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Renan, Gurgel e a análise de todas as hipóteses

Josias de Souza

29/01/2013 19h28

O procurador-geral da República Roberto Gurgel trocou um dedo de prosa com repórteres sobre a denúncia que protocolou contra Renan Calheiros no STF há cinco dias. "Foi uma iniciativa extremamente cuidadosa, extremamente ponderada do Ministério Público, examinada e refletida com o máximo cuidado e extremamente consistente", disse. Na bica de ser devolvido à cadeira de presidente do Senado, nesta sexta-feira (1o), Renan insinuou que Gurgel agiu sob inspiração política. Teve dois anos para se pronunciar e só decidiu denunciá-lo na ante-sala do retorno triunfal.

"Sempre tenho muito cuidado com isso", respondeu Gurgel. "As pessoas estão sempre concorrendo a cargos. Mas não pode ficar o Ministério Público de mãos atadas, subordinado a só oferecer denúncia quando seja politicamente conveniente." Na versão do procurador, a denúncia não foi formalizada antes porque o julgamento do mensalão monopolizava suas atenções.

Na vida, todo mundo tem que raciocinar com hipóteses. Das mais amplas às mais específicas. No caso do que espera o Senado com a volta de Renan à presidência o espaço para a escolha de hipóteses é enorme. Sobretudo porque ninguém pode dizer com 100% de certeza o que decidirá o STF ao julgar a denúncia de Gurgel. Na melhor das hipóteses, Renan será abolvido da acusação de recorrer ao lobista de uma empreiteira para pagar pensão e aluguel à ex-amante com a qual teve uma filha. Na pior das hipóteses, o STF converterá a denúncia contra Renan em ação penal.

Levando-se o raciocínio às fronteiras do paroxismo, a melhor das hipóteses é que Renan seja vítima de um complô da PF, da Procuradoria e da mídia golpista para fazer de um senador modelo um político desonesto. A pior das hipóteses é que, alheio à evidência de que tudo o que está na cara não pode ser uma conspiração da lei das probabilidades contra um inocente, o Senado está prestes a devolver a presidência a um futuro réu. Ou, na pior das piores hipóteses, um futuro condenado.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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