Blog do Josias de Souza

Haddad é Lula, mas o Planalto não é uma cadeia
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Josias de Souza

Especialistas sustentam que a personalidade humana fica pronta até os cinco anos de idade. Um portador de dupla personalidade já está feito na infância, mesmo que ainda não tenha desfrutado da chance de ser um poste do PT numa campanha eleitoral. Haddad, o substituto de Lula, tem experiência nesse tipo de transtorno. Ele fundiu sua personalidade à de Lula para chegar à prefeitura de São Paulo. Agora, tenta a sorte como poste federal.

Lula é Haddad, Haddad é Lula, eis o lema da campanha petista. Se o eleitor comprar a tese de que o novo poste é solução para os problemas nacionais, Lula passará à história como eletricista do século. Se o poste for refugado pelo eleitor, o presidiário de Curitiba renovará sua pose de perseguido. Em qualquer hipótese, o segredo do negócio é esconder o fiasco da administração Dilma, a poste-antecessora.

Haddad entrou na corrida presidencial com atraso. Revelou-se uma espécie de Usain Bolt (100 m em 9s68). A diferença é que ele corre com as pernas de Lula. Nos comícios, imita a voz de Lula. No primeiro debate presidencial de que participou, ecoou Lula em 100% das respostas. Se eleito, Haddad irá para Brasília. Lula talvez continue em Curitiba, pois deve ser condenado por Sergio Moro em mais dois processos. Ficará no ar uma dúvida: a sede do governo será no Planalto ou na cadeia?


Temer governa um país situado no mundo da Lua
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Josias de Souza

Em solenidade realizada no Planalto para a assinatura de novos contratos de concessão de linhas de transmissão de energia elétrica, Michel Temer atribuiu o pessimismo que varre o país à campanha eleitoral. Declarou também que seu sucessor, seja quem for, não terá como retroagir nos hipotéticos avanços obtidos por seu governo.

''Muitas e muitas vezes eu vejo um certo pessimismo, especialmente, convenhamos, em função das eleições que se aproximam'', declarou Temer. Por isso, faz questão de realçar'' as reformas todas que nós fizemos'' para recuperar a economia.

Temer considera-se um presidente impecável. Acha que o próximo inquilino do Planalto não poderá senão dar seguimento à sua obra. Indagou: “Haverá alguém que chegará ao governo e dirá ‘olha aqui, não quero esta inflação ridícula de menos de 4%, quero é 10%, 11%’; ‘sou contra estes juros medíocres de 6,5%, quero é 14,25%, como era no passado’; 'não quero novos empregos, quero é problema que se verificava no passado'; ‘não quero essa nova fisionomia do setor elétrico do país, quero o que acontecia antes’?”.

Quem ouve Temer fica com vontade de beber da mesma água que ele está bebendo. O maior sonho das vítimas do governo Temer é viver no país que o presidente descreve nos seus discursos com tanto entusiasmo, seja ele onde for.

No mundo real, os dados citados por Temer demonstram o tamanho do buraco em que o país foi metido. Endividado e sem renda, o brasileiro foge das lojas. A estagnação econômica anestesia a inflação. Os investimentos continuam no freezer, pois mais vale o juro que o governo é obrigado a pagar para rolar sua dívida do que o risco do investimento. A despeito de todo o lero-lero, permanecem no olho da rua quase 13 milhões de patrícios.

Sob Temer, a melhor notícia fornecida pelo governo foi a seguinte: após o impeachment de Dilma Rousseff, a taxa de corrupção não aumentou. Continuou nos mesmos 100%. O empreendimento que mais prosperou foi a indústria do cinismo. No momento, Temer é um ex-presidente no exercício da Presidência. Não governa mais o Brasil. Preside um país qualquer situado no Mundo da Lua.


Carta de FHC cai como uma lápide sobre Alckmin
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Josias de Souza

Ao ocupar o vasto tempo de propaganda televisiva do centrão, Alckmin foi tratado como presidenciável mais vivo de 2018. Rapidamente, revelou-se um vivo tão pouco militante que o eleitorado cativo do PSDB enviou-lhe coroas de flores, migrando maciçamente para Bolsonaro. Com seu projeto jurado de morte, Alckmin ainda fingia estar cheio de vida. Súbito, Fernando Henrique Cardoso, o grão-mestre do PSDB, jogou sobre suas pretensões uma carta que tem o peso de uma lápide.

