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Josias de Souza

Petrobras tornou-se uma ex-estatal hemorrágica

Josias de Souza

15/12/2014 19h27

O signatário do blog testemunhou a cena: após submeter-se a uma sabatina, em julho, Dilma Rousseff contou aos repórteres, entre risos, uma história pitoresca. Hóspede eventual do Alvorada, uma tia da presidente evita andar pelo palácio durante a noite. Tem receio de encontrar o espectro do general João Baptista Figueiredo, último presidente do ciclo militar.

Hoje, um novo fantasma assombra a residência oficial de Dilma. É o fantasma dela mesma, no tempo em que era uma esquerdista avessa às privatizações e acusava o tucanato de tramar a venda da Petrobras. A Dilma de ontem flutua sobre a cabeça da atual quando ela é arrancada do sono por pesadelos provocados pela Operação Lava Jato.

Arrematada pela pirataria partidária, a Petrobras tornou-se uma ex-estatal hemorrágica. Nesta segunda-feira (15), as ações da companhia derreteram mais de 9%. O papelório evaporou mais de 25% em uma semana. Deve-se a queda às dúvidas ateadas no mercado pelo adiamento da divulgação do balanço da ex-estatal e às certezas expostas nas ações penais que o juiz Sérgio Moro deflagra no Paraná. Como se fosse pouco, a cotação internacional do petróleo despenca.

Saqueada por partidos e varejada por procuradores e delegados federais, a Petrobras começa a dar adeus ao seu cronograma de investimentos. Vê-se momentaneamente compelida a priorizar o gerenciamento de sua megadívida —coisa de R$ 363 bilhões. E Dilma, aterrorizada pelo fantasma dela mesma, assiste passivamente à derrocada da ex-estatal.

Atônita, Dilma demora para formalizar o afastamento de Graça Foster, uma presidente que já não preside a Petrobras. E autoriza a prorrogação da licença de Sérgio Machado, um apadrinhado de Renan Calheiros que jamais deveria ter sido acomodado no comando de uma subsidiária como a Transpetro.

Alguém precisa levar um exorcista para o Palácio da Alvorada. Nos últimos dias, o fantasma da antiga Dilma passou a dar rasantes sobre a cama da Dilma atual. Carrega um cartaz com um lema da década de 50: "O petróleo é nosso." A presidente finge que não vê.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.