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Josias de Souza

Dilma sabia de caixa 2, disse Odebrecht ao TSE

Josias de Souza

23/03/2017 20h17

No depoimento que prestou ao Tribunal Superior Eleitoral, o empreiteiro Marcelo Odebrecht fez revelações que destroem a versão de Dilma Rousseff de que jamais soube da coleta ilegal de recursos para a sua campanha. Segundo o herdeiro da Odebrecht, a ex-presidente petista tinha pleno conhecimento de que João Santana, marqueteiro de suas campanhas, foi remunerado com verbas providas pela construtora via caixa dois.

Odebrecht contou também que Lula informou a Dilma, na sucessão presidencial de 2010, que era o então ministro Antonio Palocci (Fazenda) o responsável por coletar verbas junto à Odebrecht. Odebrecht revelou, de resto, que a própria Dilma cuidou de informá-lo sobre a mudança do coletor, depois que Palocci deixou o governo: "Ela falou: não, daqui para frente é com Guido. E várias vezes eu tratava de temas com ela, e ela dizia: olha, isso é com Guido", declarou o empreiteiro, referindo-se ao petista Guido Mantega, sucessor de Palocci na pasta da Fazenda.

O conteúdo do depoimento de Marcelo Odebrecht foi veiculado nesta quinta-feira pelo site 'O Antatonista'. O blog confirmou a veracidade dos dados. A assessoria da ex-presidente divulgou uma nota intitulada "Não adianta lançarem novas mentiras contra Dilma Rousseff". O texto reafirma desmentidos veiculados nas pegadas dos primeiros vazamentos sobre o depoimento de Odebrecht ao ministro-corregedor do Tribunal Superior Eleitoral, Herman Benjamin.

Dilma "não tem e nunca teve qualquer relação próxima com o empresário Marcelo Odebrecht, mesmo nos tempos em que ela ocupou a Casa Civil no governo Lula", anotou o texto. "Jamais pediu recursos para campanha ao empresário." Dilma desafiou o depoente a provar o que disse à Justiça Eleitoral. "Não basta acusar de maneira leviana." Em verdade, Odebrecht apenas repetiu em foro diferente o que já dissera em depoimentos à força-tarefa da Lava Jato, já homologados pelo Supremo Tribunal Federal.

Incorporado ao processo sobre a cassação da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer, o depoimento de Marcelo Odebrecht foi prestado em 1º de março, em Curitiba, onde ele está preso. A certa altura, o empreiteiro afirmou: "A Dilma sabia da dimensão da nossa doação, e sabia que nós éramos quem doa… quem fazia grande parte dos pagamentos via caixa dois para João Santana. Isso ela sabia."

Relator do processo que pode resultar na cassação de Temer e na inelegibilidade de Dilma, Herman Benjamin quis saber se Odebrecht alertara a ex-presidente para o fato de que a verba era repassada a João Santana por baixo da mesa, no caixa dois.

E o depoente: "O que Dilma sabia era que a gente fazia, tinha uma contribuição grande. A dimensão da nossa contribuição era grande, ela sabia disso. E ela sabia que a gente era responsável por muitos pagamentos para João Santana. Ela nunca me disse que ela sabia que era caixa dois, mas é natural, é só fazer uma… Ela sabia que toda aquela dimensão de pagamentos não estava na prestação do partido."

Noutro ponto do depoimento, Odebrecht disse que teve a preocupação de avisar a Dilma que havia o risco de a força-tarefa da Lava Jato descobrir os pagamentos feitos a João Santana em contas bancárias abertas no estrangeiro. "Eu alertei ela e vários outros assessores dela", disse o ex-presidente da Odebrecht. Segundo ele, Dilma não demonstrou preocupação com o tema.

Odebrecht disse ter conversado sobre a encrenca também com a mulher e sócia de João Santana, Monica Moura. Deu-se em 2015. Segundo a expressão usada pelo empreiteiro, os pagamentos feitos ao marqueteiro, não contabilizados na escrituração regular da Odebrecht, estavam "contaminados".

Conforme o relato feito ao ministro do TSE, Monica reagiu com despreocupação. Alegou que o grosso do dinheiro se referia a serviços prestados por João Santana a candidatos que disputaram eleições em outros países. "Eu acho que esse argumento que a Monica usou pra mim ela usava com a Dilma e com vários outros interlocutores, aí quando eu ia falar com eles, eles não se mostraram tão preocupados", rememorou Odebrecht.

A Alturas tantas, Odebrecht esclareceu ao relator do TSE como se dava seu relacionamento monetário com Dilma. Evitava tratar de dinheiro com a então presidente da República. Definia os valores com Guido Mantega, o titular da pasta da Fazenda. Mas fazia questão de manter a beneficiária dos repasses ciente do que se passava. Havia na relação o que o empreiteiro chamou de "liturgia".

"Eu comentei isso referente à presidência Dilma, quer dizer, quem pediu os valores específicos era o Guido, eu me assegurava que ela sabia mais ou menos da dimensão do nosso apoio, ela dizia que o Guido ia me procurar, mas eu nunca falei de valor", declarou Odebrecht. "A liturgia, a questão de educação, você não fala com o presidente ou o vice-presidente a questão do valor."