Divulgada no Facebook e endereçada “aos eleitores e eleitoras”, a carta de FHC traçou um quadro fúnebre para o país. Abordou a polarização Bolsonaro X Haddad sem mencionar-lhes os nomes. Anotou que o fato de um personagem que prega o ódio estar “à frente das pesquisas e ter como principal opositor quem representa um líder preso por acusações de corrupção mostra o ponto a que chegamos.”

Para “deter a marcha da insensatez”, FHC sugeriu “que os candidatos que não apostam em soluções extremas se reúnam e decidam apoiar quem melhores condições de êxito eleitoral tiver”. Do contrário, “a crise tenderá certamente a se agravar.” Absteve-se de citar o zumbi que reúne as tais “melhores condições”. Mas deu nome ao defunto numa outra mensagem, pendurada no Twitter:

''Enviei carta aos eleitores pedindo sensatez e aliança dos candidatos não radicais”, escreveu FHC. “Quem veste o figurino é o Alckmin, só que não se convida para um encontro dizendo ‘só com este eu falo’.” Em timbre irônico, Marina Silva insinuou que o alfaiate da concórdia tucana chegou tarde: “Ninguem chama para tirar as medidas com a roupa pronta.”

O ex-tucano Alvaro Dias deu um toque humorístico ao velório, sugerindo que o primeiro passo rumo à unificação das forças de centro deveria ser a renúncia à candidatura de Alckmin. Apresentou um argumento convincente: “O PSDB vem perdendo para o PT desde 2002”. O próprio Alckmin foi batido por Lula na sucessão de 2006.

Na carta aos eleitores, FHC escreveu que, ''diante de tão dramática situação, os candidatos à Presidência deveriam se recordar do que prometeu Churchill aos ingleses na guerra: sangue, suor e lágrimas”. O diabo é que Alckmin promete vitória, redenção e prosperidade. Por isso, o exército tucano foi encurralado até no seu berço paulista. O estado de São Paulo foi convertido numa espécie de Dunquerque tucana —sem os barcos de resgate.

“Ante a dramaticidade do quadro atual”, anotou FHC na sua carta aos brasileiros, “ou se busca a coesão política, com coragem para falar o que já se sabe e a sensatez para juntar os mais capazes para evitar que o barco naufrague, ou o remendo eleitoral da escolha de um salvador da Pátria ou de um demagogo, mesmo que bem intencionado, nos levará ao aprofundamento da crise econômica, social e política.”

Tudo faria muito sentido não fosse por um singelo detalhe: a raiva do eleitor. Em 2018, os caciques continuam fazendo política com os pés no mundo da Lua. Promovem os mesmos cambalachos de sempre. Em órbita, não se deram conta de que um pedaço expressivo do eleitorado já não parece disposto a fazer o papel de gado. De repente, a grama da enfermaria do Einstein e da cadeia de Curitiba pareceram mais verdes.

Para ficar no personagem citado por FHC, Churchill ensinou que a democracia é o pior regime possível com exceção de todos os outros. No Brasil, os políticos engajaram-se num esforço coletivo para implementar as alternativas piores. De erro em erro, chegou-se a isso que o presidente de honra do PSDB chama de “pano de fundo sombrio”.

A carta de FHC chegou tarde. Ao lado do túmulo da candidatura de Alckmin, enterraram-se as esperanças do ex-eleitorado tucano. No epitáfio, lê-se o seguinte: “Não contem mais comigo”.


‘Casamento hétero’ de Bolsonaro revela-se frágil
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Josias de Souza

Jair Bolsonaro mantém com o economista Paulo Guedes um relacionamento que ele próprio chamou de “casamento hétero”. Coisa feita para durar até que a morte os separe. Pois bem. Falando para uma plateia restrita de investidores, o guru econômico do capitão expôs ideias tributárias sonegadas ao eleitor. Mencionou a hipótese de criação de um tributo nos moldes da velha CPMF. A harmonia trincou, porque a coisa vazou.

