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Voz das ruas chega à porta da casa de Renan

Josias de Souza

17/08/2013 04h16

Na tarde deste sábado, um movimento batizado de #OcupaRenan sairá do ambiente virtual do Facebook e se materializará na frente do imóvel que serve de residência oficial para Renan Calheiros. Haverá um "panelaço". Parte dos manifestantes deve montar acampamento no local. Planeja-se esticar o protesto até o feriado de 7 de Setembro. Reivindica-se a saída de Renan da presidência do Senado.

No início de fevereiro, antes de ser acomodado pela terceira vez na poltrona de presidente, Renan amargara dois constrangimentos: 1) aportou no Senado um abaixo-assinado com 1,6 milhão de rubricas de pessoas avessas ao seu retorno. 2) ingressou no STF denúncia do procurador-geral Roberto Gurgel contra ele. Renan deu de ombros. E seus pares o premiaram com a re-re-re-presidência.

Na semana seguinte, manifestantes convocados por meio das redes sociais saíram às ruas de várias capitais do país portando faixas e cartazes. Lia-se nas peças: "Fora Renan." Em entrevista a uma rádio alagoana, Renan fez troça: "Na minha juventude, participei muito dessas manifestações como líder estudantil. Você tem duas maneiras de fazer política: uma delas é protestando, cobrando das autoridades determinadas posições. Se a manifestação tivesse ocorrido em 1978/79, com certeza eu estaria nela."

Quatro meses depois, em junho, o asfalto emitiu um ronco que ecoou pelo mundo. Perto de 2 milhões de brasileiros ganharam o meio-fio. Renan disse ter ouvido "a voz das ruas". Às pressas, reuniu numa "pauta prioritária" um lote de projetos com suposto apelo popular. Decorridos dois meses, o Senado começava a mudar de assunto quando, de repente, a rua resolveu facilitar a vida de Renan. Agora, o senador só terá de encostar o ouvido na porta de casa para ouvir a besta-fera.

No texto da internet, os algozes de Renan convocam "todos de Brasília a participarem de ato pacífico, sem depredação e sem violência (tanto por parte da polícia quanto dos manifestantes)". Precavida, a Polícia do Senado providenciou um plano de contenção. A PM do Distrito Federal, sob ordens do petista Agnelo Queiroz, também foi acionada.

Renan não estará em casa. Nesta sexta (16), depois de ser informado que uma gripe levara Dilma Rousseff a cancelar um encontro que teria com ele, o senador voou para Maceió. Estará de volta na segunda (17). A presidente o encaixou na agenda desse dia. Cumprida a promessa do acompamento, Renan não terá muitas alternativas. Ou busca abrigo temporário num hotel ou terá de lidar com uma rotina de Sérgio Cabral.

O governador do Rio, filiado ao mesmo PMDB de Renan, convive há dois meses com manifestantes de tempo integral na rua do seu prédio, no Leblon. "Tragam suas barracas e panelas!", pede a convocatória do ato anti-Renan. O texto saboreia uma coincidência geográfica: "Fomos informados de que a residência dele [Renan] fica ao lado da do presidente da Câmara, Henrique Alves. Melhor ainda." De fato, além de coabitar o PMDB, os dois são vizinhos de cerca na península das autoridades, às margens do Lago Paranoá.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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