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Dilma ensina: é errando que se aprende. A errar!

Josias de Souza

12/09/2014 06h22

Em entrevista veiculada na noite passada pela Rede TV!, Dilma Rousseff sinalizou que, sob sua presidência, o governo jamais se acomodará. Entre o certo e o errado, haverá sempre espaço para mais erros. Na Petrobras, por exemplo, a extensão do equívoco será ilimitada.

A Petrobras, como se sabe, convive com o absurdo. Preso, um ex-diretor conta às autoridades como saqueou as arcas da companhia para saciar as pulsões patrimonialistas de políticos governistas. Contra esse pano de fundo, perguntou-se a Dilma se extinguirá o modelo das nomeações políticas.

E ela: no meu governo, escolhi dentre os que eu considerava os melhores quadros da Petrobras. Vou continuar fazendo assim. Foi o que o presidente Lula fez. Vou continuar mantendo esse critério de escolher dentre os melhores. Esse é o melhor critério.

Quem assistiu foi tomado de assalto (ops!) pela impressão de que, sob o PT, o absurdo adquiriu uma doce, persuasiva, admirável naturalidade. A menos de quatro meses de fechar a conta do seu primeiro mandato, Dilma se espanta cada vez menos. Tornou-se uma administradora de pouquíssimos espantos.

Dilma referiu-se a Paulo Roberto Costa, o ex-executivo da Petrobras que virou delator, como um competente funcionário de carreira. Lembrou-se a ela que o executivo-delator tinha virado diretor de Abastecimento da Petrobras por indicação política. Sustentavam-no PT, PMDB e PP.

A senhora acha adequado? Em vez de responder com um 'sim' ou 'não', a Dilma preferiu praticar o esporte preferido do PT: tiro ao FHC. Paulo Roberto foi alto funcionário do governo Fernando Henrique, disse ela. Se não me engano, foi diretor da Gaspetro e gerente de exploração e prospecção de petróleo da região Sul. Dilma concluiu: os melhores quadros da Petrobras transitam de governo para governo.

A entrevistada não explicou se Paulinho, como Lula chamava o ex-executivo preso, já trazia o selo partidário da gestão FHC. Para ela, o apadrinhamento é normal. Se os aliados indicarem para a Petrobras uma ratazana, Dilma não fará a concessão de uma surpresa. É ratazana? Pois que seja ratazana! Se for uma ratazana de carreira, aí mesmo é que a nomeação sai. Se for uma alta ratazana da gestão FHC, as chances quintuplicam.

Entende-se agora por que Dilma mantém na Petrobras personagens como o ex-senador Sérgio Machado. Foi alojado no comando da subsidiária Transpetro em 2003, no alvorecer do primeiro reinado de Lula. Indicou-o, decerto movido por alguma inspiração patriótica, o notório senador Renan Calheiros.

Em dezembro, Sérgio Machado completará 12 anos de Petrobras. De duas, uma: ou o afilhado de Renan é um executivo genial ou Dilma, a exemplo do que fizera Lula, suprimiu dos seus hábitos o ponto de exclamação.

Amanhã, se der algum novo rolo, Dilma repetirá o que diz agora sobre Paulo Roberto Costa, o Paulinho: eu não sabia. O que nos espantou a todos foi que um desses quadros competentes da Petrobras cometeu esses delitos, ela acrescentou.

Sem querer, Dilma revoluciona o brocardo. Se o seu governo ensina alguma coisa é o seguinte: é errando que se aprende… A errar!

– Atualização feita às 19h44 desta sexta-feira (12): a propósito da menção feita no texto acima ao presidente da Transpetro, Sérgio Machado, a subsisiária da Petrobras enviou uma nota ao blog. Lendo-a, percebe-se que o apadrinhado do senador Renan Calheiros atribui a longevidade no cargo à sua genialidade gerencial. Vai abaixo a íntegra do texto:

AspasPequenasCom relação ao texto publicado no Blog do Josias de Souza nesta sexta-feira (12/09) mencionando o presidente da Transpetro, Sergio Machado, a Companhia esclarece que, nos últimos anos, obteve resultados alcançados por poucas empresas brasileiras, públicas ou privadas.

Os números demonstram a eficiência da atual gestão e falam por si: entre 2003 e 2013, o faturamento aumentou em média 13,5% ao ano; no mesmo período, o investimento consolidado cresceu 46% ao ano, em média; e o Ebitda, um importante indicador financeiro, teve crescimento médio de 15,1% ao ano.

Se analisados apenas os números do balanço do exercício de 2013, os resultados são igualmente muito expressivos: o faturamento cresceu 12% na comparação com o ano anterior; o lucro líquido aumentou 30,1% (ante 2012); e o crescimento o Ebitda foi de 25,6%, também em relação a 2012.

Cabe ressaltar ainda que o Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (Promef) foi a grande alavanca que possibilitou o renascimento da indústria naval brasileira. Com um investimento de R$ 11,2 bilhões na encomenda de 49 navios e 20 comboios hidroviários, viabilizou a instalação de três novos estaleiros no país: Atlântico Sul e Vard Promar em Pernambuco; e Rio Tietê, em São Paulo.

Desde 2011, sete novos navios da Transpetro entraram em operação e, atualmente, 14 estão em construção (6 deles no estágio de acabamentos). Isso depois de o Sistema Petrobras ter ficado 14 anos sem receber um único navio construído no Brasil (1997-2011).

A indústria naval gera mais de 80 mil empregos diretos no país, segundo dados do Sinaval (na virada do século esse número era de apenas 2 mil postos de trabalho). Hoje, o Brasil tem a 3ª carteira mundial de encomendas de petroleiros e a 4ª de navios em geral".

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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