Certos casamentos são mesmo muito esquisitos. Casam-se pessoas que nem se conhecem: o economista ultraliberal e o capitão nacionalista, neófito nas artimanhas econômicas. Para usar uma terminologia infantil, própria do general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, não é como a mamãe, que se casou com papai, e a vovó, que se casou com o vovô.

“Chega de impostos é o nosso lema”, escreveu Bolsonaro no Twitter, para desautorizar Paulo Guedes. O economista explicou que, na verdade, não se referia à velha taxação do cheque, mas a um imposto único, que substituiria outros tributos. Seja como o for, ficou entendido que Bolsonaro não estava brincando quando disse que jamais discutiria com o seu futuro ministro da Fazenda. Na verdade, eles nem se falam.


PSDB já discute os efeitos do fiasco de Alckmin
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Josias de Souza

Caciques do PSDB já debatem internamente os efeitos políticos de um eventual insucesso de Geraldo Alckmin na corrida presidencial de 2018. Em respeito ao candidato, os tucanos se esforçam para ocultar o desânimo. No debate interno, porém, o grosso do partido já jogou a toalha, admitiram três integrantes da cúpula do tucanato em conversas com o blog. Na expressão de um deles, a sexta derrota nacional deve “estilhaçar” a legenda.

O primeiro efeito prático do provável fracasso de Alckmin será uma divisão quanto ao posicionamento do partido no segundo turno. Presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso sinalizou que, numa eventual disputa entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, não hesitaria em apoiar o petista. Mas essa posição não é consensual. Longe disso.

Lideranças como o senador cearense Tasso Jereissati também declaram, em privado, que jamais apoiariam Bolsonaro. Contudo, ainda não amadureceram a ideia de optar pelo apoio ao adversário do capitão, sobretudo se for confirmada a passagem de Haddad para o segundo turno. Como de hábito, um pedaço do PSDB flerta novamente com o muro.

Os tucanos receiam sair da campanha de 2018 mais irrelevantes do que entraram. Prevêem um encolhimento do partido. “Podemos sair dessa eleição com um tamanho minúsculo”, disse um grão-tucano ao blog. “A essa altura, não é absurda a hipótese de o Alckmin fazer menos de 10% dos votos. Será um resultado vexatório.”

Afora o risco de encolhimento das bancadas do partido nos legislativos estaduais e no Congresso, os tucanos estão assustados com o desempenho pífio de Alckmin em São Paulo, berço do PSDB, Estado que o partido governo como força hegemônica há duas décadas.

“Perder para o Bolsonaro num Estado que o próprio Alckmin governou quatro vezes é quase uma humilhação”, declarou um dos tucanos que toparam conversar reservadamente. Na sucessão de 2014, graças sobretudo ao prestígio político atribuído a Alckmin, Aécio Neves prevaleceu sobre Dilma Rousseff em São Paulo com cerca de 7 milhões de votos.

Em apenas quatro anos, o tucanato desceu da antessala do poder para o purgatório. Aécio sofreu uma derrota com fragrância de vitória. Amealhou 51 milhões de votos. Parecia fadado a eleger-se presidente na sucessão seguinte. Virou um colecionador de processos criminais.

Ao poupar Aécio de aborrecimentos partidários, o PSDB transformou o derretimento mortal do seu filiado num processo de desmoralização do partido. A corrosão de Aécio, o prontuário de José Serra, as investigações contra o próprio Alckmin e a radioatividade de Michel Temer empurraram o PSDB para a vala comum da rejeição pública.

Na frigideira, parte do tucanato flerta até com a ideia de fundar uma nova legenda. No momento, é difícil distinguir o partido fundado em 1988 por Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso de qualquer outra agremiação gelatinosa do espectro partidário.


Semimorto no Ibope, Ciro renasce no Datafolha
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Josias de Souza

Num intervalo de pouco mais de 24 horas, Ibope e Datafolha despejaram na praça dados frescos sobre a corrida presidencial. No atacado, detectam o mesmo sinal: a polarização entre Bolsonaro e Haddad. No varejo, expõem pelo menos uma diferença notável, fora da margem de erro. Num levantamento, Ciro aparece semimorto. Noutro, permanece vivo na briga por uma vaga no segundo turno.

