita será compensada com o dinheiro resultante da retributação das folhas salariais.

O diabo é que, na véspera, Maia combinara com o governo que a grana que virá das folhas serviria para zerar não o PIS/Cofins, mas a Cide, contribuição que também incide sobre o diesel. Ao farejar o cheiro de queimado, Temer enviou à Câmara o trator que ele chama de coordenador político: Carlos Marun. Numa evidência da falência da autoridade de Temer, os deputados tratoraram o emissário do presidente, ignorando-o. Aprovado em votação simbólica, o projeto vai ao Senado.

Como se fosse pouco, o desentendimento envenenou a calculadora. Pela conta do Planalto, a renúncia fiscal aprovada pelos deputados produzirá um buraco de R$ 12 bilhões. Que o Ministério da Fazenda diz não ter como tapar. Na conta de Maia e do relator Orlando, o custo será de R$ 3,5 bilhões. Alguém cometeu um erro de cálculo do tamanho de R$ 8,5 bilhões. Há no lance eleição demais e sensatez de menos.

Enquanto o Planalto se estanhava com seus pseudo-aliados em Brasília, a Petrobras anunciou no Rio de Janeiro uma redução de 10% no preço do diesel. Pelo telefone, o presidente da estatal, Pedro Parente, comunicou a novidade a Temer cinco minutos antes do anúncio. O refresco tem prazo de validade de 15 dias. Espera-se que em duas semanas o governo consiga produzir um entendimento.

Alheios aos esforços, os bloqueadores de estradas afirmaram que os caminhões continuarão atravessados no asfalto. A Advocacia-Geral da União obteve ordem judicial para desobstruir as vias na marra. Radicalizando-se a fuzarca, a mistura pode acabar mal. Esse é um tipo de briga em que a sociedade brasileira entra com a cara.


É hora de rediscutir privilégio da prisão especial
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Josias de Souza

Sergio Moro trancou Lula numa “sala reservada” da Polícia Federal. Atribuiu o privilégio à “dignidade do cargo” que o preso ocupou. O juiz Luiz Carlos Rezende e Santo também enviou o tucano Eduardo Azeredo para uma “sala de Estado Maior”. Por quê? As penitenciárias mineiras ''passam por problemas de toda sorte”, escreveu o juiz. E Azeredo, figura de “inegável status”, “ex-governador”, merece  “segurança individualizada”, justificou o magistrado. Decisões desse tipo ajudam o brasileiro a enxergar mais uma velha anomalia nacional: a cana dos poderosos.

No Brasil, os criminosos são tratados conforme o status social e a graduação profissional. Um político poderoso ou qualquer cidadão com canudo universitário —médico, advogado, jornalista…— mata uma pessoa e vai para uma prisão especial. Um jovem da periferia é flagrado com uma pequena quantidade de maconha e é enfiado numa cela superlotada, virando mão-de-obra para as facções criminosas.

Um ex-presidente e um ex-governador se beneficiam de dinheiro roubado do povo e vão para acomodações com banheiro privativo, TV individual, roupa de cama limpa, café da manhã, almoço, jantar e ceia. A suavidade do castigo é regulada pela origem do preso, não pela gravidade do crime. É aviltante, mas tem amparo legal. Ou igualam-se os presos ou elimina-se o privilégio. Extinguindo-se a cana especial, petistas e tucanos organizarão passeatas contra o abandono e a superlotação das prisões. Do contrário, logo, logo haverá filas de sem-teto exigindo hospedarias especiais como as de Lula e Azeredo.


Bolsonaro exibe ética flexível em ato de prefeitos
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro vai se revelando um presidenciável peculiar. As poucas ideias que tem não são boas. E algumas nem são dele. Quando discursa, o candidato passa a impressão de que apenas repete o que a plateia deseja ouvir. Nesta quarta-feira, falando para prefeitos, Bolsonaro defendeu a flexibilização dos rigores do Ministério Público no trato com gestores municipais em litígio com a lei.

Disse Bolsonaro: ''Temos de ter coragem de falar sobre o Ministério Público. Faz um bom trabalho? Em parte, sim. Mas tem seus problemas. Que prefeito não fica com medo ou preocupado respondendo por improbidade administrativa? Temos de mudar isso.''

Como assim? ''Não é dizer que não vai ter mais fiscalização, não é isso. Mas temos de ser prefeitos, governadores e presidente sem medo. Todos nós podemos errar. E não é do erro que vem acontecendo, vem uma lapada em cima da cabeça da gente.'' Sem medo, chegou-se ao mensalão, punido com cadeia pelo STF. Com medo, produziu-se o petrolão. Mas Bolsonaro quer um Ministério Público “parceiro”. Pelo bem do “desenvolvimento do Brasil.”

