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Fragilidade partidária fortalece projeto de Marina

Josias de Souza

20/08/2014 21h28

Devolvida ao primeiro plano da sucessão por uma tragédia, Marina Silva tornou-se uma candidata paradoxal. Comparada com seus principais antagonistas, sua estrutura partidária é mais precária, sua caixa de donativos é menor e seu tempo de propaganda é diminuto. A despeito disso, Marina entrou na corrida já na segunda colocação, exibe musculatura para tirar Aécio Neves do segundo turno e rouba o sono da favorita Dilma Rousseff.

Por quê? O que fortalece o projeto de Marina é a fragilidade do arranjo partidário que ela cavalga, eis a resposta. Segundo o Datafolha, o desempenho de Marina é mais pujante junto ao eleitorado com ensino superior (30%), com renda de 5 a 10 salários mínimos (20%) e jovens de até 24 anos que moram em grandes cidades (28%). Foi desse mundo que saiu a rapaziada que foi às ruas em junho de 2013 para informar que está de saco cheio dos partidos, dos políticos e de 'tudo isso que está aí'.

Nos lábios de Eduardo Campos, a discurso da "nova política" soava falso. Na boca de Marina Silva, ganha densidade. Pelo manual da política tradicional, a aversão de Marina aos acertos estaduais do PSB com os tucanos Geraldo Alckmin e Beto Richa é intransigência. Aos olhos do eleitor típico de Marina é coerência. A exemplo do que ocorrera em 2010, Marina estabeleceu ligação direta com um pedaço do eleitorado que é avesso à intermediação partidária. Isso é suficiente para embaralhar a sucessão. Mas não basta para vencer a disputa.

Para prevalecer, Marina terá de ajustar o seu perfil, sem deformá-lo. A versão 2014 da candidata precisa ser mais ampla do que a de 2010. Mantido o veto aos palanques tucanos, Marina faria um bem a si mesma se revogasse a proibição do uso de sua imagem nos santinhos de candidatos a deputado e a senador. Numa eleição apertada, pode fazer a diferença.

Sem prejuízo dos seus vínculos com o asfalto, Marina não perderia nada se contasse à clientela do Bolsa Família de onde veio e como ascendeu na vida. Sem ferir seus alegados rigores programáticos, a candidata evitaria o desperdício de tempo se convencesse o agrobaronato de que é falsa a ideia de que não tolera o agronegócio.

De resto, Marina tem menos de dois meses para informar à plateia como fará para governar o país se for eleita numa campanha em que jogou todas as legendas no caldeirão da velha política –do PMDB ao PSDB.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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