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Dilma dá ao PMDB balcão sem verbas e cargos

Josias de Souza

07/04/2015 04h12

Em conversas que entraram pela madrugada desta terça-feira (7), o PMDB revelou-se dividido em relação à sondagem de Dilma Rousseff para que o partido assuma a pasta das Relações Institucionais, que cuida da coordenação política do governo. Ficou claro que a eventual transferência do peemedebista Eliseu Padilha do Ministério da Aviação Civil para o coração do Palácio do Planalto não fará do PMDB um aliado fiel ao governo. Muito longe disso.

No modelo de coalizão partidária que vigora no Brasil, articulação política virou um eufemismo para a troca de cargos e verbas por votos no Congresso. Aí começa o problema. Na expressão de um membro da Executiva do PMDB, a pasta das Relações Institucionais é, hoje, um "balcão vazio". Num governo de continuidade, não tem cargos a oferecer. Submetida aos rigores orçamentários impostos pelo ajuste fiscal, faltam-lhe também as verbas.

Sem essas duas matérias-primas, avaliam caciques do PMDB, ainda que fosse um gênio da articulação, Padilha não conseguiria pacificar o condomínio governista, que impõe sucessivas derrotas a Dilma no Congresso. Um correligionário aconselhou Padilha a refletir sobre sua própria experiência no governo antes de responder positivamente à sondagem de Dilma.

No comando do Ministério da Aviação Civil há três meses, Padilha não conseguiu nomear gestores de sua confiança para a Infraero, estatal que pende do organograma de sua pasta. Pois a mesma Dilma que o impediu de realizar as nomeações convida-o agora para gerenciar o balcão vazio, atrás do qual o petista Pepe Vargas, no momento um quase ex-ministro, virou a personificação do nada.

Presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, no momento os principais algozes de Dilma no Legislativo, trataram de tomar distância da articulação. Se a presidente quiser levar adiante a ideia de transferir Padilha para o Planalto, diz a dupla, não deve contar com retribuições do PMDB.

A debilidade de Dilma no Congresso interessa a Renan e a Cunha. Donos da agenda do Legislativo, os dois servem rações semanais de constrangimento ao governo. Com isso, as crises política e econômica monopolizam as manchetes, sobrando menos espaço para o noticiário sobre os inquéritos abertos contra ambos no STF por suspeita de envolvimento no escândalo das propinas na Petrobras.

Noutro paradoxo que marca as relações do PMDB com o governo, os presidentes da Câmara e do Senado defendem a redução do número de ministérios de 39 para 20 e, simultaneamente, apadrinham nomes distintos para uma mesma pasta, a do Turismo. Cunha defende a nomeação de Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara. Renan prefere manter o atual ministro Vinicius Lages, seu apadrinhado. E Dilma sujeita-se ao contrassenso.

A transferência de Eliseu Padilha para o Planalto poderia facilitar a resolução desse impasse. Henrique Alves poderia substitui-lo na pasta da Aviação Civil. Ou poderia ser efetivado no Turismo se Vinicius, o chegado de Renan, não se importasse de trocar de ministério.

A principal conversa da noite ocorreu no Jaburu, o palácio que serve de residência para o vice-presidente Michel Temer. Amigo de Padilha, Temer gostaria de vê-lo à frente da articulação política. Mas ouve opiniões contrárias de outros amigos, que têm o mesmo apreço por Padilha. É o caso de Moreira Franco, ex-titular da Aviação. Ou de Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Lula e ex-vice-presidente da Caixa.

Moreira preside no momento a Fundação Ulysses Guimarães, braço acadêmico do PMDB. Dedica-se a organizar o partido para as eleições municipais de 2016, um pleito que é tratado pelo PMDB como antessala do lançamento de uma candidatura partidária às eleições presidenciais de 2018, longe do PT. Para uma legenda que rumina tais planos, a proximidade com Dilma, presidente aprovada por apenas 13% dos entrevistados do Datafolha, pode ser letal.

Outro amigo de Temer, Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Lula e ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal na primeira gestão de Dilma, vai direto ao ponto ao expor sua aversão à hipótese de transferência do amigo Padilha para o Planalto. Em conversa com um amigo, Geddel disse na noite passada que "chegou a hora de as máscaras caírem".

Geddel foi ao ponto: o PMDB tem de dizer quem está indicando quem. Se o partido estiver interessado em cargos a essa altura, deve parar de fazer "marola" no Congresso e arquivar o projeto presidencial de 2018. Sob pena de dar razão a Cid Gomes, que criticara os governistas que armam emboscadas para o governo sem "largar o osso". As conversas sobre a sondagem de Dilma prosseguem nesta terça-feira. A presidente conta com uma resposta rápida.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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