Blog do Josias de Souza

Defensoria recorre à Justiça por ‘Mais Médicos’
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Josias de Souza

A Defensoria Pública da União (DPU) recorreu à Justiça Federal para tentar manter o Mais Médicos. Ajuizou uma ação civil pública. Nela, pede a manutenção das atuais regras do programa. A ação inclui um pedido de liminar. Alega-se que é preciso evitar que “a população atendida seja prejudicada com a saída abrupta de milhares de médicos sem que a União previamente promova medidas efetivas de modo a repor imediatamente o quantitativo de médicos que estão em vias de deixar o programa.”

A iniciativa surgiu dois dias depois de o governo de Cuba ter anunciado o rompimento unilateral do contrato que assegurava a presença de 8.332 médicos cubanos no Brasil. Foi uma reação de Havana às declarações hostis que Jair Bolsonaro vinha fazendo desde a campanha eleitoral. A defensoria sustenta que qualquer mudança no programa Mais Médicos, “em especial relacionada à não necessidade de submissão ao Revalida, deve estar condicionada à realização de prévio estudo de impacto…”

O Revalida é um teste que os médicos estrangeiros ou brasileiros formados no exterior precisam fazer antes de trabalhar no Brasil. Serve para medir os conhecimentos do profissional, pré-condição para que o diploma seja validado. Bolsonaro declarou que, para permanecer no Brasil, os médicos cubanos teriam, entre outras exigências, de se submeter ao revalida. Algo que o Mais Médicos não exige.

Assinam a ação o defensor regional de Direitos Humanos da DPU no Distrito Federal, Alexandre Mendes Lima de Oliveira, e outros dois defensores públicos: Alexandre Benevides Cabral e Amadeu Alves de Carvalho Júnior. Eles argumentam que o Supremo Tribunal Federal já declarou a constitucionalidade do Mais Médicos.

Por isso, argumentam que “causa espécie a temerária e irresponsável interrupção abrupta” do programa, “sem que fossem previamente estabelecidas medidas para a reposição imediata dos médicos que não mais continuarão” no país.

Os defensores sustentam, de resto, que a saída dos médicos cubanos deixará sem assistência 29 milhões de brasileiros. Enxergam “um cenário desastroso”, já que, ''dos 5.570 municípios do país, 3.228 (79,5%) só têm médico pelo programa e 90% dos atendimentos da população indígena são feitos por profissionais de Cuba.”


Saída para o ‘Mais Médicos’ é menos politicagem
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Josias de Souza

Bolsonaro declarou guerra aos médicos cubanos já na campanha. Disse que, eleito, enviaria todos de volta para Cuba com “uma canetada”. Foi com uma canetada também que Dilma criou o Mais Médicos em 2013, levando o programa à vitrine de sua campanha à reeleição no ano seguinte. Agora, com outra canetada, Havana antecipou-se a Bolsonaro, rompendo o acordo que mantinha no Brasil quase 8,4 mil médicos, algo como 45% dos profissionais arregimentados pelo Mais Médicos.

A polêmica ferve nas manchetes. Bolsonaro troca farpas com Cuba. O PT sobe no caixote para atacar o capitão. Em meio a tantos protagonistas, um personagem central fica em segundo plano: o brasileiro pobre dos fundões do país ou da periferia das grandes cidades. Para 28 milhões de pessoas, clientes potenciais dos médicos cubanos, pouco importa se o jaleco é vermelho ou verde-amarelo. O essencial é que ele esteja presente sempre que a dor apertar.

Em sua manifestação mais recente, Bolsonaro disse: “Nunca vi uma autoridade no Brasil dizer que foi atendida por um médico cubano. Será que nós devemos destinar aos mais pobres profissionais sem qualquer garantia de que sejam realmente razoáveis?” Ora, nunca viu nem verá. Dilma, quando precisou, tratou-se no Sírio Libanês. Bolsonaro, socorre-se no Albert Einstein. O brasileiro paga a conta.

Dilma sabia que o Mais Médicos era um remendo que não resolveria o problema. Bolsonaro sabe que a saída atabalhoada dos médicos cubanos, sem uma substituição simultânea da mão de obra, é um desastre que agravará o drama. E os brasileiros afetados pelos programas que começam e terminam assim, em ritmo de truque cinematográfico, sabem que a única saída para garantir mais médicos é menos politicagem.


