PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Sob Temer, notícia boa é diluída pela perversão

Josias de Souza

27/04/2018 18h44

Michel Temer equipou-se durante várias semanas para levar aos brasileiros uma boa notícia: o reajuste dos benefícios do Bolsa Família. Para demonstrar que tudo está dando certo, o presidente programara um reajuste generoso. Coisa de 10%. Alertado para a ausência de caixa, teve de se contentar com alguma coisa acima da inflação do ano passado, de 2,95%. Imaginou que, adicionando esse percentual à percepção de que o pior da crise econômica já passou, ninguém no Brasil deixaria de ficar otimista.

O problema é que, além das crises econômica e moral, há no Brasil uma crise semântica. Falta um consenso quanto ao significado de "dar certo". O noticiário inspira algumas dúvidas. Por exemplo: o "certo" se mede pelo número de denúncias criminais contra o presidente —há duas na prateleira e uma terceira no forno— ou pelo número de desempregados?

Segundo o IBGE, 13,7 milhões de brasileiros frequentaram o olho da rua no primeiro trimestre de 2018. Isso equivale a 1,4 milhão a mais do que nos últimos três meses 2017. É o suficiente para restaurar o pessimismo ou convém esperar pela demissão de mais uns 500 mil?

Antes de celebrar a notícia de que Temer decidiu parar de apertar o nariz da clientela do Bolsa Família é preciso certificar-se de que todos —governo e sociedade— estão falando a mesma língua. Do contrário, qualquer boa notícia será sempre diluída no melado de perversão que escorre do governo.

– Atualização feita às 20h46 desta sexta-feira (27): Temer adiou on reajuste do Bolsa Família para terça-feira. E acena com um percentual de até 6%.

Sobre o autor

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ''Folha de S.Paulo'' (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ''A História Real'' (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ''Os Papéis Secretos do Exército''.

Sobre o blog

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.