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Invisível na Câmara, Natan faz história na prisão

Josias de Souza

28/06/2013 15h07

Já está preso o deputado Natan Donadon, de Rondônia. Entregou-se à polícia 48 horas depois de o STF ter confirmado sua pena: 13 anos, 4 meses e 10 dias. Até ontem, Natan era um deputado invisível. Hoje, tornou-se um marco histórico. Na Câmara, em uma década de mandato, Natan não deixou vestígio de produção legislativa relevante. Na prisão, inaugura uma fase que pode ser revolucionária.

Desde a promulgação da Constituição cidadã de 1988, Natan é o primeiro parlamentar encarcerado em pleno exercício do mandato. No futuro, quando as ruas tiverem voltado para casa e a história puder falar sobre os dias que correm sem arregalar os olhos, Natan talvez seja lembrado como precursor de um Brasil novo. Um país onde os crimes do poder passaram a resultar em castigo.

Até aqui, acima de um certo nível de renda e de influência, nada era tão grave que justificasse um desconforto maior do que alguns dias de má notoriedade nas manchetes. O próprio Natan era beneficiário dessa tradição. Entre 1995 e 1998, ajudara a desviar R$ 8,4 milhões das arcas da Assembleia Legislativa de Rondônia. O Supremo condenara-o em 28 de outubro de 2010. Natan recorrera. O julgamento do recurso fora adiado dez vezes.

De repente, o imponderável promoveu no Brasil a junção de dois elementos perigosos, muito perigosos, perigosíssimos: povo indignado e ruas cheias. Uma mistura que conspira contra a inércia. Do nada, o recurso de Natan materializou-se na pauta de julgamentos do STF. Com a velocidade de um raio, foi indeferido. Expediu-se a ordem de prisão. Com rapidez inaudita, a Câmara abriu o processo de cassação. Partido do neopresidiário, o PMDB expulsou-o em procedimento sumário. Tudo obra das ruas. Milagre de São Asfalto!

Levado às últimas consequências, esse surto de bom senso ainda vai prestar um inestimável serviço ao país. Experimente dar azo ao otimismo. Suponha que o STF vai indeferir também os recursos dos condenados do mensalão. Imagine o que sucederá no dia em que se juntarem a Natan os líderes do núcleo publicitário, do núcleo financeiro e os companheiros do núcleo político do mensalão. Os cárceres brasileiros passarão a flertar com uma nova era.

Se a moda de prender corruptos e corruptores pegar, as próprias empreiteiras terão interesse em aperfeiçoar os projetos das cadeias. Pioneiro dos novos tempos, Natan pode antecipar-se. No gabinete 239 da Câmara, não produziu nada digno de nota. Na cela, enquanto aguarda pela implantação das melhorias, Natan pode elaborar um projeto de medidas provisórias. Sugere-se que comece pelas sugestões de aperfeiçoamento do cardápio dos detentos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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