‘Lula é mentor do esquema criminoso’, diz Moro
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Josias de Souza

Acusado pela defesa de Lula e pelo Partido dos Trabalhadores de utilizar a Justiça para perseguir o ex-presidente petista, Sergio Moro elevou o tom de sua resposta: “As provas indicam que Lula é o mentor desse esquema criminoso que vitimou a Petrobras. E nós não tratamos apenas de um tríplex. Nós falamos de um rombo estimado de R$ 6 bilhões. O tríplex é a ponta do iceberg. A opção do Ministério Público foi apresentar a acusação com base nesse incremento patrimonial específico, que foi fruto da corrupção.”

As novas declarações de Moro foram feitas em entrevista veiculada na edição mais recente da revista IstoÉ. Ele respondia a uma pergunta sobre o recurso ajuizado pela defesa de Lula no Supremo depois que trocou a Lava Jato pelo posto de ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. Na peça, ao advogados pedem que Lula seja libertado e que os processos que correm contra ele em Curitiba sejam anulados.

Moro reiterou que a sentença que proferiu no caso do tríplex é de “meados de 2017.” Declarou que “a decisão é extensamente fundamentada.” Repetiu que sua deliberação “foi mantida pela Corte de apelação (o TRF-4, sediado em Porto Alegre). A partir do momento em que a Corte de apelação mantém a decisão, a decisão passa a ser dela. Não é mais nem minha.”

O ex-juiz repetiu, de resto, que enxerga as críticas do petismo e da defesa como “um álibi de Lula, baseado numa fantasia de perseguição política.” Enumerou outras condenações de sua lavra: “Vamos analisar a Operação Lava Jato. Nós temos agentes políticos que foram do Partido Progressista condenados, temos agentes do PMDB e de figuras poderosas da República, como foi o caso do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, considerado adversário figadal do PT. E, claro, condenamos também agentes do Partido dos Trabalhadores.”

Moro acrescentou: “O esquema de corrupção na Petrobras envolvia a divisão de dinheiro entre executivos da estatal e agentes políticos que controlavam a empresa. É natural que o esquema criminoso dessa espécie, quando descoberto, com políticos envolvidos, impliquem majoritariamente aqueles partidos que estavam no poder e controlavam a empresa e não legendas que se encontravam na oposição.”

Além do caso do tríplex, que rendeu a Lula 12 anos e um mês de cadeia, há na 13ª Vara Federal de Curitiba outros dois processos envolvendo o ex-presidente petista: o do sitio de Atibaia e o do terreno que a Odebrecht teria adquirido para o Instituto Lula. Instado a comentá-los, Moro preferiu se abster:

“Essa é uma questão da Justiça, a cargo da doutora Gabriela Hardt, que me substitui na 13ª Vara Federal e não seria apropriado comentar. Ela é uma magistrada muito séria e muito competente. No entanto, está em suas mãos diversos casos criminais em relação à Lava Jato, que demandam atenção dela. Então não sei se ela vai ter tempo hábil para julgar esse caso ainda este ano.”

Nesta sexta-feira, Moro formalizou seu pedido de exoneração do cargo de juiz. Algo que pretedia fazer apenas no final do ano. Com essa decisão, deflagra-se o processo de substituição definitiva do magistrado na Vara da Lava Jato. Estão aptos a concorrer à vaga mais de 200 juízes.


Exoneração de Moro esvazia acusações do PT
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Josias de Souza

Sergio Moro decidiu exonerar-se imediatamente do cargo de juiz federal. Formalizou o pedido nesta sexta-feira, fixando a próxima segunda (19) como data do desligamento formal. Trata-se de uma meia-volta, pois Moro anunciara que desfrutaria de férias acumuladas até o final do ano, quando deixaria a magistratura para assumir, em 1º de janeiro, o posto de ministro da Justiça.

O recuo ocorre nas pegadas de uma acusação feita pelo PT. Ao notar que Lula está prestes a sofrer novas condenações em Curitiba, o partido acusou Moro de retardar o pedido de exoneração para manter o controle sobre o andamento dos processos. Com sua decisão, o agora ex-juiz da Lava Jato esvazia a acusação de que estaria protagonizando uma manobra contra Lula.

