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Campanha de São Paulo vive sua fase pilântrica

Josias de Souza

18/06/2012 17h50

Em São Paulo –maior, mais rica e, teoricamente, mais desenvolvida cidade do país—, a campanha eleitoral de 2012 atravessa um período pilântrico. Num instante em que os escândalos pupulam nas manchetes como pulgas no dorso de cães vira-latas, os comitês de campanha das duas principais legendas do país perderam os sentidos. O PT aliou-se ao PP de Paulo Maluf. O PSDB juntou-se ao PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Petistas e tucanos potencializam o estereótico que torna iguais todos os políticos. Os pregoeiros da ética informam ao eleitor que, em troca de alguns minutos de tempo de tevê, topam tudo. Ficou-se sabendo que, na principal cidade do país, como na Chicago e na Bagda de outrora, há espaço para Al Capone e Ali Babá. Incorporado às mais vistosas coligações, o rebotalho ganha prontuário novo. E o letreiro da política volta a piscar: é tudo farinha do mesmo saco.

Tudo isso seria apenas divertido se não fosse nefasto –para usar o adjetivo que a petista Marta Suplicy um dia empregou num comentário sobre Maluf. O processo político torna-se cada dia mais obscuro e incompreensível. O eleitor brasileiro sabe cada vez menos o que é um partido. As legendas subvertem a lógica, sacrificam o pudor, entregam-se à depravação dos costumes… Depois, com a candura dos puros, convidam o eleitor a engajar-se num processo que ele não entende.

Repete-se na cena municipal um fenômeno que há anos desvirtua o exercício do poder no âmbito federal. Em pólos opostos, PT e PSDB, os dois grandes rivais da política nacional, juntam-se àqueles que passam pela vida pública à procura de negócios e oportunidades, num processo que aniquila a inocência e converte as eleições em meros contratos de cumplicidade renovados de quatro em quatro anos.

O resultado do espetáculo, triste e cansativo, é conhecido: uma quantidade absurda de escândalos, um puxando o outro, o caso novo atropelando o anterior, as bandidagens antigas se multiplicando em picaretagens novas. Em teoria, a revelação dos malfeitos deveria exercer sobre a política efeitos benfazejos.

Por um lado, o noticiário produz a lamentação do ocorrido. Por outro, exposição das trambicagens deveria surtir um duplo efeito. Os políticos não ousariam reincidir em práticas criminosas. E os eleitores não votariam mais nos suspeitos. O caso de São Paulo ensina outra coisa. Os agentes públicos igualam-se em perversão. E o eleitor, ainda que quisesse, não encontraria bons exemplos nos quais votar. Fica-se com a impressão de que, submetida a um Judiciário que lhes serve impunidade, a banda pilântrica da política sempre prevalece.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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