PUBLICIDADE
Topo

Fux em reunião com João Paulo: ‘Mato no peito’

Josias de Souza

11/04/2013 02h58

Cândido Vaccarezza: 'Ao dizer que mataria no peito, Fux fez um movimento com a mão'

José Dirceu não foi o único réu do mensalão a quem o ministro Luiz Fux sinalizou absolvição. Ainda no governo Lula, quando iniciou sua campanha para obter a indicação à cadeira do STF, o ministro reuniu-se com João Paulo Cunha (PT-SP). Testemunha da conversa, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), à época líder do governo, conta que Fux referiu-se ao processo nos seguintes termos: 'Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar.'

Em notícia de dezembro de 2012, a repórter Mônica Bérgamo já havia revelado os encontros de Fux com Dirceu e João Paulo. Nessa época, Vaccarezza confirmara ter participado de uma conversa. Mas negara-se a revelar falar o teor. Eis o que dissera o deputado: "Participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, preferia não falar."

Nesta quarta (10), depois que José Dirceu acusou Fux de submetê-lo a "assédio moral" e de prometer que iria absolvê-lo no jugamento do mensalão, Vaccarezza sentiu-se à vontade para falar. Disse que, no diálogo com João Paulo, o hoje ministro do Supremo chegou mesmo a sinalizar como daria tratos ao processo do mensalão. "Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga."

Lula deixou o governo sem formalizar a indicação. Coube a Dilma Rousseff enviar Fux ao STF. Para surpresa do petismo, o ministro foi, depois do relator Joaquim Barbosa, o julgador mas severo. Entre os réus que condenou estão Dirceu e João Paulo.

Procurado, mandou a assessoria dizer o seguinte: "Ministro do Supremo não polemiza com réu". Erro. Não se trata de polemizar com réus, mas de explicar o porquê de ter confraternizado com eles. Vai abaixo a íntegra da entrevista de Cândido Vaccarezza:

— Como conheceu Luiz Fux? O primeiro encontro que tive com o Fux foi no gabinete do Paulo Maluf [protagonista de três processos no STF]. O deputado me disse que estava apoiando ele para o Supremo, que era uma pessoa de confiança. E queria me apresentar.

— O próprio Maluf o convidou para a reunião? Exato. Fui convidado pelo Maluf. Ele disse que queria levar o Fux no meu gabinete. Eu disse: 'Vou ao seu gabinete.'

— O sr. ainda era líder do governo? Nessa época eu era líder do governo Lula. Ocupei o posto até abril do ano passado, já no governo Dilma.

— Por que preferiu ir ao gabinete de Maluf? Era uma praxe minha. Quando eu era líder do governo, eu ia sempre nos gabinetes dos deputados.

— Foi uma reunião a três? Sim. Estávamos na reunião só nos três. O Maluf me apresentou o Fux. Conversamos.

— Ficou nisso? Depois, o João Paulo me convidou para ir à casa de um empresário, aqui em Brasília, para conversar sobre o Fux. Disse que queria me apresentar. Eu não disse que já conhecia. Fui na casa.

— Era casa de quem? Prefiro não dizer o nome do empresário. Estávamos o João Paulo, o Fux e eu.

— A que horas ocorreu o encontro? Foi um café da manhã, numa casa do Lago Sul [bairro elegante de Brasília].

— Falou-se de mensalão nessa reunião? Nós não tocamos no assunto de mensalão. O empresário falou. Disse que podíamos confiar no Fux. E o Fux disse que matava no peito.

— O ministro Luiz Fux falou assim, com esses termos? Ele disse: 'Esse assunto eu mato no peito porque eu conheço. E sei como tratar'. Falou nesses termos.

— Estava claro que ele falava da ação penal do mensalão? Sim. Ao dizer que mataria no peito, ele fez um movimento com a mão.

— Que movimento? Levou a mão ao peito e desceu em direção à barriga.

— Os senhores o apoiaram? Eu não declarei apoio a ele. Eu achava que devia ser uma outra pessoa.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

Josias de Souza