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Discurso de Dilma teve um déficit de autocrítica

Josias de Souza

01/01/2015 18h02

Ao ser empossada no seu segundo mandato, Dilma Rousseff pronunciou no plenário do Congresso um discurso inusitado. Estava apinhado de um tipo peculiar de autocrítica. Sob conjuntura adversa, a presidente fez uma firme autocrítica a favor de si mesma. Ela se autoelogiou até nos escassos trechos em que reconheceu a necessidade de promover ajustes, sobretudo na economiae no combate à corrupção. Ao final do discurso, restaram duas impressões: 1) Dilma não se considera responsável pelos problemas que Dilma ajudou a criar. 2) A ficha ainda não lhe caiu completamente.


Há quatro anos, em janeiro de 2011, discursando no mesmo cenário, Dilma dissera ter sido eleita para assegurar a longevidade do ciclo de crescimento econômico. Ela acabara de herdar de Lula um PIB que vitaminado em  7,5% no ano de 2010. Agora, às voltas com uma economia estagnada, Dilma reconheceu: "Mais do que ninguém, sei que o Brasil precisa voltar a crescer. Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste das contas públicas, aumento na poupança interna, ampliação de investimento e elevação da produtividade da economia."

Ela prosseguiu: "Faremos isso com o menor sacrifício possível para a população, em especial os mais necessitados. Reafirmo o meu profundo compromisso com a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdênciários. Temos consciência de que a ampliação e a sustentabilidade das políticas sociais exigem equidade e correção permanente das distorções e eventuais excessos…"

Até aí, a despeito da tentativa de minimizar a crise e manter um pé no palanque, Dilma aproximou-se dos objetivos do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que a ouvia da plateia. Mas o discurso perdeu completamente o nexo nos trechos em que Dilma disse coisas assim:

"As mudanças que o país espera para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia. Isso, para nós todos, não é novidade. Sempre orientei minhas ações pela convicção sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade do controle da inflação e do imperativo da disciplina fiscal. E a necessidade de conquistar e merecer a confiança dos trabalhadores e dos empresários."

Ora, se as ações de Dilma tivessem sido pautadas pelos princípios que ela diz valorizar, não teria sido necessário recrutar no Bradesco um eleitor de Aécio Neves para preparar um purgante fiscal estimado reservadamente em até R$ 100 bilhões. Joaquim Levy deve ter perguntado de si para si: o que diabos estou fazendo aqui?

Dilma soou paradoxal também nos instantes em que falou de corrupção. Mencione-se, por eloquente, o pedaço do discurso em que a presidente mencionou a Petrobras. Depois de reiterar o lero-lero sobre um "grande pacto nacional contra a corrupção", Dilma afirmou que a Petrobras, "empresa com 86 mil empregados dedicados, honestos e sérios, teve, lamentavelmente, alguns servidores que não souberam honrá-la, sendo atingidos pelo combate a corrupção."

Do modo como se expressa, Dilma parece considerar que os usurpadores da Petrobras desceram de Marte. Convém recordar que foram nomeados sob Lula e mantidos pela própria Dilma até o segundo ano de sua gestão. Cobraram propinas em nome de partidos aliados, sob o nariz da então presidente do Conselho de Administração da estatal, que se chamava Dilma Rousseff. Deixaram a diretoria da Petrobras a pedido, sob elogios pelos "serviços prestados".

Dilma prosseguiu: "A Petrobras já vinha passando por um rigoroso processo de aprimoramento de gestão. A realidade atual só faz reforçar nossa determinação de implantar na Petrobras a mais eficiente e rigorosa estrutura de governança e controle que uma empresa já teve no Brasil." O que a roubalheira reforça é justamente o contrário: a coisa mais eficiente na Petrobras era a governança da corrupção.

A certa altura, Dilma afirmou: "Temos muitos motivos para preservar e proteger a Petrobras de predadores internos e de seus inimigos externos." A frase de efeito é oca de sentido. Os predadores internos foram enfiados dentro da Petrobras pelos aliados do governo, entre eles os dois principais: PT e PMDB. Os inimigos externos mais visíveis são as empreiteiras que abasteceram simultaneamente o propinoduto instalado na estatal e os caixas de campanha, incluindo os de Dilma e dos outros presidenciáveis.

Como se vê, Dilma deve ter sido maquiada para a posse por mãos especializadas. Não é possível que ela tenha olhado no espelho antes de se dirigir ao Congresso Nacional. Do contrário, uma voz do outro lado do reflexo teria dito: "Olá, vim apresentar você a você mesma."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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