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Pagot atribui queda do Dnit a pressões da Delta

Josias de Souza

20/04/2012 21h10

Demitido da direção do Dnit em julho do ano passado, Luiz Antonio Pagot voltou à boca do palco. Associa sua queda à ação da quadrilha de Carlinhos Cachoeira e da Delta Construções.

Em entrevista ao repórter Murilo Ramos (aqui e aqui), Pagot declara: "Fui surpreendido por ter sido afastado através de uma negociata de uma empreiteira com um contraventor. Isso serviu para que fosse ditado meu afastamento. É um verdadeiro descalabro."

Num grampo telefônico de 10 de maio de 2011, dois meses antes da queda de Pagot, a Polícia Federal captou conversa de Cahchoeira com Cláudio Abreu, então diretor da Delta para a região Centro-Oeste.

Na fita, Abreu diz a Cachoeira que plantara na imprensa informações contra Pagot. A certa altura, expressando-se em português chulo, o diretor da Delta soou assim: "Enfiei tudo no rabo do Pagot."

Agora, Pagot atribui a aversão à sua permanência no governo aos "dissabores" que diz ter provocado. "A Delta tem inúmeros contratos com o Dnit. Ao longo de 2009 e 2010, vários contratos passaram a ter problemas." Ele empilha quatro casos.

Num, o Dnit, órgão do Ministério dos Transportes responsável pela construção e conservação de estradas, escrespou com a Delta no Ceará. Por quê? A empreiteira teria subcontratado outra empresa para recuperar um trecho da BR-116. Como a subempreitada não teve anuência prévia do Dnit, abriu-se um processo administrativo.

Noutro caso, Pagot diz que o Dnit obrigou a Delta a repavimentar um trecho da BR-163, na cidade de Serra de São Vicente, em Mato Grosso. O concreto utilizado pela empresa, diz ele, tinha espessura menor do que a prevista em contrato.

Numa terceira passage, relata Pagot, a Delta atrasou o início de uma obra na BR-101, ligando os municípios de Manilha e Santa Gilhermina, no Rio. O Dnit ameaçou rescindir o contrato.

O quarto episódio envolveu uma licitação para a duplicação da BR-060, em Goiás. O resultado teria frustrado as expectativas das empreiteiras. Esperava-se, segundo Pagot, que a obra saísse a R$ 1,6 bilhão. Ficou em R$ 1,2 bilhão. A Delta consórcio que beliscou um trecho da rodovia.

Pagot relata que o staff da Delta bateu à sua porta para reclamar. "Recebi visitas do presidente do Conselho de Administração, Fernando Cavendish; do diretor da empresa para a Região Centro-Oeste, Cláudio Abreu; e do diretor da empresa para a Região Norte, Aluízio de Souza." Como procedeu? "Pedi que formalizassem essas reivindicações. Fazia isso com todo mundo que ia lá."

Apadrinhado do senador Blairo Maggi (PR-MT), Pagot comandava o DNIT desde a gestão Lula. Afora as visitas dos dirigentes da Delta, declara que paramentares também fizeram lobby em favor da construtora, estrela da CPI do Cachoeira, que abrirá suas comportar na semana que vem.

"Alguns parlamentares defendiam a empresa", afirma Pagot. "Durante a discussão do projeto da Travessia Urbana de Ubatuba (SP), por exemplo, o deputado Valdemar Costa Neto disse pra mim que quem tinha de vencer era a Delta. Era uma obra de R$ 150 milhões." Vingou? "Não. Houve uma reformulação do projeto. E a obra nem chegou a ser licitada de acordo com o projeto inicial."

Réu no processo do mensalão e presidente de honra do PR, Valdemar responde à revelação de Pagot por meio da assessorial: "Não fiz pressão junto a diretores do Dnit para que a obra fosse vencida pela Delta."

Pagot mencionou também o deputado Wellington Fagundes (PR-MT). Ele "fez pressão para que o Dnit diminuísse o rigor no episódio em que se decidiu pelo desmanche dos trechos da BR-163 [Serra de São Vicente-MT] que estavam com a camada de concreto fora das especificações. Wellington cobrava celeridade na obra. Não disse, mas obviamente estava lá por interesse da Delta."

Ouvido, o peérre Wellington defendeu-se: "Fiz pressão pela celeridade da obra. Fiz pressão pela população de Mato Grosso." Procurada, a Delta expressou-se por meio de nota. Escreveu que "falará sobre todos os assuntos nos foros judicial e parlamentar."

Anotou: "A empresa repudia, desde já, conclusões parciais e precipitadas oriundas de análises superficiais de informações coletadas." Tentou tomar distância do seu ex-diretor no Centro-Oeste:

"Jamais o ex-diretor da Delta Construções Cláudio Abreu falava ou agia em nome da empresa, quando, supostamente, teria dado curso a fofocas que se levantavam em relação ao Dnit ou a qualquer de seus diretores. Caso se revelem verdadeiras as suspeitas em relação à ação de Cláudio Abreu nesse sentido, ele agiu por motivação própria e desconhecida pela empresa à qual devia lealdade."

Pagot pega carona nas investigações da PF para tentar restaurar sua reputação. Obviamente, nem só de Delta eram feitas as irregularidades que o levaram ao olho da rua. Porém, ao mencionar nomes e fatos relacionados à empreiteira, o ex-mandachuva do Dnit oferece matéria prima que aproxima o escândalo Cachoeira da Esplanada dos Ministérios. Algo que o Planalto preferia evitar.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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