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Nobel da Paz Ramos-Horta sai em defesa do diplomata que ‘resgatou’ o senador boliviano

Josias de Souza

2006-09-20T13:17:50

06/09/2013 17h50

Enviado ao freezer por Dilma Rousseff, o diplomata Eduardo Saboia, que organizou e executou a fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina da embaixada basileira em La Paz, ganhou um simpatizante de peso. Recebeu uma carta de solidariedade de ninguém menos que o jurista timorense José Ramos-Horta, Prêmio Nobel da Paz de 1996.

Afastado do posto de encarregado de Negócios do Brasil na capital boliviana e alvejado por um processo disciplinar no Itamaraty, Saboia foi comparado por Ramos-Horta a dois personagens notáveis da diplomacia mundial:

O Nobel da Paz anotou: "A coragem do diplomata Eduardo Sabóia fez-me lembrar o cônsul português Sousa Mendes, em Bordéus, França, o qual com extraordinária coragem salvou a vida de 30 mil Judeus durante o período da II Grande Guerra, emitindo-lhes passaportes contra as instruções do ditador provinciano Oliveira Salazar."

Ele acrescentou: "Eduardo Sabóia revela ser um continuador corajoso do legado de coragem do mártir brasileiro, mártir da ONU, Sérgio Vieira De Mello, cuja morte há dez anos num atentado terrorista em Bagdad, nós celebramos no Rio no dia 19 de Agosto."

Ex-presidente do Timor Leste, Ramos-Horta foi um dos convidados de honra do debate promovido pela ONU no mês passado, no Rio, para cultuar a memória de Vieira de Mello, ex-alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos morto num atentado terrorista em Bagda em 2003.

Na carta que endereçou a Saboia, Ramos-Horta escreveu que não conhece os antecedentes do senador boliviano Roger Molina. Mas afirmou que confia na avaliação do Itamaraty, que não o recepcionaria numa de suas instalações se não soubesse o que estava fazendo. "Sei que o Brasil não recebe ninguém na embaixada sem justa causa, sendo os brasileiros tão prudentes, muito meticulosos como sempre são na gestão de dossiês complexos e delicados."

O jurista timorense recordou no texto que conheceu em Genebra o embaixador aposentado Gilberto Saboia, pai de Eduardo Saboia. "Me lembro como ele esteve sempre do lado da nossa luta pelos direitos humanos, pela vida, pela dignidade." Anotou que, ao tomar conhecimento do gesto do filho, associou-o pelo sobrenome à imagem do pai.

Ramos-Horta descreveu a operação planejada por Eduardo Saboia assim: "[…] Em plena noite e de muita chuva, assumindo riscos, resgatou um político boliviano, refugiado na embaixada do Brasil em La Paz durante 450 dias, transportado-o para a Terra de Ipiranga, esse grande Brasil…"

Depois que Saboia desembarcou o senador Molina no Brasil, Dilma atacou-o em público e achegou-se a Evo Morales em privado. A entrada de Ramos-Horta na polêmica pode não aliviar a tempestade funcional que se abateu sobre Saboia. Mas deixou o diplomata em melhor companhia. Vai abaixo a íntegra da carta do Nobel da Paz:

No Itamaraty, um diplomata merecedor do honroso legado de coragem do mártir Sérgio Vieira De Mello.

O nome dele: Eduardo SABÓIA, diplomata brasileiro, daquele famoso Itamaraty, o Ministério de Relações Externas do Brasil, que produz os melhores diplomatas do Mundo.

Conheci o pai dele o Embaixador Gilberto Sabóia, diplomata agora jubilado, que foi o Representante do Brasil em Genebra durante muitos anos. Um senhor alto, magro, muito reservado, discreto. Assim me lembro dele e me lembro como ele esteve sempre do lado da nossa luta pelos direitos humanos, pela vida, pela dignidade.

Assim quando ouvi falar sobre o incidente envolvendo um diplomata Brasileiro de nome Saboia, que em plena noite e de muita chuva, assumindo riscos, resgatou um político Boliviano, refugiado na Embaixada do Brasil em La Paz durante 450 dias, transportado-o para A Terra de Ipiranga, esse grande Brasil, pensei que seria alguém relacionado com aquele Embaixador alto, magro, elegante, discreto, simples que conheci. Vim a saber que era filho.

Não conheço os detalhes do antecedente, isto e, o dossier do senador Boliviano. Mas sei que o Brasil não recebe ninguém na Embaixada sem justa causa, sendo os Brasileiros tão prudentes, muito meticulosos como sempre são na gestão de dossiers complexos e delicados.

A coragem do diplomata Eduardo Sabóia fez-me lembrar o Cônsul Português Sousa Mendes, em Bordéus, França, o qual com extraordinária coragem salvou a vida de 30 mil Judeus durante o período da II Grande Guerra,  emitindo-lhes passaportes contra as instruções do ditador provinciano Oliveira Salazar.

Eduardo Sabóia revela ser um continuador corajoso do legado de coragem do Mártir Brasileiro, Mártir da ONU, Sérgio Vieira De Mello, cuja morte ha 10 anos num atentado terrorista em Bagdade, nos celebramos no Rio no dia 19 de Agosto."

Jose Ramos-Horta

Prémio Nobel de Paz

Presidente da República, Timor-Leste (2007-2012)

Primeiro Ministro e Ministro de Defesa (2006-2007)

Ministro de Relações Externas (2001-2006)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.