Na última quarta-feira, dia em que Lula foi interrogado no caso sobre o sítio de Atibaia pela juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT declarou: “Ao tirar férias e não se exonerar do cargo de juiz, Moro dirigiu para quem ia ficar o processo. Para a juíza substituta, sua amiga que vai fazer o que ele quiser, porque, se ele se exonerasse, como manda a lei, o processo seria distribuído tecnicamente.” Gleisi propagou a acusação também nas redes sociais. (veja abaixo)

No pedido de exoneração, Moro não citou o PT. Atribuiu a decisão de antecipar sua saída às ilações sobre seu envolvimento na transição de governo. “Houve quem reclamasse que eu, mesmo em férias, afastado da jurisdição e sem assumir cargo executivo, não poderia sequer participar do planejamento de ações do futuro governo.” Escreveu que cogitara permanecer na magistratura até janeiro para preservar a cobertura previdenciária dos seus familiares em “caso de algum infortúnio”. Desistiu para “não dar azo a controvérsias artificiais”.

A saída de Moro deflagra o processo para sua substituição. Estão aptos a disputar o posto 232 juízes. Na prática, Moro esvaziou a estratégia da própria defesa de Lula. Os advogados do ex-presidente alegam que seu cliente é inocente, que não há provas que o incriminem e que ele é vítima de perseguição política. Os defensores de Lula acusam Moro de julgar com parcialiadade e tentam anular os processos. Além do caso do sítio, está pendendo de julgamento o processo sobre a compra de um terreno pela Odebrecht para o Instituto Lula.


‘Lula Livre’ logo, logo será trocado por ‘PT livre’
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Josias de Souza

Lula descobriu há sete meses que a empáfia não tem elevador. Fez a descoberta ao despencar das alturas para o xadrez. Poderia ter aproveitado a câmara de descompressão de Curitiba para fazer a transição entre o que ele acha que é e aquilo que passou a ser. Mas o depoimento de Lula no caso do sítio de Atibaia revelou que a ficha não lhe caiu nem depois de o antipetismo ter virado escada para Jair Bolsonaro.

Logo no início da audiência de quarta-feira na 13ª Vara Federal de Curitiba, a juíza Gabriela Hardt apresentou suas credenciais a Lula. Processado por ser beneficiário de confortos pagos com verba roubada do Estado, o interrogado tentou interrogar a magistrada sobre a propriedade do imóvel. E a juíza: “Se o senhor começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema.” Foi assim, de forma curta e didática, que Lula aprendeu a ter saudades de Sergio Moro.

Além do processo referente ao sítio, que se encaminha para a sentença, está sobre a mesa da substituta de Moro o caso sobre o terreno que a Odebrecht presenteou ao Instituto Lula. Até os mais fervorosos devotos de Lula dão de barato que a Lava Jato vai pendurar novas condenações no pescoço da divindade petista.

A médio prazo, a consequência mais provável da deteterioração penal do presidiário será uma substituição do slogan “Lula Livre” por “PT Livre”. Uma banda do partido já discute o pós-Lula. Nada a ver com ingratidão ou abandono. Preso ou livre, Lula terá a solidariedade do partido. Mas um pedaço do petismo flerta a sério com a ideia de entregar uma autocritica que liberte o partido da agenda criminal. No momento, o único entrave é Lula, que demora a expedir um habeas-PT.


Campos Neto assume BC que avô ajudou a criar
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Josias de Souza

Uma pessoa realizadora não prediz o futuro, ajuda a criá-lo. Mas o economista Roberto Campos (1917-2001) daria pulos de satisfação sob a lápide se pudesse ver o que foi feito do neto homônimo. Roberto Campos Neto, 49, presidirá o Banco Central, instituição que o avô ajudou a criar em 1964, quando era ministro do Planejamento do governo do marechal Castelo Branco.

