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Ministro agora quer apressar obras de cadeias

Josias de Souza

17/11/2012 03h32

Premido pela polêmica provocada por um comentário seu –"se fosse para cumprir muitos anos em algumas prisões nossas eu preferia morrer"— o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) agora fala em apressar a construção de cadeias. "Como a situação prisional é gravíssima, não podemos nos dar ao luxo de esperar cinco ou seis anos para fazermos um presídio", diz ele. "Vamos encurtar o processo."

Cardozo falou ao repórter Chico de Gois. Foi indagado sobre o atraso na execução de projeto lançado no ano passado por Dilma Roousseff. Previa investimentos de R$ 1,1 bilhão em presídios novos. O suficiente para abrir 60 mil novas vagas. Em 2011, aplicaram-se apenas R$ 270 milhões. Por que a coisa é tão lenta?

"Há todo um procedimento necessário para fazer os contratos", disse Cardozo. "Primeiro, os Estados têm que escolher um terreno, depois é necessário apresentar o projeto, que tem que ser aprovado por nossos órgãos técnicos, e depois vêm a licitação e a contratação. Em situação normal, uma casa prisional demora em torno de três anos para ficar pronta. Houve casos em que a demora foi de sete anos. Não estamos dispostos a aceitar isso."

O ministro diz estar "tomando medidas que agilizam o procedimento." Que providências são essas? "…Como a situação prisional é gravíssima, não podemos nos dar ao luxo de esperar cinco ou seis anos para fazermos um presídio. Vamos encurtar o processo porque vamos eliminar a análise no departamento e a análise na Caixa Econômica Federal. Vamos ganhar um ano no prazo. Isso nos dá esperança de cumprir a meta [de 60 mil vagas] em 2014."

Instado a comentar a reprecussão de sua frase, Cardozo atribuiu o alarido ao mensalão. "…Há cerca de 30 dias eu falei exatamente o que eu disse, e não houve muito destaque nos jornais. Não havia novidade. Sempre critiquei muito a omissão das autoridades ao enfrentar o problema. […] Acho que, por força de situações que estão acontecendo nestes dias no Poder Judiciário, particularmente o julgamento do mensalão, as coisas estão à flor da pele."

Como que decidido a não borrifar mais gasolina na fogueira, o ministro passou a medir as palavras. O que achou da declaração do governador Geraldo Alckmin de que a violência em São Paulo é compatível com o tamanho do Estado? "Eu não costumo entrar em considerações feitas por governos com os quais temos uma relação de parceria…" E quanto à manifestação do ministro do STF Dias Toffoli, que defendeu a aplicação de penas pecuniárias em vez de cadeia para os mensaleiros? "Eu não quero comentar nenhum posicionamento judicial…"

O que achou da nota em que o PT criticou o julgamento do mensalão? "Se eu comentasse o posicionamento do meu partido estaria violentando o mesmo princípio. No dia que sair do Ministério da Justiça, manifesto minha opinião." Como se vê, ministro escaldado tem medo de água fria. O doutor Cardozo instalou um ferrolho nos lábios.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.