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Triunfo com sufoco e gol afanado é ótimo aviso

Josias de Souza

12/06/2014 20h46

Só os analfabetos em alma humana não perceberam que o Brasil obteve contra a Croácia a maior vitória que poderia ter arrancado numa estreia de Copa. Digo 'maior' porque a seleção venceu sem show. O triunfo sem apoteose decerto deixou muita gente aborrecida. Mas anote aí: coisa melhor não poderia ter sucedido.

Imagine se, por absurdo, o escrete tivesse prevalecido de goleada. Pense na hipótese de a seleção atropelar também México e Camarões. Nas fases seguintes, iríamos enfrentar rivais como Espanha e Alemanha com o rei injetado no estômago. Ou, por outra: contra os gigantes, entraríamos em campo com uma sensação mortal de invencibilidade.

Seria arriscadíssimo! Melhor tomar imediatamente um banho de realidade. Dizia-se que a retaguarda brasileira era extraordinária. E Marcelo, escorando chute perdido de Fulanovic, marcou gol contra. Fred não viu a bola. Mas, tocado inofensivamente por Beltranovic, o centro-avante ruiu cenograficamente. Cavou um pênalti sem precisar gritar 'mãos ao alto!'.

Quem foi o melhor em campo? Oscar. Logo ele, que atravessara a semana sob ameaça de ser barrado por Felipão, abrindo vaga para o reserva Willian. Pois foi este o nome do jogo. Uma evidência de que, quando submetidos à evidência de que estão sujeitos à condição humana, nossos craques podem virar anjos.

Subtraindo o gol afanado, o Brasil teria batido a Croácia por uma diferença magra: 2 X 1. E olhe lá! Resultados esquálidos deixam o torcedor brasileiro com o pé atrás. A desconfiança aumenta se, no meio de um jogo contra uma seleção de segunda classe, o país inteiro -da Dilma ao vendedor de picolé- fica mordendo os lábios com medo de um desastre.

Em 1950, perdemos a Copa no Maracanã porque, nas pegadas de uma goleada na Espanha, o Brasil entrou em campo imaginando-se um campeão de véspera. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, sobrevive até hoje como uma humilhação nacional. Assim, é melhor guardar o show de bola para a grande final. Isso, claro, se os mortais do escrete sobreviverem até lá.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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