Ex-embaixador, ex-ministro, ex-senador, ex-deputado e, sobretudo, patrono do pensamento econômico liberal, Roberto Campos não poderia supor que um neto que o rodeava de calças curtas presidiria sua criação meio século mais tarde. Tampouco lhe foi dado supor que a coincidência se materializaria num governo presidido por Jair Bolsonaro, um deputado obscuro com quem esbarrou no Congresso sem cogitar um estreitamento de relações.

Eleito em 1982 pelo Mato Grosso, seu Estado, Roberto Campos frequentou o Senado por oito anos. Em 1990, candidatou-se a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Elegeu-se no mesmo pleito em que o eleitorado fluminense concedeu ao paulista Bolsonaro seu primeiro mandato federal. Ironia suprema: Campos, o avô, estreou na Câmara junto com Bolsonaro, o insuspeitado futuro presidente da República que conduziria seu neto à chefia do Banco Central.

Intelectual refinado, Campos talvez mantivesse as restrições ao estilo rude do capitão. Ainda assim, aplaudiria a opção de Campos Neto. Menos por Bolsonaro do que por Paulo Guedes. Como ministro do Planejamento de Castelo Branco, ao lado do amigo Octávio Gouvêa de Bulhões, que comandava o Ministério da Fazenda, Campos colocou em pé uma agenda que orna com a filosofia do “Posto Ipiranga” de Bolsonaro.

Num país submetido a uma barafunda financeira, no alvorecer da ditadura militar, a dupla Campos-Bulhões priorizou a arrumação da casa. Junto com a implementação de uma reforma tributária e um controle draconiano das contas públicas, editou-se a lei 4.595, de dezembro de 1964, para estruturar o sistema financeiro nacional. Foi essa lei, subscrita por Campos, que deu à luz o Banco Central que Campos Neto comandará a partir de janeiro.

Sob Campos e Bulhões, a inflação despencou de 81% em 1963 e 91% em 1964 para 34% em 1965. Embora não comandasse a área econômica sozinho, Campos dispunha de superpoderes análogos aos que Bolsonaro ofereceu a Paulo Guedes. A despeito disso, não obteve tudo o que desejou. Não conseguiu fazer, por exemplo, o Banco Cental Independente.

Campos idealizara um mandato de sete anos, fixado em lei, para o presidente do BC. Quando o mandato de Castello Branco se aproximava do final, a ditadura selecionou como sucessor Costa e Silva, sob cuja presidência o economista Delfim Netto passaria a dar as cartas.

Nessa época, sopraram-se nos ouvidos de Campos rumores segundo os quais Delfim discordava da ideia de um BC independente, que o impediria de acomodar um subordinado de sua confiança no comando da instituição. Campos contou em suas memórias o seguinte: sob orientação de Castelo Branco, foi à presença de Costa e Silva para vender o seu peixe.

“O Banco Central é o guardião da moeda”, disse Roberto Campos. E Costa e Silva: “O gardião da moeda sou eu.” Sob Bolsonaro, Paulo Guedes tem a pretensão de ressuscitar a tese do BC independente. A incerteza quanto à capacidade do governo de colocar a ideia em pé contribuiu para que Ilan Goldfajn recusasse o convite para permanecer no comando do BC.

Quer dizer: por um sortilégio do acaso, até o insucesso Bob Fields, como o avô foi apelidado, conspirou para que o neto fosse guindado ao comando da instituição que seu antepassado ajudou a criar. O barulhinho que se ouve ao fundo é o eco da euforia de Roberto Campos dentro do túmulo.


Novo chanceler foi do anúncio para a frigideira
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro inovou. Criou uma via expressa ligando a escolha de um novo ministro à frigideira. O diplomata Ernesto Araújo migrou instantaneamente do anúncio de sua indicação como novo chanceler para o óleo quente. No início da madrugada desta quinta-feira, o blog testemunhou num restaurante chique de Brasília um conciliábulo de destacados membros da Casa de Rio Branco. Dedicavam-se a organizar uma “resistência” ao que chamaram de “diplomacia do desastre”.

Convocado às pressas, o jantar reuniu oito diplomatas. Todos mais estrelados que o preferido de Bolsonaro. Na definição de um dos presentes, são “servidores sem partido.” Avaliaram que Bolsonaro chutou em gol ao escolher Ernesto Araújo. Marcou para os Estados Unidos. Tentaram enumear vantagens e desvantagens.

