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Presidência do Senado: contra volta de Renan, grupo pluripartidário deve lançar Luiz Henrique

Josias de Souza

08/11/2012 04h34

Ganhou corpo no Senado um movimento suprapartidário de oposição ao retorno do líder do PMDB Renan Calheiros (AL) à presidência da Casa. Articula-se o lançamento de um nome do próprio PMDB: o senador Luiz Henrique (SC), ex-governador de Santa Catarina e ex-presidente nacional do partido.

Liderada por Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Pedro Taques (PDT-MT), a articulação intensificou-se depois das eleições municipais. Adquiriu rosto e método na noite da terça-feira (6). Deu-se num jantar servido no apartamento de Jarbas. Unidos pela aversão a Renan, compareceram ao repasto 11 senadores.

Cinco do PMDB: além de Jarbas e do próprio Luiz Henrique, Pedro Simon (RS), Cassildo Maldaner (SC) e Ricardo Ferraço (ES). Dois do PDT: o líder Taques e Cristovam Buarque (DF). Três do PSDB: o líder Alvaro Dias (PR), Aloysio Nunes Ferreira (SP) e Cyro Miranda (GO). E um do PSOL: Randolfe Rodrigues (AP). Havia outros dois convidados. Roberto Requião (PMDB-PR) não foi porque teve de viajar à Espanha. Ana Amélia (PP-RS) ausentou-se por conta de uma gripe forte.

Iniciada a conversa, não houve quem discordasse da inconveniência de aceitar passivamente a volta de Renan, que carrega na biografia um rol de denúncias que o levaram a renunciar à presidência em 2007 para salvar o mandato. No pedaço mais noticiado, o escândalo envolveu o pagamento com verbas de uma empreiteira das despesas da filha que Renan tivera fora do casamento.

Lero vai, lero vem concluiu-se que o mais adequado seria lançar contra Renan um nome do PMDB. Por quê? Embora não proíba nenhum senador de disputar a cadeira de presidente, o regimento do Senado rende homenagens à proporcionalidade. Atribui ao maior partido a preferência na indicação do presidente. Com 22 senadores, o PMDB é a legenda que dispõe de mais cadeiras no plenário.

Simon lançou o anfitrião. Em meio a elogios, o próprio Jarbas cuidou de realçar as desvantagens do seu nome. Lembrou que já não é um mero dissidente do PMDB, mas um oposicionista. Disse que sua candidatura estreitaria o movimento. O ideal seria escolher alguém que votasse com o governo sem abrir mão da independência. Um senador que, no limite, pudesse apresentar-se a Dilma Rousseff e seus apoiadores como sucessor palatável de José Sarney (PMDB-AP).

Foi à mesa o nome de Luiz Henrique. Estabeleceu-se rapidamente um consenso. O escolhido esboçou resistência. Que diminuiu à medida que os presentes foram empilhando argumentos que apontavam para sua viabilidade.  Percorrendo a lista de 81 senadores, os insurretos concluíram que Luiz Henrique tem potencial para seduzir algo como como 33 votos –com 41 elege-se um presidente. A votação é secreta.

A despeito do otimismo embutido na conta, os comensais de Jarbas tomaram-se de ânimo. Antes, não esperavam reunir mais do que 23 adesões. Desceriam ao front apenas para "marcar posição". Com Luiz Henrique, passaram a sonhar com algo mais. Por baixo, o grupo afasta-se do vexame da inanição de votos. Com alguma sorte e muita saliva, chega-se à paridade de armas. O desafio continua sendo hercúleo. Mas passou-se a considerar que o vocábulo impossível carrega dentro de si a palavra possível.

A reunião ganhou atmosfera de festa no instante em que desceu à mesa um bolo de aniversário. Entoou-se um 'parabéns pra você'. Randolfe Rodrigues completava 40 anos. Os senadores deixaram a casa de Jarbas com um discurso afinado. Enquanto aguardam pela formalização da candidatura de Renan, farão consultas para testar a aceitação de Luiz Henrique.

As primeiras sondagens, feitas nesta quarta (7), revelaram-se promissoras. Se for perguntado, Luiz Henrique dirá que não é candidato. Se Renan der meia-volta e o PMDB escolher um nome melhor –ou menos ruim—, muda-se de assunto. Caso contrário, o movimento avança. Agendou-se para o dia 27 um novo encontro, dessa vez na casa de Cristovam Buarque.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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