Blog do Josias de Souza

Gula do PSL surge antes da vitória de Bolsonaro
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Josias de Souza

As urnas do segundo turno ainda nem foram computadas e o PSL já começou a dificultar a vida de Jair Bolsonaro. Todo mundo sabe que Rodrigo Maia (DEM-RJ) é candidato a permanecer no comando da Câmara. Mas um ala do partido do capitão avalia que desafiar Maia é uma prioridade. Em verdade, trata-se de uma temeridade, pois Rodrigo Maia arrasta consigo o apoio da maioria do centrão.

A ala mais gulosa do PSL sonha com a hegemonia política porque virou a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, atrás apenas do PT. Os correligionários de Bolsonaro confundem ingenuidade com autoconfiança. Em vez de hegemonia, podem obter isolamento político.

Bolsonaro já farejou o cheiro de queimado. Pediu moderação ao PSL. Mas alguns dos seus correligionários ainda não se deram por achados. O último partido que imaginou que poderia acumular as presidências da Câmara e da República foi o PT. Em 2014, o petismo decidiu cutucar o MDB lançando Arlindo Chinaglia como adversário de Eduardo Cunha na briga pelo comando da Câmara. A manobra custou o pescoço de Dilma Rousseff.


Haddad foi enfeitiçado pelo feitiço das fake news
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Josias de Souza

Fernando Haddad comportou-se como um caçador de bruxas em sabatina promovida por jornais do Grupo Globo. Acusou o general Hamilton Mourão de ser “torturador.” Foi como se apontasse o dedo para o vice de Jair Bolsonaro e dissesse: “É uma bruxa”. Bolsonaro “é figura desimportante no meio militar”, declarou Haddad. “Mas o Mourão, por exemplo, ele próprio foi torturador.”

Caçadores de bruxas não precisam conferir a veracidade do que afirma. Basta ouvir dizer. Instado a esmiuçar a acusação, Haddad afirmou que o cantor e compositor “Geraldo Azevedo declarou até, em um show, que foi pessoalmente torturado pelo Mourão.” Segundo o caçador de bruxas do PT, o “fato” seria noticiado com destaque pela imprensa em qualquer parte do planeta.

Era mentira. Preso durante a ditadura um par de vezes, Geraldo Azevedo realmente dissera no sábado, num palco da cidade baiana de Jacobina, que Mourão o havia torturado. “Olha, é uma coisa indignante, cara. Eu fui preso duas vezes na ditadura, fui torturado. Você não sabe o que é tortura, não. Esse Mourão era um dos torturadores lá.”

Ao tomar conhecimento da acusação o general subiu no caixote. Disse que Geraldo Azevedo “bebeu.” Contou que, em 1969, quando o cantor foi à garra pela primeira vez, ele tinha 16 anos. “Eu estava no Colégio Militar, em Porto Alegre, no 1º ano do 2º grau”, informou Mourão ao Globo. Com tantas verdades para estonteantes dizer sobre Mourão, Haddad escolheu justamente a que era mentirosa!

Por meio de sua assessoria, o acusador deu meia-volta numa nota oficial: ''Geraldo Azevedo se desculpa pelo transtorno causado por seu equívoco e reafirma sua opinião de que não há espaço, no Brasil de hoje, para a volta de um regime que tem a tortura como política de Estado e que cerceia as liberdades individuais e de imprensa.''

Num instante em que atribui o favoritismo do seu adversário à engrenagem de distribuição massiva de notícias falsas pelo WhatsApp, Haddad acabou sendo enfeitiçado pelo feitiço das fake news. Propagou uma inverdade sem checar. Exatamente como fazem os incautos que passam adiante qualquer tolice que lhes chega pelo visor do celular.

Comum na época em que ainda havia bruxas, a caça às bruxas foi reativada com força total na era da fake news. Acontece o ano inteiro. Mas as temporadas eleitorais são mais propícias à prática do esporte. Qualquer pessoa pode servir como bruxa. O próprio Haddad diz que ele e seus familiares foram acusados de ser bruxas no material que a campanha adversária despeja nas redes.

Com seu comportamento, Haddad demosntrou que a caça às bruxas é um esporte muito competitivo. Os competidores nem precisam de muita imaginação para praticar. Se estiverem desesperados, basta esticar o dedo. No momento, há tantos dedos hirtos na praça que a caça às bruxas vai se vulgarizando. Com sorte, pode cair em desuso. Com muita sorte, pode cair no ridículo.


Regra sobre prisão deve opor Bolsonaro ao STF
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Josias de Souza

Aliados de Jair Bolsonaro avaliam que, eleito, o presidenciável do PSL terá atritos incontornáveis com o Supremo Tribunal Federal. Estimam que a primeira fricção ocorrerá no início de 2019, quando o presidente da Corte, Dias Toffili, pautar o julgamento das ações sobre a prisão de condenados na segunda instância. O pano de fundo do debate é o encarceramento de Lula.

O líder máximo do PT está na cadeia desde 7 de abril porque o Supremo negou-lhe um habeas corpus por 6 votos a 5. Graças a um decisivo voto da ministra Rosa Weber, prevaleceu a jurisprudência que tornou válida a prisão de condenados em segunda instância. No último domingo, Bolsonaro declarou que, se depender de sua hipotética Presidência, Lula ''vai apodrecer na cadeia''.

