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Brasil vira um puxadinho do gabinete de Cunha

Josias de Souza

13/10/2015 04h11

Nos próximos dias, a República só terá olhos para Eduardo Cunha. A contemplação ocupará a imprensa e fascinará a opinião pública. Dilma e seus devotos, como fieis no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, rezam para que Cunha seja bom e os proteja. O tucanato e seu séquito se esvaem na expectativa de que Cunha seja vingativo e deflagre o processo de impeachment. E o próprio Cunha, estalando de pureza moral, bate na barriga e proclama: "L'état c'est moi".

Cunha traça um futuro para o país. E se o Brasil lhe falha ele se irrita. Cunha culpa o governo pela divulgação dos dados das contas secretas que ele jura não possuir na Suíça. E Dilma despacha emissários para oferecer-lhe proteção. Cunha diz ao ínclito deputado Paulinho da Força que ficou "puto" com a nota em que a oposição sugeriu que desocupasse a poltrona. E os oposicionistas deixam claro que a Câmara não tem presidente. É Cunha que tem a Câmara.

Nas feiras, nos bares, nas praças as pessoas comentam: "Coitando do Cunha. Governo e oposição vão acabar com esse homem!" Quando tudo parecia se encaminhar para um desfecho, o Ministério Público de Contas descobre que Dilma voltou a pedalar nos cofres dos bancos públicos em 2015. E os rivais da presidente decidiram enfiar a novidade dentro do pedido de impeachment, por meio de um aditamento. Com isso, Cunha adiará por mais alguns dias sua decisão sobre o futuro da República.

Na definição de Jarbas Vasconcelos, Cunha "é doente, um psicopata". Se Cunha é mesmo um maníaco, governo e oposição revelam-se depressivos. Materializando-se o adiamento, passarão os próximos dias se perguntando: Cunha dormiu bem? Cunha já se alimentou? Cunha fez cocô mole ou duro? Cunha virou a mesa ou sentou-se ao redor dela? À medida que abdica de sua condição de homem público para decidir até onde está disposto a admitir que o país lhe atrapalhe a vida privada, Cunha vai anexando a República às suas conveniências. O Brasil virou um puxadinho do gabinete de Eduardo Cunha.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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