De vantajoso, apenas o fato de que o novo chanceler brasileiro não será convidado a tirar os sapatos para uma revista no aeroporto de Washington, como fez Celso Lafer na era FHC. Imaginam que, para poupar a saliva dos agentes da imigração americana, Ernesto Araújo já ''pisará o solo americano descalço''. No mais, tudo seria desvantajoso.

Havia sobre a mesa um tablet, aberto no blog ‘Metapolítica 17’, abastecido com textos de Ernesto Araújo. Extraíram-se previamente dos posts do novo ministro das Relações Exteriores duas aparentes prioridades: “Ajudar o Brasil e o mundo a se livrarem da ideologia globalista” e erguer barricadas contra a “China maoísta que dominará o mundo”.

Além de “envergonhar” a inteligência do Itamaraty, as pretensões seriam “inexequíveis”. O nacionalismo antiglobalista não resistiria a um embate com o ultraliberalismo do Posto Ipiranga Paulo Guedes. Quanto à dominação maoísta, a impossibilidade de ressuscitar Mao Tsé-Tung e os valores que ele representava deixam a cruzada sem alvo.

A prioridade mais “preocupante” de Ernesto Araújo foi sublinhada num artigo escrito para a revista ‘Cadernos de Política Exterior’. Ali, o novo chanceler emite sinais de que não hesitaria em encostar a diplomacia brasileira no potencial que enxerga em Donald Trump para “salvar o Ocidente.” Não há “risco de dar certo”. Salva-se não o Ocidente, mas o projeto de transformar Bolsonaro ''numa versão periférica de  Trump”.

O grupo chegou a um par de conclusões: Bolsonaro colocou no comando do Itamaraty não um chanceler, mas um espelho para refletir suas próprias idiossincrasias. De resto, haverá não um, mas dois chefes do Itamaraty: o oficial, em Brasília, e seu padrinho Olavo de Carvalho, que patrocinou sua indicação desde os Estados Unidos.

Consolidou-se no grupo a ideia de ampliar a “resistência” inaugurada de madrugada utilizando uma ferramenta muito apreciada por Bolsonaro: o WhatsApp. Deseja-se transferir Ernesto Araújo da frigideira para o micro-ondas. Se funcionar, o novo ministro chegará ao dia da posse, em 1º de janeiro, já bem passado. No limite, disse um dos presentes, “o Itamaraty de Bolsonaro vai virar não uma sucursal de Washington, mas do Vietnã.”


Depoimento de Lula abre caminho para condenação no caso do sítio de Atibaia
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Josias de Souza

Inquirido durante quase três horas no processo sobre o sítio de Atibaia, Lula intercalou ataques desconexos e respostas inconsistentes (assista à íntegra aqui). A agressividade foi domada pela contrarreação da juíza Gabriela Hardt, a substituta de Sergio Moro. A inconsistência serviu de matéria-prima para o cerco promovido pela força-tarefa da Lava Jato, representada na audiência pelos procuradores da República Athayde Ribeiro Costa e Jerusa Burmann Viecili. Com seu depoimento, Lula como que abriu o caminho que o levará a uma nova condenação.

Ex-presidente mais popular da história desde Getúlio Vargas, protagonista nato, líder desde a primeira mamada, Lula deixou a sala de audiências da 13ª Vara de Curitiba como um pobre-diabo indefeso. Incapaz de enxergar o que se passava sob os fios de sua barba, alegara ter tomado conhecimento das obras no sítio por meio do noticiário. O representante do Ministério Público quis saber por que não cogitou procurar os executores da obra —Odebrecht, OAS e o pecuarista José Carlos Bumlai— para realizar o pagamento.

“A chácara não é minha”, escorregou Lula. “As obras não foram feitas pra mim. Portanto, eu não tinha que pagar, porque achei que o dono do sítio tinha pago”, desconversou noutro trecho.

O procurador lembrou que Fernando Bittar, o suposto proprietário, dissera em depoimento na semana passada que não levara a mão ao bolso por imaginar que Lula e sua mulher Marisa Letícia, como beneficiários, pagariam pelos confortos, orçados em R$ 1,02 milhão. Instado a se explicar, Lula complicou-se: “Ele fala e você quer que eu explique?”

