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Se fosse uma empresa, o PT decretaria falência

Josias de Souza

05/05/2015 18h20

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Partido abre falência? Partido fecha as portas? Pode-se penhorar a geladeira de um partido? O programa que o PT exibe na noite desta terça-feira —dez minutos em rede nacional de rádio e tevê— é o mais suscinto e eficiente roteiro de uma ruína partidária. Como tantos outros, o PT tornou-se um partido com fins lucrativos. É 100% financiado pelo déficit público. Mas como não tem a configuração formal de uma empresa, a legenda não abre falência, não fecha as portas.

Nada mais sintomático do que a ausência de Dilma Rousseff no programa do PT. É como se a presidente da República, com a imagem no chão, temesse levar o seu prestígio ao subsolo. Nada mais elucidativo do que o papel que Lula decidiu desempenhar na peça. Com tantos temas relevantes a tratar —crise econômica, ajuste fiscal, roubalheira na Petrobras… —o morubixaba petista optou por tratar de terceirização, como se esse fosse o grande problema da República.

Sem Dilma e com esse Lula autolimitado, o que mais chamou a atenção no programa do PT foi uma piada. O partido fez pose de paladino do combate à corrupção. E comprometeu-se a expulsar dos seus quadros os filiados que forem condenados. Ora, ora, ora… Fala sééério! É verdade que João Vaccari Neto tornou-se uma condenação esperando para acontecer. Mas e quanto ao Dirceu? E o Genoino? E o Delúbio? E o João Paulo?

No tempo em que era apenas uma organização partidária, o PT tinha na ética o seu principal capital. Desde que passou a se confundir com uma organização criminosa, o partido tem no cinismo o seu grande patrimônio. No programa desta terça, o PT sustenta que não é a única agremiação a ter filiados pilhados com a mão na cumbuca. Até a oposição está enrolada, realçou o PT no programa. O mais dramático é que, nesse ponto, o partido está coberto de razão. O sistema político-partidário do Brasil apodreceu. E já não há um PT capaz de exigir a separação entre as coisas nossas e a cosa nostra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.