Os repórteres estranharam a falta de nexo, pois Bolsonaro apresenta-se na campanha enrolado na bandeira do combate à corrupção. E o candidato: Não ''tem nada a ver uma coisa com outra. Tem que ter bom senso. Até um simples fiscal não pode chegar num estabelecimento e meter a mão na caneta. Orienta num primeiro momento. Quem nunca reclamou de uma multa de trânsito? Esta é a intenção. O combate à corrupção tem que continuar''.

Bolsonaro sentiu a necessidade de esmiuçar um pouco mais seu raciocínio. ''Por exemplo: quando fala de propriedade rural, está lá a emenda constitucional do trabalho escravo. Ninguém é a favor de trabalho escravo. Tem gente do Ministério Público, do Judiciário, que entende que o trabalho análogo à escravidão também é escravo. Tem que botar um ponto final nisso. Análogo é uma coisa e escravo é outra.''

Quer dizer: a pretexto de justificar um absurdo —o relaxamento na fiscalização de malfeitos municipais— Bolsonaro se alinhou com outras três temeridades: desmereceu o trabalho de fiscais fazendários, estimulou a rebelião contra inspetores de trânsito e revelou-se condescendente com a exploração de mão de obra no campo. Fez tudo isso num instante em que negocia uma aliança com o PR de Valdemar Costa Neto, o ex-presidiário do mensalão.

Nesse ritmo, o ex-capitão vai acabar ensinando ao seu eleitorado que não se deve confundir um certo candidato com o candidato certo. Não é que o Bolsonaro seja contra o combate à corrupção. Não, não. Absolutamente! Ele apenas ostenta princípios éticos flexíveis. Natural. Acabar com a corrupção sempre foi a prioridade de todos os que ainda não chegaram ao poder.


Alckmin continua sendo chuchu, só que de xepa
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Josias de Souza

Espremido em sabatina, o tucano Geraldo Alckmin exibiu uma retórica feita 50% de evasivas e 50% de mesmices. O resultado da soma das duas partes é um presidenciável 100% incapaz de responder às duas principais demandas do eleitorado em 2018: limpeza e esperança.

O candidato do PSDB ao Planalto foi evasivo ao responder às perguntas sobre o atacadão de corrupção. Saiu-se com mais do mesmo ao prometer reformas ambiciosas sem esmiuçar uma estratégia para colocá-las em pé. Ao contrário, reconheceu que o próximo presidente terá de lidar com um Congresso fragmentado.

Deixando-se de lado a roubalheira comprovada ou sob investigação —que inclui um Azeredo condenado, um Aécio com nove processos, um Serra com arcas suíças, um Paulo Preto com fortuna nas Bahamas e o próprio Alckmin com o cunhado na caixa registradora das campanhas—, sobram as reformas que o candidato diz que fará: política, tributária, do Estado e da Previdência.

Falar é mais fácil do que fazer. FHC e Lula também prometeram reformar a política e o sistema tributário. Cada um passou oito anos no Planalto. Na política, reformaram-se a si mesmos, rendendo-se ao toma-lá-dá-cá. Nos tributos, avançaram sobre o bolso do contribuinte sempre que o caixa do Tesouro ficou vazio. Na Previdência, ambos conseguiram arrancar do Congresso apenas remendos, não reformas.

Na seara ética, Alckmin se esforçou para preservar a pose de limpinho: ''Moro no mesmo apartamento. Então, eu me sinto indignado, porque há uma tendência agora no Brasil de defenestrar a política, dizer que é todo mundo igual. Não, não é. Quem enricar com política é ladrão”, declarou, antes de soletrar: “L-a-d-r-ã-o''. Pode ser um ótimo desabafo. Mas não resolve.

O problema não é a incapacidade da imprensa ou do eleitorado de enxergar moralidade na política. A questão é que os políticos são incapazes de demonstrá-la. Alckmin é presidente nacional do PSDB. Ele deslizou ao tratar das malfeitorias partidárias porque não tem nada de novo a oferecer. Se tivesse, já teria colocado sobre a mesa o pedido de expulsão de Azeredo, um ofício enviando o réu Aécio para o conselho de ética partidário e meio quilo de explicações convincentes sobre sua própria situação.

Adhemar Ribeiro, o cunhado de Alckmin, frequenta dois inquéritos como coletor de verbas sujas carreadas para campanhas do tucano. Instado a dizer algo a respeito, o candidato definiu o irmão de sua mulher assim: ''Ele é casado com uma banqueira, dono de financeira, simpatizante do partido, nada mais do que isso. Não tem nenhuma relação com o governo.''

