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PT decide comprar briga contra Henrique Alves

Josias de Souza

18/04/2014 05h37

As relações entre os dois maiores partidos do bloco de apoio a Dilma Rousseff voltarão a azedar nos próximos dias. Sob a voz de comando do seu presidente, Rui Falcão, o PT decidiu pegar em lanças para melar um plano do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, do PMDB, .

Em combinação com líderes de partidos governistas e oposicionistas, Henrique decidiu pautar para a primeira quinzena de maio, provavelmente no dia 13, a votação da proposta de emenda à Constituição da reforma política. Em articulação comandada por Falcão, a bancada petista da Câmara tentará impedir.

O petismo enrolou-se em duas bandeiras que lhes são caras: o financiamento publico de campanha e a realização de um plebiscito sobre a matéria. A proposta que Henrique quer votar institui um modelo híbrido de custeio das campanhas, com verbas públicas e privadas. Em vez de plebiscito, prevê a convocação de um referendo.

O plebiscito e o referendo são mecanismos de democracia direta. Permitem convocar os eleitores para se pronunciar sobre temas específicos. A diferença entre um e outro é que, no caso do plebiscito, o povo é chamado a opinar antes da deliberação do Legislativo. Já o referendo é convocado depois da votação de determinada proposta, cabendo à sociedade ratificá-la ou não.

As posições do PT são minoritárias na Câmara. Mas o partido controla 88 votos no plenário. É a maior bancada da Casa. Valendo-se de manobras regimentais, pode impedir ou, no mínimo, protelar a votação da reforma pretendida por Henrique Alves. Por ironia, a proposta que a legenda deseja enterrar foi elaborada por um grupo coordenado pelo petista Cândido Vaccarezza (SP).

Numa demonstração de que pretende levar às últimas consequências a conspiração contra os planos de Henrique Alves, o PT aprovou em sua Executiva Nacional o "fechamento de questão". Trata-se de dispositivo previsto nos estatutos da legenda. Obriga os filiados a seguirem as deliberações partidárias. Quer dizer: o próprio Vaccarezza terá de votar contra a proposta que ajudou a colocar em pé. Sob pena de expulsão.

Em viagem oficial à China, Henrique Alves retorna ao Brasil neste final de semana. Candidato ao governo do seu Estado, o Rio Grando do Norte, ele deseja fazer da reforma política uma espécie de grand finale do seu mandato parlamentar. Será informado de que o PT decidiu ser o seu estorvo.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.