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8 partidos aliados de Dilma declaram independência e criam blocão de 290

Josias de Souza

21/02/2014 04h22

Rodolfo Stuckert/Ag.Câmara

A semana termina com uma novidade incômoda para Dilma Rousseff. O condomínio partidário que dá suporte legislativo ao governo entrou em ebulição na Câmara. Deu-se na noite de quarta-feira (19). Num encontro que teve a participação de dois generais do PMDB —o presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves e o líder da bancada Eduardo Cunha— representantes de nove partidos, oito dos quais governistas, decidiram reunir suas tropas num mesmo bloco. Juntos, compõem uma infantaria de cerca de 290 votos num colégio de 513.

Os integrantes do bloco autoproclamaram-se "independentes". Significa dizer que condicionarão os votos em plenário aos seus próprios interesses eleitorais, não às conveniências do Planalto. O blog conversou com Henrique Alves na noite passada. Ele disse ter comparecido à reunião como "convidado". Mas endossou a iniciativa. "Todo movimento que busca a afirmação dos partidos por meio da atuação na Câmara conta com o meu apoio. A presidenta Dilma faz o melhor para se reeleger. É lícito que os deputados queiram fazer o melhor para se reeleger também."

O encontro ocorreu no apartamento funcional do deputado Luiz Fernando Faria (PP-MG). Terminou perto da 1h, já na madrugada de quinta (20). Além do PMDB, estavam representados os pseudogovernistas PP, PR, Pros, PDT, PTB, PSD e PSC. Lá estava também o deputado paranaense Fernando Franscischini, líder do recém-fundado Solidariedade, hoje alinhado à candidatura presidencial do tucano Aécio Neves.

A novidade coincide com a reforma ministerial de Dilma, empacada há duas semanas. Após promover na Esplanada as acomodações que interessavam ao PT, Dilma pisou no freio. O PMDB, seu principal parceiro, encontra-se no freezer há duas semanas. Foi contra esse pano de fundo que os supostos aliados da presidente decidiram isolar o PT na Câmara e priorizar os seus interesses em detrimento dos pedidos do governo.

Generalizou-se entre os sócios do condomínio governista a impressão de que Dilma trata o seu partido de modo diferenciado. Na fachada do governo, o PT e seus 17 ministérios. Nos fundões da Esplanada, o PMDB e o resto —em pastas que, além de tidas como "secundárias", são compartilhadas com outras legendas e coabitadas por olheiros da presidente.

Nos últimos dias, acumularam-se os sinais de irascibilidade e impaciência. Em nota, a bancada do PMDB abriu mão dos dois ministérios que ocupa: Agricultura e Turismo. O PTB informou que também já não fazia questão de ocupar um ministério. E se Dilma concluir a reforma? Bem, nessa hipótese quem assume compromisso com ela é o partido, não a bancada. Dito de outro modo: Dilma pode levar o tempo de propaganda eleitoral dos partidos na tevê. Mas os deputados consideram-se desobrigados de votar com o governo em todas as matérias submetidas ao plenário. A ver.

Os operadores do novo bloco marcaram para terça-feira (25) a segunda reunião, dessa vez na casa de Eduardo Cunha, o líder do PMDB. Nesse encontro, o grupo deve esboçar uma pauta de projetos que interessam a todos —da reforma política ao piso nacional dos agentes comunitários de saúde. Se soubesse o que vem por aí, Dilma talvez tivesse um ataque de Dilma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.