Alckmin teria soado mais convincente se dissesse algo assim: “Chamei meu cunhado para uma conversa. Perguntei: que história é essa de que você apanhou, em meu nome, parte dos R$ 10 milhões da Odebrecht e R$ 5 milhões da concessionária CCR? Ele me disse que não pegou. Portanto, se eu não pedi o dinheiro e ele não recolheu, os delatores são mentirosos. Serão processados por mim.”

Tomado pelas respostas que ofereceu na sabatina, Alckmin continua sendo o mesmo chuchu de sempre. A diferença é que seu receituário ficou mais aguado e ele perdeu o frescor ético. Virou parte da xepa.


Renan prevê que Meirelles não será candidato
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Josias de Souza

No serpentário do MDB, a candidatura de Henrique Meirelles ao Planalto é vista como uma iniciativa natimorta. O personagem dispõe de dois meses para demonstrar alguma viabilidade eleitoral. Seus aliados ruminam muitas dúvidas. Os adversários cultivam a certeza de que o nome do ex-ministro da Fazenda não será avalizado pela convenção nacional do partido. O senador alagoano Renan Calheiros, que tenta a reeleição escorado em Lula, inaugurou o coro anti-Meirelles.

“O presidente da República, que tinha 1% nas pesquisas, anunciou a retirada da sua candidatura e colocou no seu lugar o ex-ministro da Fazenda, que levou o país a essa situação”, disse Renan, no microfone do plenário do Senado. “Não acredito que o PMDB homologue uma candidatura como essa, porque a candidatura do Meirelles vai rebaixar o PMDB em todos os Estados. […] Essa pré-candidatura não vai passar do ‘pré’, pelas maldades que ao longo desses meses eles têm conseguido fazer com o povo brasileiro”.

Ao discursar no evento em que declarou apoio a Meirelles, Michel Temer mostrou a porta de saída aos descontentes: “Nós nos gabamos por sermos um partido democrático. Tudo bem. Por isso é que conseguimos essa unidade absoluta. Temos que aproveitar a campanha eleitoral para mostrar a unidade. Vamos parar com essa história de eu não apoio o Meirelles. Dizer: ‘Ah, eu não apoio o Meirelles?’ Saia do partido! Temos que ter unidade absoluta, não podemos contemporizar. O povo brasileiro está atento.”

Renan deu de ombros. Queixou-se dos efeitos da radioatividade do governo Temer sobre o partido. Segundo ele, deixaram o MDB sete senadores e 15 deputados federais. Meirelles logo se dará conta de que prever o resultado da convenção do partido é quase tão difícil quanto antecipar o comportamento do PIB.


PT lança Lula no domingo e analisa a conveniência de definir nome do vice
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Josias de Souza

A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, toma as últimas providências para desligar da tomada a ala do partido que defende uma aliança com Ciro Gomes. Seguindo ordens expressas de Lula, Gleisi convocou todos os diretórios municipais do partido para realizar no próximo domingo, dia 27, atos de lançamento da hipotética candidatura presidencial de Lula. De resto, discute-se internamente a conveniência de antecipar a divulgação do nome do candidato a vice.

Nesta quarta-feira, Gleisi e Fernando Haddad, escalado por Lula para coordenar a elaboração de um programa de governo, reúnem-se com governadores petistas para discutir os próximos lances da campanha. Planeja-se estruturar um núcleo de coordenação. A ideia é dar ares de fato consumado à candidatura de Lula, espantando o debate sobre Plano B.

Nesse contexto, a escolha do vice pode ser o fato mais importante a ser produzido pelo petismo nesta fase de pré-campanha. Dá-se de barato no Tribunal Superior Eleitoral que o registro da candidatura de Lula, a ser requerido em agosto, será impugnado com base na Lei da Ficha Limpa. O que forçará o PT a indicar um outro candidato. O mais lógico seria que Lula entregasse ao potencial substituto, desde logo, o título de número dois da chapa.

Preso desde 7 de abril, Lula manteve-se no topo das pesquisas. De acordo com o Datafolha, ele também preservou seu condição de bom transmissor de votos. Nada menos que 30% dos eleitores afirmaram que votariam em um nome indicado pelo pajé do PT. Daí a relevância do vice. Normalmente, a posição costuma ser oferecida a um partido aliado. Mas o PT não tem a perspectiva de firmar alianças. Por ora, o nome que parece desfrutar da preferência de Lula é o de Fernando Haddad.