Para modificar a regra sobre prisão, o caminho jurídico não é o pedido individual de liberdade, mas a ação declaratória de constitucionalidade (ADC). Há duas no Supremo, uma do PCdoB e outra da OAB. Relator, o ministro Marco Aurélio Mello pediu, em dezembro do ano passado, que fossem incluídas na pauta. Mas sua colega Cármen Lúcia manteve a gaveta fechada.

Substituto de Cármen Lúcia na presidência do Supremo, Dias Toffoli já avisou que abrirá a gaveta no ano que vem. A defesa de Lula acredita que a polêmica será pacificada, pois o Supremo julgará dessa vez as ações que questionam a prisão em segunda instância em termos abstratos, não no caso concreto do prisioneiro de Curitiba.

Os advogados imaginam que o voto de Rosa Weber será diferente. Alega-se que, ao negar o habeas corpus a Lula, a ministra ressalvou sua posição conceitual contrária à antecipação da prisão. Esclareceu que negou o pedido de Lula em respeito à decisão colegiada do Supremo, que havia alterado sua jurisprudência sobre a matéria em 2016.

Se os advogados estiverem certos, voltará a vigorar a regra que permite aos condenados recorrer em liberdade até os tribunais superiores de Brasília. Nessa hipótese, Lula ganharia o meio-fio. Se estiver na Presidência da República, Bolsonaro, que já sinalizou a intenção de promover Sergio Moro de juiz da Lava Jato a ministro do STF, não ficará em silêncio, preveem seus aliados.

Pesquisa do Datafolha divulgada em 2 de outubro revelou que a maioria dos eleitores (51%) acredita que Lula, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, deve continuar preso. Outros 8% defendem sua transferência para a prisão domiciliar. Quer dizer: elegendo-se, Bolsonaro confrontará o Supremo escorando-se no pedaço da opinião pública que o chama de ''mito''.


Bolsonaro precisa parar de industrializar o ódio
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro e seu círculo de filhos e colaboradores produzem declarações que poderiam ter sido planejadas no Quartel General do petista Fernando Haddad, que se empenha em pregar no adversário-capitão as pechas de miliciano e golpista. A poucos dias da eleição que testará a confiabilidade das pesquisas que o colocam sentado na cadeira de Presidente da República, Bolsonaro não consegue produzir nada além de raiva.

Respira-se na campanha um ar eletrificado. Versão nacional de Donald Trump, Bolsonaro diz que as urnas eletrônicas estão sujeitas a fraudes. Seu vice, o general Hamilton Mourão, sonha com uma Constituição redigida por sábios. E um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonado, diz que “pra fechar o STF basta um cabo e um soldado.”

Embora declare estar “com uma mão na faixa”, Bolsonaro comporta-se não como um futuro presidente, mas como um soldado. No domingo, discursou num telão para uma multidão de apoiadores concentrados na Avenida Paulista. Prometeu ''uma limpeza nunca vista na história desse Brasil''. Categórico, declarou: ''Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil''.

Bolsonaro ainda não notou, mas tem inimigos mais perigosos à sua frente: uma crise fiscal sem precedentes, uma economia anestesiada e 12,7 milhões de desempregados. Perder uma eleição é fácil. Difícil é saber vencer. O primeiro passo é parar de industrializar o ódio.

Em tempo: Veja abaixo um trecho do discurso que Bolsonaro levou ao ar no telão da Avenida Paulista.


Marina Silva precisa dar ‘voto crítico’ a si mesma
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Josias de Souza

A seis dias do término do segundo turno, Marina Silva emergiu para declarar o seu “voto crítico” em Fernando Haddad. Moveu-se por rejeição a Jair Bolsonaro. Ao justificar sua opção, explicou que “pelo menos” o candidato petista ''não prega a extinção dos direitos dos índios, a discriminação das minorias, a repressão aos movimentos, o aviltamento ainda maior das mulheres, negros e pobres''.

Cumprido o protocolo, Marina precisa agora conceder um “voto crítico” a si mesma. Costuma dizer que não deseja “ganhar perdendo”. Prefere “perder ganhando” —como em 2014, quando a pancadaria de Dilma Rousseff deixou-a fora do segundo turno, mas com um patrimônio de 22 milhões de votos. E com uma biografia sem pesticidas e alianças esdrúxulas.

Em 2018, Marina perdeu perdendo. Entrou na disputa como uma candidata altamente competitiva, a bordo de um partido sem menções na Lava Jato. Terminou numa constrangedora oitava colocação, com pouco mais de 1 milhão de votos. A Rede, sua legenda, terá de fundir-se a outro partido para não desaparecer.

No texto que redigiu para justificar seu gesto, Marina reconheceu: “Sei que, com apenas 1% de votação no primeiro turno, a importância de minha manifestação, numa lógica eleitoral restrita, é puramente simbólica. Mas é meu dever ético e político fazê-la.”