Ciro manteve-se estático nas duas pesquisas: 11% no Ibope, 13% no Datafolha. A  diferença está no movimento de Haddad. No Ibope, o preposto de Lula deu um salto de 11 pontos percentuais. Bateu em 19% das intenções de voto, abrindo sobre Ciro um abismo letal de oito pontos.

No Datafolha, o poste petista avançou três casas. Foi a 16%, distanciando-se apenas três pontos percentuais de Ciro. Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais —para cima ou para baixo—, a dupla estaria ainda em situação de empate técnico.

O mais importante na leitura de uma pesquisa é enxergar os movimentos que ela insinua. A transferência de eleitores de Lula para Haddad fica evidente nas duas sondagens. E não parece ter batido no teto, eis o movimento mais relevante.

Entretanto, dependendo do instituto, a candidatura de Ciro pode estar na UTI, respirando por aparelhos, ou na enfermaria, com os sinais vitais preservados. Para avançar, Ciro terá de conquistar votos do eleitorado de centro, hoje acomodado no cesto de rivais como Alckmin e Marina.

Há diferenças também nos cenários de segundo turno. No Ibope, Bolsonaro (39%) encosta em Ciro (40%). No Datafolha, Ciro ainda aparece como único candidato que venceria todos os rivais. Num embate direto contra Bolsonaro, prevaleceria com seis pontos de frente: 45% a 39%. Há dez dias, essa distância era de dez pontos.

Numa disputa em que quatro de cada dez eleitores admitem mudar de voto, a informação sobre o grau de competitividade no segundo turno é valiosa. Permite pelo menos que Ciro continue fustigando Haddad com perguntas como a que fez nesta quarta-feira: ''Se houver uma crise grave, ele vai a Curitiba?''

De resto, os dois institutos trouxeram a mesma aferição da curva ascendente de Bolsonaro. O capitão oscilou dois pontos para o alto. Amealhou 28% das intenções de voto, cristalizando-se como o polo anti-PT. Quanto aos outros candidatos, as diferenças situaram-se dentro da margem de erro. Nos dois institutos, Alckmin e Marina, abaixo dos dois dígitos, saíram da disputa pela vaga de adversário de Bolsonaro no segundo round.

Numa campanha presidencial de quinta categoria, marcada pelo excesso de raiva, as pesquisas acabam ganhando mais cartaz do que as ideias. As estatísticas têm valor e merecem toda a atenção. Não é razoável que apenas candidatos e financiadores disponham dos dados. O eleitorado tem direito à informação. E pode fazer com ela o que bem entender. Mas do jeito que a coisa anda, quando perguntarem ao brasileiro em quem pretende votar ele vai acabar respondendo que está em dúvida entre o Datafolha e o Ibope.


Polarização acentua a trinca que divide o Brasil
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Josias de Souza

Juntos, o líder e o vice-líder da corrida presidencial somaram 47% das intenções de voto no Ibope mais recente —Bolsonaro com 28%, Haddad com 19%. Cristalizou-se a polarização: o anti-PT contra o petista. Somando-se as taxas atribuídas aos  outros presidenciáveis e o índice dos sem candidato, verifica-se que 52% dos eleitores estão, por enquanto, fora da polarização. Esse é o retrato de uma sociedade trincada.

O Brasil a ser administrado pelo presidente que tomará posse em 1º de janeiro de 2019 é um país de ponta-cabeça. O Executivo está quebrado. O Legislativo, pulverizado. O Judiciário, abarrotado de escândalos por julgar. Esse já não é um cenário de fundo do poço. O Brasil se encontra num poço sem fundo.

Mantido o Fla-Flu, quem não morre de amores pelo capitão nem sonha com a volta da turma do presidiário terá de se posicionar. Muita gente votará em Haddad para evitar Bolsonaro. Outra parte optará pelo anti-PT para esconjurar o preposto de Lula. A preferência será substituída pela exclusão.

O Brasil é, hoje, um belo ponto no mapa, ideal para reerguer uma nação. Isso exige união. O problema é que a polarização deve produzir não um presidente, mas um herói vingador que os pára-choques de caminhão xingarão 15 dias depois da posse.