Rivais no poder, PSDB e PT se juntam no xadrez
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Josias de Souza

O PSDB foi enviado, finalmente, para a cadeia. Ficará preso junto com o ex-presidente nacional do partido, Eduardo Azeredo, transformado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais num corrupto de segunda instância.

O PSDB poderia ter concedido a si mesmo um habeas corpus preventivo se tivesse se livrado do filiado tóxico quanto teve a oportunidade. Ao proteger Azeredo, transformou a desmoralização de um político num processo de apodrecimento partidário.

Ao mandar Azeredo para o xadrez, a Justiça atenua a distorção da seletividade. Pode-se reclamar de que há poucos tucanos em cana. Mas logo já não se poderá dizer que não há nenhum tucano atrás das grades.

A fila ainda é grande. Nela, aguardam por veredictos Aécio Neves, José Serra, Aloysio Nunes e Geraldo Alckkmin. O que se exige é que essa fila continue a andar.

O PSDB sempre acusou o PT de mimar os seus corruptos. O PT sempre acusou o PSDB de blindar os seus corruptos. Por mal dos pecados, as investigações vão demonstrando que os dois lados têm razão.

A história ofereceu aos partidos que se revezaram no poder por mais de duas décadas inúmeras oportunidades de se unir. Preferiram se aliar ao que havia de pior na política, comprando apoio congressual. Tucanos e petistas acabaram se juntando na marra. Encontraram-se, primeiro, na lama. Agora, começam a se juntar na cadeia.


Insumos!
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Josias de Souza

– Charge do Duke, via O Tempo.


Chegada do 1º tucano à gaiola qualifica a faxina
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Josias de Souza

Ao encaminhar Eduardo Azeredo para o xadrez, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais qualificou a faxina, tornando-a menos seletiva. A cúpula miliciana do PT, incluindo Lula, foi encarcerada. A falange do (P)MDB está representada no xadrez por presidiários do porte de Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e Geddel Vieira Lima. Até corruptores da estirpe de Marcelo Odebrecht já amargaram sua cota de cana. Faltava um tucano na gaiola. A prisão de Azeredo chega bem e vem tarde. Representa pouco se for considerado tudo o que já se descobriu sobre os seres da sua espécie. Mas já é um bom começo —sobretudo porque o PSDB vai preso junto com seu protegido.

O feitiço dos tucanos acabou enfeitiçando o ninho. Em 2005, quando se revelou que o mensalão petista tinha um DNA tucano, o PSDB meteu o malho na tesouraria petista ''não contabilizada'' de Delúbio Soares e passou a mão no bico de Eduardo Azeredo, que tivera a caixa de campanha anabolizada pelas mágicas do mesmo operador: Marcos Valério. Azeredo servira-se dos truques financeiros de Valério na sua malograda campanha à reeleição para o governo mineiro, em 1998. Ao livrar o filiado ilustre das labaredas de um processo ético-disciplinar, o PSDB pulou na fogueira.

Os tucanos cometeram o mesmo erro que apontavam nos petistas. Trataram com consideração quem merecia punição. Hoje, sabe-se porque agiram assim: não havia inocentes na legenda, apenas culpados e cúmplices. Como sucede em todas as agremiações partidárias, ninguém ignora os crimes cometidos ao redor nos verões passados. Azeredo renunciou ao mandato de deputado para fugir da condenação no Supremo. E nenhum correligionário se animou a representar contra ele no Conselho de Ética da legenda. Azeredo foi condenado a mais de 20 anos de cana na primeira instância. E nada.

Ex-presidente nacional do PSDB, Azeredo chega à condição de corrupto com sentença de segunda instância e ainda mantém intacto seu assento na Executiva Nacional da legenda. Como o partido não foi capaz de mostrar aos transgressores a saída de incêndio, acumulou-se entulho na entrada. O réu Aécio Neves coleciona uma ação penal e oito inquéritos. A Odebrecht enfiou R$ 23 milhões numa caixa eleitoral de José Serra, com escala na Suíça. A mesma empreiteira empurrou R$ 10,3 milhões nas arcas eleitorais clandestinas do hoje presidenciável Geraldo Alckmin. Tudo isso sem uma delação do operador Paulo Preto.

Os tucanos, como os petistas, perderam todas as oportunidades que a história lhes ofereceu para demonstrar que possuem uma noção qualquer de ética. Os PT continuará afirmando que o PSDB protege os seus corruptos. E vice-versa. A má notícia é que os dois partidos têm razão. A boa notícia é que a Lava Jato transformou a blindagem num péssimo negócio. Espalhando-se a faxina, qualifica-se a própria democracia.