Blog do Josias de Souza

Contra Joesley, Temer deflagra agenda secreta

Josias de Souza


O país pode estar sendo injusto com Michel Temer. Suas ações contra Joesley Batista indicam que o presidente talvez enxergasse o combate à corrupção como uma prioridade desde o dia em que assumiu o trono no lugar de Dilma Rousseff. É possível que a meta de enfrentar os corruptos fizesse parte de uma agenda secreta, que Temer não revelou por mera conveniência estratégica.

Depois de prometer um ministério de notáveis, Temer compôs um gabinete loteado e convencional. Enfiou suspeitos em sua equipe. Desperdiçou aquele momento mágico de euforia que os novos governantes costumam aproveitar para sinalizar o início de uma fase nova, mais limpa, eficiente e justa. Era pura tática.

Consumada a delação da Odebrecht, quando se esperava que Temer afastasse pelo menos oito auxiliares suspeitos, o presidente anunciou aquela “regra de corte”: ministro investigado fica no governo. Denunciado tira licença com vencimentos. Quando virar réu, deixa o cargo, caso o governo não tenha acabado antes. Ninguém notou. Mas era estratégia.

Após receber o dono da JBS no escurinho do Jaburu, para ser gravado por ele, o verdadeiro Temer começou a sair da toca. Nas pegadas de uma entrevista em que Joesley, agora um corrupto confesso, o chamou de “chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil”, Temer deu o bote. Processou o “bandido notório” por calúnia e difamação. Exigiu indenização por danos morais.

Em vídeo pendurado na internet, Temer revelou, finalmente, sua prioridade secreta: ''Acabamos com os favores que privilegiavam apenas algumas poucas empresas. Cortamos as práticas que permitiam a criminosos crescer à sombra dos ilícitos e do dinheiro público jorrado, sem limite e com juros camaradas.'' Soou implacável: ''Aviso aos criminosos que não sairão impunes. Pagarão o que devem e serão responsabilizados pelos seus ilícitos.''

Os críticos do presidente deveriam reler todos os seus discursos. As falas de Temer podem estar apinhadas de referências, mesmo que subliminares, à guerra contra a corrupção. Bem verdade que há sempre a possibilidade de não haver nenhuma menção, velada ou explícita, às nobres intenções do presidente.

Nessa hipótese, ficará ainda mais claro que o esforço anticorrupção era mesmo a principal prioridade da agenda secreta do substituto constitucional de Dilma. Era o plano que Temer e o PMDB não viam a hora de tomar o poder para colocar em prática. Decerto era isso que o Jucá queria dizer quando falou em “estancar a sangria.”

Joesley se vangloria da emboscada que imagina ter armado para gravar Temer cladestinamente. Mas agora tudo ficou claro: a conversa vadia do Alvorada era, na verdade, um conto do vigário no qual o Friboi caiu antes de chegar ao brejo da delação superpremiada. Todo o resto —o ministério bichado, as delações ignoradas, o gabinete de investigados… — era uma grande encenação do “chefe da quadrilha” para fisgar o “bandido notório.”

Como subproduto, Temer escancarou o despudor dos seus correligionários do PMDB, levou os glúteos do tucano e Aécio Neves à vitrine e iluminou os seus próprios pés de barro. Repita-se: o país pode estar sendo injusto com Michel Temer. Há na Presidência da República um autêntico revolucionário. Mantido o ritmo atual, Temer não demora a seguir os conselhos do aliado FHC, renunciando ao cargo.