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Mais Médicos é vendido em campanha publicitária como um programa redentor

Josias de Souza

10/02/2014 18h12

Nos últimos dias, é impossível assistir à programação dos principais canais de televisão sem tropeçar no Mais Médicos. Implantado em ritmo de truque cinematográfico, o programa é vendido numa campanha publicitária do Ministério da Saúde como iniciativa redentora. "Mais Médicos para o Brasil, mais saúde para você", trombeteiam as peças.

No mundo real, profissionais cubanos começam a bater em retirada. Nesta segunda-feira, veio à luz o segundo caso de deserção. Na propaganda oficial, o cubano Yobani Contino Sosa foi aos holofotes para contestar a crítica de que falta suporte para os médicos enviados aos fundões do país: "A estrutura dos centros de saúde é muito boa", diz ele. "Tem de tudo para que o médico possa trabalhar."

Na letra fria dos contratos, o governo democrático e popular do PT financia a ditadura de Havana ao permitir que Cuba repasse aos 7.378 médicos que já enviou ao Brasil apenas 10% da remuneração do programa. Na vitrine televisiva, Brasília convida novos médicos a se inscreverem no programa sem dizer que o Éden é coabitado pelos explorados dos irmãos Fidel e Raúl Castro.

"Inscreva-se no programa Mais Médicos para o Brasil até dia 25 de julho", convida uma atriz vestida de doutora no corredor de um hospital limpinho. "Você conta com uma bolsa mensal de R$ 10 mil, especialização em universidade pública, suporte clínico presencial e à distância, e ainda tem a oportunidade de levar uma vida melhor para os basileiros."

Só há uma coisa pior do que o antiagovernismo exacerbado: é o pró-governismo gratuito. Tão execrável quanto a exacerbação do discurso de que mais médicos não ajudam a atenuar o drama é uma propaganda que vende a ilusão de que um remendo de última hora apagará décadas de descaso com o SUS. A desfaçatez é maior quando a propaganda enganosa vai ao ar no instante em que Dilma Rousseff e o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha sobem os primeiros degraus do palanque.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.