Odebrecht disse que foi Lula, tratado na construtora pelo apelido de "amigo", quem avisou a Dilma sobre o caixa dois. Na sucessão de 2010, disse ele, Palocci e o próprio Lula fizeram os pedidos de doação de verbas eleitorais. Nessa época, disse o depoente, Dilma "praticamente nem olhou as finanças, acho que todos os pedidos de doação foram feitos por Lula, Palocci. Ela nem se envolvia em 2010. Então, a partir de 2011, eu nunca tive um pedido dela de contrapartida específica."

No alvorecer do primeiro mandato de Dilma, iniciado em 2011, Palocci foi guindado ao posto de chefe da Casa Civil. Exonerou-se, porém, depois que foi exposta nas manchetes a fortuna que ele fizera como consultor de empresas. Foi nessa ocasião, disse Odebrecht ao ministro Herman Benjamin, que Guido Mantega passou a exercer as atribuições de coletor.

"O Guido, na prática, ele só começou a solicitar para mim recursos para o PT a partir de 2011, quando o Palocci saiu da Casa Civil. Até então era com o Palocci a maior parte dos pedidos que tinha PT." Segundo o delator, Dilma não só sabia de tudo como lhe informou sobre a troca. "Ela falou: não, daqui para frente é com Guido. E várias vezes eu tratava de temas com ela, e ela dizia: olha, isso é com Guido", declarou Odebrecht.

Na campanha de 2014, informou o empreiteiro no depoimento ao TSE, Mantega lhe repassou orientação recebida de Dilma. "Em maio de 2014, mais ou menos por essa época, o Guido teve uma conversa comigo e disse: Marcelo, a orientação dela [Dilma] agora é que todos os recursos de vocês vão para a campanha dela. Você não vai mais doar para o PT, você só vai doar para a campanha dela, basicamente as necessidades da campanha dela: João Santana, Edinho Silva [tesoureiro do comitê petista] ou esses partidos da coligação."

Odebrecht mencionou cifras. Disse ter ajustado com Mantega o repasse de R$ 177 milhões. Numa conta que inclui os repasses feitos ao PT entre 2008 e 2014, o empreiteiro disse que a soma alçou a casa dos R$ 300 milhões. O valor incluiria propina de R$ 50 milhões pela edição de uma medida provisória que beneficiou a Brasken, empresa do Grupo Odebrecht, e R$ 64 desembolsados em troca da liberação de uma linha de crédito à empreiteira. O depoente envolveu nessa transação outro ex-ministro petista: Paulo Bernardo.

"No assunto dos 64, que foi gasto antes mesmo da eleição de 2010, para aprovar a linha de crédito, o Paulo Bernardo solicitou R$ 64 milhões. Na verdade eram US$ 40 milhões, que depois eu baixei para 36, que, transformando em reais, foi R$ 64 milhões." Parte desse dinheiro, disse Odebrecht, foi usado para remunerar o apoio do conglomerado partidário que se coligou à chapa encabeçada por Dilma em 2014. "Se eu não me engano, uma parte disso foi de caixa dois", acrescentou.

Odebrecht foi questionado também sobre o jantar em que celebrou com Michel Temer, no Palácio do Jaburu, o socorro da Odebrecht ao PMDB. Conforme já foi noticiado, o depoimento revela que o herdeiro da Odebrecht declarou no TSE não ter tratado de cifras com Temer. A negociação dos valores, segundo ele, antecedeu o repasto. E foi feita entre o atual chefe da Casa Civil Eliseu Padilha e o ex-diretor da Odebrecht Claudio Melo Filho.

"O jantar, na verdade, foi o shaking hands [aperto de mãos, em inglês]", disse Odebrecht. "Na verdade, semanas antes do jantar, o Claudio Melo me ligou e disse que havia uma solicitação de R$ 10 milhões que o Padilha havia feito, para apoiar candidatos do Temer, do grupo do Temer, digamos assim. E eu, como sempre fiz com o Claudio Melo, e todos os empresários do grupo sabem disso, eu disse: Claudio, você tem que procurar um empresário do grupo que esteja disposto a fazer este apoio, certo? E ele foi procurar algum empresário do grupo que tivesse disposto a fazer este apoio."

Odebrecht voltou a falar em "liturgia". Declarou: "…Num jantar com o vice-presidente, até pela liturgia do cargo, as coisas se resolvem antes. Então, Claudio já havia acertado com o Padilha antes que seria 10 [R$ 10 milhões] e seria 6 [R$ 6 milhões] para Paulo Skaf [candidato do PMDB ao governo de São Paulo em 2014]. Quando eu cheguei lá na casa do Michel Temer com o Claudio, teve até uma primeira conversa — eu, ele e o Padilha —, que ficou mais ou menos acertado isso. Depois teve o jantar com o Michel, que foi um jantar institucional, até pela liturgia do cargo, eu nunca faria a falta de educação de mencionar valor."

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.