Moro: Lula apela para ‘fantasia da perseguição’
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Josias de Souza

Sergio Moro, juiz da Lava Jato, indeferiu pedidos da defesa de Lula e manteve sob sua responsabilidade duas ações penais contra o ex-presidente petista. Uma envolve a reforma do sítio de Atibaia. Outra refere-se à compra de um terreno para a construção de prédio do Instituto Lula. Tudo com verbas desviadas da Petrobras. Ao comunicar suas decisões ao Supremo Tribunal Federal, Moro lamentou:“Ao invés de esclarecer os fatos concretos e contribuir com a elucidação da verdade, prefere a defesa de Luiz Inácio Lula da Silva apelar para a fantasia da perseguição política”.

Os advogados de Lula foram à Suprema Corte para tentar tirar das mãos de Moro as duas ações. Fizeram isso depois que a Segunda Turma do Supremo transferiu de Curitiba para a Justiça Federal de São Paulo parte das delações da Odebrecht. Moro sustentou que, ao contrário das alegações da defesa, os vínculos dos casos do sítio e do terreno com os desvios praticados na Petrobras são nítidos. Não haveria, portanto, nenhuma razão para retirar as ações penais da 13ª Vara de Curitiba, onde tramitam os processos da Lava Jato.

No caso do sítio, reuniram-se evidências de que as despesas foram custeadas pelas empreiteiras Odebrecht e OAS, além do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula. Moro anotou no documento enviado ao Supremo: “…Empreiteiras como a OAS e Odebrecht envolvidas em acertos de corrupção em contratos da Petrobrás gastaram, segundo a acusação, cerca de R$ 1 milhão em reformas no sítio de Atibaia e em favor do ex-presidente.”

O magistrado insistiu: “…Ao invés de esclarecer os fatos e os motivos, prefere ele [Lula] refugiar-se na condição de vítima de imaginária perseguição política”. Moro acrescentou: “…Apesar de as reformas terem sido efetuadas no sítio em São Paulo, há diversos elementos de conexão com processos em trâmite nesta Vara e atinentes à Operação Lava Jato.”

Moro enumerou as informações que a defesa se nega a fornecer: “…Não apresentou qualquer explicação nos autos, por exemplo, quanto aos fatos que motivaram as reformas e se ele, o acusado Luiz Inácio Lula da Silva, ressarciu ou não as empreiteiras ou seu amigo pelos custos havidos. Até o momento, vigora o silêncio quanto ao ponto”.

Mais: “Poderia a defesa de Luiz Inácio Lula da Silva esclarecer de imediato por qual motivo essas empreiteiras e o referido empresário, com contratos na Petrobrás e com condenações em acertos de corrupção em contratos da Petrobrás, teriam custeado essas reformas de cerca de R$ 1 milhão no sítio de Atibaia e que era por ele utilizado com regular frequência, o que facilitaria a avaliação do Juízo.”

Sobre o terreno onde seria erguido o prédio do Instituto Lula, Moro escreveu que numa “suposta conta geral de propinas entre a Presidência e o Grupo Odebrecht consta lançamento de débito a título de ‘Prédio (IL)’ no valor de R$ 12,422 milhões e que guarda certa correspondência com a aquisição pelo Grupo Odebrecht do prédio que é objeto deste feito. (…) Há também elementos probatórios, em cognição sumária, que apontam que essa conta abrangia toda a relação do Grupo Odebrecht com a Presidência”.

Os dados enviados a Brasília por Moro foram à mesa da ministra Cármen Lúcia. Ela passou a ocupar na Segunda Turma do Supremo a cadeira que era de Dias Toffoli, antigo relator do recurso que retirou parte da delação da Odebrecht das mãos de Moro. Há dois dias, Toffoli substituiu Cármen na presidência do tribunal. Para desassossego de Lula, a dança de cadeiras pode ter estilhaçado uma maioria de 3 a 2 contra a Lava Jato na Segunda Turma. Tóffoli se alinhava com Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski. Cármen tende a votar em consonância com Celso de Mello e Edson Fachin, relator da Lava Jato.