Apoiando criticamente a si mesma, Marina talvez perceba que não terá futuro político sem ajustar o seu português ao linguajar da rua. De resto, deve se abster de tomar chá de sumiço pelos próximos quatro anos. Sob pena de suas manifestações perderem até mesmo o valor “puramente simbólico.”


Bolsonaro desancou STF 11 dias antes do filho
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Josias de Souza

Em entrevista concedida no dia 28 de junho, em Fortaleza, Jair Bolsonaro referiu-se ao Supremo Tribunal Federal de forma depreciativa. Onze dias antes de seu filho Eduardo afirmar que “pra fechar o STF basta um cabo e um soldado”, o presidenciável dissera que “governar com um Supremo desse que tá aí fica complicado.” Defendera a ampliação da composição da Corte de 11 para 21 magistrados, “para termos a maioria lá dentro.”

“Está na mesa de negociação do nosso pessoal passar para 21”, afirmara Bolsonaro quando lhe perguntaram se proporia a mudança caso fosse eleito. O candidato acrescentara que sua intenção seria a de indicar para as dez novas hipotéticas vagas na Suprema Corte “gente do nível do Sergio Moro, para realmente ter um Supremo que não envergonhe a população brasileira.” Dias antes, a Segunda Turma do STF libertara da cadeia o petista José Dirceu. Para Bolsonaro, “um vexame.”

No último final de semana, viralizou nas redes sociais o vídeo com as declarações tóxicas do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) sobre o Supremo. Foi gravado em 9 de julho, num cursinho de Cascavel (PR). Nele, o filho do capitão responde a uma pergunta sobre a hipótese de o STF impugnar a candidatura presidencial do pai. Declara que o tribunal “terá que pagar pra ver o que acontece.”

“Eu não acho isso improvável, não”, disse Eduardo a certa altura, sem se dar conta de que impugnações de candidaturas são julgadas no Tribunal Superior Eleitoral, não no Supremo. Emendou: ''…Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não. O que é o STF? Tira o poder da caneta de um ministro do STF. Se prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF, milhões na rua?”

No domingo, Bolsonaro dissera que, se alguém falou em fechar o Supremo, precisa de um “psiquiatra”. Ao saber que o orador era seu filho, duvidou da manifestação, apostando que as frases haviam sido descontextualizadas. Nesta segunda-feira, nas pegadas da péssima repercussão dos comentários, Bolsonaro tentou tomar distância do filho.

''Eu já adverti o garoto”, disse o candidato, em entrevista ao SBT. “É meu filho. A responsabilidade é dele. Ele já se desculpou. Isso [o vídeo] aconteceu há quatro meses. Ele aceitou responder a uma pergunta que não tinha nem pé, nem cabeça, e resolveu levar para o lado desse absurdo aí.''

O “garoto” tem 34 anos e acaba de ser reeleito para a Câmara com a maior votação da história. De fato, defender o fechamento do Supremo é algo “absurdo”. Mas pregar o aumento da composição da Corte de 11 para 21 ministros também não soa sensato. Fazer isso admitindo que a mudança tem o deliberado propósito de garantir ao chefe do Executivo o controle da “maioria” do Supremo não parece menos absurdo.

Como já foi comentado aqui, falta aos Bolsonaro uma noção qualquer de institucionalidade. Nessa matéria, como em tantas outras, quem sai aos seus não endireita.


Investigação do caso WhatsApp será demorada
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Josias de Souza

Será demorada a investigação da Polícia Federal sobre o uso do WhapsApp para propagar falsidades com propósitos eleitorais. Investigam-se as duas campanhas finalistas da corrida presidencial, a de Jair Bolsonaro e a de Fernando Haddad. É nula a hipótese de conclusão do inquérito antes do término do segundo turno, no próximo domingo (28), informou ao blog uma autoridade que acompanha o caso.

Significa dizer que nem o inquérito aberto pela Polícia Federal nem os procedimentos deflagrados pelo Tribunal Superior Eleitoral produzirão efeitos capazes de modificar o processo eleitoral. Apura-se aquilo que a procuradora-geral da República Raquel Dodge classificou de “uso de recursos tecnológicos para propagar informações falsas ou ofensivas à honra e à imagem dos dois candidatos”.

Eventuais comprovações resultarão em contenciosos jurídicos a serem julgados após a eleição. Não há, por ora, definição quanto a prazos. Estima-se que a apuração pode se desdobrar em pelo menos duas fases. Numa, investigam-se as empresas de tecnologia e os financiadores da difusão de mensagens. Noutra, mais delicada, buscam-se os vínculos com as candidaturas.

Contribuições empresariais estão proibidas nesta eleição. Em tese, a comprovação do uso de dinheiro de caixa dois em benefício de uma candidatura configuraria abuso do poder econômico. Algo que, no limite, pode levar à perda do mandato.

Um aliado de Jair Bolsonaro reagiu à movimentação com ironia. Chamou de “fake news” o inquérito e o noticiário que o originou. Indagou: “Uma Justiça Eleitoral que, diante de provas irrefutáveis do uso de dinheiro sujo da Odebrecht, se negou a cassar a chapa Dilma-Temer, terá autoridade para questionar o mandato do Bolsonaro?”