PUBLICIDADE
Topo

Para Lula, Dilma é mais competitiva do que ele

Josias de Souza

24/02/2013 06h10

"Tenho três alternativas para 2014", disse Lula a um amigo que o visitou. Ante a cara de exclamação do interlocutor, ele enumerou: "Minha primeira opção é Dilma. A segunda, Dilma. E a terceira, Dilma."

Para atalhar os aduladores petistas que sonhavam com o seu retorno, Lula desenvolveu uma tese. Sustenta que sua ex-poste tornou-se mais competitiva do que ele. Por quê? "Hoje, a Dilma tem os votos dela e os nossos".

Curiosamente, Lula atribui à mídia e aos adversários políticos –todos acomodados sob o rótulo de "direita"— o suposto robustecimento da musculatura eleitoral de Dilma. O penúltimo a ouvir o raciocínio foi o novo presidente da Câmara.

O deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) esteve com Lula nesta sexta (22), em São Paulo. Depois, em conversa com o blog, esmiuçou a teoria que ouviu do ex-presidente petista. A "direita", disse Lula, tentou intrigá-lo com Dilma no início do governo dela. Dizia-se que a cria, mais resguardada, fazia um governo melhor do que o do criador.

Abre parêntese: nessa época, Dilma enviou carta de parabéns a FHC pelos 80 anos. No texto, reconheceu-lhe os méritos, para desassossego do petismo. Depois, convidou-o para dividir a mesa de almoço do Itamaraty com Barack Obama, um visitante ilustre que Lula se absteve de prestigiar. Fecha parêntese.

Na versão agora difundida por Lula, o veneno da "direita" saiu pela culatra. Primeiro porque suas relações com Dilma sobreviveram às alegadas maquinações. Segundo porque o diz-que-diz terminou aproximando Dilma de um pedaço do eleitorado que costuma torcer o nariz para o PT –gente de uma certa "classe média conservadora."

Disse Lula, segundo Henrique: "Deram para a Dilma um segmento que nós não tínhamos." Ele repisou: "Agora, ela tem os eleitores dela e os nossos." A intuição de Lula orna com as pesquisas.

Sondagem divulgada pelo Datafolha no final do ano passado, em 4 de dezembro, informou: decorridos dois anos de sua posse, Dilma chefia um governo considerado ótimo ou bom por 62% dos brasileiros. Lula colecionava taxa de aprovação bem menor ao final do seu primeiro biênio: 45%. FHC amealhava 47%.

Numa fase em que se prepara para correr o país, Lula repetiu a Henrique Alves algo que já havia sido noticiado aqui há duas semanas: teve o cuidado de informar a Dilma que seria ela a candidata em 2014, não ele. Fez isso para retirar as pulgas que começavam a saltitar atrás da orelha da pupila.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

Josias de Souza