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Sobre o óbvio, a FAB e um Legislativo distante

Josias de Souza

03/07/2013 15h03

Foi Nelson Rodrigues quem identificou o fenômeno. Muitas vezes o sujeito esbarra, tropeça no óbvio. Pede desculpas e passa adiante, sem desconfiar de que o óbvio é o óbvio. No último final de semana, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, teve um desses encontros fortuitos com o óbvio. Fingiu que não viu. E foi adiante.

Henrique embarcou num avião da FAB com um filho, a noiva e familiares dela. Voaram de Natal para o Rio na sexta. No domingo, assistiram ao triunfo da seleção brasileira no Maracanã. Depois, embarcaram de volta para a capital potiguar. De novo, nas asas da FAB. Levado às manchetes pelo repórter Leandro Colon, Henrique reconciliou-se com o óbvio. Mandou divulgar uma nota.

"O deputado Henrique Eduardo Alves ordenou ao seu gabinete parlamentar que fizesse o imediato recolhimento aos cofres públicos dos valores correspondentes às passagens Natal-Rio-Natal, relativos à carona oferecida em avião da FAB, por disponibilidade de assentos, a familiares, dias 28 e 30 de junho", diz o texto.

Segundo a nota, Henrique "esteve no Rio cumprindo agenda previamente acertada com o prefeito da cidade, Eduardo Paes." Esse encontro teria ocorrido no sábado (29) –"uma reunião-almoço". O texto conclui: "O presidente reconhece que a concessão da carona foi um equívoco e que, por dever, imediatamente, o corrige." Estima-se que o ressarcimento será de R$ 9,7 mil.

O episódio ocorre num instante em que, submetida ao barulho que vem das ruas, a Câmara vota projetos de uma "agenda positiva". Num momento assim, o óbvio deveria ser adulado, acarinhado. Do contrário, aquele famoso prédio de Brasília –dois espigões no meio e duas cuias nas laterais— continuará parecendo o Legislativo de um país muito distante, uma democracia lá longe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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