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Temer quer na Fazenda nome preferido de Lula

Josias de Souza

21/04/2016 04h27

Alan Marques/FolhaQuando iniciou a temporada de sondagens para compor o ministério do seu hipotético governo, Michel Temer balançava entre dois nomes para a pasta da Fazenda: Armínio Fraga e Henrique Meirelles. O desinteresse de Armínio levou Temer, um presidente da República esperando para acontecer, a concentrar-se em Henrique Meirelles. Programou-se para encontrá-lo nesta sexta-feira (22) —dia em que, ironicamente, estará no exercício da Presidência.

A eventual conversão de Meirelles em ministro de Temer comporia um enredo crivado de ironias. "O Lula não terá do que se queixar", brinca um aliado de Temer. Ex-presidente do Banco Central nos dois mandatos de Lula, Meirelles constava da lista tríplice que o cacique do PT sugeriu como alternativas para a Fazenda no segundo mandato de Dilma. Os outros dois nomes eram Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, e Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda.

Dilma acomodou Nelson Barbosa no Ministério do Planejamento. E convidou Trabuco para a Fazenda. Ele refugou. Mas sugeriu o nome de Joaquim Levy. Embora Levy tivesse auxiliado o comitê eleitoral do tucano Aécio Neves, Dilma aquiesceu, escanteando Meirelles, com quem jamais se deu bem. Nos subterrâneos, Lula virou sócio-atleta do clube dos puxadores de tapete de Levy.

Puxa daqui, puxa dali, Lula voltou a empinar a alternativa Meirelles. Chegou mesmo a sondá-lo. Dilma levou o pé à porta. Pressionada, trocou Levy por Nelson Barbosa, hoje um ministro-zumbi.

Na sucessão presidencial de 2010, quando fabricou a candidatura de Dilma, Lula tentou fazer de Meirelles o segundo da chapa. Estimulou-o a se filiar ao PMDB. A articulação esbarrou em Temer, que queria ser, ele próprio, o candidato a vice na chapa encabeçada por Dilma.

Cavalgando um PMDB dividido, Temer unificou as alas da Câmara e do Senado, impondo-se a Lula como solução incontornável. Preterido, Meirelles migrou para o PSD de Gilberto Kassab.

Nesta sexta, ao dividir com Temer a mesa de refeições, Meirelles talvez passe mal. Deve descartar a hipótese de indigestão. Logo perceberá que é inveja. Se tivesse emplacado na chapa de 2010, Meirelles agora talvez convidasse Temer para ser seu ministro da Justiça.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.

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