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Confesso que, transtornado, anularei três votos

Josias de Souza

05/10/2014 05h20

Confesso que sou um eleitor transtornado. Sempre critiquei o voto nulo. Achava um desperdício. Mas, neste domingo, anularei parte dos meus votos. Procurei muito. Mas não achei no cardápio eleitoral de Brasília, onde moro, opções aceitáveis para o governo, para a Câmara Federal e para o Legislativo local. Entre o lamentável e o impensável, escolhi o exílio do voto inválido, sem efeito, ineficaz.

Votei pela primeira vez em 1989, na bica de completar 28 anos. Desejei que o encontro com a urna tivesse ocorrido antes. Mas a ditadura militar não deixou. Lembro de ter dado ao momento a solenidade de um ritual raro. A ingenuidade ainda autorizava a suposição de que minha preocupação era útil.

A redemocratização, recém-conquistada, fizera da democracia uma musa. Respirava-se uma doce atmosfera de urgência. Tornei-me um devoto do voto. Foi longo o caminho entre a devoção e o transtorno. Durou 25 anos. E passou por dois estágios antecedentes: o ceticismo e o nojo.

O jornalismo me empurrou para dentro de ambientes inóspitos: o Planalto, o Congresso… Jovem repórter, recebi de Roberto Campos, um parlamentar odiado, o melhor ensinamento: "Atenção, meu rapaz, não é incomum que o diâmetro do cérebro dos políticos seja menor do que o dos seus bolsos."

Olhando ao redor, não demorei a perceber que a política, segunda profissão mais antiga do mundo, é muito parecida com a primeira. Compreendi o sentido da tese de Churchill —aquela segundo a qual a democracia é a pior forma de governo salvo todas as demais. Significa que, sob tal regime, as pessoas têm ampla liberdade para exercitar sua capacidade de fazer besteiras por conta própria.

As frustrações reiteradas mataram em mim a pieguice eleitoral. Há tempos me dei conta de que, no limite, a eleição é uma loteria sem prêmio. O voto, um equívoco renovado a cada quatro anos. Não sou adepto da teoria da "farinha do mesmo saco". Sei que, até por impossibilidade genética, os políticos não são todos iguais. O papel do eleitor é distinguir as diferenças. Tentei. Juro!

Assisti ao horário eleitoral. Nada. Percorri os sites de campanha. Perda de tempo. Troquei impressões com familiares e amigos. Piorou. Cogitei arriscar, como já fiz tantas vezes. Contudo, minha consciência vetou o velho hábito de votar no menos pior quando não há o nitidamente melhor. Súbito, caiu-me a ficha. Chega!

Restabelecerei o ritual do primeiro voto. Buscarei no guarda-roupa um traje especial, à altura da ocasião. Ao entrar na cabine eleitoral, levarei um ar solene à face. Não terei pressa. Degustarei o momento. Farei uma visita ao meu interior, para certificar-me de que não esqueci a consciência em casa. Esticarei o dedo. E votarei nulo para governador, deputado federal e deputado distrital. Transtornado, anularei três votos. E viva a democracia!

– Em tempo: Ilustração via Nani.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.