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Josias de Souza

Para PSDB, Campos virou ‘linha auxiliar do PT’

Josias de Souza

29/05/2014 03h23

Um dirigente do PSDB elaborou na última segunda-feira (26) uma "nota" para orientar o debate da juventude tucana sobre a evolução da conjuntura eleitoral de 2014. Redigido para consumo interno, o texto foi obtido pelo blog. Trata da mudança de comportamento do presidenciável do PSB, Eduardo Campos, que passou a fazer comentários depreciativos sobre Aécio Neves.

'A Mudança de Postura de Eduardo Campos', eis o título da nota. Sustenta que o discurso do candidato do PSB começou a mudar "a partir do crescimento dos tucanos nas pesquisas". Nas últimas sondagens do Datafolha e do Ibope, Aécio amealhou 20% das intenções de voto. Campos, obteve 11%. A acidez de Campos em relação a Aécio, que já era evidente, ficou ainda mais nítida na entrevista concedida por ele ao programa Roda Viva.

Subdividada em seis tópicos, a análise do dirigente tucano ecoa conclusões que Aécio e seus operadores só costumam emitir entre quatro paredes. No item quatro, o texto anota: "Sob o argumento de que poderia se transformar em linha auxiliar do tucano, Eduardo começa a se transformar em linha auxiliar do PT."

O texto realça que o presidenciável do PSB "passou a usar contra Aécio o mesmo discurso da Dilma e do PT, de que o mineiro significa a volta ao passado. Com isso, consegue apenas amplificar o discurso do PT."

O documento acrescenta que, ao distanciar-se prematuramente de Aécio, "Eduardo joga por terra a única forma concreta de demonstrar, na prática, o que seria a nova política: colocar os interesses do país à frente dos interesses pessoais, o que significaria, nesse caso, reforçar o campo das oposições contra o governo do PT. E, a partir daí, explicitar suas diferenças com Aécio."

Nos itens dois e três, a nota atribui o movimento de Eduardo Campos à influência de sua companheira de chapa. "Fica cada vez mais nítido o protagonismo da Marina [Silva] dentro da chapa, o que reforça a ideia […] de que o PSB tem dois candidatos a presidente."

Nessa versão, "Marina impõe limites e contornos à candidatura de Eduardo e, na medida em que ele aceita, revela as suas primeiras contradições, já que a sua biografia política, não casa com o discurso que Marina tem forçado Eduardo a  assumir."

No tópico cinco, a análise do dirigente tucano faz menção a uma notícia veiculada pela Folha em sua edição do último domingo (25). A reportagem revelou que equipamentos e servidores da prefeitura de Guarulhos, comandada pelo PT há 14 anos, foram usados para criar páginas que, sob título de "Aécio Boladasso", difundiam na internet ofensas ao candidato do PSDB.

Diz o texto repassado à juventude do PSDB: "Chamou a atenção também o comportamento de Eduardo diante das denúncias da Folha de que a prefeitura do PT estava usando máquinas e funcionários para atacar Aécio de forma clandestina nas redes sociais."

O documento recorda que Aécio teve reação diversa quando Eduardo Campos foi ofendido pelo PT em janeiro. Num texto publicado no Facebook oficial do partido de Dilma Rousseff, o candidato do PSB foi chamado de "tolo", "playboy mimado" e candidato "sem projeto, sem conteúdo e sem compostura política."

E a nota do PSDB: "Por muito menos, quando Eduardo foi chamado de playboy pelo PT, Aécio veio a público se solidarizar com o pernambucano, mesmo se arriscando a ser alvo de mais  ataques do PT. Agora, em um caso de muito maior gravidade, Eduardo ficou em silêncio, lembrando a máxima de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo."

No sexto e último item do documento reservado do PSDB, seu autor revela, em timbre lamurioso, o grau de intoxicação a que chegou a relação do tucanato com Eduardo Campos: "Pelo visto, nada mais parecido com a nova política do que a velha política. O Brasil, que começou a ver no relacionamento amigável e respeitoso de Aécio e Eduardo uma nova forma de fazer política, sai perdendo. O PT comemora e torce para que Marina ganhe cada vez mais influência na chapa."

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.