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‘Ocupação de escola é bomba como a de 2013’

Josias de Souza

18/05/2016 05h12

Obstinado defensor das causas ligadas à educação, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF) acompanha com uma ponta de preocupação o crescente movimento de ocupação de escolas por jovens de vários Estados. Ele afirma que é possível traçar uma analogia entre esse fenômeno e as manifestações que eletrificaram o asfalto em junho de 2013.

"Em 2013, foi pela tarifa de ônibus. Em 2016, pode ser por educação. Não há dúvida de que a ocupação de escola é uma bomba como a de 2013", disse Cristovam em entrevista ao blog. Para ele, o governo de Michel Temer deveria se entender com governadores e prefeitos para tentar desarmar a bomba. Sob pena de ter de recorrer à repressão caso o movimento se agigante.

Vai abaixo a reprodução da conversa com Cristovam Buarque:

— O que acha desse movimento de ocupação de escolas por alunos? Acho que tudo tem um lado positivo e outro negativo. O positivo é que a meninada está despertando. Será negativo se esse movimento for aparelhado. Por ora, não me parece que seja coisa insuflada. Mas não duvido que o PT tente aparelhar. O que vejo, por enquanto, é um grande descontentamento dos alunos com coisas que estão ruins. O que me preocupa é que isso pode gerar um caos. E o governo de Michel Temer pode cair naquilo que a Dilma insinuou na despedida do Planalto. Ela disse: 'Nunca reprimi movimentos sociais.'

— Como o governo Temer poderia interferir? Creio que o ministro da Educação [Mendonça Filho] deveria dedicar uma boa parte do tempo para desarmar essa bomba. Há uma dificuldade. No Brasil, o Ministério da Educação no Brasil não tem nada a ver com a educação de base. Isso é problema dos prefeitos e governadores. Mas, quando acontece um fenômeno em todo o país, a coisa deixa de ser um problema apenas de de prefeitos e governadores. É um problema nacional. Por isso luto tanto pela ideia da federalizar a educação. O ministro teria que chamar os prefeitos e governadores para ver o que está acontecendo e o que é possível fazer para ajudar a atender às reivindicações.

— Acha possível atender? Minha impressão é que não é difícil de atender às reivindicações dos alunos. Difícil é aumentar salário de professor. Mas os pedidos desses meninos —merenda de qualidade, melhoria das edificações—, isso não custa muito dinheiro. O problema é que está nas mãos de um prefeito ou governador que, muitas vezes, não tem nada, nem motivação ou sensibilidade.

— Acredita que esse movimento pode virar uma jornada de protestos como aquela de junho 2013? Pode, sim. Em 2013 foi pela tarifa do ônibus. Em 2016, pode ser por educação. Não há dúvida de que a ocupação de escola é uma bomba como a de 2013. É pena que os alunos tratem a educação de forma meio caótica. Eles pensam na merenda, nos móveis, no conforto. Não estão, ainda, priorizando a qualidade do ensino. Seja como for, o governo Temer, desde logo, precisa dar atenção a isso e desarmar essa bomba. Do contrário, pode ficar tentado a reprimir depois. Esses meninos, hoje, dispõem de internet. Podem, com a maior facilidade, convocar uma manifestação no Brasil inteiro, na mesma hora, em todas as cidades. É o que eu chamo de guerrilha cibernética.

— Acha mesmo que a metáfora da bomba é adequada? Ah, sim. Essa bomba está aí, na educação, na saúde, em todo canto. Só que as pessoas não sentiam o cheiro da pólvora. Agora, eles estão sentindo. Isso não tem muito segredo: ou interrompe logo ou explode. É preciso abordar o problema da maneira correta, que consiste em saber o que está acontecendo, verificar as demandas e definir o que cada um pode fazer para ajudar.

— Objetivamente, como o governo federal pode se envolver? O primeiro passo é chamar prefeitos e governadores para entender o que está acontecendo. Os governos Lula e Dilma tinham horror à ideia de interferir em problemas de prefeituras, porque não queriam puxar a encrenca para o colo deles. Por isso Lula investia em universidades e escolas técnicas, deixando de lado a educação de base. Temer também já cometeu um erro nessa área.

— Que erro? Ele fundiu o Ministério da Ciência e Tecnologia com o das Cidades. Há anos defendo que universidades e ciência e tecnoclogia deveriam compor um só ministério. E o ministro da Educação tem que se preocupar com educação de base. Hoje, os reitores das universidades dominam a agenda do ministro. Parlamentares só se preocupam com educação superior. Quando fui ministro, acho que recebi uns 500 parlametnares. Apenas um me pediu algo relacionado à educação de base. Os outros falaram de universidades. Eles não se iteressam. O governo brasileiro vai ter que entender que educação é uma questão nacional.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.