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Lisboa:Ney Matogrosso critica Copa e corrupção

Josias de Souza

19/05/2014 17h56

De passagem por Lisboa, o cantor Ney Matogrosso deu uma ácida entrevista sobre o Brasil à tevê portuguesa RTP (veja trechos acima). A conversa foi veiculada há 13 dias. E apresentou aos patrícios um país muito diferente daquele que havia sido pintado por Lula numa entrevista à mesma emissora, duas semanas antes.

Ney disse que há "um enorme desconforto" dos brasileiros com "os bilhões de reais" gastos pelo governo nos estádios da Copa. Afirmou que muitos virarão "elefantes brancos". Em contraposição, declarou que o brasileiro não vê seus impostos serem revertidos em serviços públicos de qualidade.

O cantor criticou a educação precária e os transporte público "horroroso". Nos hospitais, disse ele, "as pessoas estão sendo jogadas no chão, em cima de um paninho". Ecoou as faixas de junho: "Como é que o povo pode estar satisfeito com isso, porque é tudo padrão Fifa? Que seja padrão Fifa para o povo brasileiro e não para a Fifa."

O repórter Vítor Gonçalves, que ouvia Ney, perguntou se ele é um crítico do PT. "Eu sou crítico com a política, porque eu sempre imaginei que houvesse um ideal elevado na política. Não vemos isso. É corrupção diariamente, semanalmente, escândalos de corrupção no país."

Não viu diferença entre o PT e os outros partidos?, insistiu o entrevistador. E Ney: "No PT, é muito mais visível a corrupção. Agora, não estou dizendo que é só o PT. Eu sei que todos são corruptos. Em todos os partidos há corrupção."

No final da conversa, Ney menciona o caso do pedreiro Amarildo, morto por policiais no Rio. Tachou de "autoritária e fascista" a ação das polícias brasileiras. O entrevistador declarou-se surpreso com a visão de Ney Matogrosso sobre o Brasil. E ele: "Pois é, mas infelizmente é o Brasil que eu posso falar. Eu adoraria estar aqui dizendo que tudo está maravilhoso, que o povo está feliz, bem tratado, bonito e viçoso. Mas não é!"

Tomado pelas palavras, Ney Matogrosso se encaixa no padrão do brasileiro retratado nas pesquisas mais recentes. Quer mudança. Mas olha ao redor e vê que "em todos os partidos há corrupção". Os portugueses que o assistiram depois de ter visto Lula decerto ficaram embatucados.

Sobre os protestos, Lula dissera: "Deixa o povo protestar. É um povo indo pra rua protestar e outro indo pro estádio ver o jogo." Sobre as reivindicações, afirmara: "O povo quer mais. Você não tenha dúvida que é assim a humanidade. Se você consegue comer hoje um contrafilé, na outra semana você quer um filé."

Serviços públicos ruins? "Eu acho extraordinário que o povo queira mais. Escola padrão Fifa, saúde padrão Fifa, transporte padrão Fifa. O pessoal querer mais eu acho ótimo. Quanto mais reivindicam, mais eu tenho o que fazer." Corrupção? "O tempo vai se encarregar de provar que o mensalão teve 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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