Considerando-se que nenhuma empreiteira reformaria graciosamente um sítio pertencente a um desconhecido chamado Bittar, o procurador insistiu em oferecer a Lula uma chance de defesa. Mas o interrogado desperdiçou: “Se ele falou que não pagou, achando que a Marisa tinha pago, eu não tenho mais como perguntar (a ex-primeira-dama Marisa Letícia morreu em fevereiro do ano passado).”

Espremendo-se o que Lula alegou durante o depoimento, chega-se a um enredo que, por inacreditável, seria refugado até como roteiro de telenovela. Nele, a família Lula da Silva se apropria de um sítio alheio. Duas das maiores empreiteiras do país reformam a propriedade. Dizem ter bancado o upgrade com verbas sujas, em retribuição a facilidades obtidas nos governos petistas. O escândalo ganha o noticiário. Vira assunto nas esquinas e nos botecos. Mas Lula, beneficiário dos mimos, jura que nunca tratou do tema.

Viva, Marisa Letícia foi pendurada nas manchetes como responsável pelos primeiros pedidos de reforma do sítio. Entretanto, Lula assegura que não conversou sobre a encrenca nem na alcova. Tampouco perguntou para Bumlai, o pecuarista-companheiro, quem pagou pelas obras. Jamais tratou do assunto com Bittar, o hipotético proprietário do sítio. “Não sou daquele tipo de cidadão que entra na casa dos outros e vai abrindo a geladeira. O cara tem a propriedade, o cara me empresta a propriedade. Eu vou ficar perguntando: ‘O que foi que você fez?.”

Lula declarou que também não lhe passou pela cabeça tocar o telefone para o amigo Emílio Odebrecht. “Por que eu tinha que falar com o Emílio?” Espantou-se não com a generosidade de Léo ‘OAS’ Pinheiro, mas com sua incúria. “O que eu acho grave, que você deveria perguntar, é porque o Léo não cobrou! Porque o Léo não cobrou? O cara que tem que receber é o cara que vai todo santo dia cobrar. O cara que tem que pagar, se puder nem passa perto.”

O procurador que inquiria Lula não passou recibo. Pacientemente, refrigerou a memória do líder máximo do PT. Disse que o sócio da OAS não lhe apresentara a fatura referente ao sítio porque já se considerava pago e satisfeito com as contrapartidas que amealhara em negócios firmados com a Petrobras.

Lula cobrou várias vezes durante o interrogatório a exibição de provas que atestassem que ele seria o proprietário do sítio. Foi informado de que, neste processo, a questão da propriedade do imóvel não é crucial. O que está em causa é a corrupção e a lavagem de dinheiro estampadas nas obras feitas em seu benefício com dinheiro saqueado do Estado.

Logo na abertura da audiência, Lula sinalizou a intenção de conturbar. A juíza perguntou-lhe se estava ciente das acusações que pesavam contra ele. Lula disse que não. Corrupção e lavagem de dinheiro, disse a substituta de Sergio Moro, resumindo o conteúdo dos autos num parágrafo. Lula tentou fazer pose de João sem braço: “Não, não, não, não. Eu imagino que a acusação que pesava sobre mim é que eu era dono de um sítio em Atibaia.”

A juíza Gabriela Hardt reiterou o que acabara de dizer. Lula voltou à carga: “Doutora, eu só queria perguntar, para o meu esclarecimento, porque eu estou disposto a responder toda e qualquer pergunta: eu sou dono do sítio ou não?” Ao farejar as intenções do interrogado, a magistrada apressou-se em puxar as rédeas:

“Senhor ex-presidente, isso é um interrogatório. Se o senhor começar neste tom comigo a gente vai ter problema. Então, vamos começar de novo: Eu sou a juíza do caso, eu vou fazer as perguntas que eu preciso para que o caso seja esclarecido, para que eu possa sentenciá-lo ou algum colega possa sentenciá-lo. Então, num primeiro momento, eu quero dizer que o senhor tem todo o direito de ficar em silêncio. Mas, neste momento, eu conduzo o ato.”

