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Governo Maduro apodrece e Dilma tapa o nariz

Josias de Souza

16/06/2015 05h08

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O governo da Venezuela se recusa a autorizar a aterrissagem de um avião da FAB que levaria uma comitiva de senadores brasileiros a Caracas na quinta-feira. Pense nisso sem pensar no resto. Esqueça a precariedade da situação política venezuelana. Pense só nisso. O apoio incondicional do Brasil a um regime que silencia seus opositores encarcerando-os já era esquisito. Agora, visto assim, isoladamente, sem explicações, o veto à viagem dos parlamentares torna esse apoio um escárnio.

Dilma Rousseff pegou em lanças pelo colega venezuelano Nicolás Maduro na visita que fez a Bruxelas na semana passada. Discursando para seis dezenas de chefes de Estado na cúpula de países da Europa e da América Latina, a presidente do Brasil, língua em riste, sapecou: "Rechaçamos a adoção de quaisquer tipos de sanções contra a Venezuela."

Decorridos seis dias, o petista Jaques Wagner, ministro da Defesa de Dilma, repassou ao presidente do Senado, Renan Calheiros, a constrangedora informação de que o governo companheiro da Venezuela não quer deixar pousar o avião da FAB que levaria a Caracas, na quinta-feira, uma comitiva de senadores brasileiros. Procede assim porque sabe que os passageiros da aeronave vão falar de democracia e pedir a libertação dos opositores que Maduro mandou encarcerar.

No discurso de Bruxelas, Dilma não se manifestou apenas em nome dos brasileiros. Soou como se tivesse procuração de um pedaço do globo: "Nós, países latino-americanos e caribenhos, não admitimos medidas unilaterais, golpistas e políticas de isolamento", disse ela. Suprema ironia: mantido o veto à visita dos senadores, ficará entendido que a Venezuela não precisa de ajuda externa para se isolar.

Auto-proclamada líder regional, Dilma afirmou que a Unasul "trabalha arduamente" para restabelecer o diálogo político na Venezuela. Diálogo? Ora, para um governo que mantém atrás das grades seus antagonistas o melhor diálogo é aquele em que o outro é obrigado a calar a boca. Ex-presa política, a presidente brasileira sabe como essa engrenagem roda.

Dilma referiu-se à América Latina como uma "zona de paz", na qual "estão consolidados a democracia e o Estado de Direito". Preso por agentes da "Inteligência" venezuelana sem um mandado judicial, o prefeito da área metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma, decerto enxerga em seu país outro tipo de Estado —um Estado de exceção. Em greve de fome há 22 dias, Leopoldo Lópes, outro oposicionista enjaulado por Maduro, não precisaria torturar as próprias tripas se os venezuelanos respirassem ares democráticos.

Quando o Paraguai acionou sua Constituição contra o presidente Fernando Lugo, impedindo-o por 39 votos a 4, num ato soberano do Senado, o governo brasileiro surtou. Não havia tropas nas ruas de Assunção, a imprensa paraguaia trabalhava normalmente, o destituído aceitou a destituição… Tanta normalidade levou o Brasil a comandar a articulação que enxotou o Paraguai do Mercosul a pontapés. Na mesma época, a Venezuela foi admitida no grupo. Desde então, o Paraguai teve de ser adulado para retornar ao clube, e o odor que vem da Venezuela tornou-se lancinante.

Já estava claro que Dilma não tem a intenção de respeitar as cláusulas democráticas do tratado que rege o funcionamento do Mercosul. Mas a presidente brasileira poderia ter um pouco mais de apreço por sua própria biografia. Maduro apodrece aceleradamente. Tapar o nariz já não resolve. A deterioração exige de Dilma algo mais. Nem que seja uma cara de nojo.

– Atualização feita às 23h04 desta terça-feira (16): sob o impacto da repercussão negativa do veto que impunha à viagem dos senadores brasileiros, o governo da Venezuela decidiu autorizar a aterrissagem do avião da FAB em Caracas. Na noite desta terça, o ministro Jaques Wagner (Defesa) foi pessoalmente ao Senado, para informar a novidade ao presidente da Casa, Renan Calheiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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