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Grupo antimanicômio ocupa ministério no Natal

Josias de Souza

26/12/2015 00h35

Ministro diz que não cogita rever nomeação

Escolhido por Dilma Rousseff para chefiar o Ministério da Saúde na cota do líder peemedebista Leonardo Picciani (RJ), o deputado Marcelo Castro (PMDB-PI) enfrenta sua primeira crise. Ao nomear o psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho para o cargo de coordenador Nacional de Saúde Mental, em 14 de dezembro, o ministro acendeu um pavio que ateou fogo no setor. O incêndio resultou na ocupação do órgão, que funciona num edifício anexo do ministério. Começou há dez dias, com sete profissionais de Brasília. Na noite desta quinta-feira, celebraram o Natal nas dependências da repartição 23 pessoas, a maioria proveniente de outros Estados. O que une os ativistas é a aversão aos manicômios.

Deve-se a revolta ao fato de Valencius Wurch, o escolhido do ministro, ter dirigido, entre 1993 e 1998, no Estado do Rio, a Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi. Foi o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina. Por ordem da Justiça, fechou as portas em 2012, depois da comprovação de graves violações aos direitos humanos dos pacientes, internados em condições subumanas.

Desde 2001, com a aprovação da lei 10.216, o país fecha manicômios e tenta implementar uma reforma psiquiátrica, cujo objetivo é humanizar o tratamento. Privilegia-se o atendimento extra-hospitalar em detrimento das internações. O receio dos responsáveis pela ocupação da Coordenação Nacional de Saúde Mental é o de que o ministro promova um retrocesso no setor.

Ativistas exibiram ceia de Natal na internet

Os ativistas equiparam-se para uma ocupação longeva. Dispõem do apoio de entidades como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva e o Conselho Federal de Psicologia, além do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial. Por meio de conta bancária, recebem doações. Pelas redes sociais, trombeteiam sua contrariedade. Uma rede de colaboradores providencia os mantimentos. A ceia de Natal foi tão farta que assegurou a alimentação do grupo na sexta-feira natalina. Tomados pelo gogó, os adversários de Marcelo Castro só recuarão depois que o ministro 'desnomear' Valencius Wurch.

Por ironia, o ministro peemedebista é contestado na área em que ele se considera um especialista. Marcelo Castro é pisiquiatra de formação. Ele já se reuniu um par de vezes com representantes dos profissionais que tomaram um órgão de sua pasta. Mas avisou que não recuará. Diz ter escolhido o assessor por conta própria. Sustenta que a escolha foi "neutra". Afirma que a reforma psiquiátrica não corre riscos. Os profissionais levam o pé atrás ao ouvi-lo dizer que pretende ver "o que funcionou e o que não funcionou" na área de saúde mental. Dilma Rousseff ainda não se pronunciou sobre a encrenca. Para desassossego do ministro personalidades como o ator Paulo Betti levam o rosto à vitrine para lamentar sua atuação (assista abaixo).

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.