Na última metade da sessão, Lula voltaria à carga: “Eu vim aqui pensando que vocês iam me desmoralizar, pegar uma escritura, mostrar que eu paguei, que eu recebi (a escritura do sítio). Vocês não fizeram nada disso”. Puxa daqui, estica dali, o representante da Lava Jato ofereceu corda para que o réu enforcasse seus advogados. “Se o senhor não sabe qual é o objeto da ação, é um problema da defesa técnica do senhor. Se o senhor se sentir indefeso, pode chamar a Defensoria Pública.”

No ápice do interrogatório, o procurador aplicou em Lula algo muito parecido com um xeque-mate: “No caso do tríplex, o senhor alegava que as obras de melhorias do apartamento não foram para o senhor sob o argumento de que o senhor nem ia lá. Agora, o senhor constantemente estava no sítio, mantinha lá bens pessoais de toda ordem e os empresários alegam que a obra era para o senhor. Eu gostaria do senhor qual é a explicação que o senhor tem para isso, senhor ex-presidente?”

Lula tentou desconversar. Seu advogado, Cristiano Zanin, interveio. Houve um princípio de barraco. O réu cavou um intervalo providencial. Pediu para ir ao banheiro. Ao retornar, Lula ouviu o procurador repetir a mesma pergunta. A flacidez da resposta potencializou a impressão de que o presidiário petista estava mesmo indefeso.

“Eu vou dar a explicação. Primeiro do tríplex: o tríplex não era, não é e não será (meu). A história vai mostrar o que aconteceu nesse processo. Segundo, o sítio: Eu vou lá porque o dono do sítio me autorizou a ir lá. Tá? Que bens pessoais que eu tinha no sítio? Cueca, roupa de dormir, isso eu tenho em qualquer lugar que eu vou. E nenhum empresário pode afirmar que o sítio é meu se ele não for meu.”

“Mas eles afirmaram que fizeram obras para o senhor”, insistiu o procurador. Lula perdeu a linha: “Ah, meu Deus do céu, sem eu pedir. Você não acha muito engraçado alguém fazer uma obra que eu não pedi? E depois alguém negociar uma delação sob a pressão de que é preciso citar o Lula. E vocês colocam isso como se fosse uma verdade! …Eu repudio qualquer tentativa de qualquer pessoa dizer que foi feito uma obra para mim naquele sítio. Porque se o Fernando Bittar amanhã vender o sítio…”

Nesse ponto, o procurador esclareceu que, mantido o fio condutor da defesa, Lula não enxergaria senão pus no fim do túnel. Explicou que a condenação independe de um pedido formal para a realização das obras bancadas com verbas de má origem: “O senhor pode alegar que não pediu. Mas o crime de corrupção tem a modalidade receber.”

O depoimento desta quarta-feira foi o terceiro que Lula prestou à Justiça Federal em Curitiba. No caso do tríplex, foi condenado em primeira e segunda instância. Cumpre pena de 12 anos e um mês de cadeia. O processo sobre a compra de um apartamento e de um terreno que seria usado para abrigar o Instituto Lula aguarda uma sentença da juíza Gabriela Hardt. E o caso do sítio entrou na fila na forma de uma condenação esperando para acontecer.

Para desassossego de Lula, seu drama penal vai virando parte da paisagem. A multidão que o prestigiou nos dois primeiros depoimentos de Curitiba ficou em casa. A vigília nos arredores da Superintendência da PF, onde está preso, minguou. Dessa vez, poucos apoiadores faziam barulho nas ruas de Curitiba. Nas proximidades do fórum, não houve bloqueio de ruas nem fechamento de lojas. O aparato de segurança sofreu lipoaspiração.

Lula coleciona façanhas políticas que poderiam tê-lo guindado à condição de estátua. Mas até os seus apoiadores parecem recusar o papel de testemunhas de uma fase em que o grande ídolo, auto-convertido em pardal de si mesmo, suja com depoimentos desconexos a própria testa de bronze. No seu primeiro encontro com a juíza substituta, Lula percebeu que seu futuro penal está agora nas mãos de uma versão feminina de Sergio Moro. Logo, logo o PT terá de incluir uma nova personagem no rol de ''perseguidores políticos'' do grande líder.

Em tempo: Leia aqui notícia sobre nota divulgada pela defesa de Lula após o depoimento.